Incondicionalmente
3 Just Like a Dad
Notas iniciais
Onde eu estava mesmo? No meu esconderijo novamente, para variar. Eu estava pensando numa forma de me livrar daquela chata da Stefani, mas como? De repente a desgraçada apareceu para me deixar ainda mais irritado:
_Sabe... – disse ela – Eu acho que eu exagerei um pouquinho naquele dia em que eu fiz o chão se abrir entre você e a Cristal...
_Só um pouquinho? – perguntei incrédulo.
_Sim, só um pouquinho! – disse ela.
_Olha Stefani, eu quero que você vá embora! Eu não estou aguentando mais as suas rotineiras intromissões na minha vida! Deixe-me em paz!
_O quê? Você está insinuando que eu devo picar a mula? Seguir a minha estrada? Pegar o caminho da roça?
_Hum, que bom que você raciocinou rápido... – falei, com um sorriso cínico – Agora faça as suas malas e parta o mais rápido possível, sim?
Porém, livrar-me dela não seria tão fácil assim.
Ela me segurou pelo pescoço e disse:
_Você acha mesmo que pode me dispensar assim? Você não manda em mim! Eu não sou a sua empregada! O que eu digo e faço é para o seu bem! A Cristal não é para você!
_Stefani, por favor... Deixa de drama! Você não é a minha mãe pra ficar querendo o meu bem, ok?
_Sim, Breu! Você está certo! Eu não sou a merda da sua mãe! Mas bem que eu podia ser, pois se eu fosse, teria te enchido de tabefes na sua infância pra você virar gente!
_Eu? Virar gente? Você é que precisa virar gente, porque só sabe agir por instinto! Você é um animal!
_Uma tigresa.
_O que você disse?
_Eu sou como uma tigresa. E eu tenho presas e garras, Breu. É melhor você pensar bem antes de tomar a sua decisão de me expulsar do seu esconderijo, porque eu sou capaz de tudo! De tudo! Eu sou capaz de te esfaquear vivo, Breu! Eu não tenho pena de você, eu nunca tive! – disse ela, olhando fixamente em meus olhos, enquanto chorava sangue, como se realmente fosse me morder a qualquer momento.
_Eu sei muito bem que você não tem pena de mim Stefani... Eu digo isso porque você não tem pena de ninguém. De ninguém mesmo. Mas eu sei de algo que você sente por mim...
_Além do ódio? – disse ela, interrompendo-me descaradamente.
_Você têm ciúmes de mim – falei, sorrindo maliciosamente.
_Isso é mentira! – berrou ela.
_E você também me ama – comentei, dando uma risada cínica.
_Duas mentiras em menos de um minuto, Breu? Francamente, não dá mesmo pra confiar em você, seu cretino!
_Não seja falsa, Stefani! – gritei, impaciente — Eu sei que tudo isso é verdade! E aquele beijo que você me deu? E quando você deu aquele ataque de ciúmes quando me viu com a Cristal? O que você acha que tudo isso significa?
_Isso não significa nada, Breu. Ao menos para você.
Ela, então, se foi, às lágrimas. Desta vez, ela realmente havia partido para sempre, pois me disse:
_Eu tenho quase certeza de que algum dia alguém me amará e me valorizará de um jeito que você nunca será capaz, Breu. Eu fui ser feliz... E... – disse ela, enxugando uma lágrima de sangue – E eu não volto...
_Stefani! – gritei – Espera!
_O que foi, Breu? – disse ela, virando o rosto na minha direção.
_Hum... Boa sorte...
_Obrigada... Eu acho... – disse ela, nem um pouco contente com o meu desejo de boa sorte. Assim, ela se virou e já estava indo embora novamente.
_Stefani, eu... Eu...
_O que foi agora, seu estúpido? – gritou ela.
_Hum... Na... Nada...
_Você é ridículo! – disse ela, cuspindo no meu esconderijo e finalmente partindo.
Cassete! Ela teve que cuspir justo no meu tapete novo?
Digo, naquele momento delicado não era com o meu tapete novo que eu deveria me preocupar.
Ela havia me deixado sozinho. Do jeito que eu queria. Mas, então, porque eu estava me sentindo tão vazio assim?
Eu sentia que precisava preencher aquele vazio de alguma forma. E eu já sabia muito bem como. Lá naquela mesma relva estúpida, eu encontrei a Cristal cantando e dançando como sempre. Sinceramente, aquela idiota não tinha nada de útil para fazer?
_Cristal! – gritei.
_Vá embora, Breu! – disse ela, assustada – Você não viu o que a sua ajudante doida fez com a gente naquele dia?
_Ela... Ela partiu... – falei, cabisbaixo – E tudo isso por culpa minha...
_Você gostava muito dela, certo? – disse ela.
_Sim... E ela também gostava muito de mim...
_Vocês... Vocês eram namorados?
_Bom, nós, no fundo, nem amigos éramos. Nós éramos apenas colegas... Colegas e nada mais.
_Pelo o que ela fez conosco naquele dia, com certeza ela nunca te quis apenas como uma colega...
Eu olhei incrédulo para a Cristal.
O que os seus olhos azuis enigmáticos estavam querendo dizer naquele momento?
Um mistério...
De repente eu percebi um homem se aproximando. Ele era alto, de pele branca, tinha cabelos castanhos, curtos e lisos, além de olhos verdes.
_Cristal, agora você inventou de falar sozinha? – berrou o homem – Como você acha que vai ficar a minha imagem se a vizinhança toda souber que a minha noiva é doida?
