Inferno Psíquico
2 Ignorando o que lhe foi dado...
Notas iniciais
A pequena Lucy Quinn Fabray -ou só Quinn, como ela preferia ser chamada- acordou com seu entusiasmo que toda criança de três anos possui. Desceu as escadas com seu pijama rosa com bolinhas amarelas, segurando em sua mão direita sua preciosa ovelhinha de pelúcia -presente de sua melhor amiga- encontrado seus pais e sua irmã, Frannie, na mesa do café da manhã já vestidos para irem à missa de domingo.
Judy Fabray, ao ver a filha ainda de pijamas, se surpreendeu. Quinn era a primeira a se aprontar para ir à missa e passava longos minutos arrumando seus cabelos dourados compridos. A reação de seu pai, não foi diferente.
— Quinn, minha filha, por que ainda está usando pijamas?— Perguntou seu pai, Russel Fabray.
— Não vai ter missa hoje, papai. — Respondeu a pequena Quinn, se sentando na mesa do café.
— Como não vai ter missa hoje? De onde você tirou isso, Quinnie? — Foi a vez da sua irmã entrar na conversa.
— O padre Harry não vai à missa hoje. — Falou a pequena dando de ombros e pegando uma porção de bacon no centro da mesa.
— E como você pode sabe disso, mocinha? Virou vidente por acaso? — Frannie, com seus dezessete anos se preocupava muito com a loirinha.
— Eu só vi, só isso. — A caçula voltou a dar de ombros e continuou comendo seu café como se nada tivesse acontecido.
Frannie também deu de ombros e voltou a comer, e seus pais se entreolharam, mas nada disseram.
...
E realmente naquela manhã de domingo não houve missa. O padre Harry pegou um forte resfriado e não pôde comparecer. O choque de seus pais foi evidente, mas Frannie apenas disse ser coincidência de uma mente fértil de uma criança da idade de Quinn. Isso pareceu deixar seus pais um pouco calmos, pelo menos por enquanto.
...
Desde aquela manhã de domingo, Quinn nunca mais falou algo parecido, como se realmente fosse acontecer em um futuro próximo. Ela não sabia explicar como tinha visto, só sabia que um flash de imagens atingiu sua mente e ela soube que o padre Harry não iria à missa naquele dia. Seus pais não conversaram com ela, optaram por deixar isso pra lá, acreditando realmente que fosse só uma coincidência. Quinn não teve mais nada parecido com aquilo, até aquela tarde de quinta-feira.
...
A loira estava completando seus catorze anos e se encontrava com suas duas melhores amigas, Santana Lopez, uma morena, latina de cabelos tão negros quantos seus olhos, e Brittany Pierce, uma loira mais alta e com olhos tão azuis quanto o céu.
Estavam indo ao shopping, a mãe de Santana, Maribel Lopez, estava no volante, e a pequena cidade de Lima estava repleta de neve, dificultando um pouco a visão da estrada.
Quinn, Santana e Brittany conversavam normalmente, e a loira de olhos azuis contava sobre um garoto de sua sala de aula, que lhe dava chocolates diariamente, enquanto Santana só ouvia e fechava a cara quando Brittany falava alguma coisa sobre esse menino, e jurava em pensamento que iria saber o nome dele para amedronta-lo com seu estilo de Lima Heights, embora não morasse naquela parte da cidade realmente.
Quinn estava alheia à tudo, prestando atenção na estrada pela janela do seu lado esquerdo do carro, quando uma dor de cabeça à antingiu em cheio e flashes de um cervo correndo pela estrada, e o carro de Maribel o acertando, vieram em sua mente, e ela logo gritou para que a mãe de sua melhor amiga parasse o carro.
Maribel não pensou, apenas pisou no freio por instinto pensando que Quinn havia visto algo na estrada coberta por neve.
— MIERDA, FABRAY, QUIERE MATARNOS A TODOS? — Gritou a latina em espanhol, enfurecida pela maneira como Quinn havia gritado e pela freiada brusca no carro, quase a acertando em cheio no banco da frente, coisa que não aconteceria se ela não fosse teimosa, e colocasse o cinto.
Brittany estava com medo pela maneira que o carro parou e pela cara de espanto de Quinn, e apertava seu unicórnio de pelúcia contra o peito, com seu jeito inocente e doce.
