Inesquecível
3 Indecifrável
Indecifrável – Que não se consegue decifrar. Que se opõe à razão
O Detetive Crowne pára o fluxo de palavras do interrogado com as mãos.
–Está me dizendo então que a proposta da Senhorita King foi diferente das outras, que envolviam sexo.
–Sim. – foi sua resposta lacônica.
O Detetive pergunta, começando a ver aquele caso por outro prisma.
Isabella King era mais cheia de mistérios do que estava imaginando.
E o caso estava se tornando mais indecifrável a cada palavra que Edward Masen acrescentava àquela história.
–Então não fez sexo com a Isabella King?
Um sorriso de lado se delineia nos lábios de Edward Masen.
–Eu não disse isto...
Depoimento de Edward Masen
Eu a observei mergulhar de novo, hesitando em entender suas palavras como um convite para me juntar a ela. Eu poderia passar simplesmente o dia inteiro lá, assistindo seus movimentos sob as águas, mas sua cabeça emergiu, enquanto ela nadava em minha direção, os olhos castanhos presos em mim, hipnóticos.
–Acho melhor eu ir embora. – murmurei incerto.
Era estranho perceber que Isabella King me deixava assim, vacilante.
Eu nunca fora inseguro com mulheres, pelo contrário. Muito cedo eu entendi que elas gostavam de mim e era muito fácil convencê-las a me darem atenção quando me interessavam.
Mas lá estava eu, muito interessado naquela garota na piscina, mas totalmente incerto de como agir.
Isabella King tirava meu chão e me deixava sem saber o que aconteceria a seguir.
Era extremamente irritante. E estimulante.
Quase viciante.
–Está com medo? — ela percebeu?
De repente eu não queria que ela achasse que eu era um idiota que corria do desafio de uma garota.
Então, sem medir muito as consequências, algo que se tornaria muito habitual no tempo passado ao lado dela, eu tirei minha carteira e celular do bolso, assim como meu tênis e mergulhei.
Emergi para vê-la mordendo os lábios com um olhar que não consegui decifrar. Parecia surpresa que eu tivesse entrado ou até mesmo um pouco divertida.
Mas também parecia meio... feroz.
Como se tivesse ganhado um ponto num jogo que se delineava apenas para ela em sua mente.
Porque eu sabia, mesmo naquela época, que existia um jogo. Um objetivo por trás de sua rebeldia blasé.
Algo que eu ainda não conseguia decifrar, mas que não conseguia me afastar.
Por um momento, nenhum de nós disse uma palavra sequer, apenas flutuamos em volta um do outro, como dois oponentes numa luta decisiva.
Ou como o leão em volta do cordeiro, antevendo uma suculenta refeição.
Eu só não sabia dizer quem era o leão e quem era o cordeiro naquela história.
–Você entrou. – ela disse por fim, me fazendo sorrir.
–Achei que esta fosse a ordem, madame.
–Madame? É assim que chama suas... como posso dizer, clientes?
Falar de minhas “clientes” me deixou meio contrariado, mas eu disfarcei. O que eu podia dizer? Não estava em condições de bancar o desonrado.
Eu tinha feito minha fama.
E não fora esta fama que me levara até ali?
–Como soube de mim? – perguntei curioso.
–Carmem e Tanya são nomes que te dizem algo?
Por que diabos eu tinha perguntado?
–Você era o tópico de uma interessante conversa num chá da tarde.
–Estou tentando imaginá-la num chá da tarde.
–Quantas mais?
–Quantas mais o quê?
–Quantas mulheres... usufruíram dos seus serviços?
–Não estou contando. – eu me dei ao luxo de ser um pouco descuidado e misterioso também.
Isabella não precisava saber que eu era um michê no começo de carreira, por assim dizer.
–Por que faz isto?
–Nem todos têm uma vida privilegiada.
–Privilegiada? Acha mesmo? — havia certa ironia em suas palavras.
