Inevitável

4 Preciso falar com você...


Notas iniciais
Oi oiiiiiiiii... Gomen gomen pelo tamanho exagerado do capítulo, mas acho que vai valer a pena se você ler até o fim o/ Me empolguei na escrita, mas é que vai de manhã até a noite e tinha o amistoso. Lembrando que não foquei muito no basquete em si! ^^ Boa leitura pessoal!!!

~Kagami Taiga~

– Kagami-kun, você está bem? – Kuroko perguntou, olhando atento para o amigo no intervalo entre a primeira e a segunda aula.

– Estou um pouco cansado... – Kagami admitiu enquanto estava em pé olhando pela janela. Ainda chovia bastante, mas ele não prestava atenção naquilo. Planejara chegar apenas para as aulas da tarde devido ao cansaço que sentia, mas como não dormira mesmo decidiu simplesmente levantar e sair. Era melhor se distrair do que ficar rolando na cama.

– Não dormiu por causa do amistoso de novo? – O menor oerguntou interessado ao aproximar-se.

– Também... – Sorriu discretamente. Realmente estava ansioso com partida, mal esperava para as 17h. Mas pensara a noite inteira sobre outras coisas também. – Na verdade têm muita coisa acontecendo na minha cabeça e ainda estou um pouco confuso.

– Posso ajudar?

– Acho que não, Kuroko! – Taiga falou virando-se para encará-lo. Não achava prudente dizer nada ainda, apesar de serem amigos. – Mas obrigado.

– É o Aomine-kun, não é? – Disparou o menor, fazendo o corpo de Kagami se sobressaltar internamente. Não estava esperando que o azulado falasse aquilo. Como diabos ele sabia?

– P-por que acha isso? – Disfarçou olhando janela afora novamente, amaldiçoando-se por gaguejar em sua frase.

– Ele era minha antiga luz, e você é a nova! Conheço ambos... E vocês estão agindo de forma parecida ultimamente.

– Ah, é? – Kagami perguntou interessado, olhando-o de esguelha. – Como assim?

Você só fala dele e ele só fala de você. – Kuroko simplificou dando de ombros e voltando a sentar-se em sua carteira. O professor estava entrando na sala. – Deviam parar de falar tanto e começar a agir logo de uma vez.

– Do que você está falando? – Kagami estava um pouco aflito quando questionou o amigo.

– Você sabe, Kagami-kun! – Kuroko sorriu voltando seu olhar para o professor, que já cumprimentava a turma.

– Oe, Kuroko! – Sussurrou na tentativa de chamar atenção do menor, mas sem sucesso.

A aula já começara, mas o professor parecia falar em um idioma estranho, pois Kagami não conseguia entender nada do que ele dizia, sequer estava prestando atenção em suas palavras. Ficou perturbado demais para isso.

Pronto! Agora, de alguma forma misteriosa até Kuroko sabia o que estava passando na cabeça de Kagami. Mas do que diabos ele estava falando? Que estava na hora de agir... Como assim está na hora de agir? Como se ele soubesse de tudo o que acontecia! A menos que Aomine realmente conversava com ele sobre o assunto. Mas se fosse esse o caso, significava que o moreno também estava apaixonado, não é?

Aquele pensamento o deixou levemente eufórico. Não que Kagami realmente estivesse apaixonado, mas aquele novo jeito de Aomine o deixou pensativo de alguma forma... Era fácil sorrir quando estava com ele, apesar das provocações irritantes e das piadas idiotas. Sem falar que ele era uma das poucas pessoas que sabiam sobre sua família estranha. E era extremamente agradável jogar basquete com ele. E ficava feliz ao receber mensagens e ligações... E... E...

Droga... Quem estava enganando? Estava gostando de Aomine sim e queria tentar ir adiante com aquilo. Kagami suspirou fundo e fez uma careta ao admitir isso para si mesmo. Teria que aceitar e parar com aquela resistência de uma vez. Não tinha mais volta, como a própria Alex dissera. Estava sendo infantil.

Pensara a noite toda depois de tanto tempo na inércia, e foi apenas nessa conclusão que chegou. Estava se apaixonando pela primeira vez em sua vida e não queria perder aquilo, mesmo que fosse por um homem. Mas será que deveria falar com Aomine ou simplesmente ignorá-lo? Seu íntimo queria falar a verdade, conversar com ele e sabe-se lá o que viria em seguida, mas sua razão o impedia, talvez por medo. Não imaginava qual seria a reação do outro, tinha certo receio de que ficasse um clima chato entre eles depois, ainda mais se fosse uma coisa unilateral.

Alex dissera algo interessante e que realmente poderia ser o motivo de sua resistência. Será que estava fugindo disso por causa de seu pai? Jamais se esqueceria da enorme briga que aconteceu em sua casa no dia em que Nick admitiu estar apaixonada por uma mulher.

– Cadê o respeito pela sua família?– O pai de Kagami gritou em inglês assim que olhou para as moças de mão dadas.

Aquilo assustou Kagami, que na época tinha 14 anos. Ele apenas olhava boquiaberto para seu pai, não esperava uma reação daquelas do homem que tanto admirava. Não entendia direito na época, mas apoiava Alex e Nick... Mesmo que fossem duas garotas elas se gostavam bastante, e além do mais Alex era conhecida da família e sua treinadora de basquete. Que mal tinha?

– Você não é meu pai! – Nick respondeu à altura, dando um passo para frente. – Não devo satisfações a você!

– Malcriada! Onde está sua mãe? – O velho bradou olhando ao redor. Ele tinha um sotaque japonês forte, principalmente quando ficava zangado. – Anette, venha até aqui, por favor!

– Ela me apoia! – Nick rosnou olhando para o corredor, de onde vinha o barulho de passos calmos.

A mãe de Taiga surgiu pela porta. Seu cabelo ruivo estava solto e caía pelas suas costas, ela já se arrumava para dormir. Abraçou a menina pelos ombros e dirigiu-se ao pai calmamente.

– Deixe-a. Ela já tem idade o suficiente para saber o que é melhor para ela, e Alex é uma menina adorável.

– Vocês perderam a razão? – Ele surtou olhando-as com raiva. — Só aqui na América para vermos essas coisas!

– Então volte para o Japão! – Nick gritou, fazendo seus cabelos curtos e vermelhos balançarem. – Eu amo a Alex e você não tem nada a ver com isso, na verdade não sei nem por que você ainda não foi embora.

– Eu irei! Não vou suportar viver entre esse tipo de gente. – Ele gritou olhando da menina para Anette e então para Kagami. Não olhava para Alex. – Mas meu filho vem comigo.

E foi assim que Kagami voltou à força para o Japão. Passou alguns meses morando com o pai, mas ele parecia estar enlouquecendo, reclamava dia após dia do seu casamento falido com Anette e resmungava sobre a situação de Alex e Nick. Depois disso simplesmente sumira por um longo tempo e raramente mandava um e-mail. Pagava as contas do filho como se fosse uma pensão, mas não ligava e nem mesmo o visitava.

