Inconfidentes
10 Há controvérsias...
Notas iniciais

Jonathan chutou sua cama pela terceira vez, ainda frustrado com as correntes que lhe amarravam ao futuro programado que teria. Por que era tão difícil enfrentar seu pai? E assim dizer quem realmente era e o que queria fazer, como queria agir. Sempre foi o filho perfeito, seguia o que o pai dizia, tentava ser como Felipe, agir como tal apenas para agrada-lo. Tinha ótimas notas na escola, era um dos melhores no futebol, era um garoto agradável de se estar e bem-apessoado, mas Jonny estava cansado. Por que não podia seguir outro caminho?
Sua mãe, Rafaela, teria dado essa escolha ao menino. Ou não, sua mente retrucou, ou esqueceu que, ao morrer, te obriga a ler um livro por semana, numa lista que ela já tinha programado? Jonathan balançou a cabeça e se jogou na cama, com raiva de seus pais. Felipe tinha se transformado numa máquina desde a morte da esposa, o filho não conseguia mais ver o homem de antes.
Sim, Jonathan poderia dizer a seu pai que não queria trabalhar na empresa, mas era algo difícil. O loiro sabia que, depois de todo o medo, de toda as barreiras que ele próprio impunha, depois de tudo, estaria a liberdade. Jonny não sabia porquê, ou como se sentia na obrigação de seguir seu pai, e ele o odiava por isso, odiava-o por saber algo que o loiro não sabia e por fazê-lo se sentir impotente por isso.
Jonny refletiu sobre isso. Odiar os pais, depois precisar deles e odiá-los por isso também. E que talvez um certo ódio fosse necessário para que pudéssemos fazer as coisas e não nos acomodarmos em volta deles. Porém, era apenas uma fase, não? Um dia tudo se encaixaria, certo? Então tudo passaria a fazer sentido. Ele esperava que sim, porque senão...
O menino bufou, tentando de forma infrutífera impedir o fluxo de pensamentos. Se levantou ainda irritado e pegou o celular, logo pensando no que podia fazer sem o pai em casa, sem hora para voltar e, afinal, era sábado. Se ele não podia ser feliz, pelo menos poderia ficar bêbado.
Ao se virar, viu sua estante cheia de livros. Lembrou de sua mãe e – Sol também passou por sua cabeça –, duas que liam muito. Aquele tinha sido um dos problemas de sua mãe – provavelmente o de Sol também –, o mundo não era como nos livros, e isso decepcionava Rafaela, sempre.
Ao contrário de sua mãe, Jonny não queria nem gostar de ler. As pessoas começavam a encarnar personagens, sua mãe provavelmente era um, qual ele não sabia dizer, mas talvez ela tenha cansado, ou o encenado demais antes de praticamente se matar, entrando na casa em chamas atrás dos seus livros. Foi um golpe para o menino, o deixou com uma profunda e contínua tristeza. Jonny não queria ser o personagem de um livro, queria ser uma pessoa de verdade, mesmo não sabendo o que era uma pessoa de verdade, talvez a raiva aumentasse por não o saber, e aumentasse um pouco mais pois tudo que conhecia eram personagens de livros.
Limpou a cabeça, não adiantava ficar pensando sobre isso, e, obviamente, quanto mais tentasse tirar da cabeça, mais iria pensar no que não queria. Por isso resolveu se distrair, mandou mensagem para os amigos, uma boa distração era tudo que precisava. Por isso se concentrou em pensar no que iria vestir, quais as melhores baladas da cidade, o que fazer depois. Jogou o celular na cama com força e, ainda um pouco aborrecido com tudo, foi tomar banho e se arrumar.
Chegando à boate Queen’s a primeira coisa que o loiro fez foi procurar seus amigos, que já estavam lá a algum tempo. Os avistou numa mesa próxima a pista de dança e do bar, local estratégico. Até Nathan tinha aparecido e na mesa também estava, além dos garotos do time, uma outra garota que Jonny não reconheceu.
Assim que o viram se aproximando, os meninos começaram a assoviar alto, bater palmas e Matheus gritou:
— Gatinho, vem pra nossa mesa.
— Delícia, hein. — Carlos entrou na brincadeira.
— Ô, lá em casa... — Jonathan revirou os olhos, divertido, quando Eddie continuou.
— Que horror, Jonathan, você também cresceu que nem um filho da puta. — A menina riu, então Jonathan lembrou que aquela era Danielle, prima de Matheus. — Isso é injusto, estou me sentindo um hobbit no meio de vocês.
— Danielle, quanto tempo, já faz tipo uns três ou quatro anos que a gente não se vê. — Jonny riu, pegando uma cadeira de uma mesa vazia ao lado e sentando-se.
