Inexistência

4 Alusão ao Óbvio


Notas iniciais
Não nos atrasamos dessa vez :v

O indispensável torna-se seu centro a partir do momento que a incerteza se quebra. Do mais alto ou do mais equilibrado, não há barreira, escudo ou piedade que o impeça de aprender mais um pouco sobre se defender ou como deve se agilizar.

"Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada."

(H. L. Mencken)

Ronan

Um par de dias se passou e eu comecei a me controlar mais, estava aprendendo mais sobre o que era ter ordem na mente. E tomar umas decisões, é claro. Na manhã de terça-feira, combinei com Sieghart, apenas com ele, para visitarmos o museu. Se fosse para tratar dos meus amigos, eu preferi fazê-lo individualmente.

Encontramo-nos no local combinado e ele parecia muito alegre, além de transmitir todo aquele ar brincalhão e informal que ele sempre tinha. Antes de entrarmos, ele puxou assunto:

– É bom te ver assim, sabe? Sóbrio daquela escuridão.

– Eu não quero me lembrar disso. – Comentei, entrando com ele – Eu quero esquecer o que eu fiz na sexta-feira, não foi uma ação muito bonita da minha parte.

A primeira coisa que nos deparamos era de um aglomerado de pessoas num parque, com roupas e estilo à moda antiga, além de árvores e um lago.

– Essa não é aquela pintura que foi feita em pontinhos? – Perguntei.

– Sim. – Ele respondeu – É a Tarde de Domingo na Ilha Grande de Jatte, do pintor francês Georges Seurat. O estilo de pintura se chama pontilhismo, que consiste em criar uma imagem através de pontinhos, como você disse. A obra dele não é a única que usa esse recurso, mas é uma das mais famosas. Coisas do impressionismo...

Como ele tinha tudo aquilo na cabeça?

– E aquela pintura ali? – Perguntei, caminhando até ela – Mas que horror...

A pintura era um fundo preto com um ser humano deformado devorando um menor, que aparentava ser uma criança. Quem pintaria algo assim?

– Saturno devorando seus filhos, de Francisco Goya. – Sieghart respondeu como se estivesse na ponta da língua – Suas pinturas eram estranhas assim porque ele era surdo e sofria de algumas alucinações por conta disso. Daí surgiu pinturas desse nível. É um horror a primeira vista, mas depois você passa a entender o sofrimento dele.

Entender o sofrimento alheio...

– E o que são essas esferas aleatórias pintadas no mapa? – Perguntei, apontando para outro quadro – Arte abstrata, certo?

– Sim, mas esse quadro é novo para mim. – Ele disse – Não é um quadro famoso, isso eu tenho certeza.

Porque, se fosse, ele saberia tudo na ponta língua.

Ficamos assim, admirando quadros e esculturas por um tempo, até que a fome bateu e fomos até a lanchonete do museu. Sieg pediu um daqueles sanduíches imensos, porém muito saudáveis e eu preferi uma pizza do tamanho da minha satisfação.

– Sobre aquele dia... – Me incomodava, mas fazia parte do meu objetivo falar sobre aquilo – Sabe me dizer se Edel e Lass ficaram muito chateados?

– Para ser sincero... – Sieg pensou um pouco – A Edel chorou. Eu a vi despejando suas lágrimas, ela disse para eu não contar isso, mas estou sendo sincero. Já o Lass, ele não demonstrou nada, mas você mesmo sabe como ele se sentiu por tudo aquilo. No meu caso, se eu tivesse incomodado com você, não teríamos esse belo dia de hoje, pois provavelmente eu recusaria seu pedido para ficar trancado no meu quarto, rasgando folhas de papel e me acabando para fazer textos decentes.

– Eu não queria ter feito aquilo... De verdade... – Murmurei – É só que... Vocês não sabiam como...

– Calado. – Ele me interrompeu. Eu me surpreendi com a forma como Sieg me disse aquilo – Esse é seu grande defeito, Ronan. Achar que só você sofre, que só você sabe o que é ter problemas na vida. Achar que todos são felizes e sorridentes e a sua vida é o único inferno da Terra. Achar que as coisas ruins só acontecem com você e que só você tem dias ruins.

Eu nem sabia como responder.

– Contar-te-ei um segredo, amigo. – Ele sorriu alegremente, nem parecendo que, antes, havia falado comigo num tom mais sério que bronca materna. – Não é bem uma bomba daquelas de telenovelas, mas é algo precioso para saber de mim e que, talvez, possa ajudar na sua vida. Primeiramente, como você e todo o grupo já sabem, eu sou adotado. Porém, vocês acham que eu nunca tive contato com os meus antigos pais. Mas eu tive...

Do nada, Sieg começou a ficar com um olhar de tristeza e eu senti um clima pesado vindo dele. Uma tristeza do ser mais sorridente que eu conhecia.

– Eles não eram legais. – Ele continuou – Me maltratavam por eu ter sido obra de um acidente. “Por que você nasceu?” e “Você estragou nossa juventude.” eram frases comuns que eu ouvia. Eles não abandonaram a juventude deles. Eles saíam de casa por volta das seis da noite e só voltavam depois das duas da manhã. Voltavam bêbados ou eram trazidos por amigos, pois estavam desmaiados. Com toda essa farra que eles faziam, eles sempre se esqueciam de mim, até mesmo de me alimentar. No entanto, isso não era tão vital para mim, pois tinha a minha avó por parte de mãe, a única viva dessa geração mais velha. Ela cuidou até os meus oito anos, pois, infelizmente, ela faleceu de velhice. Não importava o quanto eles e eu crescíamos, eles nunca abandonavam aquele espírito jovem de curtição.

Ele suspirou. Sieghart estava tentando esconder alguma sensação, pois vi que seu braço direito tremia disfarçadamente.

