Inexplicável

1 1 - Vermelho


Vermelho.

É apenas o que o meu medíocre cérebro consegue reter daquela sala.

Vermelho.

Um vermelho baço, como se sangue se tratasse. Aquele sangue em poça que começa a coagular.

Sangue? É... Também é uma dolorosa recordação.

— Hannah? Está a ouvir-me? — A voz doce, penetra nos meus ouvidos, retirando me da ilusão onde me encontrava.

Com os óculos na ponta do nariz, a mulher nos seus 50 anos? Talvez um pouco mais, encara-me. Cabelo preto, curto, olhos eles também escuros.

— Sim. Calculo que sim. É mesmo necessário fazer este tipo de sessão? — A questão sai mais tremida do que eu desejava. Aquele ridículo sofá vermelho, onde eu tinha ficado focada, traz-me más memórias.

Se estas sessões de terapia, eram para ajudar a ultrapassar traumas passados, aquele sofá não me estava a ajudar.

— Hannah, você passou por algo inimaginável. Ver alguém que amamos, perder a vida diante dos nossos olhos, não é fácil superar.

— Nunca disse que era. Mas falar sobre isso, vai realmente ajudar? Acho que vai fazer com que eu reviva exatamente o que aconteceu.

Os olhos escuros da mulher fecham-se por alguns segundos. Fecha o caderno onde, provavelmente, tomava notas e levanta-se.

Serviu-se de um copo de água e oferece-me. Recuso. Noto por mim a rodar incansavelmente, o anel que me foi oferecido. Aquela terapia tinha que acabar.

— Já fazem duas semanas que tentamos marcar esta sessão. Agora que chegou o dia, não conversamos sobre?

— Quem insistiu para eu vir, foi a minha irmã. Sabe como é? Preocupada. Gerir um negócio não é fácil, então lidar com os sentimentos de perda da irmã mais nova, é esgotante. — Falei com arrogância. Não queria, mas foi como saiu.

Não me levem a mal, eu amo a minha irmã e ela também me ama. A união que temos, é algo inexplicável. E sei que ela só quer o meu bem. Mas preferia desabafar com ela, de que com algum profissional.

— Olhe, isto não está a resultar. Peço desculpa pelo seu tempo perdido, mas eu não sou do tipo de pessoa que se abre para um total desconhecido. Tenho um trauma. E depois? Não temos todos? Irei lidar com ele como tenho feito desde os últimos 4 meses. Obrigada.

Levantei-me, peguei na mala que tinha ao meu lado. Preta, pequena mas o suficientemente grande para levar o essencial.

Agradeci e sai.

Passei na recepção e paguei a consulta.

Já fora do estabelecimento, peguei no telefone e mandei mensagem à minha irmã

"Obrigada pela referência, ajudou imenso" .

Menti. Não queria ferir os sentimentos dela, mas sabia que a mentira não ia durar nada. Estava um dia agradável. Aquele sol de primavera, quente o suficiente para nos deixar com melhor humor.

A cidade estava bastante movimentada. Como sempre, pessoas apressadas, andam de um lado para o outro. Carros buzinam e autocarros carregados de pessoas, percorrem as estradas.

Sinto-me exausta. Aquela sessão, de 30 minutos, deixou me com a cabeça pesada. Café? Sim, era o que precisava.

Após 4 meses do sucedido, ainda não tinha coragem de voltar a trabalhar. Pelo contrário, despedi me sem querer receber os meus direitos. Não queria encarar ninguém naquele trabalho, com os olhares de pena.

Mas também, as poupanças estavam a esgotar-se e mais cedo ou mais tarde, teria que encontrar alguma coisa para me sustentar.

Comecei a caminhar, em direção ao restaurante onde a gerente, era a minha irmã. Era um restaurante respeitável. Tinha a parte de refeições, mas também uma pequena esplanada para quem queria apenas desfrutar de um simples café.

Entrei, e a sineta deu sinal. Estava vazio, o que era de se esperar pois passavam pouco das 10h da manhã. Ninguém almoçava tão cedo.

Jenny, saiu da cozinha, com um sorriso largo quando me viu.

— Olá Hannah! Como estás? A tua irmã ainda não chegou. Acho que em breve deve estar a chegar.

— Olá Jenny. Tudo bem, eu vou esperar na esplanada. Estás sozinha hoje?

Ela limpou as mãos ao avental e saiu de trás do balcão. Pronta para as cusquices da manhã. O que eu adorava, já que me fazia sentir uma pessoa no mínimo... Normal.

— Pensava que já sabias. O Paul despediu- se ontem. Sem aviso prévio. Acho que achou um emprego melhor, talvez na área em que ele cursou. Não entendo. Então isto está um pouco apertado de pessoal. Para já estou eu, mas perto das 11 horas vem a Rachel para ajudar.

