Quarto Céu — Sexto dia da Criação

Escrevo esse relato como forma de preservar aquilo que vivenciei em minhas batalhas como um legionário querubim, os Malakins contam a história por meio de fatos porém sem nenhum sentimento envolvido mas eu espero que com esse relato eu possa dar uma visão mais pessoal e emotiva ao evento da luta contra "A humanoide Serpente de Mun-Jadin".
Sou capitão da segunda legião mais comumente denominada — "Caçadora", nós da segunda legião somos treinados para caçar,capturar e ou matar criaturas que ameacem a soberania dos arcanjos. A missão do qual essa história faz parte ficou oficialmente registrada como "Caça ao humanoide serpente de Mun-Jadin", contudo, ela adquiriu outro nome entre as tropas, um nome que reflete mais a realidade, "A última batalha da Segunda".
Me chamo Garion, como capitão da Segunda, era minha tarefa eliminar essa ameaça que de algum jeito invadiu a Forte da Guarda e dizimou a guarnição (que continha legionários da segunda) o que fez a missão ser uma missão de honra para vingar aqueles querubins mortos da nossa legião. Parti da Fortaleza da Esperança levando comigo trezentos dos mais bem treinados querubins e entre eles cem shedus que eram conhecidos por sua forma animalesca e ferocidade em combate, todos prontos para vingar os que caíram em nome da Segunda.
O Forte da Guarda era uma construção modesta, suas muralhas de dez metros de altura que circundavam a torre eram brancas e até pareciam emitir um certo brilho, entre a torre e o muro tinha um pátio circular com as pedras desse pátio que mesmo de longe dava pra ver que estavam manchadas de sangue e pedaços de corpos, para entrar na torre tinha-se que passar por uma portão feito de ferro de cinco metros e até no portão tinham corpos de anjos forçosamente cravados, a torre era cinza e tinha vinte metros de altura com trinta de largura, sendo dividida em três andares e os estandartes da guarnição localizada ali ainda estavam eretos quando minha tropa chegou. Dividi a companhia em três antes de chegarmos muito perto do forte, uma para cada andar, a primeira era comndada por mim, a segunda pelo meu tenente Lazion e a terceira que era composta unicamente de shedus era comandada por Zabion. As três tinham o objetivo de encontrar o alvo e caso o encontrassem deveriam imediatamente sinalizar por apoio e esperar os reforços antes de atacar, não sabíamos o quão poderosa era essa besta então todo cuidado era pouco nessa situação. Sobrevoando as muralhas todos nós sentimos um cheiro forte de sangue e morte, a terceira divisão foi direto ao terceiro andar e também foi a mais rápida a entrar graças a sua ânsia por vingar seus companheiros, logo depois a segunda divisão entrou no segundo andar e finalmente a minha divisão se deslocou pro primeiro andar.
Se lá fora o cheiro de morte era forte, aqui dentro era insuportável.
Já na entrada eu ordenei aos meus soldados:
— Investiguem o lugar, se qualquer sinal dessa besta for detectado venham direto para mim, não entrem em combate sem suporte. Isso é uma ordem!

O cheiro se fazia ainda mais insuportável pelo fato de que nós Querubins temos os cinco sentidos mais aguçados que as outras castas, os corpos de pelo menos quarenta anjos estavam espalhados por esse andar, alguns completos, outros mutilados e alguns quase irreconhecíveis graças a algum tipo de fogo mágico ou etéreo. Doía ver tantos bons guerreiros mortos por um ser inferior a nós anjos, isso me enfureceu e enfureceu mais ainda meus soldados que agora estavam mais ávidos pra vingar seus companheiros de casta. Meus soldados não acharam nenhum sinal da besta, isso me frustrou mas ainda tínhamos dois outros andares pra ajudarmos a vasculhar.
— Legionários! Comigo! -Eu bradei. -Ajudaremos a segunda divisão a achar essa besta e faremos dela um exemplo por ter ousado ir contra os Arcanjos e ter ofendido a Legião Caçadora!
— Pela Segunda! -Gritaram os soldados em uníssono.

