Incomplete
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Notas iniciais
A perda é uma sensação avassaladora.
O sentimento de perder afeta qualquer humano, podendo levar o sistema nervoso e emocional aos extremos. E uma vulnerabilidade apoderasse da vítima, que entra em desespero, às vezes em depressão, e pode desejar automutilação ou até suicídio. Após uma perca por morte, os humanos entram num comportamento denominado de "luto", em que o sistema emocional utiliza tempo para recuperar a estabilidade que antes possuía e aceitar o falecimento do outro.
Porém, como se ultrapassa a perda de algo que nunca desapareceu mas simplesmente se tornou inalcançável?
–X-
Ele odiava Nijimura Shuuzo. Odiava toda a sua existência desde o momento em que o vira pela primeira vez. Apenas a sua presença no local alterava os seus comportamentos e forma de pensar, e um sufoco incompreensível amarrava-lhe a garganta e provocava sensações bizarras na sua barriga. Às vezes até sentia o corpo aquecer consideravelmente apenas por haver uma proximidade entre os dois. E enojava-o como a sua voz fraquejava e tornava-se vulnerável quando dirigida ao maior.
Mas no dia em que ele partiu, o ódio que sempre havia sentido evoluiu em irritação pura pelo momento em que o outro nasceu. Tinha raiva do facto que ele fora cobarde ao deixar o clube escondendo-se atrás da doença do pai, tinha raiva de saber que um vazio cegante encobriu o seu peito.
Tinha raiva de saber que tudo o que dizia era mentira.
– Aka-chin, se eu ganhar este confronto então não vou obedecer mais as tuas ordens.
Foi tudo culpa dele. Se ele não tivesse ido embora então talvez nunca enlouquecesse de vez, não perdesse controlo de si mesmo e se submeteria à pessoa dentro de si. Pelo menos essa pessoa não o trairia.
– Ganhar é tudo. Os vencedores escrevem a história. E os perdedores são eliminados dela.
E por causa de Nijimura o verdadeiro Akashi Seijuuro foi eliminado da história que era a sua vida.
–X-
Incredulamente, num dia tão aborrecido como aquele voltou a vê-lo. Preferia não o ter feito. Visitava Tóquio com o propósito de atender a uma conferência de empresas junto do pai, a colaborar na representação da família Akashi. Era o tipo de encontros ao qual estava habituado, mas não que isso mudasse o facto de ser extremamente maçador.
E foi então que o viu, caminhava apressadamente, a sorrir, e andava na sua direção, apenas na sua direção. Culpou-se só de sentir o seu coração encher-se de esperança, de espanto, alegria, e queria correr, queria abraçá-lo, chorar, gritar, perguntar porque fora deixado e pedir para nunca mais sê-lo.
– Tatsuya! Não andes tão rápido, vais me deixar para trás!
E ele atravessou o seu coração de novo. Passou por ele como se não existisse, viu por dentro de ele e ignorou-o. Ou simplesmente não o reconheceu? Havia mudado tanto assim? Havia mesmo deixado de ser quem antigamente era? Tocou no seu olho dourado.
– Deixa-me ir atrás dele, por favor, esta oportunidade não vai voltar, eu—
– Não.
Lentamente virara o corpo e observou como o outro já avançava despreocupadamente, sem um único relance atrás, sem uma única dúvida que deixara ali um rapaz de coração mais partido que nunca.
– Por favor, ele está ali, ele realmente está ali, eu preciso—
– Não.
A força faltava-lhe nas pernas, na garganta, no corpo. Era escusado tentar, não era ele que controlava o seu corpo, nem valia a pena tentar fazê-lo se o seu pedido tinha sido negado em primeiro lugar. Um grito ficou-lhe preso e o seu coração apertou.
– Por favor..
Correu para o cemitério que ainda se encontrava a quilómetros de distância e faltou à conferência. E quando chegou pode apenas chorar como não fazia à anos.
–X-
– Tens a certeza que foi a melhor ideia fazeres aquilo, Shuu? Ele parecia mesmo desesperado..
– Eu sei o que fiz, aquele não era o Akashi.
– Como não? Não viste como ele olhou para ti e como ele ficou quando o ignoraste? O rapaz ficou destroçado...
Os olhos negros dirigiram-se ao céu e estreitaram-se, uma mão passou pelos seus cabelos e desarrumou-os em um reflexo inconsciente.
– Tatsuya. Eu conheço-o melhor que ninguém. E a pessoa pela qual passei não era ele...eu vi nos olhos que não era.