— Que bom que lembra dela, tive de reapresentar pra esses escrotos a minha prima, e eu odeio ter que ficar apresentando pessoas. — Matheus revirou os olhos e Jonny riu.
— Mas aí, Jonny, você chama a gente pra sair e é o último chegar. Cara, como tu demora pra se arrumar, puta merda, hein... — Eddie falou antes de beber de uma vez o conteúdo de seu copo. — Parece uma garota.
— Nem todas as garotas, cara... — Danielle lembrou, apontando para si mesma.
— É que nem todos nasceram com a sorte de ser lindo assim como você... — Jonathan passou a mão de brincadeira pelo corpo do amigo e mandou um beijo no ar e uma piscadinha, todos acabaram rindo.
Bem, todos menos Danielle, que só deu um ar de sorriso e depois voltou a uma carranca. O que era meio engraçado nela, mesmo sendo bem comum para uma pessoa geniosa como a morena.
Danielle tinha a pele morena, bem marrom, olhos amendoados e castanho-esverdeados, o cabelo cacheadíssimo estava preso em um rabo de cavalo muito bem alinhado, os lábios eram grossos e o nariz era quase pequeno demais. A camiseta folgada e cinza tinha vários rasgos nas costas formando o desenho de uma caveira, a calça jeans escura era justa, mas parecia confortável e nos pés all star vermelho de lona, nenhum adereço fora um colar prateado com uma medalha bonita, mas que o garoto não reconheceu.
...
Heloisa terminou a luxuosíssima maquiagem e olhou-se no espelho, seu trabalho estava ótimo, os lindos olhos azuis-esverdeados pareciam brilhar. Sorriu para seu reflexo da forma mais espontânea possível e bateu algumas fotos, fazendo questão de mostrar em suas redes sociais o belo vestido nude, justo e curto, com as alças estrategicamente caídas e os altíssimos sapatos dourados, argolas nas orelhas no mesmo tom do sapato e um belo colar de ouro com um pequeno diamante.
Estava linda, digna de uma passarela. O sorriso bonito e o olhar sexy escondiam tão bem seu interior que ninguém saberia que dentro daquela vaidosa jovem fervilhava constantes medos e inseguranças. Não que se achasse feia, ou indesejável, jamais, isso passava longe de Hello. Entretanto, sua beleza era parte do problema.
Assim que postou as fotos, jogou o celular na penteadeira e encarou seu reflexo novamente, agora sem sorrisos ou olhares fatais, apenas um admirável e triste rosto. Mesmo sem maquiagem Heloisa era linda. Mas, por outro lado, ela não tinha nenhum outro grande talento, nenhum outro adjetivo que pudesse ser usado para descrevê-la. Heloisa era linda e só.
A loira tocou em seu rosto e pensou quando envelhecesse e sua beleza se esvaísse, o que sobraria? O que teria para mostrar ao seus filhos e netos? Apenas fotos dos tempos da mocidade, quando era linda e jovial? Pensou nas pessoas que conhecia, Jonathan, apesar de meio lerdo, era cheio de talentos, a mesma coisa com a maioria dos outros garotos do time, grande parte sabia tocar ao menos um instrumento, Natasha seria uma das bailarinas mais incríveis da próxima década, a loira tinha certeza, e Raquel parecia ter nascido para a medicina.
Heloisa era linda e só, não é como se isso contasse como um talento, afinal nem era proposital, simples acidente genético. Se sentia tão inútil que às vezes tinha vontade de trocar toda sua beleza por algum talento excepcional, algo que a fizesse diferente e incrível, algo que ela amasse em fazer com todo seu ser. Nesses momentos qualquer coisa parecia melhor que ser condicionada a apenas uma característica. Sentiu os olhos arderem e uma vontade de chorar a tomou, piscou os olhos rapidamente e balançou a cabeça.
Levantou-se e ajeitou a roupa de novo, mesmo já estando impecável. Se a beleza era tudo que tinha, então Heloisa iria aproveita-la ao máximo, se essa foi a arma que a natureza escolher para a loira usar durante o misterioso jogo da vida, Heloisa usaria. Certo?, perguntou para si mesma e certo se respondeu. Ensaiou novamente o sorriso no rosto e saiu, pronta para arrasar na festa.
Ao chegar na boate Queen’s, com Raquel e Natasha já em seu encalço, a loira endireitou sua postura de superioridade e caminhou até onde estavam os meninos do time que, fora as duas morenas que a seguiam, eram os mais próximos que tinha como amigos. Ouviu assovios e palmas deles, em direção a ela e seu sorriso aumentou.
— Meninas, vocês estão muito gatas. — Luís comentou, mas olhava diretamente para Heloísa.
