Incondicionalmente
1 She Won't Look At You
Notas iniciais
Em meu modesto esconderijo, lá estava eu, triste como sempre, quando de repente ouvi um ruído. Tomando cuidado para que ninguém me visse, espionei o lado de fora do meu esconderijo. E quando eu vi, notei uma garota que tinha mais ou menos dezesseis anos colocando flores bem perto do meu antro secreto. Aquilo me deixou furioso! Quem gosta de flor é morto! Se bem que tecnicamente eu estava morto mesmo...
_Essas rosas vermelhas podem ajudar! – disse ela – Eu não sinto boas vibrações nesse lugar estranho.
Ela, então, finalmente se foi. Que esquisito! Porém, de repente, eu senti alguém tocar o meu ombro esquerdo.
_E aí, Breu? Espionando alguém?
Eu levei o maior susto! Ah não, ela de novo não... Sim, eu agora tinha uma assistente. Eu a encontrei como um espírito sozinho vagando perdido pelo mundo. Eu, assim, resolvi convidá-la para ser a minha ajudante. Ela aceitou sem pestanejar. Porém, a única utilidade que ela tinha naquele momento era me importunar. O seu nome era Stefani.
_Eu não estava espionando ninguém!
_Não, eu que estava... – disse ela, com um sorrisinho irônico estampado no seu rosto, como sempre – Eu percebi que você estava de olho naquela garota, Breu... Por acaso você está... Apaixonado?
_Eu? Apaixonado? Onde você foi buscar essa ideia, sua maluca?
_Eu nem sei... Você pode até ser um cara sem sentimentos e tal... Mas eu acho que até gente como você se apaixona, certo? – disse ela, fazendo uma careta.
Eu, assim, já perdendo a paciência, peguei-a pelo pescoço e gritei:
_Eu não sou um cara sem sentimentos!
Ela, furiosa ao ver que eu estava tentando reprimi-la pela força, deu-me um soco na cara.
_Eu não sou nenhuma garota submissa a você, se o senhor quer saber!
Ah, eu tinha me esquecido de dizer que ela era teimosa como uma mula e que não aceitava as ordens de ninguém, nem mesmo as minhas... Nossa, onde eu estava com a cabeça quando eu resolvi chamá-la para vir comigo?
_Então, você vai me dizer se você está apaixonado ou não? – disse ela.
_Por que tanta curiosidade em relação a mim? – indaguei.
_Por nada – disse ela – Fala logo, eu não tenho o dia todo!
_A verdade é que eu não sei direito o que é estar apaixonado... Quando eu sei que eu estou apaixonado?
Ela chegou mais perto e disse:
_É tipo assim, o seu coração bate mais forte, você quer ficar só com aquela pessoa e mais ninguém...
_Você está perto demais! – falei, com medo. O quê? Eu com medo? Que loucura!
Ela então me beijou profundamente. Eu a interrompi e disse:
_Você ficou maluca?
_Ah não... Agora você vai me dizer que eu gosto de você, seu idiota? Eu nunca gostei de você, nunca! Você não faz o meu tipo...
_Então por que você me beijou? – perguntei, incrédulo.
_Isso era só uma demonstração! Eu não estava te explicando o que é estar apaixonado? Pois então, eu acho que quando você está apaixonado, também surge a vontade de beijar a pessoa, ok?
_Você não precisava ter feito demonstração nenhuma! – gritei.
_Baixe o tom mocinho! – disse ela, me puxando pela gola da minha roupa – Porque sou eu que dou as cartas por aqui!
Os seus olhos dourados me encaravam com ódio. Os seus longos e lisos cabelos ruivos pareciam estar de pé, de tanta raiva. De repente começou uma ventania. Uma espécie de furacão.
_Stefani, para! – falei.
O furacão, assim cessou. As últimas palavras que ela disse antes de se retirar foram essas:
_Se você quer conhecer aquela garota, saiba que o nome dela é Cristal... O maior sonho dela é ser florista e ela é sempre muito bondosa... Eu a vi um dia em que eu estava passeando. Ela é uma estúpida... Mas saiba de uma coisa, Breu... Ela não olhará para você!
Eu me senti um pouco mal por ter deixado a Stefani nervosa. Contudo a curiosidade em relação à Cristal parecia ainda maior do que qualquer coisa. Eu saí do meu esconderijo e vi a garota de cabelos lisos e negros e olhos azuis cantando e dançando em meio à relva. O seu vestido era todo florido. Realmente ela gostava muito de flores...
Quando ela me viu, ficou com muito medo e gaguejou:
_Quem... Quem é você?
_Você... Você pode me ver?
Ela franziu a testa:
_Claro que eu posso te ver! Por que eu não te veria?
_É que eu sou um espírito!
O rosto dela parecia amarelo de medo. Eu deveria ter sido um pouco menos direto.
_Socorro! – gritou ela.
Eu tampei a boca dela para que ninguém a ouvisse. E se algum parente dela pudesse me ver e tentasse me jogar na fogueira? Eu a levei para o meu esconderijo. Por sorte a idiota da Stefani não estava lá.
_Onde eu estou? – disse ela, baixinho.
_No mesmo lugar onde você colocou flores hoje cedo.
_Eu sabia que aqui não havia boas vibrações... – disse ela.
Ah, mas que menina insuportável! O que ela queria? Cortinas de seda? Coelhinhos e esquilinhos? Um monte de pétalas de rosas vermelhas?
_Eu moro aqui — falei.
_Não deve ser muito legal morar aqui... – suspirou ela.
_Mas que chata! – resmunguei.
_Você bem que podia ser um pouco mais educado, certo? Agora que o susto inicial já passou, me diz... Como é ser um espírito? O que tem do outro lado?
_Talvez o paraíso, mas não para mim... Eu sou um espírito das trevas e estou completamente perdido no mundo...
Ela parecia ainda mais assustada do que antes.
_Não fica assim... – falei, fazendo carinho em seu rosto – Eu não vou fazer mal nenhum a você...
_Eu quero ir embora! – disse ela.
_Calma... Você... Você gosta de ler?
_Bom, eu gosto sim... – disse ela, olhando para o chão, com medo de me encarar.
_Então venha comigo! – falei, puxando-a pelo braço esquerdo.
Eu, assim, mostrei a ela uma pequena estante de livros que eu tinha no meu esconderijo. Ela folheou vários livros e disse:
_Que estranho... Eu não conheço nenhum desses livros... E em nenhum deles está escrito o nome do autor! Quem os escreveu?
_Fui eu... Eu gosto muito de escrever, sabe?
_Hum... Esses livros parecem interessantes... Mas por que todos eles têm a capa preta?
_Cristal, pela minha roupa você já deve ter reparado que eu gosto de preto...
_Hum, verdade, isso é óbvio! Mas espera um pouco... Como você sabe o meu nome?
_Um passarinho verde me contou...
_Ah tá, agora eu preciso ir... – disse ela – Eu não falo com os estranhos! Ainda mais com espíritos das trevas!
_O meu nome é Breu, pronto, eu não sou mais um estranho! Agora me diz... Como você me vê?
_A minha mãe me disse que eu sou tão pura que posso ver os espíritos, ainda mais os espíritos que precisam de apoio. E ela entende muito de espíritos. Mas me esqueça. Eu não gosto de bater papo com gente das trevas. Tchau.
Ela então saiu do esconderijo.
Deu um aperto no meu coração quando ela foi embora...
Será que eu estava passando pelo que a Stefani me contou?
Eu... Eu estava mesmo apaixonado?
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