Inconveniente
2 II
Foi surpreendente quando, no dia seguinte, optou pelo trabalho presencial. Madara ficou feliz, mas não deixou de questionar a razão, recebendo a resposta de que tinha se sentido entediado em casa.
A mentira mais simples em que conseguira pensar.
Tinha ido até Konoha porque queria ver Tobirama e o amigo com quem ele era tão carinhoso e, unicamente, porquê não admitia aquilo!
Izuna conhecia o Senju. Sabia que era frio, irascível, prepotente e que morreria sozinho e amargurado. Aqueles gestos testemunhados por ele no dia anterior — abraço, sorrisos e olhares cheio de orgulho — não combinavam em nada com a personalidade do irmão de Hashirama. E, ao mesmo tempo em que esquentava a cabeça querendo saber o motivo do loiro ser objeto de atitudes inéditas por parte de Tobirama, se questionava por que se importava.
— Você vai ficar comigo na minha sala. — Madara sorriu, guiando-o para portas de madeira à direita. — Depois vamos a um bom restaurante. Eu pago.
A porta de Hashirama estava aberta, como sempre, e Izuna o viu concordar com algo ao telefone, porém nenhum sinal do caçula.
Mais conversou com o irmão do que de fato trabalhou. Os Uchihas eram muito próximos e, ainda que não fossem mais crianças, sempre se divertiam juntos. Quando saíram para comer, o mais velho informou ao secretário que não tinha horário para voltar e pediu para que ele levasse qualquer questão urgente a Hashirama. Escolheram um restaurante no último andar de um prédio luxuoso e espelhado e se deliciaram com a apetitosa culinária mexicana.
Já estavam pedindo a conta, quando Madara comentou com suavidade:
— Algo está te incomodando? Você está um pouco distraído hoje.
Izuna corou, incrédulo consigo mesmo por ter acreditado que conseguiria enganar o irmão.
Viu o garçom se aproximar com a conta e Madara puxar um cartão preto do bolso para entregar a ele. Esperou que o funcionário saísse para admitir baixinho:
— Bem, sim…
O irmão o encarou, esperando pacientemente.
— Sabe… Esse Namikaze… Ele já é conhecido da família Senju?
Seus olhos pretos não perderam a breve e levíssima enrugada de testa do mais velho. Ainda assim, ele respondeu indiferente:
— Até onde sei, ele é amigo do Tobirama. Parece que frequentaram um grupo de corridas juntos ou o Tobirama foi o senpai dele, não lembro exatamente. Isso é o que está te preocupando?
O garçom voltou, devolveu o cartão a Madara que agradeceu, fez uma reverência e se retirou. Izuna aproveitou o momento para desviar o olhar e sussurrar:
— Me preocupa esses dois juntos.
Imprevisivelmente, sentiu o irmão jogar o braço em seus ombros e puxá-lo para mais perto.
— Eu entendo o que está dizendo, irmãozinho, mas não se preocupe. Nossos interesses estão seguros. Eu vou cuidar de tudo, confie no seu nii-san. — garantiu ele sorrindo abertamente.
Durante o dia todo, o Uchiha não teve sinais nem de Tobirama e nem do novo sócio. Com a proximidade do fim do expediente, passou a se sentir desesperado e patético. Tinha feito o sacrifício de sair de casa e para quê? Não que passar algumas horas com o irmão não fosse agradável, mas, na verdade, suas intenções ao ir presencialmente a Konoha eram outras e bem distintas. Fechou as guias do notebook tratando de convencer a si mesmo que o que o Senju fazia em sua vida pessoal não lhe dizia respeito e, se queria se envolver com aquele loiro insosso, problema dele.
Despediu-se do irmão, que se preparava para uma reunião online, atravessou as portas de madeira e andou até o elevador, resoluto. Não pensaria mais naquilo. Passaria mensagem para algum amigo ou amiga de noites solitárias e se divertiria. Assim que as portas de metal do elevador abriram, porém, deu de cara com Uchiha Kagami, fiel subordinado e secretário do segundo Senju, segurando uma caixa de papelão.
Apesar de serem família, ele e Izuna conviviam apenas amistosamente e não eram íntimos, o que não impedia, entretanto, que o irmão de Madara se espantasse em vê-lo tão tarde na empresa, uma vez que sabia ser aniversário de seu único filho, Shisui.
— Já não devia estar em casa? — perguntou curioso.
Kagami suspirou.
— Sim, mas assim que finalizei o trabalho a encomenda do Tobirama-sama chegou. Veio antes do previsto, era para ter sido entregue só amanhã. Ele está de home-office hoje e é uma carga preciosa, então, não posso deixar aqui. Terei que levar até ele.
Ah! Isso explicava porquê Izuna não o tinha visto. O paradeiro do loiro era o único mistério que restava.
— Por que você não pede para o Hashirama levar?
— Hashirama-sama está analisando documentos importantes. Neste caso, geralmente, ele trabalha a noite toda. Não posso despejar essa carga nele.