– Com oito anos eu já conseguia fazer coisas o suficiente para sobreviver. – Sieg continuou – E como eles nunca se importavam comigo e quase nunca ficavam sóbrios em casa, eu mesmo me virava para me alimentar, entre outras coisas. No entanto, teve um dia que o meu pai decidiu estourar os limites. Com isso, ele resolveu misturar uma grande quantidade de bebida e se envolveu também com drogas fortes. Ele teve muitas convulsões em casa. Minha mãe chamou uma ambulância e eu me lembro de tê-lo visto morrer antes mesmo de o socorro chegar. Eu era muito quieto naquela casa, era imperceptível, então olhava tudo de longe. Descobriram que o meu pai se envolveu com drogas e começaram a interrogar minha mãe ali mesmo. Ela estava pronta para ser liberada, até que, sem querer, eu tropecei e apareci. Quando descobriram que ela tinha um filho e se envolvia com drogas e adultério, rapidamente ela foi presa. As últimas palavras que eu ouvi da minha mãe foram: “Você acabou com a minha vida de vez agora, seu inútil!”.

Sieghart terminou o seu sanduíche e depois começou a sorrir.

– Eu amo esse molho! Quando soube que tinha aqui, pedi pra cozinheira caprichar nele! – Como ele conseguia sorrir naturalmente depois de contar uma história daquelas?

Eu o conhecia bem. Sei que ele não contaria mais nada e que, se eu tentasse reanimar o assunto, ele se fingiria de desentendido. Então decidi que não insistiria e o deixaria falar.

– Entendeu? – Ele me perguntou do nada – Não é só você que sofre. Aprenda a compartilhar suas emoções e fazer os outros entenderem, em vez de trata-los como se eles não soubessem de nada e não fossem capazes de compreender. A sua dor não é um enigma indecifrável. Aliás, nenhuma dor é.

“Egoísmo da sua parte querer mostrar sentimentos para a dama escarlate sem mostrar o que dela te alegra. Não são apenas os seus sentimentos que importam, meu caro”. Logo me lembrei da explicação do professor Lázaro. Então é por isso que eu fui reprovado, não só como ator, mas como pessoa também. Eu não podia esconder meus sentimentos...

–--

Na tarde de quinta-feira, foi a vez de eu me resolver com o Lass. Ele não era do tipo que aceitaria convites depois do que eu fiz, então decidi fazer uma visita surpresa. A casa dele era um pouco longe da minha, pois tinha uma esquina que seguíamos em direções opostas, então eu tinha que atravessá-la completamente, além de passar por outras ruas.

Toquei a campainha e se passou cerca de um minuto, eu não fui atendido. Toquei-a novamente e esperei por mais alguns segundos, até que uma voz saiu do outro lado da separação de madeira.

– O que você quer? – Perguntou Lass, num tom amargo – Estou ocupado no momento.

– Eu vim me desculpar sobre sexta. – Respondi – Esclarecer as coisas e deixar tudo limpo.

– Tudo bem. – Ele disse – Mas agora não é o melhor momento.

– Não minta para mim. – Disse – Eu não escolhi uma quinta-feira a toa. Sei que você não faz nada nesse dia.

– Exatamente. – Respondeu Lass – Estou muito ocupado fazendo nada.

– Lass – Disse novamente – Você é o meu melhor amigo desde sempre. Dê-me uma chance. Só uma.

O local ficou silencioso. Depois de muito hesitar, Lass abriu a porta. A casa dele era extremamente organizada. Toda a família dele tinha mania de organização e limpeza, então tudo na moradia dele sempre ficava arrumado impecavelmente.

– Vamos para o shopping. – Ele disse, já saindo de casa e fechando a porta – Preciso comprar uma coisa e você pode falar no caminho, isso é, se tiver algo para falar.

Lass estava caminhando muito rápido e eu o acompanhei, sem graça. Eu estava pensando em como introduzir o que eu tinha para falar, mas ele não me dava aquela sensação de confiança que os amigos costumam me dar. Era evidente, ele ainda estava com raiva. Chegamos à esquina onde sempre nos separávamos ao voltar juntos da Academia de Artes e parei, ele percebeu e parou também.

– Reconciliar-me com você será mais difícil do que eu pensei. – Comentei, observando que ele ainda me olhava aflito – Eu não posso continuar estendendo minha mão se você não quiser pegá-la.

– Justamente como você fez conosco ontem. – Ele disse.

– É, mas agora eu estou tentando me reconciliar. E você não está dando chances!

– Talvez quando esse seu individualismo acabar, você consiga. – Ele me fitou seriamente – Você quer mesmo consertar as coisas ou só quer se sentir bem com a consciência? Não aguenta mais ter culpa e quer se livrar da responsabilidade, é isso?

– Ok, então... – Murmurei – Vá sozinho. Melhor conversarmos depois do recesso, agora não é o melhor momento.

Ele não disse nada, apenas continuou caminhando, sem nem mesmo olhar para trás.

–--

Na noite de sábado, penúltimo dia do recesso, marquei um encontro com Edel num restaurante oriental. Seria minha última ação para resolver as coisas com os meus amigos e o último passo para eu recomeçar. Eu estava ligeiramente atrasado e vestia uma blusa social branca e uma calça jeans, nada tão formal. Estava ligeiramente atrasado, então não pude dar um trato no cabelo. Calcei meus sapatos pretos e apertei o passo para chegar à casa de Edel a tempo.

Quando eu cheguei, ela já estava esperando do lado de fora. Olhei para o meu relógio e só estava quatro minutos atrasado. Edel era muito pontual. Ela vestia um vestido azul claro, que ia até os joelhos e tinha vários detalhes. Brincos pratas simples e um salto branco e baixo.

– Você está linda. – Elogiei.

No caminho, ela falava muito e rápido. Eram tantos assuntos que eu não conseguia coordenar direito, eu apenas confirmava com a cabeça, enquanto ela jogava todas aquelas coisas ao ar. Era como se ela tivesse ficado pressionada e calada e agora pudesse aproveitar os momentos de liberdade.

Chegamos lá e sentamo-nos à mesa que reservei. O ambiente era bem calmo e iluminado por lâmpadas decorativas. As pessoas conversavam aos sussurros, o que tornava tudo mais formal e agradável. Edel pediu uma porção de Temaki e eu pedi Salmão com raiz forte.

