Inconfidentes
13 Amigo é coisa pra se guardar...?
Notas iniciais
O telefone de Sol começou a tocar naquele momento, tirando-a do furacão de lembranças em que se encontrava. Suspirando a menina pegou o celular e atendeu a ligação de Elena.
— Oi. — Sua voz demonstrava a falta de ânimo.
— Meu Deus! Se me atender com mais animação vou achar que está a fim de mim. — A loira falou com sarcasmo.
— Que bom. — Sol rebateu no mesmo tom, entretanto lembrou a si mesma da mudança que estava fazendo em sua personalidade, finja até ser verdade, finja até ser verdade, repetiu seu mantra. — Me desculpe, mas, me fala, ligou por algum motivo em especial? — Elena ficou calada alguns instantes e a morena refletiu que ela deveria estar surpresa com a incomum mudança de atitude.
— Ah, bem, é que você não me ligou mais e eu estava curiosa pra saber como foi com o Nathan e tudo mais. — Sol murmurou qualquer coisa em concordância e pegou um pouco de comida fria, comendo enquanto pensava.
— Saí com o Nathan, fomos ao cinema, descobri que o time fez uma aposta: quem conseguisse uma declaração de amor minha ganharia alguma coisa. Me entrosei com o pessoal do time, eles são legais e tal, eu fiz uma contra aposta com o Nathan, falei que faria todos desistirem de mim e em breve vamos apostar nos nomes de quem achamos que serão os últimos a sair do jogo, mas não sei se estou gostando muito da coisa.
— Hm... Porquê? — Elena riu. — Esses joguinhos são a sua cara. A nossa cara, pra falar a verdade. Lembra o que você me falou uma vez? “Não importa qual a mentira se o resultado é alcançado”.
É exatamente por isso que não estou gostando, pensou a morena.
— Não quero magoar ninguém. — Elena ficou calada por um tempo e Sol imaginou o que ela pensava.
— Meio tarde pra isso, você já magoou.
— Nunca foi minha intenção. — Sol se defendeu do tom acusativo da loira.
— Ah, não, Sol? Nunca?! — Na voz de Elena, dor e raiva se misturavam.
— Ok, tá? Algumas vezes aconteceu, só porque eu queria, porque eu podia, mas eu não quero mais magoar ninguém.
— Tá, Sol. Só que quanto mais longe você vai, mais difícil é voltar, e nós duas sabemos que alguns caminhos não tem volta.
— Eu sei. — E era verdade, Sol já tinha cheia sua cota de caminhos sem volta, caminhos nos quais, às vezes, apenas duas escolhas eram possíveis: a rua de agulhas ou a rua de alfinetes.
— Inclusive, a história do incêndio
— Prefiro não falar sobre isso. — Sol interrompeu.
— Só queria agradecer, mas tudo bem. — Elena parecia não estar tão ok assim com aquilo, mas a morena agradeceu por ela deixar o assunto de lado. — Sol, posso perguntar uma coisa? — Elena estava hesitante.
— Sim. — Falou, devagar, pois tinha quase certeza de qual era a pergunta.
— É mesmo sua culpa o acidente? Tipo, é mesmo sua culpa o David estar em coma? — A menina perguntou, sua voz falhava, mas não parou de falar. — Eu não perguntei na época porque não estávamos nos falando, mas...
— Sim, é minha culpa. — Sol cortou, pois, entre a verdade e a mentira, a morena sabia o que Elena precisava escutar.
Em duas horas Jonathan acabou Elogio à. Loucura, era um livro pequeno, mas muito divertido. Pegou uma pequena agenda preta, que ficava sempre na mesinha ao lado da cama, abriu na página marcada e riscou o livro da lista. Na próxima semana teria que pegar A Letra Escarlate. Respirou fundo e resolveu comer alguma coisa, seu pai ainda não tinha voltado, o que o loiro achava ótimo.