Luís era um cara bonito, moreno, alto, esbelto, sempre com um sorriso de canto cafajeste naqueles lábios carnudos e um olhar castanho, quente e devorador. A pele de cor café com leite parecia quase envernizada, o cabelo raspado e o nariz aquilino eram arrebatadores e o conjunto da obra o deixava de tirar o fôlego. Luís só não era do tipo muito falante, na verdade era o tipo de cara bem na dele. A menina baixou a cabeça rapidamente, numa espécie de reverência.
— Gatas é pouco, vocês estão maravilhosas. Ô, lá em casa... — Eddie assoviou e sorriu.
— Obrigada. — Respondeu, sendo seguida pelas meninas, que também agradeceram. — Ah, Natasha, pode fazer o favor de pegar uma cadeira para mim?
— Pega a minha, ó... — Carlos disse, se levantando antes que alguém falasse algo. — Vou ali no bar e quando voltar pego outra.
— Obrigadinha! — Natasha sorriu e Carlos sorriu de volta, antes de desaparecer em direção ao bar. — Hello, se importa se eu e Raquel irmos logo dançar? Estou louca por um pouco de movimento. — Heloisa sorriu de forma quase desdenhosa.
— Claro que não, Nat, daqui a pouco me junto a vocês. — Disse a loira, já se sentando e vendo suas amigas irem para a pista de dança, ainda meia vazia – ou seria meia cheia? Riu de si mesma ao lembrar do texto que havia lido em algum lugar.
— Vou ter de concordar com o Luís. — Heloisa levantou a cabeça para olhar o jogador que falava. — Está tentando fazer os caras do bar correrem para o banheiro? — Matheus riu e bateu em Eddie de leve com as costas da mão e Eduardo balançou a cabeça em concordância, sorrindo também. Hello riu delicadamente, um som suave a musical e, quando ia rebater o comentário, notou a garota ao lado de Math.
— Quem é essa? — Seu tom de voz não escondeu a surpresa e certo desdém, a garota parecia tão... Antiquada ali naquele grupo.
— Essa é Danielle. — A garota respondeu numa voz zangada, antes que qualquer um dos meninos falasse algo.
Hello estreitou levemente os olhos e bufou. Não se achava uma menina preconceituosa, Hello simplesmente achava que cada pessoa fazia parte de um grupo social e que esses grupos não deveriam se misturar, misturas causavam confusões, era o que seu pai sempre dizia e a menina concordava.
— Então, Hello, quer ir dançar? — Luís interrompeu, percebendo a tensão na mesa e recebendo um aceno de gratidão de Jonny, que até então estava calado.
A loira sorriu, seu ego se inflando em prazer, algo notado em suas feições prepotentes. Luís sorriu também, gostava da segurança de Heloísa, por algum motivo, apesar de sua personalidade ser contrária à da menina, Luís era calmo e uma pessoa de caráter forte e simples. Hello estendeu a mão para ele, que a aceitou e a guiou para a pista de dança.
Danielle bufou, irritada, com vontade de dar uns bons tapas no rosto rebocado daquela Barbie de R$1,99. Não que a menina não fosse bonita, pois Danielle reconhecia que era bonita, mas pelo pouco que tinha visto de sua personalidade, essa não valia nem dez centavos, o que a tornava feia aos olhos da morena.
— Já vai tarde. — Danielle falou alto, sem se importar se a menina escutaria ou não – na verdade estava torcendo em silêncio para que a loira tivesse escutado –, e levou um empurrão de Matheus.
— Não liga pra ela... — Ele falou, dando de ombros.
— Não ligo, não mando mensagem... Quero aquela Barbie bem longe de mim, senão eu vou dar uns tapas naquela fuça dela e quero ver se ela vai continuar sorrindo sem uns dentes. — A menina avisou, séria. Se Danielle se estressasse, faria mesmo aquilo.
— Heloísa sempre foi assim mesmo, mas no fundo ela é uma garota legal. — Jonny falou e foi encarado com desdém pela morena.
— Bem lá no fundo a parte “legal” dessa menina, né, Jonny? Perto do inferno, vai ver é até Satanás que guarda. — Ele deu de ombros e ela revirou os olhos.
No bar, Carlos esperava sua dose de vodca, estava meio irritado a alguns dias e não sabia o porquê, apenas sabia que tinha haver com Eddie. Não lembrava que o amigo tivesse feito algo para lhe irritar, mas devia ter feito alguma coisa, pois Carlos estava se sentindo muito incomodado quando o jogador estava por perto.
Já estava no quinto copo, ainda refletindo sobre o que estava acontecendo, e Carlos estava bêbado, sempre tinha sido fraco com bebida. Pediu a sexta dose, quando sentiu alguém sentar ao seu lado, não se virou, não se importava, de qualquer forma.