Kagami tinha certeza que se por acaso o pai descobrisse que estava gostando de um homem faria um escândalo pior e com certeza sumiria no mundo para sempre. Alex tinha razão, aquele era seu receio, sua única barreira. Mas seria capaz de enfrentar o pai para tentar algo com Aomine? Isso é, se tivesse a coragem necessária para falar algo. Balançou a cabeça tentando não pensar mais no assunto, já havia decidido, não é? Falaria com Aomine, sem fugir.

– Algum problema, Kagami Taiga? – O professor perguntou, olhando sério para o ruivo. – Precisa ir até a enfermaria?

– Ah... Sim, eu irei! – Balbuciou ao levantar-se com dificuldade. Demorou a perceber que o professor falava com ele. – Não estou muito bem.

– Suas notas também não! – Apontou o docente assim que ele saiu da sala.

Kagami mal ouviu, simplesmente precisava descansar. Preocupar-se-ia com aquilo mais tarde.

***

Aquele sinal conhecido e calmo soando pelo ambiente o fez despertar, assim como o barulho contínuo de passos e vozes. Dormira profundamente, pelo que parecia. Kagami levou algum tempo para lembrar que estava na enfermaria da escola, o cheiro de desinfetante denunciou o local. Fechando novamente os olhos, ele pegou no bolso da calça o celular para ver a hora.

– Fodeu! – Sentou-se assustado. Já era 15h30min. Dormira o tempo inteiro das aulas.

– Está melhor, Kagami-kun? – Uma voz perguntou do nada.

Com um arrepio percorrendo todo seu corpo, o ruivo olhou para o lado e viu Kuroko lendo um livro em uma cadeira. Seu coração quase parou. Achava que já se acostumara com as aparições do amigo, mas na verdade não se acostumara com bosta nenhuma, ainda mais depois de assistir Fantasmas III. Era um pouco complicado dormir sozinho depois daquilo.

– Não faça isso! – Kagami pediu, ainda um pouco abalado. – Mas sim, já estou melhor. Estava cansado, só isso.

– E sua cabeça, como está? – O menor questionou, fechando o livro e apoiando-o sobre as pernas.

– Não estava com dor de cabeça. – O ruivo indagou um pouco confuso com a pergunta, franzindo a testa.

– Estou falando dos seus pensamentos, Kagami-kun! – Kuroko sorriu olhando-o da forma mais marota que seu rosto permitia e cutucando-o na testa com o dedo indicador.

– Ah! – O ruivo suspirou relutante, mas sorriu em seguida. – Já dei um jeito.

– Que bom. E vai agir? – O outro perguntou, parecia satisfeito.

– Vou! – Respondeu de forma determinada.

Não tinha problemas com o fato de estar apaixonado por um homem, era muito bem resolvido para se importar com algo trivial assim. Faria assim como Alex, agiria de forma madura e iria conversar. Caso tudo desse errado, paciência.

– Ele vai ficar feliz. – Sorriu Kuroko.

– Sinceramente... – Kagami admitiu olhando para a chuva que caía lá fora. — Eu também vou.

– É bom ouvir isso! – O outro falou vagarosamente, olhando para a chuva também.

– O que você sabe? – Kagami perguntou, não aguentando a curiosidade.

O menor apenas olhou e sorriu para o ruivo. Disse por fim:

– O suficiente para ter certeza de que vai dar certo!

– Para de falar desse jeito cheio de enigmas, Kuroko! – Kagami irritou-se, colocando as pernas para fora da cama da enfermaria. Mas não pôde deixar de sentir novamente aquela euforia. Kuroko achava que daria certo, no final das contas.

– Concentre-se no amistoso agora. – Kuroko pediu, levantando-se da cadeira. – Você não almoçou, precisa comer alguma coisa logo. Está pálido.

– Verdade. Estou morrendo de fome. — Kagami revelou, realmente sentindo um enorme embrulho no estômago. – Vamos nos esforçar e vencer!

– Vamos! – O menor sorriu estendendo o punho.

Kagami retribuiu o gesto.

– Sem contar que você ainda tem um Curry para fazer hoje, vamos logo! – Disparou o menor, já saindo da ala da enfermaria.

– Oe!

***

~Aomine Daiki~

Chegaram à Seirin às 16h30min e ainda chovia muito. Era uma escola normal, nada de beleza extravagante. Ainda era recente, apenas com três anos de funcionamento. Entretanto, seu nome no basquete cresceu consideravelmente após a Winter Cup.

O time de Touou dirigiu-se até o ginásio aos fundos, acompanhados pela treinadora Riko Aida. Ela tinha uma expressão sombria demais para o gosto de Aomine, e Momoi fazia a mesma cara naquele momento. Tinha certeza de que havia alguma rixa ali, só não sabia o motivo causador!

– Podem entrar! – Riko comentou, apontando para dentro da quadra, onde ecoava o barulho constante de bolas sendo quicadas e tênis deslizando. Todos entraram calmamente, já se dirigindo ao banco, onde deixariam suas mochilas. Não teriam vestiário ali.

Aomine sentiu a empolgação percorrer todo seu corpo ao ver aquele cabelo ruivo ao longe. Taiga estava lá, uniformizado e rodeado pelo cara de óculos e Tetsu. Mas... Sentado? Por que não aquecia como os outros? Não se importou, simplesmente foi em direção a ele, sem prestar atenção no resto do time.

– Onde pensa que vai, Dai-chan? – Momoi questionou irritada. – Vai aquecer, já!

– Só vou dar “oi”! – O moreno sorriu, dando as costas para a amiga e seguindo para o lugar onde realmente queria estar.

Pelo jeito Taiga não percebeu sua aproximação, olhava para os próprios pés. Ele estava... Levando bronca?

– Já disse para você parar com essa infantilidade e começar a dormir direito nos dias de jogos! – Dizia o de óculos em tom autoritário. – Onde já se viu ficar na enfermaria o dia inteiro!

Enfermaria?

– E não esqueça que além de descansar você precisa tirar boas notas para poder jogar. – Testu disse calmamente. – Te passarei a matéria, mas foi bastante coisa e teremos prova semana que vem.

– Eu... – O ruivo começou a falar, mas estava com dificuldades para se expressar.

– Taiga! – Aomine o chamou de forma sarcástica, se aproximando para evitar o mal estar do outro. – Vai bater o seu recorde de ontem?

Do fundo da alma o moreno desejou poder ler pensamentos para saber o que passou pela cabeça do rapaz naquele momento. Kagami olhou para cima com uma expressão realmente fascinante ao vê-lo. Alguma mistura de alegria, vergonha, alívio, determinação e surpresa que quase deixou o moreno sem jeito. Na verdade deixou... Mas Aomine disfarçou na hora.

– Cala essa boca, Daiki! – Ele sorriu imediatamente, levantando-se determinado. Parecia meio pálido. – Vou fazer você cheirar o chão.

– Ah, mas não vai mesmo! – O rapaz de óculos falou, empurrando Kagami pelos ombros e fazendo-o sentar novamente no banco.