Ah, então o cara era aquele que não deveria ser mencionado: O maldito noivo da Cristal. Mas, afinal, que tipo de noivo era aquele que, ao ver a sua noiva falando sozinha, preocupava-se mais com a sua própria imagem do que com a saúde mental dela?
Incrivelmente ele era mais frio do que eu.
_Ryan! – disse a Cristal – Eu não estou falando sozinha!
Ah, então o nome dele era Ryan.
_Ah é? – disse ele, ríspido – E com quem a senhorita está falando, então? Com o Bicho Papão?
O cara era bom! Ele acertou sem querer!
_Ah... Eu... Eu... – ela não sabia o que responder – É que eu estava falando com um carinha muito legal e...
_Carinha! – berrou o Ryan, agarrando a Cristal pelo pescoço – Como você se atreve a conversar com outro cara sem a minha permissão?
_Não fica assim, Ryan! Você sabe muito bem que eu só pertenço a você e a mais ninguém... – disse ela, quase chorando.
_Isso! Eu gosto de te ver desse jeito! Completamente submissa a mim! Continue assim!
Eu não conseguia me conter diante de tanta covardia da parte do Ryan. Mesmo que ele não pudesse me ver, liberei uma grande quantidade de areia negra em cima dele, tomando cuidado para não atingir a Cristal.
Ele caiu duro no chão, um pouco tonto e disse:
_Cristal... O que você fez comigo?
_Eu... Eu não fiz nada! – disse ela, muito nervosa com o ocorrido.
_Eu fiz! – gritei.
Por incrível que parecesse, depois que eu disse essa frase, ele me viu. Talvez eu não devesse ter usado os meus poderes sobre ele, pois isso fez com que ele tomasse consciência da minha existência.
_Quem é você, seu gótico imundo? Foi você que me atacou?
_Imundo não! Eu tomo banho! – falei, com um sorriso cínico – Mas... Voltando ao mais importante: Sim, eu que te ataquei. Por quê? Porque eu quero que você pare de importunar a Cristal! Ela não é a sua filha para você lhe dar ordens o tempo todo! Aliás, nem uma filha deve ser tratada assim!
Eu nem sabia que eu tinha tantos valores assim. Eu pensava que eu era completamente mau, mas eu não era. Eu tinha sentimentos. E isso me engrandecia de uma forma que nenhum dos meus planos malignos jamais me engrandeceu. Será que eu estava mesmo me tornando bom? Não, isso era simplesmente impossível...
_Quem é ele, Cristal? Quem é ele? – indagou o Ryan, muito mais alterado do que o normal.
_Ele... Ele é um espírito das trevas, porém, eu acho que ele está tentando ir para a luz... O nome dele é Breu... Ele só pode ser visto quando as pessoas acreditam nele... Por isso que você não o viu antes... Mas, após o ataque dele, você pôde vê-lo, porque assim que foi atingido, você passou a acreditar na existência de alguém ali por perto. No caso esse alguém era ele!
_E você? Como você o viu?
_Eu sou muito pura e por isso eu posso ver os espíritos...
_E você realmente espera que eu acredite nesse conto da carochinha, Cristal?
_Mas isso tudo é verdade!
_Olha, senhor... Senhor Breu! – disse o Ryan se dirigindo a mim — Eu não sei quem ou o que você é, mas se você sabe o que é bom pra tosse, fica bem longe da minha noiva, bem longe! Se eu os vir juntos mais uma vez, eu juro que te mato, gótico imundo! Eu te mato!
_Eu já disse que eu não sou imundo – falei, ofendido.
_Mas a sua alma é imunda! Por quê? Porque você é das trevas! E as garotas como a Cristal não foram feitas para vocês, espíritos das trevas, pois a única coisa que vocês podem amar é a escuridão. Nada mais!
Nada mais...
Aquelas palavras ecoaram por todas as janelas da minha mente, até me cobrirem completamente pelo manto da insanidade. Eu então comecei a gritar assim como o mais louco dos loucos:
_Não, não! Eu não sou assim! Eu não sou assim!
O Ryan, aproveitando o meu momento de pura loucura, desferiu-me um punho mortal, deixando-me desmaiado no chão.
Quando eu acordei, estava no meu esconderijo. Mas como? A Stefani tinha me trazido para lá. Ela havia voltado!
_Por que você voltou? — indaguei
_Eu tinha me esquecido de levar algumas coisinhas e estava voltando ao nosso esconderijo para busca-las, quando no meio do caminho, eu te vi desacordado em meio à relva...
_O noivo da Cristal me socou!
_Como? Conte-me essa história toda!
Eu então contei tudo o que ela precisava saber.
_O noivo dela é como um pai – disse a Stefani, olhando para o chão.
_Como um carrasco, você quis dizer...
Nós nos olhamos por alguns minutos. Ela, assim, resolveu descontrair dizendo:
_Olha, eu decidi que vou ficar. Saiba que eu ainda vou te importunar por muitos milênios! Ah, e eu espero que você não se importe, mas... As suas roupas estavam todas sujas de grama e barro, então eu resolvi trocá-las, está bem?
_O quê? Isso quer dizer que você me viu...
_Você está achando o quê? Que eu te explorei sexualmente? Ah, cara, vai catar coquinho na praia! E eu não te vi nu, porque eu não troquei as suas roupas de baixo! Eu só te vi seminu, você me entendeu agora?
_Sim... Menos mau... – falei aliviado.
_Ah, e eu posso te falar uma coisa?
_Se eu te disser que não, você vai falar assim mesmo, não é?
_É que... Bom... – disse ela mordendo o lábio inferior – Você é mais gostoso do que doce de leite!
Caralho, essa garota maluca ainda me mata de vergonha!
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