–Não se acha privilegiada? Olhe à sua volta. Pode comprar tudo. Até um namorado de mentira.
–Se eu não fosse rica, não precisaria de um namorado de mentira. – e lá estava. Um indício. Uma pequena pista do quebra-cabeça que era Isabella King.
Mas ela me cortou com outra pergunta antes que eu pudesse ir mais fundo em seu mistério.
–Como isto funciona? Você serve mesas para conhecer suas clientes?
–Você parece bem curiosa.
–Acho que é natural eu querer saber sobre sua profissão.
–Não é minha profissão.
–Não? Além de garçom e garoto de programa, ainda tem mais habilidades que desconheço?
–Você tem um jeito muito doce de colocar as coisas. – eu sorri, irônico.
–Então, o que você faz?
–Eu estudo medicina em Harvard.
–Sério? – ela parecia realmente surpresa e eu me senti um tanto satisfeito de surpreendê-la. Não sei o que ela esperava, mas certamente não era aquilo. — Como um estudante de Harvard se tornou um garçom que faz programas?
–Como eu disse, nem todos nascem privilegiados. Às vezes precisamos seguir por caminhos tortuosos para chegar a algum lugar.
–Acho que entendo este conceito.
Sua voz saiu para dentro, quase como um murmúrio para si mesma.
Me instigou.
Me fez querer diminuir a distância entre nós.
Em todos os sentidos.
A começar com aquela simples distância física na piscina.
–Eu queria entender você.
Ela deslizou para trás.
–Eu não acho que precisa me entender.
Eu fui em frente.
Dane-se a cautela. Isabella King era um enigma ambulante e eu estava ficando obcecado em desvendar.
Eu precisava desvendar.
–Isabella, não sabia que tinha companhia.
A voz masculina me fez recuar e me virar automaticamente.
Royce King estava parado na beira da piscina e, ao seu lado, segurando firmemente seu braço e vestindo um sorriso satisfeito, estava a loira que pulara o muro na festa.
–Também não podia imaginar que você tinha companhia. – Isabella respondeu com uma voz cheia de ironia.
Eu confesso que, naquele momento, eu senti um certo medo. Eu era apenas um pobre estudante que há poucos dias estivera naquela casa como garçom e agora estava nadando na piscina com a filha daquele homem, que era simplesmente um dos mais ricos do país.
Mas Royce King não estava olhando pra mim. Ele tinha os olhos presos em sua filha. E, por um momento, era como se nem eu, nem a moça loira, que eu ainda não entendia como tinha ido de penetra à companhia do dono da casa, estivesse presente.
Os dois combatiam em alguma espécie de batalha silenciosa que eu intuía ser habitual.
–Não vai nos apresentar, Royce? – a loira cravou suas unhas vermelhas no paletó caro do magnata, chamando sua atenção.
–Sim, querida. Isabella, eu quero que conheça Rosalie. Ela estava curiosa para conhecê-la.
–Não posso dizer o mesmo. – foi a resposta sem humor da garota e Royce rosnou em contrariedade.
–Isabella, não aceito que fale assim com uma convidada.
Ela deu de ombros.
–Ela não ficará muito tempo por perto para se afetar demais por isto.
–Ficarei feliz em lhe provar o contrário. – a loira não pareceu afetada pelo sarcasmo da filha de Royce. – Sua filha é uma graça, Royce. Tenho certeza que seremos amigas. – e então ela olhou pra mim. Não sei se me reconheceu, mas se a resposta era positiva, ela disfarçava muito bem. – E este rapaz, quem é?
–Sim, Isabella, acho que não conheço seu... amigo. – aí sim a atenção do homem estava em mim e eu estava cogitando que horas o brutamontes da portaria seria chamado para me pôr pra fora, quando a voz de Isabella interrompeu meu fluxo de pensamentos de fuga.
–Namorado. E o nome dele é Edward Masen.
–Namorado? – Royce estava visivelmente furioso.