– Capitão, juro que estou bem! Preciso jogar! – Kagami pediu em voz alta, cerrando os punhos e olhando da quadra para Aomine. Ele não queria se rebaixar, não admitia que estava passando mal. Era um teimoso mesmo.

– Você não está em condições de jogar, e é tudo sua culpa por não se cuidar. Fique sentadinho e pense sobre o que fez. – O de óculos finalizou com uma expressão irritada, já se retirando após dar um leve aceno de cabeça para Aomine. – Lembre-se que Riko nem falou com você ainda. Você está morto, meu caro.

– Descanse por enquanto, depois a gente te coloca no jogo. – Tetsu sorriu dando um tapinha nas costas de Kagami ao se levantar. — Olá Aomine-kun!

O moreno acenou com a cabeça para o menor fingindo estar rindo da situação, mas no fundo estava preocupado. Sentou-se ao lado de Kagami e o olhou. Ele agora estava um pouco despontado, mas aquela expressão fascinante ao ver Aomine não saiu completamente de seu rosto.

– O que tá rolando aí, Taiga?

– Nada! – Ele respondeu meio sem jeito. Virou-se repentinamente para encará-lo. – Não pense que escapou de mim, Daiki.

– Não estou pensando em nada! – Aomine sorriu fazendo um gesto de rendição com as mãos. – Afinal, o quê aconteceu pra você fugir do jogo?

– Cala a boca seu idiota, não estou fugindo! – Kagami resmungou entrelaçando os dedos ao apoiar os cotovelos em sua perna. – Passei a tarde na enfermaria porque não consegui dormir direito. Minha última refeição foi o café da manhã e estou meio fraco.

– Parabéns Taiga! – Aplaudiu sarcasticamente, vendo de relance uma mancha cor-de-rosa se aproximar antes que o ruivo pudesse rebater sua provocação.

– Dai-chan, conversem depois! – Chegou uma Momoi enfurecida. – Vá se aquecer agora.

– Já decidi! – Respondeu com um sorriso, abraçando Kagami repentinamente com um dos braços. – Vou jogar apenas quando o Taiga aqui for entrar.

~Kagami-Taiga~

Kagami quase sentiu seu coração sair pela boca quando Aomine o envolveu. Prendeu sua respiração e só alguns segundos depois percebeu que precisava soltar o ar. Não estava esperando aquilo de forma nenhuma, nem o toque e muito menos aquela proposta besta de jogar apenas com ele.

– Não senhor! — A menina rebateu, ficando cada vez mais irritada e corando levemente por isso. – Levante-se nesse exato momento.

– Coloque o Kou no meu lugar, ele precisa se acostumar com a pressão dos jogos antes do Interescolar. – Daiki falou dando de ombros. Puxou Kagami para mais perto até seus troncos se encostarem e continuou: – Além do mais, a única pessoa que me interessa na Seirin é o Taiga!

Kagami lembrou-se novamente de que precisava respirar, era fácil esquecer quando o braço de Aomine estava em volta de seu ombro e seus corpos se encostavam. Estava sem jeito ali, não conseguia pronunciar nada e seu coração pulava rápido demais. Depois do sonho, da conversa com Alex e de sua decisão final não podia deixar de sentir levemente agitado com aquilo.

– Não volte a ser o mesmo idiota de antes, Dai-chan. – Momoi pediu estreitando os olhos perigosamente. Seu tom de voz era pura ameaça, mas Kagami não entendeu onde ela queria chegar. – Você vai estragar tudo.

– Tá bom, tá bom. – Aomine disse, revirando os olhos para a menina, mas sem se afastar do ruivo, que ainda estava sem reação.

– Te espero em dez segundos ali na fila do arremesso. – Ela finalizou brava, retirando-se sem sequer olhar para trás.

– Melhore logo, seu idiota. – Aomine pediu, levantando-se e encarando-o por um longo tempo.

– Vai lá jogar, vai. – Foi o que conseguiu responder, olhando de esguelha para Aomine.

– O jogo não tem graça sem você. – O moreno finalizou dando um leve peteleco na testa de Kagami antes de se afastar. O ruivo não teve tempo ou reação para responder.

OK, já estava decidido mesmo, não é? Não tinha por que ficar desconfortável com sua decisão final... Gostava de Aomine e que se foda o resto. Sorriu de leve, ainda que estivesse com o batimento um pouco acelerado.

– Do que você pensa que esta rindo, Bakagami?

Sentiu um arrepio percorrer a totalidade de sua espinha quando olhou para o lado. Riko Aida parecia um furacão cheio de raios ao se aproximar.

– D-desculpe... – Foi o que conseguiu balbuciar antes de qualquer outra coisa.

Realmente estava se sentindo um idiota completo por ter vacilado e dormido a tarde inteira sem comer nada. Sentiu-se fraco assim que saiu da enfermaria, e quando chegou à lanchonete para alimentar-se, empanturrou-se com muita coisa e começou a passar mal de novo. Estava extremamente irritado consigo mesmo, mas agora teria que se recuperar para poder jogar. Não deixaria seu time na mão de forma alguma, e não permitiria que Aomine saísse por cima naquela situação.

– Não adianta pedir desculpas! – Ela se irritou fechando os olhos com força. – Sorte sua que é um amistoso. Do contrário você estaria morto, Kagami Taiga!

– Não foi por querer, treinadora... – Começou.

– Compre um remédio para dormir na próxima vez. – Ela bufou sentando-se ao seu lado, apenas observando os outros aquecerem na quadra. – No terceiro quarto eu pretendo te colocar no jogo. Aomine e Kou vão começar jogando, então trate de se preparar.

– S-sim! – Balbuciou, um pouco apreensivo.

– Se ao menos esse ano Teppei estivesse com a gente... – Ela lamentou, olhando para Hyuuga. – Nossos jogadores novos são bons também, mas estão despreparados.

– Sim, Teppei fará falta. – Kagami arriscou olhando de esguelha para Riko. – Mas ainda temos os outros senpais.

– Não posso negar que estou um pouco receosa com os campeonatos desse ano. – Riko continuou de forma mais suave, para alívio de Kagami. – Mas ano que vem minha preocupação será bem maior. Não estaremos mais aqui.

– Já pensei nisso também. – Kagami comentou com um muxoxo desanimado. Tinha medo do destino do time sem uma técnica e sem os senpais.

– Na verdade a partir da metade deste ano nós somos obrigados a nos afastar do basquete devido ao vestibular e as provas finais. – Riko revelou de forma triste. – Isso me incomoda tanto.

– Oe... É sério isso? –Kagami perguntou extremamente surpreso.

– Sim. – Riko disse tristemente ao olhar para ele. – É uma norma da escola. Alunos do terceiro ano precisam se afastar das atividades dos clubes na metade do ano.

– E como ficará o time? – Questionou incrédulo.

– Até o fim do ano meu pai vai dar uma mão para treinar. — Ela amenizou a situação com um gesto de mãos. – Minha preocupação são os jogadores. É só olhar para deduzir que nosso time não recebeu nenhum prodígio no basquete esse ano.

– Não iremos perder! – Kagami a tranquilizou. – Ainda somos um time, não é mesmo? Treinaremos duro assim como no princípio.