– Sabe, eu fiquei feliz em saber que aquela sua fase passou. – Ela comentou – Eu sabia que seria temporário, mas realmente tudo aquilo estava me dando medo. Eu só queria pedir para você nunca perder a confiança na gente.

– Eu sei. – A interrompi – E é por isso que eu estou tentando resolver as coisas. Lass ainda não compreendeu minhas razões e eu até entendo, mas com o Sieg foi mais fácil, ele me disse que você chorou.

Ela se espantou.

– Eu falei para ele não contar. – Ela aparentava estar com raiva – Não foi tanto assim, eu juro. Não se sinta mal por isso, não foi nada.

O garçom chegou com os nossos pedidos e eu pedi uma garrafa de vinho para gente.

– Não precisa se desesperar. – Era esse desespero que eu precisava consertar – Já disse que estou em paz e que resolverei as coisas.

Ele veio com o vinho e preencheu nossas taças.

– Edel... – Respirei fundo e tentei entrar em harmonia com a minha mente. Seria difícil dizer aquilo. – Eu sei que não é o momento apropriado e que você pode achar uma ação precipitada, mas, infelizmente, chegou o dia em que eu preciso te dizer isso, mesmo achando que ele nunca ocorreria.

– O que você quer dizer? – Eu já podia ver o brilho da tristeza em seus olhos.

– Devemos... – Suspirei novamente – Não dá mais... Devemos terminar nosso relacionamento.

Apenas uma lágrima saiu de seus olhos.

– Eu sempre temi por esse dia... – Disse Edel, trêmula.

– Espero que entenda. Pelo menos, por enquanto, não quero manter relacionamentos.

Fitei a taça de vinho dela e, tortamente, devido ao líquido e o formato do recipiente, eu vi o reflexo daquela ruiva. Era um pouco mais nítido, mas o líquido não me deixava ver com mais clareza. Encostei involuntariamente no objeto e, sem querer, ele caiu na mesa, derrubando toda a bebida na Edel e em seu vestido.

– Argh – Reclamou Edel – Não acredito nisso. Eu venho para cá, perco meu relacionamento e ainda levo um banho de vinho!

Ela se levantou e saiu correndo, chorando. Eu não pude nem me desculpar. Mas que droga, reconciliamentos são difíceis.

–--

Voltei para casa acabado, nem decidi falar com a minha mãe, pois só queria que o dia terminasse, amanhã seria domingo e eu podia relaxar, esquecer, porque a minha mente andava muito confusa.

Eu não fiz absolutamente nada no dia de domingo, fiquei o tempo inteiro trancado no meu quarto assistindo, lendo ou pensando em nada. Minha mãe ficou preocupada, mas eu não manteria aquilo, porque amanhã começaria as aulas novamente. Começar o primeiro período de novo...

Adormeci após jantar e acordei num lugar cheio e aberto, e estava de noite. Eu estava com Edel e estava feliz, bem como era antes de tudo acontecer. Estávamos num parque de diversão e as pessoas estavam saindo do local.

– O parque vai fechar, mas ainda não fomos à casa de espelhos. – Disse Edel, puxando-me para lá – Vamos logo, senão não dará tempo.

– Mas o parque está fechando. – Expliquei.

– Vai dar tempo, não se preocupe.

A casa era um pouco sombria, mas acho que estava assim pelo fato de não ter ninguém e por ser notável que aqueles espelhos já eram velhos. O primeiro vidro era distorcido horizontalmente, fazendo com que ficássemos gordos, enquanto o segundo vidro tinha o efeito na vertical, deixando-nos mais altos.

Vimos vários efeitos aleatórios, até que chegamos num corredor. Ele era estreito e as paredes eram preenchidas por vários espelhos. Edel correu na frente, com uma animação que eu estranhei.

– Nossa, que legal! – Exclamou ela

Ela estava no meio do corredor, longe de mim. De repente, uma sombra vermelha apareceu no espelho do lado direito de Edel e um vulto a pegou rapidamente, jogando-a para dentro do espelho esquerdo. Ela entrou no vidro sem que ele se quebrasse, como se fosse mágica.

– Edel!! – Eu gritei, indo até o local.

Eu cheguei lá e, conforme eu passava, meu reflexo desesperado me seguia. No entanto, quando eu cheguei ao espelho que Edel foi sugada, ele estava sem reflexo nenhum, como nos mitos que envolvem vampiros. Eu dei dois passos para trás, até que minhas costas encostassem ao espelho que o vulto vermelho saiu.

Eu estava desesperado e meus olhos ficaram vidrados naquilo. Até que, como se também estivesse saindo do espelho, eu senti uma mão tocando em meu ombro direito e, com força, ele me puxou para dentro do espelho, assim como fez com Edel.

Eu fui levado para um lugar todo preto, sem chão ou paredes. O único objeto que tinha na minha frente era o espelho, que eu não conseguia atravessar de volta. Eu via, de forma embaçada, a casa de espelhos do outro lado e tentava desesperadamente voltar para lá. Até que uma pessoa estava passando por lá. Era uma menina... Aquela ruiva!

No mesmo segundo que ela me olhou nos olhos, o espelho se quebrou e o local ficou inteiramente negro. Eu senti algo úmido no meu rosto. Seriam lágrimas? Coloquei a mão perto dos meus olhos e vi... Sangue...

Eu acordei soando frio. Era só um pesadelo... Olhei pela janela e ainda estava de madrugada. Eu arfava, parecia que tinham drenado todas as minhas energias e meu coração disparava. Mas o que estava acontecendo comigo?

–--

Elesis

Acordei de madrugada pela ansiedade. Coisa que não costumo fazer. Esperei dar cinco horas, que é a hora que minha mãe acorda, mesmo sem precisar trabalhar, e comecei a me arrumar para sair. O ônibus partiria umas seis e meia, segundo o panfleto no mural.

Minha mãe me obrigou a tomar café da manhã com ela, o que também não costumo fazer. Mas até que foi bom. Diferente.