–Sim, namorado. – Isabella pronunciou de novo nosso falso status com boca cheia de satisfação.
E, por um momento, eu achei que Royce King fosse explodir.
Eu tentei fazer minha parte no que me cabia.
Aquele era o show de Isabella King e eu estava sendo pago para representar um papel.
–Muito prazer, senhor. – eu nadei até a borda e estendi a mão. — Estava ansioso para conhecer o pai da Isabella.
Eu teria rido da cara de Royce King se me fosse permitido.
Mas ele com certeza não acharia nada divertido. Na verdade, eu estava começando a achar que a hipótese do segurança me pondo pra fora era bem plausível ainda.
–Querido, nós temos um compromisso. – Rosalie sussurrou ao seu lado. – Acho que podemos deixar as apresentações formais para outra hora. Talvez um jantar? Eu adoraria jantar aqui e conhecer melhor sua filha e o senhor... Masen. – não passou despercebido a mim seu sarcasmo. Sim, ela se lembrava de mim.
Mas não ia falar nada, porque eu também me lembrava dela.
Eu não precisava ser mágico para adivinhar que Royce King não fazia ideia de como ela chegara à sua festa.
–Sim, claro. – Royce lançou um olhar além de mim. – Nós conversaremos depois, Isabella.
E os dois se afastaram com o barulho dos saltos da moça loira ressoando no ladrilho de mármore.
Eu ouvi o riso atrás de mim e me virei, curioso.
–A cara do meu pai foi impagável. – ela nadou até a escada e saiu da piscina, me deixando com a visão de sua grande camiseta molhada grudada em suas curvas.
Seu riso era sexy.
Sua camiseta úmida delineando seu corpo era sexy.
–Não imaginei que ia começar a desempenhar meu papel tão cedo, madame. – eu também saí da piscina, começando a lamentar ter entrado na água de roupa, como diabos eu iria embora assim?
Ela rolou os olhos.
–Pára de me chamar de madame.
–Isabella.
Ela então pareceu mais contrariada ainda.
–Meu nome é Bella.
–Certo, Bella.
–Mas você foi ótimo. Isto vai ser mais divertido do que eu pensava. – ela disse, passando os dedos pelos cabelos úmidos.
Ela parecia mesmo deliciosa toda molhada.
–Vem, vamos secar estas suas roupas. – e sem esperar por uma resposta, ela seguiu em frente, não me deixando alternativa, a não ser segui-la.
Nós caminhamos pela casa deixando nossa marca de água pelo chão elegante, mas Isabella não parecia se importar nem um pouco e eu me indagava onde estávamos indo.
Subimos um lance de escadas, mais quadros fantásticos no corredor branco e ela entrou por uma porta de carvalho.
E então estávamos num espaçoso quarto feminino.
Eu olhei em volta curioso.
Papel de parede floral. Grandes janelas, com uma vista para o jardim. Cortinas creme. Tapete branco, móveis claros e elegantes num estilo clássico.
Aquele, sem dúvida, era o quarto de uma rica herdeira. Era o quarto de Isabella King.
Eu me virei e a vi trancando a porta.
Ainda toda molhada, ela me olhou com seus grandes olhos castanhos.
–Tira a roupa.
Aquele foi o primeiro de muitos momentos, que aquela garota me deixaria sem fôlego com suas frases inesperadas.
Obviamente, durou apenas alguns segundos minha pequena fantasia de que ela estava pedindo para eu tirar a roupa com o intuito de nos envolver em alguma atividade pervertida depois. Mas foi o suficiente para me deixar muito ciente de que eu estava trancado num quarto com uma garota incrível e molhada.
Uma garota que eu desejava. E apesar de estar ali, na minha frente, pedindo para eu tirar a roupa, não estava ao meu alcance.
E ela tinha acabado de me apresentar ao seu pai como namorado.
Quão fodido isto tudo parecia?