– É! – Ela sorriu tristemente. Em questão de segundos voltou a ficar irritada. – Agora fique quieto e melhore logo. E mesmo que a gente perca o jogo você vai fazer Curry, então vai começando a se recuperar.

Sem esperar resposta ela se levantou e chamou o time para se reunirem ali no banco, pois o jogo iria começar. Touou fez o mesmo.

Tirana... Foi o que Kagami pensou antes de lançar um olhar discreto para Aomine. Naquele momento o moreno também o encarava, seu coração descompassou quando os olhares se cruzaram. Instantaneamente o ruivo voltou a admirar seu próprio time, que de repente se tornou muito mais interessante do que qualquer outra coisa no mundo.

– Pessoal, vai ser bem complicado! Aomine e Kou sairão jogando. – Riko começou a falar, olhando de esguelha para Momoi e o resto de Touou. – Melhor vocês segurarem as pontas até a nossa Bela Adormecida conseguir jogar. – Ela apontou para Kagami, que estava sentado e emburrado. — Pretendo colocar ele apenas no terceiro quarto, então vou iniciar com Hyuuga, Kuroko, Mitobe, Koga e Izuki. Depois com o desenrolar dos quartos vou colocando os calouros para jogarem também.

– Vamos lá, Seirin! — Hyuuga vibrou animado, assim que Riko terminou de falar. — Vamos vencer a todo custo.

– Vamos! — Todos vibraram assim que se dirigiam ao meio da quadra.

***

Realmente, o jogo não estava fácil. Em apenas um quarto e meio a diferença de pontos era gritante: 41 para Touou e 23 para Seirin.

O jogo estava concentrado essencialmente nas mãos de Aomine e Kou. O novato parecia uma mulher, mas era bom mesmo, um armador de primeira que possuía uma excelente visão de jogo. Izuki não conseguia segurá-lo por muito tempo. Lógico que não se comparava à Akashi como armador, mas mesmo assim estava complicado. Para piorar a situação, Aomine brincava na quadra e sempre lançava olhares provocativos para Kagami. Lógico que estava esperando o ruivo para finalmente se divertir.

– Deixe-me entrar! – Pediu para a técnica, após o milésimo sorriso do moreno.

– Quem me dera! – Riko lamentou-se irritada. – É só olhar essa tua palidez para desistir da ideia na hora.

– Eu insisto! — Kagami exclamou, levantando-se. – O erro foi meu. Deixe-me redimir da forma que eu posso.

Ela o encarou por alguns instantes. Kuroko, que foi para o banco já no final do primeiro quarto, levantou-se também.

– Deixe-nos jogar até o final do segundo quarto! – O menor pediu com determinação. – Vamos diminuir essa diferença de pontos para entrarmos com mais tranquilidade depois.

Ela ponderou por alguns instantes, com a mão no queixo. Olhou de um para outro e por fim consentiu, apenas com um aceno de cabeça.

– Kagami-kun! – Ela chamou assim que eles começaram a retirar as jaquetas. – Se você passar mal vou te tirar imediatamente. É apenas um amistoso, não se esforce tanto.

– Eu sei! – Ele sorriu determinado olhando para Aomine. – Mas não vamos perder.

Ela sorriu fracamente, balançando negativamente a cabeça ao se dirigir até a mesa dos juízes, improvisados, no caso. Assim que o apito soou, todos os olhares foram na direção da linha lateral. O sorriso que abriu no rosto de Aomine naquele instante foi o suficiente para deixar Kagami mais animado ainda, apesar de não estar totalmente recuperado. Sentia um leve embrulho no estômago, mas não se importava, iriam vencer a todo custo.

– Finalmente vai deixar de ser menininha, Taiga? – O moreno perguntou, passando por ele com um sorriso sarcástico enquanto voltava para o garrafão.

– A única menininha aqui é você, Daiki! — Sorriu ao cerrar o punho e socar o braço do outro. – Agora o jogo vai começar.

***

A partida corria de forma árdua e acirrada. Os jogadores de ambos os times já estavam exaustos e extremamente suados quando o apito soou.

Falta para a Seirin. Dois lances livres e o ponto valeu. No final do último quarto aquilo foi extremamente bem vindo, diminuindo a diferença para apenas quatro pontos. Seirin 62 x 66 Touou.

Após a entrada de Kagami e Kuroko foi evidente que Touou marcara menos pontos, mas de qualquer forma Seirin ainda precisaria se esforçar muito mais. Como esperado, Kagami marcou Aomine e Izuki permaneceu tentando controlar Kou, mas estava completamente impossível segurá-los. Eles pareciam ter treinado bastante tempo juntos, então trabalhavam em equipe com o time inteiro, o que os tornava sensacionais em quadra.

Mitobe, que sofreu a falta, converteu os dois lances livres diminuindo a diferença para dois pontos. Agora era só uma questão de tempo para alcançá-los, mas Touou não parecia inclinada a permitir uma virada.

Faltava menos de dois minutos para a partida terminar. Kagami estava cansado e seu estômago não estava ajudando muito. Agora era apenas ele, Hyuuga, Kuroko, Mitobe e um rapaz do primeiro ano, não conseguia lembrar o nome no momento, mas ele ajudava bastante, principalmente com a marcação de Kou. Aomine também estava tendo algumas dificuldades em passar por Kagami, seu sorriso presunçoso não estava mais estampado no rosto, ele estava jogando sério e isso deixava Kagami mais animado ainda.

O tempo estava acabando, faltava menos de um minuto agora. Kagami olhou para Kuroko. Sabiam exatamente o que fazer.

***

Novamente o apito soou. Final de jogo sem vencedores, para desapontamento geral. 68 x 68. Como era apenas um amistoso entre escolas o jogo encerrava com o fim dos quatro quartos, independente do resultado. Ninguém saiu muito feliz com aquilo, o rosto fechado de todos os jogadores deixava bem claro enquanto dirigiram-se ofegantes para as linhas centrais.

– Foi um bom jogo! – Momoi sorriu para Riko após a reverência dos times, que já iam até o banco arrumar as coisas para ir embora. – Vejo vocês no Interescolar.

– Estaremos esperando! – A treinadora sorriu determinada.

O resultado fora melhor que o esperado. O time de Seirin era especialista em viradas de última hora, mas o empate foi muito bem vindo com o salto de Kagami, que passou por Aomine no último instante graças a um passe de Kuroko. Riko esperava uma derrota esmagadora, pelo visto.

Kagami sentou-se emburrado, “comemorando” o empate com o time. Ninguém parecia muito feliz, mas não estavam realmente tristes, conversavam normalmente enquanto arrumavam suas coisas... Era apenas um amistoso. Mesmo com esse resultado eles decidiram fazer o Curry e agora combinavam o melhor horário para se reunirem. Kagami apenas concordou, não poderia negar um pedido daqueles, ainda mais depois do que fez durante a tarde inteira. Sentia-se culpado pelo empate.

– 20h30min está bom! – Hyuuga finalizou de forma séria. – Chegaremos nesse horário. Vá se preparando.

