Independência
57 O Desabrochar de Uma Flor
Notas iniciais
– Você não quer ir ao cinema com a gente? — pergunta Paulo.
– Não, valeu. Estou precisando descansar.
– Ah, qual é?! Eu vou ter que ficar segurando vela para esses dois!
– Você que escolheu vir. — diz Koki.
– Tá, mas eu preciso trocar de roupa.
– Que nada Alicia, você está ótima assim mesmo. — elogia Paulo.
Eu fico meia sem jeito, a Marce e o Koki ficam nos olhando de uma forma estranha, isso me deixa mais constrangida ainda. Então assim, partimos para o cinema.
__________________________________
Estávamos escolhendo o filme.
– Que tal esse, "Quando um amor Floresce"? — sugere Marcelina.
– É melhor esse, "A Guerra do Novo Mundo". — fala o Paulo.
– Pode ser. — digo.
– E você Kokimoto, qual escolhe? — pergunta a Marcelina colocando pressão.
– Bom, Paulo... Eu acho melhor assistir o que a Marcinha disse.
– Eu e o Koki assistimos um, e você e a Alicia assistem outro. O que você acha Paulo? — sugere Marce.
– Não mesmo! Deixar você e o japinha sozinhos em uma sala escura? Negativo!
Então fomos assistir aquele filme de romance. Enquanto a Marcelina estava toda alegre, eu, Paulo e Koki, estávamos morrendo de tédio. Eu não cheguei nem na metade do filme e peguei no sono.
– Ei, vocês dois! — acordo-me com a Marcelina chamando — Vocês vão ficar dormindo no cinema?!
Neste momento eu reparo que estava dormindo no ombro do Paulo.
– Alicia, Paulo, levantem logo daí! — fala o Koki.
– Calma, estou indo! — diz o Paulo esfregando os olhos.
Era mais ou menos oito horas, o céu estava escuro, mas mesmo assim, nós quatro fomos passear na praça. Ela estava tão linda com a luz da lua!
– Estou muito ansiosa para a excursão à praia! — afirma Marcelina.
– Eu também! — diz o Kokimoto abraçando-a.
– Alguns dias longe dos pais, que presente!
– Você tem dezoito anos e ainda reclama dos seus pais? — pergunto com um toque de sarcasmo.
– Eu ainda sou estudante, preciso deles. — justifica.
Ficamos caminhando tranquilamente, até um homem mascarado apontar uma faca para mim e pedir dinheiro.
– Eu não tenho dinheiro aqui! — digo.
– Aé, vamos ver!
Ele coloca a faca no meu pescoço, mas eu dou um tapa na mão dele, que faz o objeto saltar longe. Seguido de um soco no rosto, e a boca dele começa a sangrar, mas quando ele parte para cima de mim, o Paulo interfere empurrando o homem e chutando-o. O mascarado sai correndo, parece que desistiu de nos assaltar.
– Não recebo nem um obrigado?
– Me poupe Paulo, eu acabaria com ele mesmo sem a sua ajuda!
– E o que você faria? — pergunta o Kokimoto.
– Eu sei alguns golpes básicos de Artes Marciais, isso seria o suficiente! — explico.
Depois disso, resolvemos ir embora. O Paulo me levou até o meu apartamento, enquanto Marce e Koki esperam na portaria.
– Você não quer entrar um pouco? — pergunto abrindo a porta.
– Não, valeu. Você gostou de hoje?
– Aham, tirando a parte do filme! — rimos juntos.
– Por mim iriamos assistir um filme de ação. — ele tenta ser gentil, ou pelo menos parece que tenta.
– Tudo bem, eu gostei mesmo assim. — dou um beijo de leve na bochecha dele.
Vou fechando a porta, mas, ele coloca a mão e diz:
– Alicia, espera. — ele pensa um pouco.
Eu começo a sorrir sem nem me dar conta, sem motivo nenhum, para falar a verdade.
– A gente podia sair mais vezes, mas só nós dois, aí você poderia escolher o que quisesse fazer! — ele fica vermelho, e sinceramente, muito fofo.
– Claro, é uma boa ideia! — então eu fecho a porta e começo a sorrir feito uma boba.
Aquele dia tinha sido muito legal, e uma surpresa, já que o Paulo estava incluído nele. Pela primeira vez eu senti que alguém poderia me proteger, além da tia Marcela, eu senti que não precisava tentar ser a mais forte, pois eu tinha alguém para me ajudar. É como se todos os minutos que passei lutando contra os meus sentimentos, e colocando a minha força a frente de tudo, fosse inútil. De uma forma estranha, naquele dia, eu percebi que meu cérebro não era o centro de tudo, que meu coração precisa liberar o que sentia, eu não poderia viver sendo forte somente para me privar da crueldade do mundo. A final, eu não passava de uma garotinha solitária descartada pelos pais, "descartada" pode ser uma palavra forte demais, eu sei que não era bem assim, mas me sentia desse modo.
Tomo uma decisão nesse instante: eu quero criar coragem! Não uma coragem falsa, que se baseia em medo camuflado. Eu quero ser corajosa de verdade, enfrentar o que a vida me reserva, me livrar da fantasia de que eu sou inútil para todos, ou até mesmo aceitar este fato. Agora vou ser aliada dos meus sentimentos, e usá-los a meu favor! Que tal me libertar como uma borboleta? A maior prova de coragem que darei será voando, sem medo do destino. Talvez a coisa mais louca que irei fazer, mas a mais certa sem dúvidas.
Fale com o autor