Incoherence
9 Capítulo 08 - O Poço
Kitty, Chloe e Mark estavam chegando cada vez mais perto do fim da floresta. Aquela parte dela parecia mais escura, densa e tenebrosa do que as outras, o que mostrava que eles estavam em um lugar diferente.
Os três estavam em silêncio.
– Acham que aquela mulher estava falando a verdade sobre o Justin? – Perguntou Kitty, com os olhos vermelhos e ainda lacrimejantes.
– Claro que não, aquela mulher é louca, você não ouviu o que ela disse sobre as criaturas? – Respondeu ele, sabendo que aquilo que estava falando era uma grande mentira. Ele acreditava em Susan, sabia que não era mentira. Justin deveria estar realmente morto, mas não podia deixar Kitty mais triste do que já estava, tinha que deixar um pouco de esperança.
Eles continuaram andando em silêncio.
Quando Mark finalmente conseguia ver o que tinha depois da floresta, ficou esperançoso.
– É uma praia – Disse ele.
– É mesmo – Falou Chloe.
Kitty, que estava de cabeça baixa, levantou-a e viu. Era uma praia realmente. Ela conseguia ver a praia.
À medida que eles chegavam próximos ao fim da densa floresta, a circulação do vento aumentava.
Segundos depois, a terra se tornou areia branca e eles saíram da floresta, deparando-se com uma bela praia deserta.
– Onde nós estamos? – Perguntou Kitty – Não há nenhuma praia em Marshall.
– Eu não sei, mas acho que finalmente conseguimos sair – Respondeu Mark.
– Mas e o Justin e o Brad? Temos que buscá-los... E talvez a Layla tenha escapado, não podemos deixá-los aqui.
– Vamos andar e encontrar alguém, então voltaremos com ajuda.
– Mark, ela tem razão – Falou Chloe – Eles podem estar correndo risco de vida.
– Oh meu deus – Disse ele, olhando para algo à direita.
Quando Kitty e Chloe olharam, também perceberam. Havia algo a alguns metros. Uma cabana.
– É uma cabana – Disse ele.
– Talvez tenha alguém lá que possa nos ajudar – Falou Chloe.
Eles andaram pela areia da praia até a cabana, que parecia ficar mais longe cada vez que eles andavam mais.
Quando se aproximaram, perceberam que havia um poço bem na frente dela. Além do poço, perto da escada, tinha um corpo.
– O que é aquilo? – Perguntou Kitty.
Ao chegar mais perto, eles confirmaram o que já achavam. Era um corpo. O corpo de Susan.
Chloe se aproximou mais e ao ver a confusão de cabelos e sangue no degrau da escada, vomitou na areia.
– É a Susan – Concluiu Mark, olhando de perto – E isso não foi feito por um animal.
Chloe subiu na varanda, sem olhar para o cadáver. Kitty estava embaixo, observando com os olhos vidrados no cadáver.
– Kitty, não olhe, venha – Disse Mark, segurando a mão dela.
Ele a guiou até a escada. Chloe bateu na porta.
– Tem alguém em casa? – Perguntou ela.
Mark olhou para o poço novamente, em seguida para a cabana. Como Susan havia chegado ali? Não, aquilo não era novo. Eles já haviam estado ali antes.
Ele correu para a janela e viu o interior. Era igual à cabana em que eles estavam. A mesma lareira que nunca apagava, o mesmo sofá vermelho. Tudo igual, até... Até as gotas de sangue endurecido que manchavam o chão.
– Não pode ser – Disse ele.
Mark correu para a varanda e abriu a porta, entrando no local.
– Não!!! – Gritava furiosamente, enquanto chutava o sofá.
Enquanto ele destruía a sala, em um ataque de fúria e confusão, Chloe e Kitty percebiam o porquê. Era a mesma cabana.
– Impossível – Disse Chloe.
Quando Mark parou, aos prantos. Ele estava ajoelhado no chão.
– Mark – Disse Kitty, cutucando o ombro dele.
– O que? – Perguntou ele, com um tom de voz baixo.
– Olha aquilo.
Ele levantou a cabeça e viu para onde ela estava apontando. Para a janela do corredor. Dali era possível ver. Depois da janela não tinha uma praia, era uma floresta.
Ele caminhou até lá e abriu a janela, colocou a cabeça para fora e olhou ao redor. Era uma floresta. A cabana na floresta.
Mark olhou para trás, para a porta aberta da sala. Ele conseguia ver muito bem o que havia lá fora. Areia branca. Uma praia.
Ele correu até a porta e a fechou.
Fechou os olhos, confuso, e em seguida abriu a porta. A praia novamente.
Ele olhou para trás e viu a janela. Não era mais uma floresta. Agora era uma o oceano.