– Certo! – O ruivo concordou, já vestindo a jaqueta do uniforme.

Kagami automaticamente direcionou seu olhar para o para o banco de Touou, mas Aomine não estava lá. Começou a olhar discretamente ao redor em busca do moreno, mas nenhum sinal dele. Não viera conversar após o final do jogo, provavelmente ficou irritado com o resultado também. Era um idiota mesmo. Logo hoje que precisava falar com ele.

– Ele já saiu Kagami-kun. – Kuroko murmurou, olhando-o de canto e apontando para a saída lateral.

– Obrigado! – Kagami sussurrou, corando um pouco. Olhou para o resto do time e disse: – Vejo vocês depois. Até mais.

– Vou levar saquê! – O capitão anunciou com um grito assim que se retirava apressado do ginásio. Respondeu apenas com um aceno de mãos.

Desde quando eles bebiam saquê?

***

Lá estava ele. Aomini Daiki tomava água calmamente no bebedouro, parecia pensativo ao olhar para o líquido corrente. O céu já estava razoavelmente escuro e a garoa caía fina naquele momento, era o suficiente para deixar os cabelos azul-escuros completamente molhados e grudando em sua testa.

Kagami o observou por alguns segundos e respirou fundo. A chuva, os dois sozinhos no pátio gelado... Lembrava vagamente seu sonho. Tentando não pensar naquilo agora, ele apenas engoliu a saliva e andou. Seus passos chamaram atenção do moreno, que sorriu de canto ao notar sua presença.

– Foi um bom jogo, Taiga!

– Foi justo! – Respondeu simplesmente o que veio em sua mente. – Você e Kou formam uma boa dupla.

– Não gosto dele, mas até que presta para jogar. — Sorriu, olhando sem emoção para a paisagem da escola ao endireitar a postura.

Kagami pensou em comentar que se estivesse em melhores condições a vitória com certeza seria de Seirin, mas achou melhor não provocar, o outro diria que aquilo era a desculpa do dia e tudo o mais. Preferiu ser direto e mudar de assunto, queria chegar logo em casa e começar com os preparativos, já era 18h30min.

– Daiki... – Começou sem jeito, atraindo o olhar azulado do outro. – Vou fazer Curry. Aparece lá em casa hoje.

O moreno o observou atentamente por alguns instantes, parecia um pouco surpreso com a atitude de Kagami, que queria se esconder no primeiro buraco que encontrasse no caminho. Seu coração estava batendo meio rápido e suas mãos suavam dentro do bolso da jaqueta.

– Você está me zoando ou está falando sério? – Aomine perguntou por fim, ainda com aquela expressão surpresa... Sua boca estava entreaberta.

– 20h30min, sem atrasos! – Kagami o provocou com um sorriso de canto. Não queria demonstrar o seu nervosismo.

– Cala a boca, Taiga! – Ele riu, colocando a mochila nas costas. – Mas eu vou! Gosto muito de curry para recusar.

– Oitavo andar, apartamento 34. – Finalizou satisfeito, já se retirando antes que estragasse tudo. Declarou por fim, como quem não quer nada: – Ah, eu preciso te falar umas coisas também!

– Sobre o quê? — Aomine perguntou repentinamente, andando apressado para acompanhar o ruivo que estava mais a frente. Sua expressão exalava impaciência e curiosidade.

– Depois! – Kagami disse triunfante olhando para a porta principal do ginásio, de onde saía o resto do time da Touou. Aquela era sua deixa.

– Bakagami, você é um maldito mesmo! – O outro disparou sorrindo assim que Kagami seguiu seu caminho, aliviado.

– Sem atrasos, Ahomine! – Exclamou, erguendo um dos braços e acenando, assim como aquele idiota fizera quando comeram juntos no Maji Burguer pela primeira vez.

Como a situação mudara desde aquele dia... Mas ainda ia mudar um pouco mais, para melhor ou para pior, isso se conseguisse falar alguma coisa para Aomine. Estava nervoso, não saberia como dizer que estava começando a gostar dele, mas preferia assim a ficar morrendo de pensar no assunto e não resolver nada. Kagami tinha certeza de que tinha um sentimento dentro de si, e que talvez era correspondido de alguma forma, mas o medo de dar um bostaço também era enorme.

Pensara a noite inteira para chegar à conclusão de que deveriam conversar, não conseguiria ficar naquele impasse por muito tempo, era decidido demais para isso. Alex e Kuroko também achavam que ele deveria dar um passo. Já era maduro o suficiente para admitir as coisas, não é? E daí que eram homens?

– Vai dar certo! – Murmurou confiante para si mesmo assim que saiu pelo portão da escola. Precisava se apressar.

***

~Aomine Daiki~

– Onde pensa que está indo a essa hora, Aomine Daiki?

– Na casa do Taiga comer Curry! – Disse devagar, parando no meio do caminho para olhar a sua mãe, que o observava atentamente pela porta da cozinha.

– Tão cheiroso e bonito? – Ela questionou erguendo uma das sobrancelhas, avaliando-o. Ela era sempre assim.

– Não posso me arrumar? – Aomine irritou-se de leve. Não tinha feito nada de mais, usava apenas uma camiseta branca e uma calça jeans preta. Normal.

– Pode sim. Na verdade fico extremamente feliz com isso, você sempre foi tão desleixado. – Ela sorriu cruzando os braços e se apoiando no batente da porta. – Você fica tão lindo de branco, contrasta tão bem com sua pele.

– Ah mãe, por favor. – Aomine reclamou levemente envergonhado olhando para o relógio e dando mais um passo na direção da porta. Já era quase 20h, não queria se atrasar.

– Tome cuidado! – Ela pediu, também olhando para o relógio. — Em que horário você vai voltar?

– Ah, isso eu já não sei! – Aomine declarou um pouco pensativo. – Mas vou voltar, não se preocupe!

– Acho bom! – Ela sorriu por fim, abraçando a criança — a verdadeira miniatura de Aomine– que chegou e se encostou em suas pernas. – Pegou uma blusa?

– Peguei, peguei! – Ele disse erguendo a o braço em que apoiava a jaqueta preta, já abrindo a porta.

– Tchau tchau, onii-chan! – O pequeno acenou com um sorriso inocente.

– Tchau... – Disse, mal-humorado, lançando um último olhar ao pequeno e a sua mãe. – Até depois!

Fechou a porta e caminhou o mais rápido possível. A noite estava nublada, finalmente parara de chover, entretanto o vento estava um pouco gelado. Aomine não se importou, nunca foi de sentir muito frio e sua empolgação o impedia de se aborrecer com qualquer coisa naquele dia. Nem mesmo com o empate idiota do amistoso.

Estava realmente indo na casa de Taiga? Um sorriso animado cruzou seus lábios ao repetir esse pensamento em sua mente. Não iria fazer nada que não estivesse preparado e nem iria estragar as coisas, mas se surgisse a oportunidade com certeza iria tentar se declarar.