Antes de eu sair, ela fez o questionário:

–Não está esquecendo nada? Pegou a toalha? E o protetor? Vê lá onde você vai mergulhar, Elesis. Você não conhece a profundidade daquelas piscinas. – Minha mãe ajeitou o roupão que usava, o céu ainda estava mesclando entre um azul claro e escuro. Era sinal de sol. Assim eu esperava. Eu já estava na calçada e minha mãe na porta.

–Mãe, eu sei disso tudo. Não precisa repetir.

–Eu sei, filha, mas... – Revirei os olhos e balancei a cabeça. Ela entendeu que não precisava mais falar nada – Toma cuidado.

–Tá, mãe. – Mandei um beijo com a palma da mão e comecei a andar.

–Não está esquecendo-se de levar uma garrafinha de água? Leva mais biscoito para comer na viagem! Pegou um agasalho?

–Mãe! – Virei-me para ela e prendi o riso – Olha o alvoroço logo de manhã.

Ela abanou a mão no ar, como se não ligasse para aquilo. Afinal, era coisa de mãe.

Segui meu caminho e ela continuou falando. Só não escutei mais a voz dela quando virei a esquina. Deu para ver o ônibus estacionado a frente do portão da escola. Quando me aproximei, Edel já estava lá. Assim como todos os professores que iriam. Alguns alunos ainda estavam chegando.

–Por que está levando o violão? – Perguntei, ao chegar perto de Edel.

–Iremos tocar durante a viagem. – Respondeu ela, com um sorriso no rosto, que não escondia o semblante sonolento de uma noite mal dormida. Edel bocejou e eu acabei bocejando também, mesmo sem estar com sono.

–Irei fazer a chamada e vai entrando o aluno que eu falar o nome, tudo bem? – Avisou Sieghart, começando a lista.

Dois nomes depois que ele chamou a Edel, chamou o meu também. Entrei no ônibus gelado por causa do ar condicionado e logo avistei Edel. Ela estava no corredor e me deu passagem para sentar na cadeira perto da janela.

–Nem acredito que vamos ficar três dias fora de casa. – Disse ela num tom empolgado, nem parecia que estava com sono minutos antes.

–Edel! – Olhamos para trás. Era uma menina que a chamava, fazendo um sinal com a mão e apontando para o violão.

–Vamos lá para trás.

–Hum... – Suspirei – Acho que prefiro ficar aqui, ouvindo as minhas músicas. – Tirei o celular e o fone do bolso do short.

–Poxa... – Edel fez uma expressão de decepcionada, mas não se prendeu em tentar me convencer – Vai ficar me devendo uma.

Ela se levantou e foi até onde estavam seus amigos de turma. O motorista já havia entrado no ônibus e ligado o veículo. Lass entrou no exato momento em que olhei para a porta. Sieghart falou alguma coisa com ele.

Lass olhou para dentro do ônibus e focou no lugar vazio ao meu lado. Virei o rosto para a janela.

–Posso sentar aqui?

Não respondi. E mesmo assim ele se sentou ao meu lado. Olhei para ele.

–Posso te fazer uma pergunta? – Quis tirar logo uma dúvida que estava me incomodando.

–Faça.

–De tantos alunos da escola, por que você quer se aproximar de mim e da Edel?

–Como eu já disse, Sieg quem me indicou vocês duas. E... – Lass olhou para outro ponto do ônibus.

O motorista deu partida. Os professores estavam sentados nas primeiras cadeiras. Eu estava no meio e Edel, que já começava a tocar o violão, estava no fundo.

Ficamos um pouco em silêncio. Coloquei os fones e escolhi as músicas para ouvir durante a viagem. Puxar assunto com o Lass que eu não iria. Mas também nem precisei.

–Posso te contar uma coisa? – Ele me perguntou, depois de uns vinte minutos em sua quietude natural.

–Se for continuar o que estava falando, fique à vontade. – Tirei o fone do ouvido direito.

Lass estava hesitante.

–Eu não fui transferido da outra escola para essa simplesmente por querer. Houve um motivo. – Ele parou e focou seus olhos nos meus – Um motivo que esclarece um pouco o fato de eu só querer a amizade de poucas pessoas e as mais confiáveis.

Pausei a música.

–E... – Também me vi hesitante em perguntar. Aliás, Lass estava se abrindo comigo... Tipo, o quê?! – E o que aconteceu? – Indaguei de uma vez.

–Na outra escola eu...

–Vocês não vão mesmo lá para trás? – Edel surgiu do nada, interrompendo totalmente Lass. Eu nem senti a presença dela, de tão focada que estava. Edel encarou o menino ao meu lado e inspirou – Não pense que ficará com a Elesis o tempo todo, viu?

Ela me lançou um olhar reprovador.

–Estou de olho nos dois. – E, como se não bastasse a frase, ainda fez o gesto de apontar os dedos nos olhos e depois para mim e Lass.

Logo depois se retirou, voltando para o fundão.

Eu não sabia onde era o lugar, então não tinha noção de quanto tempo levaríamos para chegar. Mas teria que dar tempo de Lass me contar o que houve, pois fiquei intrigada para saber.

Sieghart olhou algumas vezes para trás, como se conversasse com Lass através de olhares. Eu não entendia nada, o que me deixava mais curiosa para saber o que acontecia.

–Lass, eu...

–Eu irei contar o que aconteceu. Só não espero que haja outras interrupções.

–Tudo bem, você não precisa se sentir na obrigação de me contar, afinal, nem somos tão amigos assim.

–É isso que eu quero mudar, Elesis.

Eu realmente estava começando a me assustar com o tom e o jeito de Lass. Ele parecia determinado. Isso me assustava bastante. Ficamos mais um tempo assim, num silêncio incômodo por uns minutos. Lass parecia estar esperando o momento certo para me falar. Poderia ser logo...

–Sabe, como saímos cedo hoje, eu nem fui à sua sala para praticar. – Iniciei um novo assunto.

–Não precisa justificar. Eu imaginei isso.

–Mas está tudo bem se eu começar a ir depois do recesso? – Eu nunca fui boa de começar conversas, mas acho que estou me saindo razoavelmente bem.