Olhando o relógio pendurado na parede da cozinha, descobriu que já era quase quatro da tarde, suspirou e pegou um pacote de bolacha recheada, um de batata chips e refrigerante, foi até a sala e ligou a televisão, procurou algum filme legal, mas nada de ação ou terror passava, contrariado acabou escolhendo um filme que ele nunca tinha visto, mas que parecia decente, Na Natureza Selvagem.
Começou a comer enquanto assistia. Jonny fez uma careta para o começo. Chaaato. Mas, com o passar das cenas, descobriu que o que Christopher fazia era o que ele próprio tinha vontade de fazer. Perto do fim do filme, o celular do garoto começou a tocar, viu que era Heloisa, então silenciou a ligação, entretanto ela voltou a ligar, várias vezes, e a contragosto o loiro resolveu atender.
— Jonathan, e-eu... — O garoto se assustou, Heloisa estava chorando, mas de repente ela parou. — Me desculpe, eu não deveria ter ligado, eu... Desculpe, tchau.
— Espera! — Ele chamou, todavia ela já tinha desligado.
Jonny levantou e, por dois segundos refletiu se assistiria o final do filme, decidiu que o filme poderia esperar, Heloisa não. Desligou a TV, foi até o quarto, sua cabeça estava cheia com o que poderia ter deixado Hello daquele jeito. Acabou pegando a primeira camisa que viu pela frente, saiu do quarto se vestindo, pegou a chave, foi até a garagem, entrou em seu carro. Heloisa não era do tipo que chorava fácil, nunca tinha sido e isso era algo que ele sabia, se conheciam desde pequenos. Para ela estar chorando daquele jeito algo sério devia ter acontecido. Abriu o portão elétrico e saiu, depois de tudo trancado, seguiu para a casa da loira.
Fazia muito tempo que ele e Heloisa não tinham uma conversa que ia além do superficial, desde que terminaram, Jonny sabia. O relacionamento deles estava desgastante e forçado, mas era tão longo que nenhum dos dois tinha coragem de terminar, até que um dia Hello foi até a casa dele, assistiram um filme, cada um de um lado do sofá e, antes de ir embora, ela disse que era melhor eles terminarem, Jonny concordou. Nada de drama, nada de choro, nada de gritos, depois daí se tratavam como meros conhecidos, não como os melhores amigos de antes, não como ex-namorados, só conhecidos. Esse era o pior de se relacionar com um amigo, quando acaba você perde tudo.
Dirigiu o mais rápido que podia, pois, apesar de Heloísa ter se transformado numa megera da noite para o dia e que o garoto não gostasse de estar perto dela na maior parte do tempo, ainda se importava com ela. A casa da loira ficava um pouco distante do centro, num condomínio de alta classe, onde também morava Eduardo. Na portaria falou que estava indo na casa do amigo e, após uma ligação, Eddie liberou a entrada. Foi direto para a casa de Hello, depois agradeceria ao companheiro de time.
Como as casas de condomínio raramente tinham muros ou portões, seria muito mais fácil de Jonny não ser expulso. Chegou em frente à casa da menina e, não sabia se era apenas impressão, mas parecia maior, o que não era de se duvidar, visto que a senhora Ariana, mãe de Heloísa, adorava fazer reformas trimestrais. O casarão parecia a miniatura de uma mansão da época colonial, com colunas altas e brancas e arbustos bem aparados na frente. Estacionou, desceu e trancou o carro, atravessou o jardim, indo até a porta. Tocou a campainha e esperou.
E esperou. Esperou e esperou um pouco mais. Tocou de novo, e de novo, ficou apertando até que a garota abriu a porta, com os olhos inchados e a face vermelha. Primero ele estranhou que fosse ela quem atendesse a porta e não a empregada; o segundo pensamento era de como nunca havia visto a loira nem perto daquele estado; e o terceiro foi como ela era bonita até chorando, o que não deveria ser uma surpresa.