– .....
Se tens tanta certeza assim.
Mas ele não tinha tanta certeza. Sabia perfeitamente que aquela pessoa que se mostrava por fora era outro, outro que desprezava e queria manter longe, afastado dele. Tinha medo de olhar para os olhos do seu kouhai e ver alguém que não ele.
Faziam-no sentir mais culpado.
Ele fugira sem se despedir e deixara um rapaz adolescente, confuso com os seus sentimentos indesejados e incompreendidos, sozinho na passagem mais crucial da sua vida. E não lhe pôde nem responder, nem dizer que não sentia o mesmo por ele. Talvez se o tivesse feito ele poderia ter avançado com a sua vida sem aquele remorso, os dois podiam.
Mas não, como sempre, fora um cobarde.
– Não há nada a fazer agora, Shuu, para de te martirizares.
E a sua mão fora despercebidamente entrelaçada com a do moreno menor e a culpa que sentia só pareceu aumentar. Talvez o único adolescente confuso que estava ali era ele.
–X-
A última vez que o vira fora após a final da Copa de Inverno. Havia perdido o seu primeiro jogo e a dor era avassaladora. Algo terrivelmente indiscritível. E a solidão que viera após atingira-lhe mais forte do que esperava.
Todos os seus ex-companheiros da Geração dos Milagres encontraram os seus respetivos caminhos. Os seus atuais colegas de time foram abandonados por ele mesmo e agora arrependia-se do ato impensado. Não tinha família que o quisesse, amigos que o aceitassem.
– Eu não quero que enfrentes o mundo sozinho, Seijuuro...
Mesmo a voz dentro da sua cabeça, a pessoa dentro de si...
...mas eu fui derrotado. Não te consigo mais proteger...Desculpa.
Mesmo ele o havia deixado. E agora, não havia mais ninguém. Era ele contra o mundo e o mundo contra ele.
A solidão havia sempre sido tão assustadora?
– Akashi.
E o seu coração acelerou, as borboletas na barriga voltaram, a respiração ficou presa, as palmas suadas, e agora estava desprotegido, e vulnerável, e não havia para onde escapar então pôde apenas olhá-lo, olhos nos olhos, e ver como o seu senpai havia ficado ainda mais lindo, lindo, e inalcançável.
E a chuva caía sobre as suas cabeças, pinga a pinga, manchavam-nos de culpa e humilhação.
– Nijimura-senpai...
E os olhos mais molhados ficaram, os joelhos fraquejaram e ele caiu desamparado, solitário, sem quaisquer palavras para reconfortar a queda longínqua e curta, e humilhante, e melancólica, e tão nostálgica.
Fora mesmo a primeira vez que perdeu?
E uns braços circundaram-no e o grito voltou, o grito preso, impedido, e sufocante, cegante, asfixiante. O calor era impregnado de ódio, de desespero, fúria, raiva, arde, arde, arde o coração, e os lábios, dos quais escorria sangue vermelho, sujo, obstinado.
– Desculpa, Akashi, mas...eu não gosto de ti....
E o seu coração.....parou. A dor parou. As tonturas recomeçaram e as lágrimas escorreram sem que as conseguisse impedir mas o vazio acabou. O calor entrou nele por completo e aconchegou-o, mesmo que não lhe pertencesse a ele ser aquecido por ele.
Pela primeira vez sentia-se em paz. Não havia remorsos, culpa, traição, não havia nada. Apenas uma luz branca direcionada neles, a levar aquilo que nunca lhe tinha pertencido.
– Shuu!! Shuu, onde é que estás?!!! O Taiga está a ficar impaciente!! Shuu!!
O sorriso amargo rodeou os seus lábios. Porquê ele? Pensava que o Atsushi é que estava com ele....o que se passava? Porque ele não entendia nada?
– Eu tenho que ir mas....eu ligo-te para nos vermos um dia...
Tentativa que magoava mais do que alegrava. Ele não ligou. E ele sempre soube que ele não ligaria.
Os passos pareceram mais prolongados. Deixou-se levar pela ilusão de que no fundo o outro não o queria deixar ali abatido, ajoelhado no chão, porque gostava verdadeiramente dele. A verdade seria talvez apenas um mínimo remorso de deixá-lo danificado de novo. Não interessava. Nada mudaria saber a verdade.
Ele estava sozinho. E teria de aprender a viver incompleto.
I've tried to go on like I never knew you
I'm awake but my world is half asleep
I pray for this heart to be unbroken
But without you all I'm going to be is...
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