–Eu vou buscar uma toalha. – ela disse se afastando e desaparecendo por uma porta à direita e voltando segundos depois, me estendendo uma toalha branca que eu peguei de suas mãos.
E então ela sumiu de novo, fechando a porta do banheiro atrás de si.
E a mim só restou tirar a roupa molhada, tentando conter minha imaginação sacana que teimava em se insinuar por entre as paredes para dar uma espiada em Isabella King se despindo também.
Não havia nada mais naquele momento na minha mente a não ser a vontade que eu tinha de vê-la nua.
Obsessão. Era uma droga.
Eu não lembro quanto tempo ela passou no banheiro, eu apenas me enxuguei rapidamente e enrolei a toalha na minha cintura e comecei a espiar pelo quarto, tentando entender um pouco mais da minha namorada de mentira.
O quarto era mesmo lindo e feminino. Elegantemente decorado. Um quarto de menina rica.
Mas olhando mais atentamente, havia um exemplar antigo de um livro de Jane Austen na mesa de cabeceira, ao lado de um iPod. Eu peguei o livro, todo desgastado, como se ela o lesse muito e junto dele, estava um livro marrom sem nenhum título, que eu abri curioso para ver do que se tratava, mas me surpreendendo ao ver que era um caderno com linhas todas escritas.
10 de julho
Meu antigo diário sumiu. Eu não quero imaginar o que aconteceu, se vou achá-lo em algum canto perdido, mas no fundo eu sei que Alguém o levou. E eu posso bem imaginar quem...
Eu sei que não deveria estar lendo, mas foi tão automático que eu só me toquei o do que estava fazendo, quando ouvi o trinco da porta se mexer e larguei o caderno e o livro no lugar, me sentindo culpado por estar o diário de Bella.
Ela me mediu enquanto secava os longos cabelos com uma toalha. E eu me vi ficando ridiculamente vermelho por estar usando aquela toalha, quase pelado.
E ela usava apenas uma camiseta larga azul e velha, que mal chegava às suas coxas e eu não podia deixar de imaginar que ela também deveria não estar usando nada por baixo daquela camiseta.
–Estou vendo que já esta à vontade. – ela disse com aquele seu tom de voz quase sem entonação, que eu não conseguia decifrar o que se passava por sua cabeça.
Ler mentes seria uma habilidade que eu desejaria muito ter naquele momento, enquanto ela largava sua toalha em um sofá e pegava minhas roupas molhadas do chão.
–Vou pôr na secadora.
Ela se afastou, mas quando chegou à porta, se virou.
–Abre a gaveta do meu criado mudo e pegue o que quiser.
Eu ainda fiquei lá por um momento, vendo a porta que ela deixou fechada depois de sua saída, antes de ir até o criado mudo e abrir a gaveta como ela instruíra, sem fazer a menor ideia do que seria mais aquele enigma.
Minha boca se abriu em espanto ao ver várias notas de dólares espalhadas aleatoriamente, numa bagunça monetária improvável e descuidada que só podia vir da filha de um milionário.
Isabella King guardava seus milhares de dólares em sua bonita gaveta de criado-mudo.
E ela havia dito para eu “pegar o que quiser”.
A situação naquele momento era tão surreal, que me sentei sobre a cama por um momento, apenas contemplando aquele dinheiro que parecia sorrir, zombando de mim com sussurros de “seu prostitutozinho barato”.
Mas eu não era um prostituto e, verdade seja dita, eu estaria muito mais feliz naquele momento se realmente o fosse.
Talvez assim, eu estaria naquela cama entre as lindas coxas brancas de Isabella King.
Ah, a vida estava sendo irônica comigo. Muito.
Eu fechei a gaveta no mesmo instante em que Bella voltou para o quarto. Ainda usando aquela camiseta sexy. Ainda deixando minha imaginação sacana em alerta máximo.