— Essa será por minha conta. — Escutou uma voz grave falar perto de sua cabeça.
Ao se virar, Carlos notou que um cara ruivo, com olhos castanhos e barba por fazer sorria para ele. O jogador riu e deu de ombros, aquele estranho estava fazendo algo com ele apenas com o olhar e, bêbado, não soube distinguir o que seria, por isso continuo rindo. O cara ao seu lado era alto e esbelto, com um sorriso bonito demais, parecia brilhar, e Carlos não se importava nenhum pouco em retribuir seu sorriso.
— Não sou idiota de recusar. — O jogador falou, com a língua meio enrolada, isso pareceu divertir o cara ruivo.
— Estou te vendo aqui sozinho a muito tempo, veio afogar mágoas? — Carlos piscou e o ruivo pareceu se dividir em dois, acho isso muito engraçado, então riu novamente.
— Não, na verdade estou aqui pra não quebrar a cara de um amigo e depois... Perder a amizade. — O ruivo ficou pensativo e Carlos sentiu vontade de rir novamente. — Qual seu nome?
— Ah, desculpe por isso, esqueci de me apresentar... Sou Gabriel. E com quem eu tenho o prazer de falar? — O jogador sorriu, era bom ser tratado como se não fosse uma criança de vez em quando.
— Gabriel? Tipo o anjo? — Carlos riu e Gabriel o acompanhou enquanto assentia de forma engraçada. — Prazer, sou Carlos. — Assim que as palavras deixaram sua boca, chegou sua nova dose de vodca.
— Acredite, o prazer é todo meu. — O ruivo o encarou de forma profunda e séria ao falar, mas em seguida sorriu. — Mas, então... Esse seu amigo deve ter feito algo bem grave.
— E o pior é que ele nem fez nada... — Carlos balbuciou, a seus olhos tudo parecia brilhar, mas o Gabriel pareceu ter lhe escutado. — Mas eu não quero falar disso...
— O do que quer falar, Carlos? — A forma como aquele homem falava seu nome era tão intensa e, para completar, colocou a mão no joelho do jogador.
— Eu? — O moreno inquiriu, sorrindo e se inclinando para frente, para o ruivo, nada lhe importava. — Bem, nós podíamos falar...
— Carlos, sua mãe está te ligando, disse que não conseguiu ligar para o seu celular, então ligou pra mim. — Eddie interrompeu, parecendo zangado.
— Diz pra ela que depois eu ligo...
— Não, agora, senão ela vai continuar me ligando. — Eddie puxou o amigo pelo braço, até eles estarem longe do ruivo.
— Me empresta seu telefone, o meu tá descarregado. — Bastante bêbado, Carlos tentava se concentrar.
— Era mentira... — Eddie começou e antes que a informação fosse processada continuou. — O que cê pensa que tá fazendo, Carlos? Tava todo mundo vendo você com aquele cara. — Carlos fez um gesto de descaso com a mão.
— Eu não estou nem aí, porra, me deixa. — O garoto tentou voltar para o bar, mas foi impedido por Eddie, que era muito maior. — Eduardo...
— Não, cara, não. Se continuar, vão achar que você é gay... — Ele sussurrou a última palavra, quase como se fosse algo ruim só de falar.
— E qual o problema? Ian é gay, e é uma pessoa incrível. — Carlos não estava, realmente, pensando em se assumir gay, mas não via problema algum nisso, ainda não tinha encontrado sua identidade de verdade.
— É, claro... Lembra o quanto o Ian sofreu? E o quanto seus pais sofreram? E você é o mais novo, ele é o mais velho, se você virar gay, só o Davi vai ser normal. — Eddie usava as palavras com muita convicção, quase desespero, era como se ele precisasse que Carlos acreditasse, mas a verdade é que o outro se encheu de raiva.
— Ian é normal, eu sou normal e Davi também é normal. E eu não quero mais ver você, estou cansando de você. — Carlos tentou passar de novo, porém foi impedido novamente, apenas olhou com determinação – que nem tinha – para os olhos cinzas e que imploravam que ele fosse escutado. — Me deixa passar agora.
— Você vai se arrepender disso quando o efeito do álcool passar. — Eddie tentou mais uma vez, com o coração acelerado.
— O problema vai ser meu. — Carlos passou por Eddie, sem ser impedido dessa vez e seguiu de volta ao bar.
Eddie olhou para seu amigo e não conseguiu saber o que sentia naquele momento, apenas sabia que aquela cena o incomodava como nada antes. Coçou a nuca e voltou à mesa, mas a verdade é que não queria mais estar ali, não queria presenciar seu amigo se perder.
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