Infected by Our Hope
4 Não é egoísmo, é sobrevivência.
– Muito engraçado! – Morgan caçoou.
– Não estou brincando, Morgan. – Jane fez de dar uma resposta curta, enquanto apoiava as costas na parede. Diferente de Morgan, seu rosto estava sério.
– Ah não, você está brincando sim... – O rapaz imediatamente se levantou de sua cama e foi em direção à garota, mantendo alguns palmos de distância. – Eu não vou carregar esse moleque pra cima e pra baixo quando nós estivermos em perigo. Você tem noção do quanto pôs nossas vidas em risco?! – Morgan apontava para o menino dormindo no sofá da sala. Sua voz expressava fúria, assim como seus olhos mostravam a vontade que ele tinha de explodir tudo ao seu redor. Jane franziu o cenho com a reação de Morgan.
– E o que você quer então, Morgan? – Jane devolveu com a mesma moeda, usando do mesmo comportamento de Morgan. – Quer que eu largue o menino sozinho na rua? Quer que eu vá com ele de mãos dadas até a esquina e saia correndo? – Jane o enfrentou, aproximando-se ainda mais do rapaz, dali mesmo ela conseguia ver Morgan cerrando os dentes.
– Eu quero mesmo ter algum aparelho que volte no tempo, pra impedir que você tenha feito essa merda! – Assim Morgan que completou sua frase esbanjando ódio, O mesmo se virou de costas para a jovem voltando a sentar em sua cama.
Jane não prolongou a discussão, simplesmente atravessou o vão do que algum dia havia sido uma porta. O coração partiu-se em dois pedaços ouvindo as palavras do próprio amigo. Seus olhos caíram sobre o menino deitado no sofá escasso no meio da sala, onde Gavin dormia como se não pegasse no sono há muito tempo, tanto assim que nem os gritos de Morgan o fizeram acordar. Num gesto simplório, a jovem levou a almofada menos destruída sob a cabeça de Gavin, colocando-a sutilmente.
– Gavin, Gavin... – Jane sussurrou. – O quê eu faço com você? — Ela levou alguns segundos ali, olhando para o nada.
Mas seu devaneio foi interrompido quando seus ouvidos a alertaram. Vozes. Alguém ao pé do prédio conversava alto. A jovem correu para a Janela, e lá estavam nove homens segurando facas enferrujadas, pés de cabra, e pedaços de pau. Ela sabia que eram Hunters, assim como sabia que precisava fazer alguma coisa.
– Morgan, precisamos sair daqui. – Disse, pegando uma corda marrom no balcão da cozinha.
– Qual o problema agora? – Morgan ainda estava irritado.
– Hunters lá fora, prestes a nos pegarem aqui dentro. – Ligeiramente amarrou uma das pontas da corda em sua mochila, enquanto a outra envolvia a cintura de Gavin. – Tente pegar tudo importante.
– Por que vamos fugir?! Já matamos vários deles antes, qual o problema? – Ele se levantou indo pra perto de Jane, assistindo-a amarrando a corda em Gavin.
Nesse mesmo segundo Gavin acordou assustado, sem entender a corda ligando-o a mochila de Jane.
– Já matamos vários, mas nunca nove de uma vez! – Jane respondeu, a pressa corria sua alma, e a jovem só ficava mais nervosa.
A corda de — mais ou menos – um metro e meio faria Gavin não se perder de Jane. Ele seguia a jovem enquanto as mãos nervosas da mesma colocavam coisas dentro da mochila. Gavin tinha vontade de perguntar, mas não o fez, somente esfregou os olhos para limpá-los sutilmente.
– Aposto que se não fosse por esse pirralho, você não pensaria duas vezes em matar esses caras. – Morgan provocou.
– Pelo o amor, Morgan. Não temos tempo pra ouvir suas criancices.- A mochila de Jane foi fechada assim que terminou sua frase. – Já está pronto?
Morgan não a respondeu, mas foi até a porta como dizendo que “sim, ainda mais pronto do que você!”
– E eu? – Perguntou Gavin, ainda confuso com o que acontecia.
– Tudo bem, Gavin. Eu já peguei tudo o que você precisa. – Ela respirou fundo antes mesmo de fazer qualquer coisa. – Vamos.
Todos os três corriam pelos corredores do apartamento, na tentativa de saírem pelos fundos sem serem pegos. Morgan ia na frente, logo atrás vinha Gavin, e então Jane. Desceram as escadas rapidamente quando ouviram alguns deles mais próximos no andar de cima, Jane pensou que talvez pudessem estar procurando por eles.
Estavam perto de chegar onde queriam, a porta dos fundos estava há alguns passos deles. Seria perfeito, se dois homens não entrassem por ela bem naquele momento. Jane se escondeu com Gavin atrás de uma parede, e Morgan na outra. Os homens vinham pelo corredor no meio de Morgan e Jane. Num gesto quase sincronizado, ambos agarraram os homens pelo pescoço com seus antebraços, desacordando-os.
Outro homem vinha descendo as escadas, chamando pelos outros dois. Jane tirou seu arco das costas, preparou a flecha puxando-a com força, e o esperou para mirar. Quando o peito do homem foi exposto a flecha soltou-se da corda, e o atingiu de fora-a-fora.
Enfim, corriam para fora daquele lugar.
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O sol já se escondia no horizonte e eles ainda andavam dentro do nada. Haviam saído de Lincoln há algumas horas atrás e agora só procuravam por alguma casa á beira da estrada. Gavin, apesar de preso á corda, ficava um pouco pra trás. Suas pernas estavam cansadas, e estava com sede.
– Jane. – Ele correu pra um pouco mais perto da jovem. – Quando a gente vai beber água?
– Você não trouxe água, Jane? – Morgan interrompeu.
– Não, e você? – Disse Jane.
– Também não.
– Ótimo, então não pode falar de mim.
– Posso! Não fui eu quem trouxe uma criança pra atrapalhar! – Morgan já estava passando dos limites, com provocações infantis.
Gavin olhou para Morgan, seus olhos mostravam alguma tristeza por não sei aceito pelo rapaz. O menino sabia que não fazia mal algum, e não entendia porque Morgan o tratava daquele jeito. Aquilo fez com que Gavin tomasse um certo medo de Morgan.
– Já deu, Morgan! Você não sabe falar outra coisa? Gavin não vai sumir do nada, lide com isso!
– Como se essa cordinha fosse salvar a nossa vida... Tinha ideia pior?
– Pode não salvar a nossa pele, mas vai salvar a dele. – Eles se olharam com desprezo um nos olhos do outro, ambos cerrando os dentes. – Você entenderia se não fosse tão egoísta...
– Se você inventa de fazer caridade enquanto tá vivendo na lama... O mundo te mata. – Morgan suspirou raivosamente — Não é egoísmo, é sobrevivência.
Algumas frações de segundos foram precisas para o silêncio reinar. Vendo que Jane não iria respondê-lo, Morgan esboçou um discreto sorriso declarando sua vitória.
– Vocês podem continuar essa briga ali? – Gavin interrompeu se metendo no meio dos dois, fazendo com que se afastassem um pouco um do outro. O mesmo apontava para uma pequena fazenda distante. — Achei que vocês nunca iam parar de discutir!
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