Abriu a boca para falar algo, mas não conseguiu. Os olhos verdes estavam brilhantes e logo as lágrimas voltaram a cair, Hello escondeu o rosto nas mãos. Jonathan não sabia o que fazer, sentiu-se mal, pesado, sentimentalismo não era algo no qual era perito, ele não tinha as palavras certas, não sabia o que dizer, então só se aproximou e a abraçou, porque era a única coisa que parecia certa.
— Você não deveria ter vindo. — A voz da menina saiu abafada, ela continuava com rosto entre as mãos.
— Bem, acho que precisava, você me ligou e parecia mal.
— Eu preciso do meu antigo amigo. — Ela fungou e se encostou mais a Jonathan. — Porque eu não tenho nenhum agora. — O garoto ficou confuso.
— Você tem muitos amigos.
— Não, não tenho, tenho um monte de gente que fala de mim pelas costas assim que eu saio. — Jonny franziu o cenho, não entendia como alguém conseguia viver do lado de gente assim sabendo disso.
— Então por que continua andando com eles? — Perguntou, a loira se afastou um pouco e levantou o rosto, negando aquela ideia com a cabeça.
— Eu prefiro ter milhares de amigos que falam mal de mim do que ser uma esquisita sem amigos. — Ela deu de ombros e riu. — Falando em voz alta parece idiotice. — Jonathan concordou com um gesto e suspirou.
— O que aconteceu? — A menina o olhou por um segundo, depois balançou a cabeça.
— Jonathan, você... você não entende. — Heloisa virou de costas e entrou na casa, o loiro imaginou que aquilo era um convite, por isso entrou e fechou a porta, jogando o tênis do lado.
— Me fala. — Pediu, ela ainda estava de costas.
— E-eu... são tantas coisas, Jonny, tantas coisas. — A garota se abraçou e virou, o encarando, parecia muito concentrada em não chorar.
— Então me fala e eu prometo tentar te ajudar. — Hello soltou uma risada cheia de rancor e negou.
— Você não pode me ajudar, ninguém pode. — Ela ainda balançava a cabeça, parecendo estar numa briga interna intensa sobre o que fazer.
— Por favor, não me faça insistir, vai, pelos velhos tempos. — Isso pareceu decidir as coisas, Heloisa se sentou no primeiro degrau da escada de mármore da casa e o menino ao seu lado, ela escondeu de novo o rosto nas mãos e ficou assim algum tempo.
— Eu estava, ou ainda estou, agora não sei mais, namorando com o Luís. — O garoto se surpreendeu, por mais que tivesse visto os dois muito próximos nos últimos tempos, não imaginava que o colega de time tinha ido tão longe, a menina deu um riso amargo. — Eu sei o que você está pensando. “Como um cara legal como o Luís foi namorar com a escrota da Heloísa? ”, bom, também fiquei surpresa. — Jonathan não negou e percebeu que ela sorria enquanto falava isso. — Minha mãe nunca aceitou muito bem a gente ter terminado, sabia?
— Sério?! — O loiro se surpreendeu de novo, sabia que a ex-sogra gostava dele, mas não sabia que era tanto.
— É, quando contei que tinha a gente tinha terminado, ela começou a me dar um sermão de como eu tinha que ser mais doce e solícita com você, que homens gostam de mulheres duras com os outros, mas sensíveis e delicadas quando estão com eles e blá, blá, blá, e quando falei que fui eu quem terminei, ela pirou, disse que ia me arrepender, que homens não gostavam de mulher que fazia joguinho desse tipo, que nós éramos o casal perfeito e ficou o resto do mês resmungando as suas qualidades pelos cantos e o quanto eu era idiota por perder isso. — Hello levantou o rosto e riu.
— Por que não me falou isso? — O garoto franziu as sobrancelhas, ele podia ter vindo falar com a mãe da menina na época.