Ela levantou uma sobrancelha, enquanto caminhava pelo quarto para pegar um elástico em sua penteadeira e prender os cabelos no alto da cabeça.
–Suas roupas irão secar logo, aí poderá ir embora.
Ela se sentou no sofá do há alguns metros de mim. E da cama.
Eu lamentei.
Mas exultei quanto ela puxou as pernas para cima do sofá.
A camiseta pervertida subiu um pouco mais. Consegui desviar o olhar depois de alguns segundos com algum esforço.
Mas isto só foi possível porque eu também me sentia atraído por seus olhos incríveis.
–Você pegou o dinheiro? – ela perguntou sem preâmbulos.
–Não.
–Por que não?
Eu apontei para mim mesmo.
–Acha que talvez eu devesse enfiar o dinheiro na toalha como um gogo boy?
Ela riu.
Eu já falei que ela tinha um riso lindo? Era quase infantil. Ela sempre parecia surpresa de estar rindo, de estar realmente se divertindo com algo, como se aquele simples ato não lhe fosse comum.
Eu sorri também. Porque era isto que eu sempre tinha vontade de fazer quando ela sorria. Seu riso me deixava feliz.
Me fazia sentir que eu a fazia feliz, nem que fosse por alguns ínfimos segundos.
–Seu pai não gostou muito de me ver aqui, ou foi impressão minha? – eu comecei, tateando a sala escura que era Isabella King, esperando achar o interruptor que ligaria a luz e mostraria o que havia dentro dela.
–Ele odeia saber que eu posso ter contato com pessoas que ele não designou pra mim.
–Ele te controla. – não era uma pergunta.
–Royce King controla tudo a sua volta. – ela não disfarçou o amargor.
–É por isto que eu estou aqui? Quer desafiá-lo?
Ela deu de ombros.
Por que não respondia?
Eu recuei.
–Você não parece ter ficado feliz também em conhecer sua nova amiga.
Ela fez um gesto de descaso.
–Não estou nem aí. Ela é só mais uma de uma longa lista que teve muitas antes e terá muitas depois.
–E sua mãe?
Uma sombra passou por seus olhos.
–Ela morreu quando eu era muito pequena. Eu nem me lembro dela.
–Sinto muito.
Ela deu de ombros de novo.
–Não importa.
Eu queria dizer que parecia importar sim.
Eu também não tinha mãe. Eu sabia o que isto significava na minha vida. O que significaria pra sempre.
Mas pelo menos Bella King tinha seu pai.
Um pai rico e controlador, que lhe dava tudo o que o dinheiro podia comprar. Mas que a instigava a contratar um namorado de mentira para irritá-lo.
Será que era só isto mesmo? Ou eu estava perdendo algo ali? Não saberia dizer.
Naquele momento, eu apenas olhava por uma fresta de Isabella King. Estava esperando ser convidado a entrar. E ficar.
Sim, eu estava muito ferrado.
Eu via os sinais. Mas não conseguia recuar.
–Escuta, se vamos fazer isto, preciso saber mais sobre você.
Eu estava tentando.
Mas devia saber que não seria tão fácil assim com aquela garota.
–Eu também precisarei saber sobre você, não é?
–Então o que vamos fazer sobre isto?
Ela desviou o olhar para baixo, como se pensasse sobre aquilo.
Eu podia convidá-la a se juntar a mim na cama. Poderíamos acender um cigarro e nos deitar sobre a cabeceira e falarmos sobre nossas fodidas vidas.
Mas claro que eu sabia que não poderia simplesmente estar numa cama com Bella, ambos seminus e deixar as coisas apenas no nível das palavras.
Eu ia querer levar as coisas a um nível físico.
Eu já podia sentir meu corpo se agitando apenas por cogitar...
Mas eu tinha medo de pôr tudo a perder. Ela havia dito que não estava interessada em sexo comigo.
Eu era apenas o cara que ela estava pagando para fazer um teatrinho para seu pai.
Eu era mesmo um idiota.