Subimos ao segundo andar e lá vimos uma cena que me enjoa até hoje. A mesma cena que eu tinha visto lá embaixo de anjos mutilados e dilacerados se tornou mais grotesca pelo quantidade de anjos que mandei para aquele andar, aqui, o cheiro era intragável ao ponto de que boa parte dos meus homens ficaram nauseados. Quando ia dar a ordem para o lugar ser vasculhado por sobreviventes, uma mão aperta minha canela. Eu olho pra baixo e vejo o meu próprio tenente, Lazion, sangrando,com sua armadura em fragalhos, faltando um braço e com suas asas quebradas.
— Capitão, eu falhei na missão, me perdoe. — Choramingou o pobre soldado enquanto eu o segurava nos meus braços pra ele ficar mais confortável.
— Cale a boca soldado. Você morreu como viveu, lutando pela glória dos Gigantes! — exclamei olhando no fundo dos olhos de Lazion
— Mas senhor, essa besta é muito poderosa, sai vivo por pura sorte cega, é um milagre eu ainda conseguir respirar depois de como fui atacado.
— Me diga o que aconteceu e por que não chamou por reforços? Eu dei ordens diretas. Agora me conte o que aconteceu e não me poupe de detalhes, por favor.
— Tudo começou quando entramos nesse maldito andar... — Parou pra tossir -Mandei imediatamente que meus homens investigasem o andar, porém, não achamos nada e justo quando iríamos descer pra ajudar o senhor, aquela besta nos atacou. Foi tudo repentino e de surpresa, com uma rajada de fogo perdi um quarto das tropas, antes que eu ordenasse o ataque meus querubins já estavam partindo pra cima da fera... — Lazion parou para tossir um pouco de sangue e continuou — Aquela coisa era muito rápida e se desviou de alguns dos ataques... Mas não de todos. Conseguimos ferir ela mas ao custo de mais um quarto dos legionários. Reagrupamos rapidamente e atacamos de novo mas foi inútil, senhor. — Lazion começou a chorar — Valgue, Wortan, Gori, Zos e todo o resto morreram em vão senhor! Nem conseguimos ferir gravemente aquele ser e nem consegui descobrir como ela se escondeu dos nossos sentidos. Me perdoe capitão, por favor me perdoe... — e ainda chorando Lazion morreu. Seus olhos castanhos e seus cabelos negros perderam o brilho, seu corpo musculoso pendeu, seu coração parou de bater e as lágrimas pararam.

Enfurecido, soltei um urro de agonia sem me importar se a fera estava ali ou não. E Ordenei:
— Vamos para o terceiro andar! Vou fazer com que essa besta se arrependa de ter ousado desafiar a Segunda Legião!
— Sim senhor, Pela Segunda! — urraram os soldados.
No terceiro andar finalmente vimos a besta, ela tinha a forma humanoide, era musculosa, possuía quatro metros de altura, sua pele escamosa era vermelha, seus olhos brilhavam em um verde escuro e emitia um som de sibilo doentio. A fera estava acabando com o último foco de shedus que à atacavam, os shedus eram ferozes e rápidos e isso fez com que deixassem a fera sangrando, entretanto, a besta era ainda mais rápida, mais feroz e dos cem shedus que estavam no terceiro andar apenas dez ainda estavam de pé com suas formas animalescas incluindo Zabion. Então Gritei: — Segunda Legião! Ataquem sem misericórdia, matem essa fera do abismo! -
Após a ordem, eu e meus cem homens avançamos com violência contra aquela fera que em uma rajada de fogo místico quebrou nossa força de impacto e nos separou. Acabei sendo empurrado para uma parede graças a um soldado que se sacrificou para me salvar. Levantei-me com espada em punho, soltei um brado alto e feroz e parti pra cima da fera.
A fera era rápida, mas não o suficiente para noventa anjos extremamente furiosos, ela foi atacada de todos os lados e direções, ficando sem tempo pra reagir. A cada estocada e corte ficávamos mais motivados, a cada gemido de dor da fera nossos corações se aqueciam mais e mais com o combate, então, repentinamente a besta deu um último urro e explodiu num feixe de luz. A força da explosão foi tão violenta que os anjos mais próximos dela foram incinerados e os mais afastados foram arremessados para as paredes da torre.
Acordei alguns segundos após a explosão e vi que aquela Coisa ainda estava de pé, a explosão foi só um meio de afastar a massa de anjos que à assediava, admito que foi uma técnica fabulosa e impressionante e até invejei a besta mas esse não era hora e nem lugar para esse tipo de sentimento. Avancei impetuosamente contra aquela Coisa que já estava gravemente ferida e cravei minha espada no seu coração, confiante da vitória, dei uma risada alta e torci a espada. A fera olhou pra mim, deu um sorriso sinistro e seus olhos e ferimentos começaram a brilhar fortemente, por reflexo voei para longe e tentei descer pro segundo andar mas eu fui lento demais... A explosão me pegou e fui arremessado para fora da torre, minha última lembrança foi cair de costas no chão e ficar inconsciente.
Quando acordei no pátio do forte, vi que o terceiro andar da torre tinha sido quase completamente destruído e tinham pedaços de anjos espalhados pelo chão, pensei que era o único sobrevivente mas olhando ao meu redor notei outros legionários gemendo de dor no chão ou se levantando com muito esforço. Reuni esses poucos anjos sobreviventes, vinte no total, e partirmos de volta a Fortaleza da Esperança. Me reportei ao meu superior relatando o que aconteceu e que no total perdemos quatrocentos anjos no Forte, cento e oitenta nossos e o restante era da guarnição do forte. Após contar o relato prossegui para meu quarto para repousar e me recuperar dos meus ferimentos.
Após esse combate, a Segunda não participou de mais nenhum combate ou conflito até às Guerras Etéreas onde atuou na Europa lutando contra entidades pagãs britânicas.

—Garion, capitão da Segunda Legião

Notas finais
Deixem críticas construtivas e comentários em como devo melhorar.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!