–Será um prazer. – Lass, até então, não olhava para mim, pois encarava o banco da frente – Se eu soubesse tocar violão, pediria ajuda a Edel ou tentaria ajuda-la. Mas não creio que ela precise. Edel toca estupendamente bem.

–Ainda quero ouvir um elogio assim. – Disse totalmente sem pensar, porém conseguir uma proeza de poucos: fiz Lass sorrir.

A música – Garota de Ipanema – que estavam tocando ficou como trilha sonora do nosso silêncio que estava se tornando cada vez mais comum.

Lass respirou fundo e me olhou.

–Na outra escola, eu sofri muito por um acontecimento. – Olhei para ele e até me acomodei mais na cadeira – Eu tinha muitos amigos, mesmo com meu jeito afastado e indiferente. Acho que já deu para perceber. – Lass deu uma pausa, esperando que eu concordasse, porém não precisava mesmo afirmar o que ele disse, então ele continuou – Mas depois do que aconteceu, eu não os via perto de mim. Estavam sempre mais distantes e fazendo brincadeiras de mau gosto.

–O que de fato aconteceu para que eles fizessem isso?

–Eu... – Lass olhou para frente. Do jeito que isso estava se repetindo, deduzi que ele olhou para Sieghart. Era como se o professor estivesse forçando-o a me contar e não deixar que Lass adiasse isso por mais tempo.

–Se for difícil para você, eu entendo.

–Eu acabei esbarrando em um menino mais magro e fraco que eu, sem querer eu o derrubei e... – Lass pouco se importou com minha preocupação e saiu falando, mas parou quando estava chegando à parte crucial. Acabei me inclinando um pouco para frente, na intenção se ouvir melhor – Eu não cheguei a beijá-lo, mas na visão do pessoal isso aconteceu e... Argh! Eles são uns merdas mesmo.

Lass não alterava o tom, mas dava para sentir a raiva em sua voz.

–Mas o que houve para você beijá-lo. QUASE, quase beijar o menino? – Corrigi-me a tempo e fiquei até anelante depois do erro que eu poderia cometer.

–Uns idiotas me empurraram. Idiotas esses que eu considerava amigos. E eu esbarrei no menino, caindo em cima dele logo depois. Ficamos bem próximos. – Lass abaixou os olhos – Muito próximos.

Lass respirou fundo. Não me encarou por um tempo que eu não consegui determinar.

–Depois do incidente, – Ele voltou a falar, mas continuou sem contato visual – eu saí de cima do menino e o ajudei a levantar. Daí começaram as piadinhas. “Está ajudando o namoradinho.”. “Não vai apresentar o bofe?”. Entre outras que você não noção.

Eu senti que a voz do Lass estava mudando. Não consegui identificar o tom, mas estava mudando.

–Só de imaginar que meus amigos fizeram isso comigo, eu... – Lass finalmente me olhou. Eu queria saber como minha expressão estava, pois queria passar para ele que não sentia pena e nem que estava achando que tudo era brincadeira. Queria mostrar que compreendia a situação dele – Foi assim que eu perdi a confiança nas pessoas, pois meus próprios amigos foram capazes de fazer isso comigo. Imagina um desconhecido?

–E onde eu e Edel entramos nisso? – Por mais rude que eu fui, precisava saber.

–Sieghart fez uma apresentação para a turma do quinto período e estava passando pelo corredor quando tudo aconteceu. Ele não chegou a ver tudo, mas ele pegou a parte das piadinhas. Sieg tentou conversar comigo, mas eu acabei negando qualquer contato. Fiquei dias sem ir para a escola. Mas as zoações continuaram em redes sociais, mensagens, enfim, ficou insuportável. E piorou quando eu voltei a frequentar a instituição. Sieghart novamente apareceu lá. Eu estava isolado. Odiava todos e ainda odeio. Ele me convidou para conhecer a escola onde ele lecionava. Não pensei duas vezes em sair daquele inferno. Mas disse que não queria me aproximar de ninguém, foi então que ele me falou de alguns alunos e vocês duas estavam incluídas. Sieg disse que você era bem diferente das meninas em geral e leal.

–Lass, eu... – Tentei encontrar as palavras – Eu não sei o que falar depois disso tudo. Eu não posso imaginar como você se sentiu e... Você confiou a mim essa história. Logo a mim, que te tratei de forma grosseira.

–Sieghart me falou do seu temperamento. Foi como um desafio para mim. – Ele sorriu brevemente e depois me encarou sério – Não quero que pense que isso foi um desabafo inútil.

–Jamais pensaria isso. – Ameacei abraça-lo, já que estava bem mais próxima, mas nada aconteceu. Eu mesma me espantaria caso fizesse isso. Tem mais a ver com a Edel, não comigo.

O silêncio pairou na conversa, mas esse silêncio foi bom. Foi aconchegante.

Sieghart se levantou lá na frente. Anunciou que havíamos chegado. Todos desceram do ônibus deslumbrados. O lugar era, em uma palavra, um paraíso. Deu uma sensação de paz assim que senti o vento em meu rosto.

Adentramos a imensidão daquele Resort. A professora Mônica e mais uma professora ficaram responsáveis pelas meninas e nos levaram para os quartos. Sieghart e mais dois professores com os meninos. Foi nesse momento que me afastei de Lass sem perceber e me juntei com Edel da mesma maneira.

Passamos um bom tempo escolhendo as camas e conhecendo os lugares, como onde faríamos nossas refeições, por exemplo.

Depois disso, teve um recado dos professores sobre responsabilidades e que não podemos, em hipótese alguma, sair do Resort. Após a comunicação, que foi feita num salão, fomos liberados.

Edel me puxou.

–Vamos trocar de roupa, não vejo a hora de mergulhar em uma piscina dessas.

Juro que tentei recusar, mas ela veio com “Você está me devendo! E eu não vou deixar você junto com o Lass o tempo todo, quero um pouco também.”.

Resolvi não protestar depois dessa. Demoramos um pouco, porque estava em dúvida no que vestir. É claro que Edel praticamente me obrigou a usar biquíni. Passamos o dia todo indo a diversas piscinas.