Mas o que será que ele queria lhe falar? Não fazia a menor ideia, na verdade. Provavelmente era algo sobre basquete, mas se fosse o caso poderia ter dito ali na hora do convite. Será que era algo ruim? Mas sua expressão ao dizer aquilo não era desse tipo. E outra, não o teria chamado para comer Curry com o time se fosse falar algo chato, não é? Mas também não queria criar falsas esperanças, lógico que não deveria ser nada que não estivesse esperando. Enfim... Sua impaciência apenas aumentava cada vez que pensava no assunto. Não conseguia conter sua curiosidade.

– Oitavo andar, apartamento 34... Oitavo andar, apartamento 34. – Murmurou repetidamente para não esquecer. – Oitavo andar, apartamento 34.

Olhou para a tela do celular e já o guardou no bolso novamente, ainda era 20h03min. Chegara mais cedo do que planejava. No fundo queria chegar antes para surpreender Taiga e finalmente se livrar da fama de atrasado. Queria também especular sobre o assunto que seria tratado, vai que ele soltava alguma coisa antes de conversarem de fato.

Respirou fundo e olhou para as janelas do oitavo andar do prédio em sua frente. Em algum lugar ali estava Kagami Taiga, cozinhando provavelmente. Sem pestanejar sorriu e entrou na construção mas estranhou que estava tudo vazio. Era simples por dentro, paredes com a cor pêssego e alguns detalhes amadeirados. No corredor havia várias caixas de correspondência, deu uma leve olhava na 34, estava vazia. Que metido, riu consigo mesmo. Mais adiante havia uma escada e um elevador.

Preferiu os degraus. Poderia se acalmar até chegar lá em cima.

– Oitavo andar, apartamento 34. – Murmurou pela última vez, ao chegar finalmente em seu destino.

Seu coração bateu um pouco mais rápido ao avistar a porta com um grande número 34, ficava no final do corredor, que também era da cor pêssego. Andou calmamente até a porta de madeira escura e respirou fundo antes de bater.

Não demorou muito para a porta ser aberta, trazendo ao olfato de Aomine o aroma de carne temperada misturado com aquele cheiro bom que só Taiga possuía. Havia música no apartamento também, parecia Eminem. Ele disse que gostava de rap, era mais a sua cara.

A expressão do ruivo era indecifrável, mas interessante de se ver. Aquele rosto agressivo estava levemente ruborizado e com um toque de surpresa. Evidentemente saíra do banho à pouco tempo, pois seu cabelo ainda estava um pouco úmido e o cheiro de shampoo se sobressaía. Taiga usava uma camiseta de manga comprida vermelha e um calção branco. O coração de Aomine descompassou quando o viu, gostava mesmo daquele maldito.

– B-boa noite Daiki! – Ele gaguejou encarando-o. Provavelmente não esperava que chegasse tão cedo. Abriu espaço para que Aomine entrasse com um meio sorriso no rosto. — Entra!

– Boa noite Taiga! – Murmurou por fim, passando sem jeito pelo espaço que ele abriu e deixando os tênis no degrau de baixo. – Tudo certo?

– Ah sim, tudo certo!. –O ruivo disse já andando em direção a cozinha após fechar a porta. – Achei que era o Kuroko, ele nunca aperta o interfone, o porteiro nunca o vê.

– Você me deu o número e o andar, simplesmente subi. Não tinha porteiro nenhum. – Aomine deu de ombros sem emoção. – Posso deixar minha blusa aqui no sofá?

– Ah, claro... – Kagami confirmou. – Bem, eu preciso terminar o Curry. Quer alguma coisa?

– Relaxa Taiga, estou de boa. – Daiki sorriu por fim, vendo que ele realmente estava um pouco envergonhado.

– Ok! Fica a vontade. – O ruivo disse voltando-se para a enorme panela que estava mexendo. De vez em quando olhava de esguelha para Aomine, mas era evidente que estava um pouco incomodado. Por que será?

– Então Taiga, sobre o que queria falar comigo? – Aomine questionou mal escondendo a impaciência ao encostar-se na bancada de madeira que tinha entre a pia e a mesa de jantar.

– Ah não, agora não! – O ruivo disse, virando-se e encarando-o um pouco corado e com um sorriso irritado, se é que aquilo era possível. – É uma coisa que preciso falar com calma. Logo eles chegarão e não vai dar muito certo.

– Só me diz sobre o que é então! – O moreno pediu com a voz arrastada de sempre. – Estou curioso.

– Eu sei que está! – Taiga disse com um olhar desafiador e triunfante. – Mas é uma coisa complicada de falar, então é bom relaxar aí e esperar.

– Sabia que você é um babaca? — Aomine perguntou, fechando os olhos para se acalmar. Estava cada vez mais curioso, queria esganá-lo por não contar logo. – Mas eu sei esperar.

– Estou vendo, idiota! — Kagami riu de forma irônica, voltando-se para a panela. – Fique de boa aí, depois conversamos.

– Humpf!

– A propósito... – O ruivo começou a falar sem olhar para ele, ainda mexendo o conteúdo. – O que me diz do amistoso?

– Foi meio ridículo na verdade. – Aomine admitiu, dando de ombros. – Desde quando um jogo termina em empates assim? Só na Seirin mesmo.

– Hm, tenho que concordar que achei meio bosta. — Kagami consentiu com a cabeça, olhando para Aomine. – Mas fazer o quê... Agora é esperar para o Intercolegial.

– Falando nisso, você já esta melhor do estômago? – Aomine perguntou, lembrando que o ruivo passara a tarde inteira na enfermaria.

– Ah... – Ele balbuciou um pouco envergonhado. – Já estou bem sim.

O que estava acontecendo com ele? Por que estava ficando sem graça com tanta frequência? Só por que estavam sozinhos ali?

– Que bom! Ah, a propósito, o cheiro está bem bom! – Disse, apontando para a panela assim que Kagami olhou.

– Ah, valeu. – Kagami sorriu meio sem jeito, mas voltou a ficar sério rapidamente. — Eu gosto de cozinhar, só as louças que me irritam.

– Entendi. – Finalizou o moreno.

O único barulho naquela cozinha por muitos minutos era o contato da colher com a panela, assim como o borbulho do molho. Aomine aproveitou aqueles instantes para olhar Taiga de costas. O desgraçado era realmente bonito. Ainda se culpava um pouquinho por notar aqueles detalhes, mas o vermelho da camiseta deixava evidente alguns contornos de suas costas. Droga, agora não era hora para aquilo.

De repente o barulho do interfone encheu o apartamento.

– Eu vou lá abrir! – Kagami falou meio hesitante, olhando de Aomine para a panela.

– Deixa que eu vou! – Murmurou impaciente, olhando para o telefone na parede. Deveria saber fazer pelo menos isso, não é? Daria um jeito.

– Obrigado.

~Kagami Taiga~

Estava agindo igual um idiota, tinha plena certeza disso. Mas porra, não esperava que Aomini Daiki fosse chegar meia hora antes da hora certa. Não sabia como continuar os assuntos, sentia um tsunami de vergonha a cada três segundos e evitava olhar para ele para que não percebesse nada daquilo. Estava falhando miseravelmente, tinha certeza!