Fiquei um bocado chocada. Paul, um homem já feito, de perto de 40 anos, com uma boa aparência, era praticamente a cara do restaurante. Sempre simpático, prestável. Juro que cheguei a ter um fraquinho por ele.

A minha irmã considerava- o, o braço direito dela. Sempre disposto a fazer horas extras, a ajudar.

— Estou um bocadinho chocada. Não fazia ideia! Coitada da Holly, deve estar sobrecarregada de trabalho. Daí ela não me ter contado ainda.

Holly, era a minha irmã. 5 anos mais velha. Completava os 38 anos este mês.

Assim que termino a frase, ela entra muito atarefada, mas sempre impecável. Umas calças pretas formais, com uma camisa branca e um colete beje por cima. Eu achava-a linda. Cabelo castanho claro, com canudos perfeitos caiam-lhe sobre os ombros. E de olhos verdes.

Já eu? Baixa, com olhos escuros e cabelo também ele escuro. Um castanho forte. Rebelde sem dominância possível.

— Hannah ! Não devias estar na psicóloga? — Pousou as duas malas que trazia em cima do balcão e fez-me sinal para a seguir até à esplanada.

Pedi dois cafés à Jenny e segui-a. Sentei me numa das cadeiras cinzentas, almofadadas, de frente para ela.

Olhos grandes, verdes a olharem para mim. Sorridentes.

— Fui lá. Mas não gostei. Tive que sair de lá às pressas Holly. Aquela sala sufocava-me. Além do mau gosto de decoração que ela tinha. — Rolei os olhos em modo de desprezo. A mentira que tinha dito na mensagem de texto, claramente que não durou.

Jenny chegou com os dois cafés. Pousou- os na nossa frente e saiu.

— Como era óbvio. Nem sei porque insisti contigo em ires lá. Sinto que devias falar com alguém, sobre a morte do..

— O Paul despediu-se? — Interrompi-a. Não queria falar sobre isso.

Ela fez uma pausa, pegou na chávena do café e recostou-se na cadeira.

— É o que eles pensam e eu quero que se mantenha assim. Na verdade fui eu que o despedi. Apanhei-o nas câmaras a tirar dinheiro da caixa. Reportei ao patrão e eles decidiram isso. Já viste? Depois de tanto tempo a trabalhar connosco...

Fiquei mais em choque ainda ! Nunca pensei sequer que isso poderia acontecer.

— Então e agora? Tens uma pessoa a menos. Já com ele havia sempre demasiado trabalho, agora vai ser difícil.

— Já tenho agendadas algumas entrevistas. Aliás, por referência da Rachel, vem um rapaz hoje falar comigo. Ele deve estar a chegar, entretanto. — Olhou para o relógio de pulso verificando as horas, bebeu o resto do café e levantou-se.

Eu fiz o mesmo. O café estava perfeito, muito saboroso.

Holly pegou nas chávenas e levou -as para dentro. Senti que poderia oferecer-me para ajudar. Pelo menos hoje.

Já tinha feito horas no restaurante à um tempo atrás. Portanto, já conhecia os cantos à casa. Porém, em relação a pedidos, ementas e preços, não sabia de mais nada.

— Holly? — Chamei por fim. Ela pousou as chávenas no balcão, e virou -se para me olhar. — Se quiseres ajuda, estarei por casa hoje. Podes me ligar se for preciso. 20 min também chego aqui.

— Talvez não seja necessário. Também irei ajudar hoje. Mas como estamos a meio da semana, não deve haver muito movimento. Vai descansar.

Como sempre a tentar proteger-me. Acenei com a cabeça positivamente.

Paguei os dois cafés, despedi-me da Holly e sai.

Na rua, o ar parecia estar mais frio. Talvez por conta do vento que fazia correr ali no beco, ou então, por causa da diferença de temperatura que estava no interior do restaurante.

Em frente ao restaurante, um carro a fazer manobra para estancionar. Fiquei a encarar o carro, por mais tempo que o necessário. Assim que parou, o motor desligou-se e dentro dele saiu um homem. Alto, bem mais alto que eu sem dúvida.

Olhou para mim e depois para o carro.

— Não posso parar aqui? — Perguntou ele com a voz grossa, um pouco rouca. Agradável de ouvir.

— Ah.. sim pode. É uma vaga de estancionamento. Estava só a admirar o carro. — Honda Civic, preto. Rebaixado, parecia um carro de alguém jovem.

Olhei então para o homem que o conduzia. Cabelo ondulado, castanho claro. Olhos verdes e um sorriso na cara. Mas, talvez mais novo do que eu pensava. Talvez na casa dos 20 anos.

— Prazer em conhecê-la. Vejo que tem bom gosto. — Apontou com o polegar para o carro — Vemo-nos em breve.

E adentrou pelo restaurante. Segui os movimentos dele com os olhos até ouvir a sineta do restaurante soar e a porta bater ao fechar-se.

Voltei a olhar para o carro, encolhi os ombros e segui caminho até casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.