Encontramos Lass e aproveitei o momento para me aproximar dele. Talvez fosse errado eu fazer isso só porque ele me contou aquilo, mas eu sentia que precisava. Ou talvez seja como “Os fins justificam os meios”. Lass me deu uma toda a estrutura esperando que eu fosse a base.

E foi isso que eu fiz, busquei mostrar a ele que Sieghart não estava errado em pedir que ele se aproximasse de mim e Edel.

Ao entardecer, os professores – que também passaram um tempo naquele lugar esplêndido –, pediram que alunos saíssem das piscinas. Assim fizemos. Trocamo-nos e combinamos de sentar sempre os três juntos numa mesa.

Quando o cansaço bateu, eu e Edel fomos para os quartos. Ela ainda quis conversar sobre os planos do dia seguinte. Eu simplesmente dormi. Sonhei. Porém, não lembrei o sonho.

Acordei com o barulho irritante de meninas em um lugar só. Elas já estavam com a roupa de banho. Edel ainda dormia. Olhei para hora e eram dez e pouca. Resolvi acordá-la.

–Edel. – Chamei – Edel!

Ela se remexeu e virou para o outro lado. As meninas saíram do quarto e ficaram apenas eu e a dorminhoca.

–Edel! – Dei dois tapinhas no braço dela. Não foi uma boa ideia.

Ela se virou rápido e me puxou. Caí em cima dela. Ficamos, literalmente, com os corpos colados. Edel começou a rir, provavelmente da minha reação espantada e constrangida.

–Que foi, Elesis? Nunca ficou tão perto da face de uma menina?

–Edel! – Tentei me levantar, mas ela me abraçou, prendendo meus braços – Não está sendo agradável estar em cima de você!

Ela ria mais ainda. Tentei me mexer mais e Edel me soltou e eu caí no espaço livre da cama ao lado dela.

–Não faça mais isso. – Pedi, olhando para o teto.

–Você é muito fresca. Só nos abraçamos.

Sentei na cama.

–Isso não foi um abraço, Edel.

Levantei e peguei a primeira roupa que vi na mochila aberta. Troquei-me e saí do quarto.

O café da manhã já estava sendo retirado, estava sem fome mesmo. Fui dar uma volta. Estava com uma roupa básica, nada de piscina, por enquanto.

–Elesis! – Olhei para trás.

–Oi, Lass.

–Cadê a Edel? – Ele estava tão diferente, pois sorria. Ou era o sol que o incomodava e ele estava enrugando o nariz e “sorria”. Com certeza era o segundo motivo.

–Daqui a pouco ela aparece.

–Daqui a pouco não, agora. – Edel me deu um susto e me puxou pelo braço – Vou roubá-la só um pouquinho, tá Lass? – Ela piscou para ele e foi me levando.

–Para onde vamos, sua maluca? – Parei de andar – Não podemos deixar o Lass sozinho.

–É só por um tempinho, calma. Quero me redimir da brincadeira que fiz. – Ela me olhou arrependida.

–Para onde vamos?

–Umas meninas estavam conversando sobre uma lojinha que tem aqui. Vou comprar algumas coisas para mim e você escolhe algo para você.

–Sério? – Cruzei os braços e a encarei.

–Qual foi? Lá tem Wi-fi livre!

Balancei a cabeça, mas não pude negar que a raiva que senti foi embora em questão de segundos quando ouvi “Wi-fi livre”.

Esperei que Edel começasse a andar. Ela sorriu e seguiu o caminho da loja. Ao chegarmos, me senti entrando num shopping. Não pelo tamanho, mas pela variedade de coisas que tinha.

Edel foi direto para uma seção de espelhos. Fiquei parada. Ela pegou um e trouxe até mim.

–Olha a ruiva mais linda que eu já conheci! – E colocou o espelho a minha frente. Bateu a esperança de ver aquele rosto. Aqueles olhos.

Mas eu apenas me vi. Edel me deu o espelho e foi comprar as coisas dela. Fiquei apenas observando o movimento e, às vezes, olhava para o meu reflexo. Como ela demorou a fazer sua compra, sentei-me em um puff qualquer e mexi no celular. Deixei o espelho no meu colo.

Como ontem, passamos um bom tempo com o Lass, trocamos os números e, consequentemente, nos comunicávamos através de mensagens pelos aplicativos do celular.

–Eu sabia que você já ia para o vício.

Olhei para Edel e ela estava com uma cesta cheia de coisas. Até mesmo um biquíni novo.

–Vamos para a fila.

Ela pegou o espelho e eu levantei.

–Gostou desse?

–Edel... Eu acho que não preciso de um espelho.

–Mas ele é lindo. Vamos levar.

De fato, o espelho era bem ornamentado. Com traços dourados e veneziano. Era pequeno, para caber numa bolsa. Como se eu usasse bolsas... Ainda tinha o cabo, parecia uma réplica de espelhos antigos.

Não encontramos ninguém na fila, então fomos direto para o caixa. A menina bem antipática pegava os itens da cesta e quase jogava dentro da sacola. Quando foi fazer o mesmo com o espelho, Edel o pegou, como se fosse algo bem valioso. Dependendo do preço, deveria ser.

–Eu vou pagar por isso, você poderia ser mais gentil com minhas compras.

–As compras não sentem nada. – A balconista olhou de canto de olho para Edel.

–Mas você vai sentir já, já se continuar tacando as minhas coisas desse jeito na bolsa.

Tentei não rir do que ela disse, mas foi inevitável.

–Segura rapidinho. – Edel me deu o espelho e foi pegar o cartão de crédito no bolso.

Olhei para o meu reflexo de relance.

–Ah! – Dei um grito abafado e soltei o espelho. Fazendo-o se quebrar em vários cacos. O mais assustador foi que o pedaço do meio rachou e a imagem do menino continuava ali. Distorcida. Mas estava ali.

–Elesis! – Edel estava entregando o cartão para pagar.

Eu a olhei desnorteada.

–Você está bem? Ficou pálida de repente. – Edel olhou para o espelho – Poderia ter falado que era um objeto brega ou sei lá o quê, só não precisava quebra-lo.

