Independência
58 A Casa de Praia
Notas iniciais
Que tal me libertar como uma borboleta? A maior prova de coragem que darei será voando, sem medo do destino. Talvez a coisa mais louca que irei fazer, mas a mais certa sem dúvidas.
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Era domingo e eu estava arrumando as malas, pois partiria para a praia no dia seguinte. Minha parceira no ônibus seria a Valéria, a gente havia combinado isso.
Confesso que foi difícil dormir naquela noite, eu só ficava pensando em ser realmente forte, e não ficar vulnerável só porque me senti segura perto do Paulo. Na verdade eu fui muito boba, aquele moleque mal consegue se proteger sozinho, jamais conseguiria levar um fardo consigo.
Mudando de assunto, eu levantei tão cansada que mal me lembro do que fiz, eu apenas me acordei dentro do ônibus, esfreguei os olhos e perguntei para Valéria:
– Já chegamos? Eu acho que parte do meu cérebro só foi ligar agora.
– Estranho, você não costuma sentir tanto sono a essa hora! Bom, são cinco minutos até chegarmos.
Comecei a sentir uma leve dor de cabeça, mas não me afetou muito.
Chegando perto eu pude ver os fundos de uma casa com telhado azul. O Firmino estacionou o ônibus, e pude ver a casa de frente. Ela tinha dois andares e uma escada na sacada, era feita de uma madeira bonita, e dava de frente para uma praia 
Entramos na sala e a diretora disse:
– Quanto menos isso durar, melhor! Então, no andar de cima tem um corredor com quatro quartos de cada lado, os quartos do lado direito serão dos meninos e o esquerdo das meninas. Cada quarto deverá conter três pessoas, e deixem os dois primeiros livres, pois é lá que eu, a professora Helena, Graça e Firmino iremos dormir.
Subimos as escadas e eu me dirijo para o último quarto do corredor, o mais longe da escada, entro acompanhada de Carmem e Valéria, elas iriam dormir no mesmo quatro que eu.
O lugar era espaçoso, havia duas camas de um lado e duas do outro, um enorme guarda roupa do lado da porta e uma vidraça que dava na sacada.
Carmem sentou em uma das camas e disse:
– É bem confortável! — e deitou-se demonstrando aprovação.
– Que horas são? Eu estou morrendo de fome! — diz Valéria sentando na cama ao lado.
– Nove e meia. — respondo sentando na cama que estava de frente para Valéria — Você vai ter que esperar.
– Não vou mesmo! — ela corre até a mochila e pega três sacos de salgadinho — Vocês querem?
– Sim! — respondemos eu e Carmem juntas.
Ficamos comendo e conversando, até um barulho de sino nos atormentar, fomos até a porta para ver o que era, e percebemos que todos os outros tinham feito o mesmo. Vimos a diretora Olivia, ela falou que aquele seria o alerta para todos os avisos, e disse que o almoço estava pronto.
Fomos todos lavar as mãos no banheiro do andar de baixo (o único banheiro que tinha) e depois fomos para a sala, atrás do sofá havia uma mesa recheada com arroz, salada de maionese, refrigerante, suco, e o melhor, churrasco.
Todos sentaram para comer.
– Que delícia! — elogia Jaime.
– Pois é, foi o Firmino que fez, ele leva jeito! — diz a professora.
– O primo da minha mãe mora no Rio Grande do Sul, e lá o churrasco faz parte da cultura. Ele assa muito bem, eu nunca comi carne igual! — comenta Cirilo.
– Nem a do Firmino é melhor? — pergunta Laura.
– É que o primo Douglas já é acostumado a fazer, ele até tem um tempero especial.
Vi que a Maria Joaquina estava a uns quinze minutos tentando escolher um pedaço de carne.
– O que foi? — pergunta Firmino.
– Só tem carne gordurosa?
– Já venho. — ele vai até a cozinha e pega uma bandeja com carnes magras — Sabia que alguém ia pedir.
O almoço estava muito bom, comemos até não aguentar mais, depois a Graça distribuiu picolés como sobremesa, eu não peguei, só subi para o meu quarto.
Lá eu fiquei olhando o mar pela sacada, ele era tão lindo! Reparei que alguém abriu a porta, mas finge que não tinha visto.
– O mar é tão bonito! — diz Paulo chegando ao meu lado — Eu peguei um picolé de creme para você, não sabia do que gostava, então escolhi o que você pediu da última vez que fomos à sorveteria.
– Obrigado, eu gosto desse sabor!
Ficamos em silêncio por alguns segundos até ele dizer:
– Vocês meninas tem sorte da janela estar virada para o mar, nós temos que ficar olhando para outras casas.
– Que pena. Mas você pode vir aqui quando quiser, para observar o mar!
– Valeu, eu vou mesmo. — nós sorrimos.
Novamente um silêncio paira no ar, e ficamos sem dizer uma palavra.
– Ahh, meu olho! — grita ele — Entrou alguma coisa, acho que é um grão de areia!
– Tira as mãos que eu vou assoprar para ver se sai. — digo.
– Isso só piorou as coisas! — reclama ele.
– Não piorou nada, me deixa tentar de novo!
– Não!
Eu vou indo para frente e ele cada vez mais para trás, até bater as costas nas grades da varanda, com o impacto eu chego perto demais dele. Nós ficamos nos olhando, mas palavra nenhuma é dita. Eu não sei o que passou pela minha cabeça nesse momento, eu apenas fixei meus olhos nos dele e não falei nada.
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