Infecção
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Capítulo dois
2 meses depois -
A vida da família O’Connor nunca fora tão pertubada desde que todos fugiram para a floresta. Não tiveram rumo durante uma semana, até acharem uma fazenda isolada. Durante todos os dias daquela semana, não houve comida gostosa a não ser arroz cru, que trouxeram junto de sua bagagem há dois meses.
Desde então, a família conseguiu “sobreviver”, e não viram outro “zumbi” — nome por qual Carl batizara as coisas — atormentando as redondezas da fazenda.
O sr. Peter conseguiu, ainda, três espingardas, para que caso algum engraçadinho — segundo ele — aparecesse querendo fazer algazarra perto de onde ele considerou “casa” tomasse um jeito.
Julie conseguiu arranjar um local onde ela poderia estar trabalhando, na estufa da fazenda, que estava arrasada. Mas, desde então, ela conseguiu replantar plantas medicinais que ajudariam na cicatrização de feridas.
Carl trouxe sua mochilha escolar e continuou estudando normalmente, dizendo que tudo voltaria ao normal em questão de meses.
A família não recebeu notícias do que acontecia no mundo desde o dia que fugira. A energia não existia mais. e a família ficou à luz de velas durante todas as noites.
Peter conseguiu trazer alguns animais de volta ao celeiro e ao curral. Dois bois, três porcos, sete galinhas magras, um galo e três filhotes de uma das galinhas.
A família estava, na verdade, tentando fingir que tudo estava normal. Não falaram do ocorrido desde que chegaram. Tentavam fazer o que antes faziam na civilização, mas todos, na verdade, sabiam, que a normalidade estava muito longe do que pensavam.
A fazenda ficava ao lado de uma floresta e de um pequeno lago, de onde a família retirava água diariamente. A floresta era pouco visitada pela a família O’Connor — Carl era o mais interessado na floresta -, apenas a visitavam quando precisavam de ovos de aves que ficavam presas nos ninhos nas árvores.
Carl visitava a floresta todo o fim de tarde, a procura de algo estranho, e, as vezes, ficar sozinho e escrever em um caderno. Ele anotava tudo o que acontecia, dia após dia no “diário”.
20 de Dezembro de 2022, terça-feira
Nós conseguimos abrir o poço que ficava no quintal da casa, a água estava limpa, mas pouco nos importa.
Julie colheu os primeiros tomates da horta que fez, feiosos e com um gosto estranho, mas, comestíveis.
Meu pai achou, novamente, um javali próximo ao celeiro. A espingarda acertou a cabeça em cheio, e o javali virou nosso jantar.
Carl queria gravar tudo o que acontecia dia após dia. Não deixou de escrever desde o dia da fuga.
Na manhã de 23 de Dezembro, Carl se acordou cedo, ás cinco da manhã. Seu pai o chamara para que fizessem a “ronda” diária pela antiga horta — agora destruída — para ver se encontrariam alguma praga.
– Ótimo Carl, tome café — Peter segurava uma xícara de porcelana que já estava na casa há tempos. Carl olhou para uma xícara em um pires em cima da mesa, e havia um líquido transparente dentro do recipiente.
– Isso não é café, é chá de café — disse Carl desanimado, sabia que iria ter um dia sonolento.
Carl e seu pai comeram e saíram da casa.
– Ok, Carl. — Peter começou — Você espiona a floresta, mas não se distancie muito, filho.
– Tudo bem, pai.
Peter se dirigiu para a direção além do lago, e Carl seguiu e entrou na floresta.
Carl teve tempo para conhecer alguns dos lugares da floresta. Havia uma nascente próxima dali, como também árvores cheias de frutas num local reservado.
Uma caverna ao norte, e uma trilha que era usada por escoteiros mirins, antes de tudo acontecer.
Carl seguiu a trilha por cem metros, quando começou a ouvir um gemido. A voz gritava desesperada, e era a voz de um homem. Carl rapidamente começou a seguir o gemido que vinha da direção do riacho que a nascente fazia. Quando chegou a margem, viu que a água estava toda vermelha, da cor de sangue.