— Sant, não grita, por favor. — Pediu a loira de olhos azuis olhando para Santana, que logo respirou fundo e manteve a calma.
Quinn olhava para a estrada apreensiva, e quando Maribel ia ligar o carro, Quinn a impediu.
— Não ligue o carro, tia Bel, um cervo vai aparecer aqui a qualquer momento, e a senhora não pode feri-lo com o carro. — Disse a loira de cabelos curtos olhando petrificada pela janela.
Santana que já estava impaciente, não conseguiu segurar os ânimos.
— Escuta aqui Fabray... — Santana ia começar outra sessão de xingamentos contra a loira, quando sua visão foi atraída por um cervo que corria desorientado pela estrada.
Assim como a latina, Brittany, Maribel e Quinn viram ele passar na frente do carro correndo, o mesmo se estivesse em movimento, teria acertado em cheio o pobre animal, e o carro correria o risco de derrapar na estrada e causar um horrível acidente.
As três olharam para Quinn espantadas, e a primeira à se pronunciar foi Brittany. Ela batia palminhas e sorria animadamente.
— Que legal, a Q tem super poderes — A loira falava com um ar de pura inocência.
— O que foi que aconteceu aqui? Como você soube que o cervo iria passar justo nesse momento? — A latina perguntou o mais calma que conseguia.
— E-eu, e-eu, é...— Quinn não sabia formar uma frase, porque nem ela sabia o que realmente tinha acontecido.
— Vamos para casa, acho que shopping hoje está fora de questão. — Maribel se pronunciou e deu meia volta com o carro, indo em rumo à casa dos Fabray.
O caminho foi em silêncio. Brittany ainda sorria e Santana olhava pelo canto do olho para Quinn. Ela não estava brava, apenas passava a cena em sua cabeça, tentando entender o que houve.
Assim que chegaram, as quatro desceram, e entraram na casa. Maribel quis ficar para conversar com Judy e Russel. As três garotas ficaram assistindo televisão enquanto a mãe da latina estava na cozinha preparando um chá. Ela e Judy eram amigas desde o colégio, e esse tipo de intimidade era normal.
Foi em direção a sala e olhou os porta retratos. Neles haviam muitas fotos da família, dos amigos e da formatura de Frannie, que atualmente atua na área de direito em seus plenos vinte e nove anos, para orgulho de Russel.
Já eram quase oito horas da noite, quando o casal de loiros entrou pela porta e se depararam com Maribel sentada no sofá. Judy logo foi abraça-la e Russel à cumprimentou como sempre fazia.
A latina mais velha contou tudo ao casal Fabray. As meninas estavam no quarto de Quinn, alheias à conversa, tentando não lembrarem do ocorrido, mas o mesmo não saía da cabeça da loira de olhos verdes.
Quando terminou de contar tudo detalhadamente -exceto a frase de Santana que obviamente não era necessária na conversa- os loiros suspiraram e contaram à Maribel sobre aquele domingo de manhã há dez anos atrás.
A mãe de Santana ficou um pouco sem reação, mas logo tratou de aconselha-los à procurarem um médico especializado nisso.
— Não podemos fazer isso, Lima é uma cidade pequena e se descobrirem que Quinn tem algo de anormal, as pessoas irão falar. — Russel explicou com receio.
— O que não podem fazer é fingir que nada aconteceu. Quinn claramente tem algo a mais e não é anormal, é só diferente. — Maribel defendeu a menina com seu jeito doce, o oposto de Santana.
— Mesmo que seja só diferente, as pessoas de Lima não possuem a mente aberta para esse tipo de coisa. — Russel retrucou preocupado. Ele era um grande advogado na cidade e sua vida era considerada por muitos como perfeita. Ele não queria as pessoas comentando coisas ruins sobre a filha.
— Bel, nos conhecemos há mais de vinte anos, seja o que for que Quinnie tenha, iremos dar um jeito, mas da nossa maneira, então não conte para ninguém, e fale com as meninas para ficarem caladas sobre o ocorrido. — Judy suplicou à amiga da melhor forma que pôde.
Maribel suspirou e tentou retrucar, mas foi em vão. Os loiros estavam dispostos a não procurarem um médico, mas garantiram que não iriam deixar o ocorrido ser esquecido.
A latina mais velha levou Brittany para sua casa junto com Santana, e conversou com as duas, e as mesmas prometeram não falar nada para ninguém.
