Capítulo 3

A noite não foi nada fácil para a família O’Connor.

Peter ficou durante toda a noite na varanda da casa de fazenda, e obrigou Carl a ficar na porta do quarto onde o infectado estava, vigiando.

Julie ficou sentada dentro do quarto, mesmo que seu pai tenha falado coisas idiotas sobre segurança e que aquilo era mortífero para qualquer um que estivesse lá dentro.

– É isso mesmo — indagou Julie, baixinho, tentando fazer Carl ouvir o que dizia — pode acontecer amanhã, depois de amanhã… Ou agora… — ela olhou para o corpo gorduroso do homem que estava na cama, recebendo soro.

– O que está acontecendo, exatamente, no corpo dele? — perguntou Carl, curioso.

Ela olhou novamente e virou para Carl:

– O vírus está fluindo dentro de seu organismo… Segundo estudos que fiz no laboratório, o vírus se instala no cérebro e… — ela deu uma pausa, seguida por um soluço — A morte vem depois. Ele mata o cérebro e depois o coração.

Carl ouviu atentamente o que sua irmã dissera. Ele ficou horrorizado ao saber que deveria matar, de novo, o homem que ajudou.

Carl não queria estar vivo agora, preferia estar morto, ou nunca ter existido.

“Isso arruinou o mundo!” gritava sua consciência “Arruinou minha vida, droga!” gritava mais e mais alto. Carl estava, agora, passando por uma crise de esquizofrenia, que não sofria há muitos anos.

Carl saiu correndo, subindo as escadas com as mãos tampando os ouvidos fortemente. Ele entrou no quarto em que dormia e deitou. Uma forte dor de cabeça latejou em sua cabeça, fazendo-o se debater. Julie correu e chegou ao quarto, tentando acalmar o garoto.

– Jesus! — ela gritou desesperada — PAI! — ela começou a chorar desesperadamente e Peter chegou rapidamente ao quarto. Quando percebeu o que estava acontecendo, correu até a cama, deixando a espingarda velha que achara cair no chão.

[...]

Carl acordou envolto a lençóis finos. Ele olhou para os lados e viu sua irmã, Julie, dormindo com um livro de medicina sobre o rosto. Ele se levantou de sua cama e desceu para a sala de estar descalço.

Ele saiu da casa e foi a varanda. Viu seu pai, Peter, com a espingarda em mãos andando para lá e para cá na margem do pequeno lago. Ao ver Carl, ele correu até o garoto e lhe deu um abraço.

– Tudo bem, filho? — ele perguntou calmamente — O que você está fazendo aqui? — Como Peter sempre foi um pai “super protetor” após a morte de sua esposa, para ele era preciso três dias de repouso na cama — Para a cama, já. Levarei seu café da manhã.

– Eu estou bem, pai — ele disse — Não tenho mais dez anos!

Peter olhou o garoto com uma expressão de desaprovação, mas não insistiu para que ele voltasse para a cama.

– E o homem? Como ele está? — perguntou Carl.

– Jonas? — Peter indagou — Tivemos uma conversa ontem, ele acordou depois de ouvir seus berros na cama…

– O que vocês conversaram, exatamente? — Carl sentou-se no chão e continuou encarando o pai.

– Ele se chama Jonas Fernandéz… Ele fugiu do irmão — Peter deu uma gargalhada, mas logo parou após Carl lhe lançar um olhar de desaprovação — Seu irmão agora quer matá-lo.. Ora bolas… Eles são mexicanos…

Carl parou para pensar sobre o que Julie disse sobre a morte de Jonas. Jonas morreria a qualquer hora.

– Pai, o senhor não tirou os elásticos dele, não é? — perguntou Carl, um pouco preocupado.

– Sim — Peter respondeu, ignorante — O que há de mau nisto, afinal?

Carl se levantou rapidamente e correu até o quarto onde Jonas estava deitado, ao abrir a porta, para a alegria de Carl, o homem continuava deitado, respirando e recebendo mais soro, sem os elásticos.

Jones seguiu seu filho até o quarto. Carl pegou os dois elásticos e amarrou o corpo na cama novamente.

– Eu tirei porque usei para amarrar uma espingarda que estava quebrada…

– Bom dia — disse Jonas, acordando de uma hora para a outra, com uma respiração ofegante — Estou com muita febre…

Peter o interrompeu com um gesto de sua mão, e saiu do quarto, deixando Jonas e Carl a sós.