— Não tinha porque saber, Jonny. Nós tínhamos terminado. Eu não queria você mais na minha vida, resolvendo os meus problemas por mim, sabe? — O garoto balançou a cabeça e uma dúvida surgiu em sua mente.
— Por que resolveu terminar comigo naquele dia?
— Hm... Eu preciso mesmo responder? — Como o rapaz ficou calado, ela continuou. — Nós dois sabíamos que nossa relação estava uma droga, você não me suportava mais e eu me irritava por qualquer coisa idiota que você fizesse. Você não sentia prazer em tocar em mim e, sei lá, eu nem queria que você me tocasse também, porque eu teria que fingir que estava gostando ou teria de inventar uma desculpa. E quando era eu quem tentava fazer alguma coisa, você sempre estava tão irritado comigo que só deu chegar perto você já virava e pegava o celular, ou ligava o vídeo game, sei lá, a coisa já estava morta e naquela tarde eu só não consegui suportar mais toda aquela merda. — Hello deu de ombros e Jonny concordou com a cabeça.
— É, você tem razão. — Ele olhou para o teto. — É que você mudou tanto, e tão rápido. Antes era a menina legal que cresceu comigo, linda e que eu gostava, e depois, do nada, você ficou cheia de joguinhos de sedução, toda fresca e esnobe.
— E você ainda era o mesmo, o garotão grande, bobo, com gostos infantis. — Hello riu um pouco e o cutucou com o cotovelo. — Ainda bem que você amadureceu mais um pouquinho.
— Bem, hoje você não está agindo como o ser cruel que se tornou, então... — Deu de ombros, parecia até piada que ele estivesse tendo aquela conversa com sua ex-namorada. — Depois passamos pra outros assuntos, o que aconteceu com o Luís? — Heloísa suspirou e o parco sorriso que estava em seu rosto sumiu.
— Bem, ontem eu falei que estava namorando e disse que meu namorado vinha jantar em casa, bem, minha mãe se animou um pouco, e fez um jantar, mas... foi horrível. — A menina parou por um segundo o respirou fundo, conseguindo controlar as lágrimas. — Minha mãe foi tão, tão racista e preconceituosa com o Luís ser bolsista, meu pai só olhava torto como se estivesse decepcionado comigo, a Sofia tentou reconduzir a conversa por campos mais amenos, sabe como ela é, toda metida com esses movimentos sociais e tal, mas ela não queria brigar com nossos pais na frente do meu novo namorado, e, bem, não deu certo, só ficou pior e pior, até que minha mãe começou a falar que era bom que gente de cor tivesse corpos mais preparados para o trabalho braçal, já que os cérebros são inferiores. — A loira balançou a cabeça, descrente, e Jonathan nem sabia o que dizer de tão enojado que estava. — Luís não aguentou, ele... Ele falou muitas coisas e depois saiu da casa, Jonny, fui atrás dele e quando cheguei na porta ele estava no jardim, me esperando, minha mãe me mandou entrar e eu, e-eu... e-entrei. — As lágrimas voltaram a rolar pelo rosto da menina. — Ele pediu pra não entrar, mas.... e ele gritou perguntando se também achava aquilo, mas... Não falei nada, não defendi ele, a Sofia defendeu o Luís, mas só sentei e escutei meus pais falarem cada pequeno detalhe de todos os defeitos dele. — Heloísa soltou um grito rouco e alto. — Agora me fala, você pode me ajudar?
— Bem, é, você tinha razão, não posso ajudar. — A menina balançou a cabeça e a enfiou de novo nas mãos. — Só você pode fazer isso, Hello, tem que se desculpar e falar que você não acha isso. — A loira ficou calada e Jonny, franziu o cenho, se virando para olhar sua forma encolhida. — Você não acha, não é?