Judy e Russel garantiram que não deixariam o corrido ser esquecido, mas infelizmente não foi possível. Era uma situação que os dois jamais pensaram que aconteceria. Optaram mais uma vez por esquecer, não sabiam como agir. E infelizmente a mais prejudicada era a pequena Quinn.
Entraram no quarto de Quinn após o jantar -que aconteceu em total silêncio- e encontraram a filha deitada na cama lendo um livro sobre cálculos avançados -ela adorava cálculos.
Russel se sentou na cadeira giratória da escrivaninha de Quinn e puxou a cadeira até estar perto da cama, e Judy se acomodou na cama perto da filha.
A mesma não tirava os olhos do livro, e já sabia a conversa que teriam.
— Não precisam conversar comigo, sei que pedirão para eu não falar nada à ninguém. — A loira quebrou o silêncio fazendo com que seus pais ficassem surpresos.
— Como você sabe que iríamos te pedir isso, Quinnie? — A loira mais velha perguntou encarando a filha.
A pequena Fabray fechou o livro com calma e o depositou na mesa de cabeceira ao lado da cama e sentou passando os olhos entre a mãe e o pai.
— Se quisessem fazer algo para me ajudar com isso, teriam feito naquela manhã há dez anos atrás. — Quinn disparou na maior calma que uma garota de catorze anos não deveria ter em sua situação.
— Não queremos que você seja olhada diferente pelas demais pessoas. Essa cidade é pequena e qualquer coisa fora do normal, daria motivos para comentários desagradáveis, só estamos te poupando, minha filha. — Russel tomou a palavra, suspirando logo em seguida.
— Eu entendo vocês, e não se preocupem, estou normal quanto à isso, não vou falar para ninguém, ficará só entre mim, vocês, tia Bel, Sant e Britt. — A loira respondeu dando seu melhor mínimo sorriso possível.
Os pais ficaram aliviados com a declaração da menor, a abraçaram, desejaram mais uma vez feliz aniversário para a loira, e prometeram compensar o passeio perdido do dia em outra ocasião, em seguida saíram de seu quarto. A mesma suspirou, e jurou a si mesma, que fingiria que nada diferente aconteceu, tentou apagar aquele ocorrido da mamória, e voltou sua atenção ao livro.
...
Do outro lado da pequena cidade de Lima, não muito distante, Hiram Berry estava em sua varanda lendo seu livro e tomando um chá de camomila, quando uma dor de cabeça o atingiu e flashes de três pessoas mortas invadiram sua mente. Foi tudo muito aleatório: os corpos caídos no chão; uma garota loira olhando a cena horrorizada; a mesma sendo levada para um reformatório; depois passando por muitos exames psicológicos; chorando sem controle; e por último; sendo levada à uma clínica psiquiátrica.
Ele massageava a têmpora freneticamente, e quando os flashes cessaram, ele não soube o que fazer. Nunca em anos uma memória foi com alguém que não tivesse ligação direta com ele. E em anos de prática, ele sabia controlar essas sensações, mas o que ele sentiu foi completamente diferente de tudo que já presenciou. Sentiu um arrepio na espinha, e muita pena da pobre criança.
Não reconheceu os corpos, os rostos estavam desfocados, mas reconheceu a menina como Quinn Fabray. Impossível não reconhecer, ele era seu pediatra desde que a pequena tinha cinco anos, e com esse pensamento, chegou a conclusão que os corpos só poderiam ser de pessoas de sua família.
Sentiu vontade de tentar interferir, mas soube desde cedo que o futuro é incerto, que quando a morte decide agir, nada pode ser feito. O jeito era esperar e se algo acontecesse, procuraria a loira e a ajudaria de toda forma possível.
Suas visões não eram em vão. Sabia que ela precisaria dele mais cedo ou mais tarde. Tinham que ter uma ligação de alma para ele ter uma visão com alguém não relacionado à sua família. Se ela tinha os mesmos dons que ele, Hiram certamente a ajudaria no que fosse preciso.
...
Na casa dos Fabray, Quinn dormia e em seus sonhos a mesma visão se apossou de sua mente, e ela suava frio enquanto se dabatia na cama e as lágrimas rolavam em seu rosto em meio ao suor.
Mal sabia ela, ou sua família, que ignorar os dons que lhe foram dados, poderia ser muito pior que enfrentá-los, e isso resultaria em uma tragédia de proporções inimagináveis.
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