Inevitável
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Desliguei o som ao chegar em casa, já que meu padrasto não
gostava de barulho. Antes, eu fazia tudo para irritá-lo, mas o medo pela
segurança de Piper fala mais alto que meu ódio por ele. Minha mãe passa o dia
todo no hospital, então sempre que estou em casa sem ela, fico a mercê dele.
Travei o carro e nós entramos. Ele estava no sofá, bastante
a vontade, apenas com uma cueca Box vermelha, assistindo a um jogo de basquete
e tomando cerveja. Logo que vi, tapei os olhos de Piper e a mandei para o
quarto.
–Poderia ter mais respeito. Se ainda não percebeu, uma criança
de dez anos mora aqui.
–Eu não vejo problema nenhum com o jeito que eu estou. E o
nosso acordo é você por ela, então não tem do que reclamar. Não falamos nada
sobre roupas.
Ares veio morar com minha mãe há um ano. Minha mão é
loucamente apaixonada por ele, mas nada lhe é correspondido. Pela frente ele é
um doce com ela, mas há uns seis meses atrás começou a dar em cima de mim. Como
não mostrei interesse, ele foi atrás de Piper e eu enlouqueci. Contei a minha
mãe, mas ela está muito cega por ele para ver a realidade, e acreditou nele ao
invés de em mim. Eu tentei tirar Piper daqui e levá-la comigo, mas como eu sou menor
de idade e ela também, houve algumas complicações, então apenas a vigio 24
horas para que ele não encoste um dedo nela. E em troca, ele me força a dormir
com ele, e me ameaça de forçar Piper durante o sono se eu lutar. Minha casa
antes um lar, agora era um inferno.
–Ah, e, aliás, sua mãe vai fazer plantão durante a noite.
–E o que eu tenho a ver com isso?
–Ela não vai estar aqui para suprir as minhas necessidades,
então preciso que se voluntarie.
–Você já está acostumado a pegar a força, então para que
ficar falando essas coisas? – exigi.
–Por que não me excita tanto quando você luta. Quero sexo de
verdade hoje.
–Então procure uma prostituta, seu maníaco. – cuspi, e ele
veio até mim e me esbofeteou.
Eu caí com a força do golpe, sentei e recuei assustada para
o canto da parede, enquanto tocava um lado do rosto que latejava.
–Nunca mais me desrespeite, sua putinha. Está me ouvindo? –
berrou, virando meu rosto com a mão e me forçando a olhá-lo.
Eu só acenei ainda atordoada.
–O que está acontecendo? – perguntou Piper com a vozinha
assustada, sentada no meio da escada.
Meus olhos queimaram em lágrimas, mas eu as controlei e
fiquei de pé indo até ela.
–Nada, meu anjo. Só estamos conversando. – engoli o tremor
na minha voz. – e o que você está fazendo aqui, mocinha? Quer que eu a coloque
na cama?
–Sim. – sussurrou, olhando temerosa para Ares.
–Posso colocá-la eu mesmo se você preferir. – falou ele, com
um recado na voz.
–Não precisa. Eu mesma faço isso. – me apressei.
Ajudei Piper a se trocar e a coloquei na cama, ajeitando
suas cobertas.
–Ei annabeth. – ela sussurrou, quando levantei.
–Sim?
–Por que papai foi embora?
–Nós já tivemos essa conversa, Piper.
–Eu sei, mas... Por que ele fez o que fez?
–Eu não sei. Só ele poderia nos dizer o motivo, mas as
circunstâncias não deixaram.
Meu pai havia morrido há dois anos. Na verdade, ele havia se
matado. Eu nunca o perdoei por tamanho egoísmo. Como uma pessoa pode tirar sua
própria vida para diminuir os problemas quando vidas dependem de você? Ele não
pensou no que iria acontecer conosco, nem no que iriamos sentir. De lá para cá
minha mãe nunca foi a mesma, e eu acabei criando Piper já que o estado
emocional da minha mãe não permitia que ela o fizesse. Era como se a alma dela
tivesse despedaçada e o corpo se movesse
sozinho.
Eu só vi um lampejo de vida em seus olhos quando ela
conheceu Ares. Ela começou a viver, sorrir, amar, e eu não poderia roubar isso
dela nem para manter minha paz mental. Enquanto Piper estivesse segura, eu
poderia aguentar qualquer coisa.
–Pare de pensar no papai, ok? Ele se foi. Ele que escolheu
ir, nós não tivemos nada a ver com isso. Foram suas próprias escolhas.
–Eu sei, é só que... Se ele não tivesse ido, Ares não
estaria aqui.
Meus olhos encheram de lágrimas e eu pisquei-os rapidamente
para impedi-las de cair.
–É, mas ele se foi e Ares está aqui. Não podemos mudar e
temos que conviver com isso. – continuei a andar.
–Annabeth? – me chamou, novamente.
–Sim, Piper? – falei impaciente.
–Ele te machucou?
Engoli em seco.
–Por que a pergunta?
–Um lado de seu rosto está meio verde.
Eu tremi, mas tentei disfarçar.
–Ele nunca seria capaz de me machucar. Eu sou fortona,
esqueceu? Boa noite...
Dei-lhe um beijo na testa e saí do quarto desligando a luz
no caminho.
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