— E se você ligasse para o Tobirama vir buscar?
— Bom, eu teria que esperar de qualquer forma, pois não confiaria em deixar aqui sem supervisão. — Kagami soltou outro suspiro, mas parecia determinado. — Tudo bem, eu vou levar a caixa para o Tobirama-sama rapidamente e depois correr para o Shisui.
— Ele é um chefe que merece esse sacrifício? — Izuna perguntou surpreso. A resposta veio sem hesitação e clara:
— Com toda certeza.
O elevador parou e Kagami começou a andar, seguido por Izuna que sugeriu sem pensar direito e meio sem graça:
— Se quiser… eu posso entregar.
— O que?
O secretário abraçou a caixa, desconfiado.
— Bom, eu estou indo para casa, estou de carro e para chegar do bairro do Tobirama ao meu, basta atravessar uma avenida … Então.
— Não sei… — Kagami disse inseguro. — Se acontecer alguma coisa com você, seu irmão vai arrancar os meus olhos.
O irmãozinho de Madara sentiu as orelhas fumaçando e o rosto todo quente e vermelho de constrangimento. Ultrajado, puxou a caixa para si sem cerimônias.
— Que bobagem! Só vou entregar essa porcaria de caixa. Tobirama e eu sabemos ser civilizados, ouviu? Dê os parabéns ao Shisui por mim.
E saiu batendo o pé.
O segundo Senju morava em uma casa azul, simples e antiga. Daquelas com grandes janelas e um portão baixo e convidativo demais para o temperamento do morador. Izuna achava muito antiquado, mas até que combinava.
Respirando fundo, desceu do carro preto com elegância. Estava frio, passava das nove e a rua estava deserta, porém era possível ver luzes acesas na casa. Pegou a caixa no banco do passageiro, abriu o portão que não fez nenhum barulho e, com o coração aos pulos, apertou a campainha do lado esquerdo.
Ouviu passos dentro da casa e alguns segundos depois Tobirama abriu a porta.
A garganta de Izuna secou.
Apesar da baixa temperatura, ele usava somente uma calça de moletom azul. Os cabelos estavam molhados e o cheiro de sabonete deixou o Uchiha ainda mais nervoso. O peito e estômago estavam expostos ao esforçado olhar negro que tentava se manter no nível dos olhos vermelhos.
— Izuna?
Estava intrigado, obviamente, mas logo se preocupou:
— Alguma coisa errada com o meu irmão? Com Konoha?
O moreno balançou a cabeça firmemente, preparando-se para falar. Estendeu a caixa de papelão bruscamente, com as mãos tremendo.
— Vim entregar isso.
Com a sobrancelha arqueada, Tobirama pegou a caixa, olhando-a hesitante. Não demorou muito para o seu semblante desanuviar.
— Ah! São os tubos de PVC que eu pedi para fazer alguns testes. Deviam chegar amanhã.
— Sim, Kagami me disse.
— Não era nada urgente, realmente, mas obrigado.
O Uchiha sentiu uma raiva instantânea. Tobirama deveria somente agradecer por tamanha gentileza. Queria ter dado uma resposta grosseira e partido, no entanto não conseguia se mexer. Antes que pudesse pensar em qualquer coisa que interrompesse o silêncio doloroso que se fez entre eles, uma voz masculina soou de dentro da casa:
— Tobirama, você vai querer carne ou…?
E viu com os olhos negros e cheios, Namikaze Minato surgindo de algum lugar de dentro da casa no mesmo estado de nudez que Tobirama. Usando apenas uma calça jeans, o loiro sorriu calorosamente ao vê-lo e aproximou-se da porta. Os cabelos molhados e o mesmo cheiro de sabonete acertaram Izuna em cheio.
— Izuna-san, boa noite!
— Noite. — respondeu automaticamente, as engrenagens mentais funcionando a todo vapor.
O Senju observava tudo com naturalidade e só ficou ligeiramente desconfortável quando Namikaze falou:
— Que surpresa! Estou fazendo o jantar. Gostaria de comer?
O coração de Izuna errou uma batida e ele observou aquele quadro por um minuto eterno. O loiro estava ao lado do Senju; ambos torneados, semi despidos e com um delicioso cheiro de banho. Foi um suspiro dos lábios de Tobirama que o trouxe de volta ao presente.
Mais ordenando do que pedindo, ele fez um gesto com a cabeça chamando-o para dentro da casa e dizendo:
— Vamos, entre. Tem bastante para nós três.
O Uchiha sentiu o corpo tremer e vibrar, febril. Mas, por timidez ou por medo, só conseguiu gritar “Depravados” antes de sair correndo de volta para o carro com o corpo todo quente.
Durante muitos meses recusou-se a ir presencialmente até Konoha, mesmo sob o apelos do irmão e, toda vez que pensava naquela noite, não saberia dizer se sentia mais vergonha ou mais arrependimento.
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