Carl seguiu a trilha de sangue, quando se deparou com um homem gordo, agonizando próximo a nascente, Seu braço estava na carne viva, e o sangue escorria pela sua mão.
– Me Ajude! — gritou o homem. Carl percebeu que um errante estava
próximo a ele, com uma pedra encravada na têmpora — Me ajude, por… por favor!
Carl não sabia o que fazer, apenas correu até o homem. Sentiu o cheiro horrível e podre que vinha do errante caído no chão. Carl pegou nas mãos do homem e disse que ele tentasse se levantar. O homem era muito pesado, mas se levantou. Carl pôs um dos braços do homem em seus ombros, e por mais pesado que fosse, tentou ajudá-lo até chegar a casa na fazenda.
– Vai ficar tudo bem… — falou Carl, com uma voz trêmula — Minha irmã… ela é médica… Vai ficar tudo… tudo… bem. — repetiu.
Juntos, os dois chegaram a casa, e Carl o guiou para um quarto que limparam há algumas semanas. Carl gritou por Julie, que estava na estufa. Julie correu até o quarto e viu a cena, caminho rapidamente e se sentou na cama.
– Por favor, Carl — disse ela, com uma voz de ansiosidade — Traga panos limpos, tem na estufa, no armário… Água quente e soro fisiológico também, gase…
Carl nem esperou a irmã terminar e correu a estufa, levando tudo o que sua irmã tinha dito, inclusive sua caixa de primeiros socorros. Levou até o quarto onde sua irmã estava.
– Fique calmo — ela dizia, soluçando.
Carl colocou tudo num criado mudo e se sentou numa cadeira próxima a cama. Julie pegou um pano alvo e molhou na água quente — que já estava morna — e espremeu, pôs sobre o ferimento, que foi uma mordida. O homem gordo deu um pequeno gemido de dor ao sentir o pano encostar no ferimento.
– Shhhh — chiou Julie.
Julie pegou o soro fisiológico e passou num grande pedaço de algodão e encharcou. Pressionou sobre a mordida e limpou a sujeira. Pegou uma pinça — que tinha trazido na caixa de ferramentas — e retirou uma coisa esbranquiçada, que estava encravada na carne. Era um dente.
– Ew — exclamou Carl, sentindo nojo.
Julie pegou uma agulha e injetou numa veia da mão direita do homem, pegou esparadrapo e pôs sobre ela. Pôs um tubo e soro começou a fluir;
O homem rapidamente começou a cair no sono.
– Ele deve estar com febre… Um dos sintomas da infecção — disse Julie — Vamos deixá-lo aqui… Carl, você pode por favor, prendê-lo na cama com aqueles dois elásticos ali? — Julie apontou para dois elásticos pretos em uma cadeira;
Carl pegou os dois e se dirigiu a cama onde o homem adormecera. Passou um debaixo da cama e amarrou em seu peitoral. Depois, passou por debaixo da suas pernas e amarrou fortemente.
– Ótimo, agora vamos — Julie disse, e Carl e sua irmã se retiraram do quarto.
Peter chegou em casa ao meio dia, cansado, se sentou na poltrona e observou os dois filhos com uma cara de preocupação.
– An? O que houve? — ele perguntou.
Julie contou sobre o infectado que Carl achou próximo a nascente, e contou que ele estava num quarto próximo a cozinha.
– EU NÃO VOU ACEITAR ISSO NA MINHA CASA — gritou o sr. O’Connor.
– ESSA NÃO É SUA CASA, SE LEMBRA, PAI? — rebateu Julie, que fez Peter hesitar em falar outra coisa — Não importa… — ela recomeçou, com uma voz triste — ele vai morrer de qualquer jeito, vai voltar como todos.
Peter e Carl se olharam, apreensivos. Nunca, nos dois meses a família tocou no assunto dos infectados. O tabu tinha se quebrado no mesmo momento em que Carl achou o homem.
Julie voltou para a estufa, correndo, não suportando ficar na presença do pai e do irmão.
E ninguém dormiu aquela noite.
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