Quando questionado sobre o que conversariam Kagami quase caiu de costas. Lógico que não ia ficar dando dicas, que infantil. Quando se sentisse preparado iria falar, sem fugir. Além do mais, Aomine poderia nunca mais olhar em sua cara depois daquilo. Não podia negar que estava apreensivo, mas precisava falar, para seu próprio bem.

Ao olhar para trás teve que rir da situação, ele fazendo comida e o outro com dificuldades em atender o interfone... Por que começara a gostar de Aomine Daiki mesmo?

Precisou deixar o Curry para auxiliá-lo. Era um idiota.

***

Agora todos estavam lá comendo e falando igual uma multidão que acaba de sair de um evento interessante, conversando sobre assuntos variados e rindo igual um bando de bocós. Tinha relação com a generosa quantia de saquê que Hyuuga trouxe, Kagami tinha certeza.

Quando a porta de seu apartamento abriu e eles deram de cara com Aomine a reação foi completamente diferente. Silêncio e surpresa. Com certeza não estavam esperando por aquilo, o cara que acabaram de enfrentar no amistoso esperando-os para abrir a porta. Foi até engraçado, principalmente a expressão de Riko.

Mas agora estavam lá conversando animados. Aomine falava com Kuroko ou simplesmente preferia ficar quieto e comendo com muita vontade, pois já repetira três vezes o prato. De vez em quando Kagami o olhava e flagrava as encaradas que o moreno lhe dava. Enrubescia na hora e voltava ao seu prato, ou fingia prestar atenção na conversa de algum grupo.

Era extremamente engraçado ver aquilo tudo, estava realmente se divertindo, apesar de novamente a pia ficar repleta de louças. Nunca imaginou ver Koga ou até mesmo Mitobe beberem e ficarem alegres. Hyuuga era o pior, com certeza. O obrigou a dar um ou dois goles naquela bebida, mas era meio forte para seu gosto. Aomine também foi vitima do capitão, que o forçou a beber como se estivessem em um pequeno campeonato de quem virava o copo antes. As caretas eram engraçadas, na verdade tudo estava engraçado ali.

– Ei Hyuuga, de onde você pegou essas bebidas? – Izuki perguntou com um soluço, nem mesmo ele escapou do desafio do capitão.

– Então cara... – Ele começou com um sorriso presunçoso ao ajeitar os óculos. – Meu pai é dono de uma barbearia e lá eles apostam muita coisa. Como ele é sortudo, simplesmente ganha. – Finalizou, erguendo um copo com saquê e virando tudo de uma vez.

As pessoas riram daquilo, o próprio Kagami não conseguiu se conter. Estava sendo uma noite mais divertida do que o esperado. Todos se reuniam na sala e a mesa de centro estava repleta de garrafas e copos. Alguns se sentavam no sofá, outros simplesmente estavam jogados ao chão da melhor maneira possível.

– E você Aomine, o que está fazendo aqui? – Riko perguntou curiosa, com as bochechas levemente coradas.

– Taiga me convidou pra comer Curry e ficar escutando essas músicas melosas dele! – Sorriu, sentando-se ao lado do ruivo no chão. – Somos grandes amigos agora, não é?

– Ah sim. – Kagami respondeu sem graça ao sentir-se abraçado de novo pelo moreno. – Apesar de você ser um idiota.

Todos riram, até mesmo o moreno. Aomine estava bêbado, pensou Kagami divertindo-se também. Provavelmente também estava. Já não ligava mais, até Kuroko tinha as bochechas coradas, que mal fazia então?

E assim, entre conversas e risadas a noite foi passando. Aomine não saiu do seu lado, continuavam encostados um no outro, hora se provocando com socos, hora rindo como todos, os abraços também eram comuns no meio das piadas. Estava confortável demais, o que deixava Kagami feliz. Descobriu que gostava do sorriso dele.

***

Já era quase 2h da manhã quando os celulares começaram a tocar e os pais brigavam do outro lado da linha. Meio malechos, os integrantes da Seirin foram embora andando vagarosamente e despedindo-se parcamente. Kuroko, o mais são de todos, deu tchau e murmurou “boa sorte”. Aquilo deixou Kagami com um frio na barriga ao encostar a porta.

O som de um copo quebrando chegou ao seu ouvido, trazendo-o para a realidade. Ficara sozinho com Aomine em seu apartamento novamente, não tinha mais escapatória. Deixara o moreno ajudar a levar as coisas para a cozinha enquanto acompanhava os amigos até a porta.

– Você está tão bêbado que mal consegue levar um copo? – Perguntou, ao chegar até a cozinha e ver o rapaz ajuntando os cacos de vidro.

– Eu nem estou bêbado de verdade. – Aomine respondeu pacientemente, procurando um lixeiro com os olhos. – Foi mal pelo copo.

– Não tem problema. – Kagami sorriu, indicando com o dedo. – Ali tem um cesto.

– OK. – Ele falou, dirigindo-se ao lado da bancada enquanto Kagami olhava desanimado para a pia cheia de louças, agora com um combo de copos sujos também.

Enquanto o outro se distraía com os cacos, pegou um copo que ainda continha saquê e deu um último gole, estava nervoso. A bebida desceu rasgando por sua garganta. Respirou fundo e começou a pegar a esponja e o detergente.

– Ei! – Aomine chamou, encostando-se à bancada de madeira. – O que pensa que está fazendo?

Ele realmente não parecia estar bêbado. Kagami virou o rosto e disse:

– Vou limpar essa sujeira, óbvio!

– Nada disso, pode começando a falar! – Aomine pediu, fazendo o coração de Kagami sobressaltar-se. Agora que a hora chegou ele não sabia muito bem o que fazer.

– Eu sei que você está curioso, mas é uma coisa complicada de se dizer! – Kagami falou com a voz baixa, sem olhá-lo. A música ainda tocava ao fundo, mas pareciam apenas ruídos abafados agora.

– Taiga, desembucha logo! – Ele falou por fim com um tom de voz sério.

– Talvez você nunca mais me olhe na cara depois do que eu vou te dizer. – Kagami disse tomando ar e virando-se para encará-lo.

– Independente do que for isso não vai acontecer. – Aomine falou, olhando-o sério. Parecia convicto no que dizia e os olhos azuis brilhavam com intensidade, como se já soubesse de tudo. Aquilo de alguma forma encorajou Kagami.

– E se eu não falar isso agora quem não vai mais conseguir olhar para você sou eu, Aomine! – Explicou Kagami, coçando a nuca, um pouco tenso. Foi uma frase um pouco forte, quase se arrependeu.

~Aomine-Daiki~

Uma mistura de sentimentos fazia o coração de Aomine bater tão rápido que ele quase ouvia com clareza. Sequer conseguia mover um músculo, estava apreensivo demais até para respirar direito. O que ele iria dizer era tão ruim que não teria mais vontade de olhá-lo na cara? Não queria ouvir se fosse assim, mas não conseguia falar mais nada.

– Então... – O ruivo começou a balbuciar olhando para o chão enquanto mexia nos cabelos. Parecia bastante nervoso. – Nos últimos meses a gente tem jogado basquete juntos... Você começou a me encher o saco de madrugada, fomos ao cinema com Kuroko e nos tornamos amigos...