— Não! — Ela gritou, mas depois balançou a cabeça. — Eu não quero achar isso, sei que é errado e tenho tentado mudar, mas é difícil, mesmo sabendo que não devo pensar essas coisas. — Heloísa soluçou. — So-sou um ser humano horrível, não sou? E-e eu nem sei o porquê. — Como ela tinha voltado a enfiar o rosto entre as mãos, Jonny colocou o braço em volta dela e a confortou.
— Não, que nada, você pelo menos sabe que é errado e tá tentando mudar, já é mais do que muita gente faz. O Luís vai entender. — A menina balançou a cabeça e a levantou para encarar o loiro, que estranhou. — Espera, tem mais coisa, né? Claro que tem, foi uma merda o que aconteceu, mas você não ficaria assim só por isso.
— Jonny, e-eu não sei o que fazer, entende?
— Sobre o Luís? — Perguntou
— Não, sobre a minha vida, sobre mim. Todo mundo sabe fazer alguma coisa, tipo dançar, ou é bom com números, pintar, sei lá, mas eu? Não tenho nada de especial, de diferente. — Heloísa o assustou, estava desesperada.
— Claro que tem, Hello, todo mundo tem.
— Ah, é? E qual a minha? Me fala qual talento eu tenho? — Ela falou, cruzando os braços, Jonathan parou para pensar.
— Você é boa em... Hm, uma boa, ah... observadora. — Falou hesitante, meio em dúvida se aquilo era um talento ou não.
— Ah, viu? Não tenho um talento. — A menina suspirou.
— Você é linda, Hello, e uma hora vai achar algo em que é boa. — Ele deu de ombros e apertou o braço em volta dela. — Quando era criança não se importava com isso. Lembra quando a gente era moleque e te zoava porque você não conseguia fazer o mesmo que a gente? Você só virava e dizia “eu...
— sou linda mesmo, não preciso ter mais nada” — A loira deu um meio sorriso e suspirou.
— Está esquecendo da parte que dizia “vou casar com um homem milionário enquanto vocês vão ter que dar duro pra viver”. — Jonathan completou, imitando voz de criança, e riu, com Heloísa o acompanhando.
— Eu era uma criança legal. — Falou, dando uma cotovelada no loiro e apoiando a cabeça no ombro dele.
— Nah, acho que isso é normal. — Jonny olhou para o teto e escutou Hello suspirar. — Mas por que da crise existencial agora?
— O vestibular está chegando, é esse ano, meu Deus, e quando meu pai perguntou pra que eu ia prestar, falei que não sabia e minha mãe falou que era só fazer algo sem muita importância porque eu deveria me focar em achar um homem que valesse a pena. — Jonny quase pode ver a loira revirando os olhos. — Aí, você sabe, Sofia começou a fazer aqueles discursos feministas, papai ficou calado e mamãe começou a falar que a minha irmã estava sendo ridícula e perguntou pra ela “então fala o que a Heloísa poderia fazer, fala no que ela é boa e qual seria a melhor carreira a seguir” e a S ficou calada. A Sofia, calada. Só depois veio com um papo de “ser o que você quiser” e tal. — Um soluço escapou, mas Hello recuperou o controle e suspirou antes de continuar. — Você não sabe como é olhar no espelho e ver o que eu vejo, não sabe como é ser eu. Sou linda, sei disso, essa não pode ser minha única qualidade, mas é. E eu me sinto tão inútil às vezes, tão cansada de tudo isso.
Depois de um tempo em silêncio, Jonathan desistiu. — Não sei o que dizer. — Disse, bufando.
— É porque não tem o que dizer. — Ficaram calados algum tempo, Jonny refletia sobre o assunto, pensando no que ele era bom, sabia tocar alguns instrumentos de forma satisfatória, tinha uma boa leitura, jogava futebol bem, suas notas eram excelentes, mas no que ele era bom de verdade? Não tinha nem ideia. E, claro, estava surpreso que Hello, sempre tão superficial, tivesse pensamentos tão profundos. Escutaram um carro chegar. — Não quero mais falar sobre isso. Vem, vamos subir.