– Seu pai é bem ignoran… — ele deu um soluço e respirou fundo — Bem ignorante.

– Ás vezes, sim. — Carl se sentou um banquinho, um pouco afastado da cama em que Jonas estava deitado. Jonas fazia um pequeno barulho de apito enquanto respirava. — Conte-me sobre você, Jonas,

Jonas um lançou um olhar de preocupação.

– Não há nada de interessante… — ele deu uma pausa e engoliu saliva — Vou morrer, quer seja agora ou quando meu irmão me encontrar — Jonas falava com um leve sotaque mexicano.

Peter entrou no quarto, trazendo um copo de chá de café quente e uma tigela de arroz cozido.

– Seu café da manhã. — ele falou com uma voz dura e severa, retirou o elástico que prendia os braços de Jonas, e saiu do quarto.

Carl fechou a porta do quarto assim que seu pai saiu, possibilitando que ele e Jonas pudessem ter uma conversa sem interrupimento.

– Por que seu irmão quer te matar, rapaz? — Carl peguntou inocentemente, enquanto Jonas assoprava o arroz em sua tigela.

– Eu fiz umas besteiras — ele riu — Roubei a prostituta dele… Ah, tanta coisa. Meu pobre irmão revoltado. — ele deu agora uma gargalhada alta, e se engasgou com o arroz.

Carl ficou olhando para Jonas por um momento, algo lhe dizia que aquela pessoa não era uma boa companhia, nem mesmo um bom irmão.

– Vou te contar uma coisa — Ele pôs a tigela no chão, e tomou um gole do chá de café. — Eu vou morrer de qualquer forma. Tome cuidado com meu irmão, garoto. Ele pode ser um mal não só para você, mas para toda a sua família — ele bebeu o chá de uma só vez e o pôs no chão, olhou para o curativo que Julie fizera, e retirou a gase de cima, mostrando a região, que já estava apodrecida — Jesus, isso fede.

Carl parou para pensar um pouco sobre o irmão de Jonas, imaginou um justiceiro assassino ao redor da fazenda, a procura de seu irmão adúltero.

Carl saiu do quarto sem dar uma resposta ao homem, batendo a porta com força, fazendo o homem se assustar.

***
A noite chegou, e Peter assou uma galinha — que já estava um pouco gorda, e seus filhotes, grandes — para o jantar.

Julie comemorou, dizendo que já estava cansada de comer arroz cozido ou cru. Ela começou a escrever um diário sobre os dias que passaravam ali naquela fazenda, como Carl fazia, quase todo o dia.

Jonas permaneceu no quarto, e Peter levou, novamente, sua comida.

– Delicioso, não? — perguntou Peter, de boca cheia, para os dois filhos.

Julie permaneceu calada. Enquanto comia, ela anotava algo em seu caderno de anotações.

A noite foi tediosa como sempre. Todos se reuniam na sala de estar e ficavam calados. Alguns cochilavam, ou, escreviam, sobre qualquer coisa que lhes interessasse.

Quando chegou a hora de dormir, Carl estava exausto. Com uma dor de cabeça “sequela” da crise de esquizofrenia da noite anterior. Julie se dirigiu ao seu quarto, dois cômodos após o quarto em que Jones estava, e Peter foi para outro.

***

O quarto em que Jonas estava se tornou uma poça de sangue durante a noite. Jonas começou a vomitar sangue e desmaiou na mesma hora. Instantes depois, seus olhos se abriram, revelando, assim, olhos totalmente brancos, sem retina, pupila ou íris. Estava tudo, completamente, branco.

Ele fez barulhos estranho e se debateu na casa. Seu braço agarrava os lençóis em que estava coberto. O corpo se levantou lentamente, e se dirigiu a porta do quarto.

Ele fazia barulhos como se fosse um animal. Jonas — ou não mais ele — caminhou pelo corredor, até chegar a um cômodo em que uma porta estava aberta.

Pegadas de sangue se estendiam pelo corredor. O corpo caiu duas vezes, mas, rapidamente se levantou.

Ele entrou no quarto, fazendo gemidos irreconhecíveis. Julie estava deitada, dormindo no quarto, envolta por lençóis brancos. O zumbi se dirigiu até a garota e segurou sua perna, e, num instante, a garota acordou.

E um grito de pânico ecoou pela casa, acordando tanto ao pai, quanto ao filho.



Notas finais
Comentem o que acharam, toda crítica e sugestão é bem vinda! :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.