–Edel, eu... Desculpa. Não foi por isso, eu vi... – Parei de falar e olhei ao redor da loja, todos estavam me olhando.

–Tudo bem. Esse que você escolheu, – Na verdade, eu não tinha escolhido nada – não é tão caro.

–Quero sair daqui. – Disse.

–Deixa só eu colocar a senha e já vamos, está bem? – Edel estava preocupada e eu não conseguia tirar a expressão de assustada do rosto.

Afastei-me um pouco e a esperei na porta.

–Vamos? – Ela apareceu atrás de mim com as sacolas.

No caminho ficamos em silêncio. Até que, por fim, Edel resolveu falar:

–Está tudo bem com você?

–O menino! Aquele estranho que eu vi na escola.

–Elesis... Como alguém pode aparecer no espelho sem ter sido você?

–Eu não sei, eu só... – Passei a mão no rosto e parei de andar. Estávamos perto de uns quiosques – Estou com fome.

–Então foi isso. A fome te fez ter alucinações de novo.

–É... – Eu sabia que não era isso. Não poderia ser. Quem era aquele garoto de olhos azuis?

–Elesis! – Olhei para trás e vi o professor Sieghart e a professora Mônica vindo em nossa direção.

–Pensei que estariam na piscina. – Disse a minha professora, observando nossas roupas.

–Eu já estou indo. Está muito calor para ficar só apreciando. Vai também Elesis? – Edel me olhou, ainda estava preocupada.

–Se não se importar, eu queria falar com ela. – Sieghart foi direto ao ponto e me encarava.

–Eu fiz alguma coisa errada? – Indaguei.

Sieg riu e olhou para o lado, voltando depois para mim.

–É só uma conversa. Nada de mais.

Edel me encarou e eu assenti.

–Encontramo-nos depois? – Perguntou ela.

–Sim. Eu te dou um toque para saber em que piscina você estará.

–Está bem. – Edel se afastou e levou a professora Mônica com ela. Nunca imaginaria ver uma cena dessas: uma menina entusiasmada com uma pessoa tão fechada.

–Podemos sentar? Eu andei muito atrás daqueles meninos idiotas que queriam ficar pulando nas piscinas. – Sieghart revirou os olhos e caminhou até o quiosque. Eu o acompanhei.

Sentamos nos bancos perto do balcão.

–Desejam alguma coisa? – Perguntou o rapaz.

Sieghart negou com a cabeça. Mas a minha barriga reclamou fazendo seu ruído diário e eu tive que me manifestar.

–Eu quero um copo de 500 ml de açaí.

Já estava na hora do almoço. O rapaz anotou meu pedido e foi atender um casal que havia sentado nos bancos.

–Então, o que é tão importante assim?

–Eu não disse que era importante. – Sieghart tinha uma mania feia de cortar nosso barato.

–Enfim, o que você quer?

Ele se ajeitou no banco e, como o mesmo rodava, Sieg se virou para mim.

–Sei que conversou com Lass. Eu mesmo pedi que ele contasse a história.

–Sim, ele me contou e...

–Elesis, eu sinto que o Lass será um grande pianista. Eu não sei o que há com ele, mas ele tem um jeito diferente e tão apurado de tocar que impressiona a todos. Até mesmo a mim. Eu pedi que ele fizesse isso, que ele se aproximasse de vocês e visse que ele pode ter amigos, porque...

Sieg se calou quando o rapaz trouxe o meu açaí. Enchi a colher e me deleitei com o sabor. Olhei para Sieghart.

–O Lass pensou em parar de tocar.

Quase me engasguei. Coloquei a colher de volta no copo e passei a mão na boca.

–O quê?! Ele não pode! Eu já o vi tocar, é... Excelente! – Não deu para esconder minha surpresa e minha indignação.

–Eu sei, eu sei. – Sieghart inspirou – Por isso eu estou contando com a sua ajuda. Eu quero o Lass como meu aluno e como um ilustre pianista. O mundo artístico não pode perdê-lo.

–Tudo bem. Se for só isso, eu já estou ciente e até me aproximei dele. – Voltei a tomar o açaí.

–Eu também a quero muito em minha turma. Sei do seu potencial, Elesis.

–Então por que me reprovou? Foi um erro mínimo de tom.

–Sou um professor que nunca reprovou um aluno.

–Como não?

–Vocês que se reprovam com “um erro mínimo de tom”. – Sieghart fez o sinal das aspas com as mãos – Qualquer erro, por menor que seja, é notável. E o magistério não pode deixar que isso passe. Não é digno de o professor ver o erro e não consertá-lo.

–Entendi...

–Não, você não entendeu. Continua se comportando como se a culpa fosse nossa, dos professores que avaliaram. Você poderia ter se dedicado mais.

–Eu me dediquei! – Alterei meu tom sem perceber.

–Eu notei. – Disse Sieg, num tom irônico.

–Você não entenderia se eu contasse.

–Você já tentou contar para tirar suas conclusões?

Aquela conversa parecia até que era de pai para filha. Talvez fosse disso que eu estava precisando de vez em quando.

Eu abri a boca. Talvez, se eu contasse para o Sieghart sobre o que eu via no espelho, ele pudesse compreender um pouco a minha distração. Porém, essa não era a causa principal. Eu já vinha perdendo o foco há um tempo.

–Preciso resolver umas coisas. Ligar para o rapaz do ônibus para nos buscar amanhã. Aproveite bem para descansar.

Sieg saiu da cadeira e sumiu da minha visão ao virar o quiosque. Tirei o dinheiro do bolso e paguei o rapaz. Peguei o açaí e saí. Mesmo comendo aquilo, eu ainda iria almoçar.

Recebi uma mensagem de Edel. Ela estava avisando para nos encontrarmos no restaurante e que o Lass estava com ela.

Dito e feito. Passamos o dia juntos. Eu nem lembrava mais do episódio do espelho. Ficamos na piscina por um bom tempo. Até que o clima mudou e começou a esfriar. Aproveitamos para dar uma volta pelo próprio lugar colossal. O prédio era lindamente decorado.