Ela levantou e quase correu escada acima, Jonny apenas a seguiu, descobrindo que o quarto dela tinha mudado de lugar, para um muito maior que o anterior. A cama era enorme, as paredes eram pintadas de branco e dourado, tinha um closet que era quase do mesmo tamanho que o quarto, havia também algumas prateleiras com prêmios que Heloísa havia ganho em concursos de beleza e vários porta-retratos da menina espalhados. Era um lindo quarto, elegante e feminino, combinava com a dona.
Ela esperou ele entrar e trancou a porta. Depois foi até o closet e voltou de lá com uma liga, amarrando o cabelo. Jonathan sentou-se na beirada da cama e esperou, sem poder evitar admirar Heloísa. Só nesse momento notou que ela vestia um short de malha amarelinho folgado e uma regata branca simples, mas de aparência cara. Podia não a amar mais, entretanto isso não impedia que admitisse o quanto sua beleza era arrebatadora. A loira acabou e andou até Jonathan, se jogando na cama de barriga para cima.
— Não quero conselhos, eu só precisava que alguém me escutasse. — Falou, olhando para o teto.
— Tudo bem, posso ir embora agora, se quiser. — O menino falou, sem saber se ficava ou não magoado.
— Não, ainda não. Fica aqui mais um pouco, vamos conversar. — Pediu, pegando no braço dele e apertando, mas ainda olhando para cima.
— Tudo bem. — Concordou ele, deitando-se ao seu lado. — Sobre o que quer conversar?
— Não sei, me diga algo interessante. Me diga... — Ela pensou um pouco. — Por que ninguém me avisou que aquela menina era prima do Matheus? Podiam ter evitado a nossa briga na festa e aquele vídeo horroroso.
— Sei lá, acho que nem deu tempo, mas pelo menos seu pai conseguiu retirar o vídeo de circulação no outro dia.
— É, da internet, sim, mas ficou no celular de todo mundo. — Suspirou e botou os braços atrás da cabeça.
— Você não deveria ter se metido também, mesmo que ela não fosse prima do Matheus. — O menino arriscou falar, e a escutou bufar.
— Ah, dá um tempo. Eu sei o que faço.
— Você vai se vingar? — Jonny perguntou.
— Eu queria, assim como queria daquela outra, a despenteada. Se chama Sol, né? Grudou em vocês. — Tinha um certo desprezo na voz dela, mas antes de ele pudesse dizer algo, ela continuou. — Mas, sinceramente, não estou com cabeça pra isso, meus problemas estão ficando grandes demais pra eu ficar gastando tempo com dois peixes pequenos. Não garanto o futuro, mas no momento não vou fazer nada. Com nenhuma delas.
— Hm. — Respondeu apenas isso, sem querer demonstrar o quanto estava aliviado.
— Por que vocês deixam elas andarem com vocês, hein? Elas são tão... antiquadas.
— A Dae não anda com a gente, ela arrumou umas amigas pra ela na escola. E a Sol é legal, todo mundo gosta dela. — Deu de ombros.
— Sim, me falaram, ela é legal demais, não acha? Quase perfeita. — Ele quase pôde sentir ela revirando os olhos. — Conversei com alguns meninos. Eles me falaram o quanto ela é incrível, parece ser bem inteligente e tudo o mais, mas ninguém soube me dizer de onde ela veio, ela não tem redes sociais. Nem o sobrenome dela eles sabem. — Jonny refletiu que também não sabia de nada disso. — Sei que se conhecem a pouco tempo, mas aquelas cicatrizes e essa falta de história me deram muita... curiosidade.
— Que cicatrizes?! — O garoto não tinha visto nenhuma e se surpreendeu com Hello ter reparado.
