Incondicionalmente
9 All those flames that burned before him
Notas iniciais
POV Breu
Fiquei um tempo pensando no beijo que dei em Stefani e em todas as coisas que li no diário dela, mas ao mesmo tempo eu me sentia culpado. E a Cristal? Eu já tinha me declarado pra ela. Eu não queria iludir ninguém. Mas tudo ainda era tão confuso pra mim... E eu sentia que era possível amar as duas, mas óbvio que eu não podia ficar com as duas. Se eu não me decidisse logo, alguém sairia magoado daquela história.
Decidi ver a Cristal. Eu ainda tinha passado pouco tempo com ela. Sempre que eu tentava me aproximar, o idiota do Ryan estava por perto. O único momento mais longo que tivemos foi quando redecoramos o meu covil. Cheguei à conclusão de que depois que eu a conhecesse tanto quanto conhecia a Stefani, eu ficaria mais seguro do melhor caminho a seguir.
Felizmente, encontrei Cristal sozinha colhendo flores, nada do idiota do Ryan por perto. Cheguei por trás e dei um susto nela:
— Bu!
— Ai, meu Deus do céu! Você quer me matar, Breu? – exclamou, deixando as flores caírem no chão – Hunf... Ser florista não é tão fácil quanto parece. Estava quase terminando esse ramalhete...
— É... Desculpa. Eu não pareço o tipo de cara que sabe abordar uma garota... Quer ajuda com as flores?
Comecei a pegar todas as flores e tentei uni-las da melhor forma.
— Até que você leva jeito! – ela pegou as flores.
— Flores para uma flor – falei, tentando parecer romântico.
— Uma frase um tanto piegas até para mim, hehe. Nem consigo acreditar que você é o bicho-papão! Você só fez bondades até agora.
— Eu só estou meio cansado de ser mau. É sempre a mesma coisa. Gasto meus poderes e meu tempo à toa. No fim fico me perguntando por que eu faço isso. Ok, e se um dia eu vencer? E se um dia todas as crianças tiverem medo de mim e o mundo se tornar uma escuridão total? O que eu ganho com isso? Eu continuo... vazio. Mas... Não tenho outro propósito. Foi pra isso que eu nasci... não foi?
— Qual é o seu passado, Breu? – perguntou ela, segurando minha mão – Quem você era quando estava vivo?
— Cristal... Só a Stefani sabe disso... Mas acho que você também merece saber. Eu confio em você.
— Ótimo, me conta! Não se preocupe com o Ryan, ele está viajando e não vai aparecer hoje para nos incomodar. Vamos nos deitar aqui na grama.
Nós nos deitamos como ela sugeriu. Ela pôs a cabeça no meu peito e eu acariciei seus lindos cabelos longos e negros. Eu olhava para o céu na certeza de que eu era um demônio vislumbrando o paraíso.
— Ryan... Ele foi viajar? Provavelmente está comprando coisas para, bom, você sabe... O ritual. Sabe-se lá o modo como ele quer te matar... Fique alerta. Eu queria poder te proteger o tempo todo, mas infelizmente não posso.
— Será que ele foi viajar por isso? – ela começou a chorar e me abraçou forte – Breu, eu estou com tanto medo... Eu não quero morrer, eu não quero morrer! Mas... Mas... não sei como impedi-lo! Ele é muito mais forte... e ninguém acredita em mim!
— Eu acredito em você, Cristal! E eu vou fazer o possível para dar ao Ryan o que ele merece!
— Você... Você vai matá-lo? Breu... Não faça isso. Você está se tornando um ser do bem, um ser da luz... Eu não quero que você mate alguém por minha causa!
— Vou fazer o possível para não precisar chegar a esse ponto. Agora, tente se acalmar um pouco... Vou finalmente te contar a minha história!
— Quero muito ouvir... – ela acariciou meu rosto.
— Bom... É uma história antiga... Você certamente já aprendeu nas aulas de história sobre a Idade Média, também conhecida como Idade das Trevas.
— Nossa, você é dessa época? – ela ficou boquiaberta – Até que você está bem conservado!
— Bobinha! Espíritos não envelhecem! Estarei para sempre na flor da idade. Continuando... Eu era um carrasco muito temido naquela época. Ateei as chamas da Inquisição em milhares e milhares de pessoas.
Ela parecia assustada.
— O quê? – perguntei – Você não esperava um passado bonito, né? Eu cometi crimes terríveis em vida, por isso me tornei o espírito do medo quando desencarnei. Mas por favor... Não tenha medo de mim. Isso faz tantos séculos... Eu passei por outras experiências.