Nem dava para acreditar que eu estava ali. Mas tudo que é bom, dura pouco. Anoiteceu e fomos dormir. Não tive sonho. Na verdade, eu nem dormi muito, porque eu e Edel ficamos conversando.

A professora Mônica bateu na porta do nosso quarto, avisando que sairíamos em meia hora.

Na volta para casa, eu vim com a Edel ao meu lado, ela dormiu a viagem toda. Então foi a vez e eu e Lass conversarmos. Ele estava no banco ao lado, já que eu fui sentada na cadeira do corredor.

Não sei de onde surgiu tanto assunto e, mesmo com os momentos em silêncio, já não era tão incômodo estar com ele como antes.

Ao chegarmos, despedi-me de Edel – ainda sonolenta –, e segui o caminho de casa junto com Lass. Percebi que Sieghart nos observava.

–Até segunda. – Disse Lass, atravessando o cruzamento.

–Até o Whatsapp. – Sorri e fui para casa.

Cheguei a casa e minha mãe estava no trabalho, afinal, era terça-feira.

Mas a semana passou rápido. Pelo menos não deu para sentir o tédio. Deu para treinar bastante as partituras que eu escolhi. Exceto uma... De Johann Sebastian Bach. Ele será o meu carrasco no piano. E será o meu desafio para melhorar. Afinal, “quem aprende a tocar Bach, pode tocar qualquer música.”.

Quando passei um tempinho com a minha mãe, ela quis saber de tudo sobre o passeio. Tinha até deixado de lado a conversa sobre o resultado.

Lass, Edel e eu não perdemos o contato durante os dias de recesso. Era mensagem até altas horas da madrugada.

“Nem acredito que estamos no último dia de recesso, passou tão rápido.”

Essa frase era a mais lida e vista nas redes sociais.

É... Domingo não tardou a chegar. O dia seguinte começaria tudo de novo. Sinceramente, eu estava sentindo falta. Ainda mais agora que tenho um grupo firme de amigos.

–Mãe, o que você colocou na lasanha? – Perguntei, terminando de jantar.

–Por quê? Está ruim?

–Não é isso, pelo contrário. É que me deu sono.

–Então pode ir. Deixa o prato aí que depois eu lavo.

Não tive como recusar. O sono estava descomunal. Subi e deparei-me com a cama cheia de papel e o teclado em cima. Coloquei num canto e depois joguei todas as partituras no chão e me joguei na cama. Sem nem ao menos tirando a colcha.

Não sei onde estava, mas era um lugar escuro. Mas eu estava com os olhos abertos. Uma luz foi acesa e eu pus o braço na frente do rosto, como proteção. Quando o local estava iluminado, afastei meu braço e observei o lugar. Eu vi o meu reflexo. Havia vários espelhos a minha frente. Girei sem sair do lugar.

Era uma sala espelhada.

–Ei! – Gritei. Mas não tive resposta – Ei!

Alguém havia gritado comigo, porém não era eco. Era uma voz diferente, mas eu não sabia identificar.

–Ei! – Novamente um grito duplo.

Olhei ao meu redor. Os espelhos estavam se aproximando de mim. Eu estava presa. Eles se aproximavam mais e mais. Como se fossem me sufocar. Talvez fossem.

Gritei por socorro, mas minha voz não saiu e minha garganta secou. Meu peito doía pela força que eu fazia em meus pulmões em busca de ar. E os espelhos se aproximavam mais e mais. Temi que todos se quebrassem em cima de mim. A dor que me causaria. O sangue.

Agachei-me no chão e me protegi com os braços. Uma proteção banal, mas que me dava o mínimo de segurança.

Senti a textura do espelho frio tocando a minha pele. Envolvendo-me. Gritei o mais alto e forte que pude. Nenhum som.

Levantei-me num impulso e atravessei os espelhos que me envolviam, como se eu estivesse num casulo.

Caí do lado de fora. Ou do lado de dentro?

Minha mente estava confusa. Era como se eu estivesse em outra dimensão. Sei lá. Eu via duas portas e eu estava no meio de um corredor. Um corredor diferente de tudo o que eu já vi. Sem paredes, sem chão e sem teto, mas eu sabia que estava num corredor.

A porta à minha esquerda se abriu e eu ouvi chamarem meu nome. A da direita também se abriu e também chamou pelo meu nome.

Ambas as vozes eram de meninos. Apenas um eu consegui identificar.

–Elesis! – Os chamados entraram em sincronia. – Elesis! Elesis! Elesis!

Meu nome era repetido várias e várias vezes. Tampei os ouvidos. Olhei para as portas e elas se abriam e se fechavam com força, fazendo um estrondo horrível. Eu tentei olhar para o interior delas. A da direita parecia a minha escola, mais precisamente a parte que leva ao banheiro feminino. A porta da esquerda dava também para o banheiro, mas eu não identificava o local.

Dei um passo para a esquerda e as duas portas se abriram. Eu vi. Eu sei que vi. Mas o quê? O que eu estava vendo? Minha visão estava embaçada. Estiquei o braço para frente. Alguém também esticou o braço. As portas se fecharam e um espelho apareceu. Olhei para trás e a da direita havia sumido. Era só o vazio atrás de mim.

Dei mais um passo e o espelho se quebrou. Um caco veio em minha direção. Os olhos azuis estavam nele.

Elesis!

–Ah! – Acordei ofegante e com a mão no peito. Sentei na cama e senti o suor em meu rosto. Busquei por ar – Que pesadelo... – Sussurrei para mim mesma.

O vento gélido passou pela janela aberta a balançou a cortina. O tempo estava mudando, mas só esfriava à noite e ficava nublado e com mormaço mais cedo.

Olhei para o despertador pequeno que ficava na cabeceira ao lado da cama e ainda era de madrugada.

Voltei a deitar, torcendo para não ter outro pesadelo.

"Jamais se desespere em meio as sombrias aflições de sua vida, pois das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda."

(Autor desconhecido)

Notas finais
Esperamos que tenham gostado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.