— Eu vi algumas. Uma no pé direito, meio do lado, só dá pra ver quando ela anda; outra no maxilar, perto da orelha direita; e a terceira eu vi só uma vez, atrás do braço dela, é a maior, mas está menos visível que as outras. Percebi que ela quase sempre anda de casaco, também, então não é sempre que dá pra ver. São horríveis. — Jonathan não lembrava de nenhuma delas, nunca as tinha reparado, se é que existiam mesmo, também, ele passava tanto temo perdido naqueles olhos...
— Nunca vi nenhuma delas.
— Não me admira, vocês ficam babando por ela, que nem é tão bonita e se veste mal. — A menina estava voltando a ser ela mesma.
— Falei que você era observadora. — Ele lembrou, em um tom divertido, enquanto sua mente trabalhava tentando entender.
— É, sei. — Ficaram calados algum tempo, até que Hello quebrou o silêncio. — Agora, me fala a verdade, por que todos vocês estão atrás dela? Por mais legal que ela seja, deve ter tido um motivo pra todo esse interesse.
Jonny suspirou, pensando se contava a verdade ou não, decidiu, hesitante, contar. — Fizemos uma aposta, quem conseguir uma declaração dela primeiro...
— Ah, claro, nem sei porque me surpreendo. — Ela bufou de novo. — Isso é ridículo da parte de vocês. — O garoto franziu o cenho, apesar de não poder deixar de concordar.
— Achei que não gostasse dela. — Retrucou, já que não podia se defender.
— Não gosto. Ela se veste mal, o cabelo é despenteado, tem uma pose orgulhosa e ninguém sabe nada dela, mas isso não deixa de fazer com que essa aposta seja patética. — O menino concordou, seu telefone vibrou no bolso e, olhando, viu que era uma anotação para o jogo de RPG.
Refletiu. Por um lado, ele tinha que seduzir Sol antes dos outros, ainda mais agora, que ela estava muito mais aberta a conversas, sorria e era doce. Não era apenas com ele e sim com todos que agia assim, por isso mesmo a urgência em conquista-la logo. E, por outro lado, Hello estava precisando dele e, mais que isso, ele podia realmente a ajudar, inclusive a deixar de ser a megera que tinha sido ensinada a ser.
— Você tem que ir? — Ela perguntou e, apesar da voz forte e estável, o loiro viu em seus olhos, mesmo que ela tentasse esconder, que precisava ainda dele.
— Não, vou ficar aqui hoje. — Ele sorriu e colocou o braço em baixo da cabeça dela.
— Quer fazer algo? — O tom de Heloísa era de indiferença, porém ele conseguiu enxergar a menina que era sua amiga tantos anos antes. E essa amiga estava agradecida.
— Por mim tanto faz. — Deu de ombros.
— Tá bom.
.
Sozinha naquela casa, sentada no chão do quarto ao lado da cama e de costas para a parede, a menina tomava café preto em uma grande xícara. Seu olhar estava focado na parede e os pensamentos em sua mente passavam tão rápido que ela havia desistido de pôr alguma ordem neles, desistira até mesmo de prestar atenção neles, se fixando apenas naquele espaço vazio da parede. Vazio, vazio, vazio, vazio, vazio.
Os cantos de sua boca levantaram de forma tão imperceptível que apenas o observador mais atento poderia notar e, naquele momento, não havia ninguém por perto. O projeto de sorriso ficou ali, estagnado. O calor do café se dissipava e a pouca fumaça que saia da xícara virou objeto de interesse da morena, que acompanhava os movimentos até desaparecer no ar. Sozinha naquele quarto, ela via graça em coisas como o vapor do café quente. Sozinha, sozinha, sozinha, sozinha, sozinha.
Sol sabia que, no fim do dia, tudo o que temos é quem nós somos, ou quem nós achamos que somos. Se é que ambas as coisas não eram a mesma. E, sozinhos, todos estávamos no mesmo jogo da vida, caminhando no mesmo inferno, apenas perturbados por demônios diferentes.
Fale com o autor