— Breu... Eu não sei se posso confiar em você. Ryan era um doce e se provou abusivo depois. Agora você me confessa coisas terríveis e quer que eu te dê um voto de confiança... Eu sei que faz muito tempo e que você pode ter se arrependido verdadeiramente. Mas você ainda é um vilão que mora num covil e planeja vários modos de aterrorizar crianças. Você ainda não está totalmente bom. Por isso, vou ter que te pedir uma coisa.
— Qual?
— Se quiser ficar comigo, nunca mais poderá cometer maldades. Você terá que se abdicar do posto de espírito do medo!
— É uma exigência um pouco complicada... Não é como se eu tivesse escolha. Se eu não for o espírito do medo, o que eu serei?
— Você será esse homem apaixonante que eu sei que você é, oras! – ela sorriu docemente – Seus poderes são incríveis, tenho certeza de que você será criativo o bastante para usá-los para o bem, como quando você desferiu aquela rajada de areia negra no Ryan para impedir que ele me batesse! Você pode ser um herói!
— É... Acho que sim... Por falar nisso... Vou treinar agora mesmo os meus poderes para o bem! Que tal um voo?
— V-voo? – gaguejou ela.
Eu a pus no colo de surpresa e voei por entre as nuvens com ela, formando estrelas e outros desenhos bonitos com a minha areia negra no céu.
— Uau, isso é incrível! – os olhos dela brilharam – Pensa em quantas crianças você fascinaria com um voo desses! Seria tão gratificante pra você!
— É... Acho que nunca parei pra pensar nisso... – sorri – Então... Você me perdoa pelas atrocidades que cometi no passado? Por favor... Você me faz querer ser um cara melhor...
— Eu te perdoo, Breu, mas vou ficar de olho, tá? – ela piscou pra mim.
— Prometo não decepcionar!
— Mas... E a Stefani? Ela não vai ficar zangada se você resolver deixar de ser mau?
— Com certeza, mas a raiva dela dura pouco. E ela nem gosta tanto de fazer maldade. Ela é mais uma niilista que vive de encher a cara porque não vê sentido no pós-vida. Pois é... Até os espíritos se embebedam. E eles podem até desaparecer se exagerarem. Algo como uma morte após a morte. Estranho, né? Mas no fundo ela não faz mal a ninguém. Acho que a pessoa mais prejudicada por ela é ela mesma...
— Você gosta dela, né? – ela me olhou chorosa – Ela é toda sexy, atraente. Um mulherão sem o mínimo pudor, tem o perfil de uma sedutora, fala tudo na lata, sabe chegar junto. E eu... Eu sou só uma mocinha boba...
— Ela é um espírito de várias décadas atrás, Cristal, digamos que ela tem mais experiência que você... Você tem só dezesseis anos. Até me sinto um pouco culpado por gostar de você. Olha... Se for pra gente ficar junto, eu prometo esperar você fazer dezoito antes de, bom...
— Breu! – o rosto dela virou um tomate – Vamos mudar de assunto!
— Desculpa. Vamos descer?
— Tudo bem.
Quando chegamos ao solo, percebi que Cristal descobriu várias coisas sobre mim, mas ela ainda era um mistério para mim. Eu sabia que ela gostava de flores e de cantar, sabia que ela era toda boazinha e até mesmo inocente, além de estar sempre usando roupas coloridas e de namorar um cara pra lá de abusivo. Mas eu não sabia nada do passado dela.
— Ei, pode me contar um pouco sobre a sua história? Eu te contei um pouco da minha. Você sempre viveu nesse vilarejo? Meu covil é aqui há uns tempos, mas você só apareceu recentemente.
— Ah, tivemos que nos mudar... Eu sou tão pura que vejo espíritos, como você sabe. E na minha antiga cidade eu via muitos... Aquilo se espalhou... E começaram a me chamar de esquizofrênica. O povo era tão ignorante que queria me queimar. Já essa cidade parece mais pacata... Fora o Ryan, que também mexe com espíritos, mas com os da pior espécie...
— Você disse... que o povo queria te queimar? – engoli seco – Olha... Na Inquisição, eu...
— Eu sei... Você queimava pessoas como eu. Se eu fosse daquela época, você me mataria porque eu seria tida como bruxa... É por isso que fiquei tão assustada quando você me contou o seu passado...
— Cristal... – eu a abracei, sentindo o seu perfume – Nunca mais vou fazer mal a pessoas especiais como você. Nunca mais.
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