Aomine estava impaciente, apreensivo, curioso e com medo. Seu coração batia cada vez mais rápido.

– E nesse tempo eu... Eu percebi que você mudou bastante, Aomine! – Ele continuou mais firme, agora olhando-o nos olhos. – E eu... Eu meio que... Achei... Achei legal essa sua mudança.

O moreno quase caiu para trás. Onde ele queria chegar com aquilo? Engoliu um pouco de saliva enquanto ouvia o outro falar. Será que...? Não, não era possível...

– Quando percebi... Já estava pensando demais em você... – Kagami balbuciou novamente, olhando para qualquer ponto da casa que não fosse Aomine. – Ainda estou... Mesmo tentando evitar... E isso está me deixando bem confuso.

– Taiga... – O moreno murmurou boquiaberto.

– Deixa eu terminar antes de você dizer qualquer coisa! – Kagami pediu em voz alta, erguendo uma das mãos. Voltou a se apoiar na pia.– Mas eu parei para pensar com clareza nas coisas, por isso não dormi essa noite... E cheguei à conclusão que eu...

Você o quê, Taiga?

– Eu realmente estou gostando de você! – Kagami declarou em voz baixa, olhando para o chão. – Eu sei que é estranho, somos homens e tudo o mais... Já quero até pedir desculpas por isso... Mas é a verdade!

O corpo de Aomine paralisou. Sua respiração estava difícil e seu coração batia descompassado. Não estava acreditando naquilo, não podia ser verdade. Ele... Ele... Se confessou... Pra mim...? Sem perceber, suas pernas começaram a se mover, assim como a enorme onda de satisfação e alívio dentro de seu corpo.

~Kagami Taiga~

Estava prestes a levar um soco na cara, tinha certeza.

Arrependera-se até a última palavra, deveria ter deixado passar aquela euforia e seguir em frente. Olhava para o chão, mas parecia que não havia onde pisar, seu corpo tremia e seu rosto estava quente. Fechou os olhos com força, não se atreveu a olhar para Aomine.

Antes de conseguir erguer completamente sua cabeça sentiu que ele estava próximo, o soco viria em seguida. Tudo bem, eu mereço, sou um idiota.

Seu coração paralisou quando percebeu o que estava acontecendo. Não sentiu dor, sentiu apenas um toque macio. Abriu os olhos devagar. Aomine estava em sua frente, testa com testa, nariz com nariz. Mantinha os olhos fechados e não disse absolutamente nada por alguns segundos.

– O que você... — Kagami sussurrou incrédulo, olhando para o moreno que apoiava-se em seu rosto.

– Me certificando... – Aomine murmurou, sua voz tinha o som de um sorriso. – De que você não está com febre ou delirando...

O moreno afastou-se um pouco para conseguir encará-lo. Kagami viu claramente a profundidade daqueles olhos azuis que estavam a um palmo de distância dos seus. A respiração quente de ambos se cruzava e o cheiro de saquê saía de suas bocas. Não acreditava no que estava acontecendo. Aomine... Correspondia?

– Eu nunca imaginei que ouviria as minhas palavras saírem de sua boca, Taiga! – Aomine disse de forma tímida, ainda o encarando. – Você... Poderia repetir ?

– Eu... – Kagami murmurou com calma, sentindo seu rosto aquecer. Ele realmente correspondia ou estava imaginando coisas? – Eu gosto de você, Daiki!

O sorriso do moreno se ampliou e seus olhos se fecharam. Kagami o olhava sem conseguir reagir, estavam tão próximos... Ele era tão bonito, vendo assim de tão perto... Como nunca notara aqueles detalhes em seu rosto antes? Sentiu uma vontade enorme de beijá-lo, mas não conseguia se mover...

– Eu estou apaixonado por você, Kagami Taiga... – Aomine sussurrou, fazendo o corpo do ruivo se arrepiar por inteiro, nunca tinha sentido aquilo antes. Seu coração parecia prestes a explodir. – Desde o inverno eu estou apaixonado por você.

Novamente o moreno abriu os olhos e o encarou. O ruivo sentiu o conhecido toque quente da mão de Aomine em seus cabelos e sorriu. Estava feliz, mais do que imaginou que ficaria. Seu corpo parecia mais leve agora, como se todas as sensações ruins de sua vida tivessem ido embora.

– Feche seus olhos, Taiga... – Sussurrou, ainda acariciando seus cabelos.

Kagami obedeceu. Sentiu que ele se aproximou um pouco mais, as pernas, o tronco e os ombros se encostaram. Era um abraço? Sim... E foi uma das melhores sensações de sua vida... Moveu as mãos que tremiam e tocou as costas do moreno, passando os dedos com suavidade em sua extensão.

Um leve arrepio cruzou seu corpo quando sentiu o nariz de Aomine encostar em seu pescoço e percorrer o caminho até sua bochecha, ele estava cheirando sua pele. Tudo aquilo era tão bom... Sentia seu coração acelerar cada vez mais.

Percebeu que Aomine afastou o rosto suavemente e teve a súbita vontade de abrir os olhos. Antes de conseguir reagir ou se mover, sentiu os lábios dele encostando-se aos seus com suavidade. Era quente, úmido e macio, mil vezes melhor do que em seu sonho. Ou aquilo também era um sonho?

Era tão bom... Já não pensava em mais nada, só queria que durasse para sempre. Se eram homens, pouco importava. Gostava de Aomine e estava feliz.

Sua mão foi em direção aos cabelos de Daiki, que estremeceu ao sentir o toque de Kagami em sua nuca. Satisfeito, o ruivo puxou-o para mais perto, entreabrindo suavemente os lábios. O moreno correspondeu e continuou movendo sua boca úmida, sugando de leve o lábio inferior do ruivo. Aqueles segundos pareceram durar horas, até que a respiração de ambos se tonou abafada, por isso lentamente se afastaram.

Kagami queria mais daquilo, entretanto achou melhor abrir os olhos. Teve que rir ao ver a expressão retardada e sonhadora de Aomine, provavelmente a mesma que a sua. Não imaginou que o seu sentimento fosse tão intenso assim...

– Tá rindo do quê? – Disse, ao abrir os olhos azuis e encarar Kagami com um sorriso. Puxou-o subitamente para um abraço e sussurrou em seu ouvido: – Eu estou feliz, seu idiota!

– Também estou feliz, seu desgraçado! – Kagami sorriu, dando um tapinha na cabeça de Aomine.

Na verdade nunca estivera tão feliz em toda sua vida.

ida.

Notas finais
NHAAAAAAAAAAAAAA... Música para o capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=1nB20DDockU Genteeeeeeeeeeeee, se vocês não comentarem vou ficar tristeeee! Preciso saber se vocês gostaram de como a coisa se desenrolou... Me deixem super feliz, ok (ou não, se não gostaram quero saber tbm) >.< Quem não comentar nesse é um fedidoooooo, porque foi escrito com o coração! Até o próximo capítulo, minna! Beijo beijo beijoooooo o/