Infernum
5 Ignis
Notas iniciais
Henri
Não sei o que aconteceu. Por um bom tempo só consegui ouvir um zumbido. Depois um barulho alto, um grito. Tento abrir meus olhos, mas até esse movimento faz parecer que vou desmontar. Abro a boca para falar mas nenhum som sai.
Me lembro de Charlie, de estar junto com ela. E depois disso, lembro de tudo ficar escuro.
– Henri? — Ouço a voz de Lena. — HENRI!
Abro meus olhos, e me arrependo no mesmo momento. Caida no chão, ao meu lado, está Ginny. Com um furo de bala na sua cabeça. Ao fundo, Russel no mesmo estado. Só Lena está viva.
Viro para ver Charlie, num movimento tão súbito que sinto que meus ossos estão pegando fogo, tudo melhora quando sinto o ar quente de sua respiração no meu rosto.
– Henri! — Sinto as mãos de Lena me girando, e mais uma vez vejo o rosto de Ginny, sentindo um grande vazio dentro de mim.
– Lena... — Minha voz falha.
Ela vai correndo até algum canto da sala, e volta com um copo d'água e me entrega. Pego o copo sentindo meus músculos reclamarem. Levo o cpo até a boca e sinto a água revivendo o meu corpo.
– O que aconteceu? — Pergunto, ainda com a voz falhando.
Lena abaixa a cabeça, e vejo que está chorando.
– A Ginny m-matou Russel... e d-depois se m-matou.
Aquele vazio foi substituído por raiva. Ginny matando alguém é algo impossível. Eu não posso acreditar nisso, impossível. Mas ainda assim, o corpo de Ginny e de Russel estão ao meu lado. Então... Claro. Tudo faz sentido. Ela sempre foi estranha. Com certeza achou que matando os dois conseguiria sair daqui viva. Provavemente eu seria o próximo alvo, se não tivesse acordado.
Percebo que estou encarando Lena, provavelmente me mostrando assustado. Antes de poder falar algo, a vela volta a escrever:
Olá de novo.
Algo o atormenta, Henri. O que seria isso?
Seria a suposta traição de Ginny, a morte de Russel ainda sem explicação ou a morte de Gartho?
Garth? Como assim? Passo os olhos pela sala e vejo o corpo do meu amigo no chão numa posição muito estranha.
E você, Lena?
A morte dos seus amigos, tudo novamente.
Você não conseguiu salvá-los.
Assim como sua irmã.
Vejo Lena se tornando cada vez mais pálida, o que eu não sabia que era possível.
Lena, você agora terá que realizar o seu desafio.
Você será banhada em gasolina, e será presa numa tabua de ferro e...
Você verá.
A tabua apareceu, e Lena foi até ela, mesmo parecendo, por um segundo, que estava sendo empurrada por algo invisível. Após ser amarrada com algemas de couro, uma vela acesa aparece a centímetros do cabelo dela.
Ela me olha assustada e me sinto mal, até lembrar o que ela fez com Russel e Ginny e, talvez, Garth. Além de assustá-la, a vela não parecia fazer mais nada.
Até eu sentir uma força me levando até o lado da tabua, em frente a vela. Tento resistir, mas é impossível.
A vela, ou sei lá, o Diabo, como preferir, voltou a escrever:
Agora, Henri. Você tomará sua decisão:
você acredita no que Lena disse sobre a morte de seus amigos,
ou acredita na traição da garota que está a sua frente?
Você escolherá seu destino.
Percebo o que tenho que fazer tarde demais, Lena já está gritando.
– HENRI! POR FAVOR! EU JURO QUE NÃO FUI EU! EU NÃO FARIA ISSO!
O que eu faço? Eu tenho duas opções, ou eu mato Lena, ou não. Se eu matá-la e ela for culpada, não seria ruim, afinal eu já matei alguém, mesmo sem querer.
Se eu matá-la e ela for inocente, é outra vida nas minhas mãos que não merecia morrer.
Se eu deixá-la viva e ela for culpada, todas essas mortes vão se tornar minha culpa também.
Não sei o que fazer. Acho que... Não, não posso. Mas, e se ela realmente tiver matado... Russel, Garth, Ginny.
– HENRI! Por favor! É isso que ele quer! Que matemos uns aos outros! Ele quer que esse joguinho acabe logo!
Sinto algo me preenchendo por dentro. Uma sensação de poder, se eu matá-la, vou estar mais perto de ganhar o jogo e sair daqui.
Então sei o que fazer. Empurro a vela de leve, mas o suficiente para que ela caia no cabelo encharcado de gasolina de Lena.
E ela pega fogo no mesmo instante. E por vários minutos, tudo que consigo ouvir são seus gritos de agonia, até esses gritos acabarem e eu ser o único sobrevivente de Infern... Charlie.
Quando começo a me desesperar, vejo que a vela me mandou uma outra mensagem:
Parabéns Henri, você matou Lena, admiro sua coragem.
Sim, ela matou alguém.
Mas não matou Ginny, Russel e Garth.
Sua próxima missão é matar Charlie, e só assim se tornará o verdadeiro vencedor de Infernum.
Começo a gritar. Mais alto do que nunca.
Sinto meu corpo inteiro doer, minhas entranhas pegando fogo. Assim como o fogo que você jogou em Lena, que estava falando a verdade. Falou uma voz em minha cabeça.
A pistola com qual Ginny matou Russel, Garth e ela mesma está jogada na minha frente. Eu a pego, mas não destravo o gatilho. Vou até o corpo de Russel, o sangue ainda está escorrendo pela sua testa, e seus olhos estão abertos.
Saio de perto rápido sem conseguir suportar o que estou vendo. Passo olho pelo corpo de Garth, e não consigo ver o buraco da bala. Vou até lá, hesitando, e vejo que não, ele não morreu por tiro. Ele morreu em seu desafio.
Meu melhor amigo está morto por causa dessa vela. Não, ele está morto por causa do Diabo. E ele vai pagar. Sento em frente a vela com raiva me preenchendo por completo.
– Eu não vou matar Charlie. — Digo, sem esperar uma resposta.
Me levanto e vou até ela. Não posso acordá-la, ela parece tão em paz dormindo. Se eu acordá-la vou acabar com essa paz e trazê-la para a realidade. Se ela simplesmente não acordasse...
Tiro essa ideia a minha cabeça. Não posso matá-la, não posso tirar a vida de mais uma pessoa injustamente. Mas, por outro lado, se eu realmente fizer isso, todas as suas preocupações vão acabar, e ela vai ser feliz, finalmente.
Não. Ou... NÃO POSSO! Mas se ela acordar ela provavelmente vai morrer! Ela é sua amiga! Exatamente!
Em meio a essa briga interna entre eu e minha consciência, sinto aquela raiva se aquecer dentro de mim e tudo acontece em câmera lenta.
Eu destravo a arma, e Charlie levanta num movimento abrupto. Ela bate no meu braço e pega a arma, aperta o gatilho.
E tudo fica escuro.
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