E as coisas estavam apenas começando.
Uma batida na porta interrompeu o fluxo errante de meus pensamentos e uma empregada entrou carregando minhas roupas.
–A equipe da revista já chegou, senhorita. – a mulher colocou a roupa sobre a cama.
–Porra. – Bella se levantou, parecendo irritada. – Eu tinha me esquecido desta merda toda!
A empregada saiu de fininho ignorando as palavras de baixo calão de Bella, fechando a porta atrás de si.
Eu lhe lancei um olhar especulativo, também me levantando.
–Revista?
–Uma sessão de fotos ridícula que eu serei obrigada a fazer.
–Ah, o ônus do dinheiro e da fama. — comentei sarcasticamente, mas ela não viu muita graça.
–Eu tenho que ir. Ponha suas roupas. Eu estarei lá em algum lugar onde estarei sendo transformada na filhinha de Royce King.
E de novo, ela saiu do quarto batendo a porta e me deixando lá, sem entender nada.
Eu me vesti e saí do quarto, torcendo para não me perder nos corredores.
Felizmente consegui achar o caminho para o hall de entrada que, naquele momento, encontrava-se movimentado, com pessoas entrando e saindo muito ocupadas.
Devia ser a equipe da tal revista.
Eu passei despercebido por todos até onde a movimentação parecia estar mais acentuada, num canto do jardim com mesas espalhadas.
–Aqui vai ser a sessão? – a mesma garota que eu vira na festa destilando veneno contra Bella junto ao tal Félix, circulava por ali segurando um pequeno cão branco.
–Sim. – um rapaz com cara de nerd e afeminado arrumava o ambiente e dava ordens. – E eu pedi que ninguém ficasse por aqui para atrapalhar, queridinha...
A moça bufou indignada.
–Você sabe com quem está falando?
O rapaz apenas rolou os olhos.
–Eu sou prima da Bella! Meu tio é o Royce King, então é bom não me destratar porque eu posso acabar com esta sessão em dois segundos!
–Eu duvido, meu amor! – o rapaz não pareceu se importar com as ameaças. – Eu sei muito bem que andou rondando por aqui para saber se também poderia aparecer nas fotos, mas meus leitores não estão interessados em parentes sem um tostão.
–Ah! – ela perdeu o ar.
–Mas este cachorrinho é bem bonitinho...
–A Bella ganhou ele quando voltou, mas nunca se importou com o coitadinho, então eu tomo conta dele. Eu sou ótima com animais.
–Não me interessa, mas podemos usar ele nas fotos, vai ficar perfeito...
–Não acredito que quer o meu cachorro nas fotos e eu não!
–O cachorro não é da sua prima?
–É, mas...
–Então vamos colocá-lo nas fotos. O público vai amar uma princesa rica com um lindo animalzinho... Charlotte, pega o cachorro! – ele gritou.
Gianna passou o cachorro depois de algumas reclamações para a moça da produção e se afastou, resmungando.
Então Bella apareceu.
E agora era outra pessoa. Era a filha do milionário.
Era a herdeira King. Com um penteado impecável, maquiagem perfeita e uma roupa de grife que gritava exclusividade.
Seu olhar sem expressão percorreu o lugar, enquanto o produtor lhe instruía sobre o que queria das fotos.
O cachorro foi colocado na sua frente.
Um rolar de olhos foi tudo o que consegui de sua expressão.
As fotos começaram e felizmente ninguém parecia me notar, observando tudo de uma certa distância segura. Até que alguém se postou ao meu lado.
–Ela é até bonita assim toda arrumada, não é?
Eu me virei e vi a loira que caiu do muro.
A nova amiga íntima de Royce King.
–Ela é linda de qualquer jeito. – me vi defendendo Bella de seu veneno.
–Hum... Defendendo a namoradinha! Que lindo! – não me passou despercebido seu deboche. – Queria saber como um garçom começa a namorar a filha de um milionário.
–Eu também queria saber como uma penetra que pula o muro namora um milionário.
Ela ficou séria.
–Não repita isto para ninguém e eu não conto a ninguém que é um garçonzinho.
–Está tentando fazer um acordo comigo? – indaguei divertido.
–Tem tanto a perder quanto eu.
–Está enganada. Bella sabe quem eu sou.
–Mas Royce não.
–Tenho certeza que ele vai acabar sabendo quem eu sou também. – Bella se encarregaria disto em breve, eu tinha certeza.
– Acha mesmo que ele vai deixar a filha ser comida por um garçom? Ele acabaria com você e comeria seu pênis com caviar!
–Modo interessante de colocar as coisas. – meu tom era divertido, mas no fundo eu realmente começava a temer as consequências de estar me envolvendo, mesmo que sendo de mentira, com a filha de um homem poderoso como Royce King. – Mas não se preocupe, seu segredo está seguro comigo, garota do muro.
Ela ficou me olhando por alguns instantes, como se avaliando se podia mesmo confiar em mim.
–É bom mesmo. Lhe darei uma pequena dica sobre mim. É bem melhor me ter como amiga e aliada do que como inimiga. Namorar Royce King é a chance da minha vida e se estragar isto, não vai querer saber o que eu sou capaz, garçonzinho.
E ela saiu batendo os saltos no chão, os cabelos loiros dançando em volta dos seus ombros muito orgulhosos.
Eu voltei minha atenção para Bella e eles pareciam estar numa espécie de intervalo quando me aproximei mais.
Ela me viu e se levantou, vindo na minha direção.
–Mataria por um cigarro.
Eu sorri e peguei meu maço, lhe passando um.
Como na tarde em que nos conhecemos, eu acendi seu cigarro, chafurdando em sua proximidade.
A movimentação continuava ao nosso redor enquanto fumávamos em silêncio.
–Ei Bella, uma foto de bastidores para a revista. – a tal Charlotte surgiu com um celular.
Ela rolou os olhos e, sem pensar duas vezes, eu a puxei para perto, passando meu braço livre por sua cintura.
Podia perceber sua surpresa, pela tensão em seu corpo e seu olhar indignado e até mesmo amedrontado, quando ela levantou a cabeça pra me fitar.
–Hora do show, Bella. – eu sussurrei. Adorando senti-la tão perto.
Devorando com o olhar seus lábios entreabertos pintados de rosa tão próximos dos meus. Quase sentia seu hálito em minha língua. Eu poderia fazer um espetáculo completo me inclinando e a beijando.
Mas ela piscou, como se compreendendo e eu vi sua máscara de neutralidade ser posta no lugar de novo, antes dela virar.
–Claro que sim.
Charlote tirou a foto, alheia à tensão e sorriu.
Bella se afastou. Cedo demais.
–E quem é este garoto bonito? – Charlote perguntou digitando rapidamente.
–Meu namorado. – era incrível como eu estava começando a gostar mais do que seria saudável desta expressão vindo dela.
Charlotte olhou pra mim de novo, agora cheia de curiosidade.
–Hum... E qual seu nome?
–Não precisa pôr meu nome. Aposto que ninguém quer saber – respondi.
Ela parecia que ia insistir, mas se afastou.
–Bella, vamos recomeçar? – o produtor a chamou e ela apagou o cigarro.
–Acho que devemos sair.
Lá vinha ela com seus enigmas.
–Sair? Tipo um encontro?
–Não é o que os namorados fazem?
–Mesmo os de mentira?
–Principalmente os de mentira.
Eu fiquei com vontade de novo de perguntar por que de verdade ela fazia aquilo.
Por que ela precisava de mim?
Era um inferno não saber. E mesmo assim, eu me vi concordando com tudo o que ela pedia.
De novo.
Naquela noite, eu iria jantar com Isabella King.
Um encontro.
Nosso primeiro encontro de mentira.
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