Correu até lá e olhou pela janela a imensidão azul da praia à sua frente. Como era possível?
Quando olhou para o lado, viu a porta do banheiro fechada. Havia sangue escorrendo por debaixo dela.
Ele caminhou lentamente e segurou o trinco, olhando para o sangue que agora estava a alguns centímetros de encostar em seu sapato sujo.
Abriu a porta lentamente e deparou-se com o cadáver de Justin jogado sobre o chão, ao redor de uma verdadeira poça de sangue, com cortes no pescoço. Ele levou a mão à boca e ficou em choque. Seus olhos lacrimejaram, borrando a visão daquela cena grotesca, e ele caiu em prantos.
– Não – Disse, como se fosse adiantar alguma coisa.
Se aproximou do corpo e segurou a cabeça do amigo, esperando que ele acordasse.
– Não, não não – Repetia ele, chorando.
– Mark? – Chamou Chloe, da sala.
– Estou no banheiro, não venha aqui, por favor, não venha – Disse ele. Ela no entanto, não obedeceu.
Chloe, em choque, começou a chorar.
Ele saiu do banheiro e fechou a porta, abraçando-a enquanto ela estava aos prantos.
– O que houve? – Perguntou Kitty, ao chegar lá.
O olhar de Mark era tudo o que ela precisava para saber o que era.
– Justin? – Perguntou ela.
Ele balançou a cabeça em afirmação e fechou os olhos.
Ela saiu do corredor e foi até o sofá. Sentou-se e colocou as mãos no rosto. Colocou todo o sofrimento para fora.
***
Algum tempo, os três estavam sentados no sofá, em silêncio, quando uma pedra atravessou o vidro da janela da sala e parou bem ao lado sofá, assustando-os.
– O que foi isso? – Perguntou Chloe.
Mark foi até a janela e viu duas das criaturas saindo da floresta e caminhando até a cabana. Os olhos eram brilhantes como dois faróis azuis. Ele ficou em choque ao perceber que eram Justin e Brad.
– Se escondam! – Exclamou ele.
Chloe e Kitty foram para o corredor. Kitty se escondeu em um dos quartos e trancou a porta. Chloe foi para o outro e não trancou. Ela correu para o porão e o abriu. Desceu as escadas e fechou o alçapão. No escuro, ela se escondeu entre a parede e uma grande estante, nos fundos do cômodo.
Mark correu para o quarto onde Kitty estava e bateu na porta.
– Kitty, sou eu, abra – Disse ele.
Ela abriu a porta, ele entrou e trancou-a.
– São eles – Disse Mark, que segurava o ferro da lareira como arma.
Ela não disse nada, apenas ficou atrás dele, olhando para a porta.
Ouviram a porta da frente sendo aberta violentamente e seus corações aceleraram. Estava preocupados com Chloe.
Justin e Brad caminharam pela sala, observando o local. Brad segurava um machado e Justin, uma picareta.
Eles foram até o corredor e andaram até a primeira porta. Entraram e olharam o quarto. Estava vazio. No entanto, o alçapão do porão estava aberto.
Brad caminhou até lá e o abriu. Desceu as escadas e não acendeu as luzes, apenas olhou o local com seus olhos luminosos.
Chloe estava nervosa. O coração quase saía pela boca. O medo tomava conta de sua mente. Ela não queria morrer.
Brad continuou andando com sua picareta em mãos. Quando passou por onde Chloe estava, as batidas do coração dela aceleraram e ela ficou aterrorizada. Felizmente, ele não a viu.
Quando ele passou por onde ela estava, ela pensou em fugir. Era só correr para a escada subir, e trancar o alçapão.
Chloe respirou fundo e saiu correndo. Ela poderia fugir de Brad, mas não sabia que Justin também estava lá. Então, quando estava chegando perto da escada, não percebeu que ele estava bem ao lado dela, com sua picareta na mão.
Ela correu rapidamente, mas ele não a deixou passar. Com uma força sobre-humana, ele golpeou a testa dela com a picareta, fazendo-a atravessar a testa dela, quebrando seu crânio e perfurando o cérebro até sair pelo outro lado, junto com um jato de sangue e pedaços da massa cerebral.
O cadáver de Chloe caiu no chão, com a picareta cravada em seu crânio. Enquanto o sangue escorria por seus cabelos loiros, Brad arrastava o corpo dela pelas escadas até sair do porão – segurando pelos cabelos.
Quando saiu, ele continuou arrastando o corpo pela cabana, até sair na varanda e jogá-lo ao lado do cadáver de Susan. Chloe ainda estava com a picareta na cabeça, deixando um rastro de sangue por onde passava.
Kitty e Mark ainda permaneciam no quarto, esperando por eles.
Mark caminhou até a janela e abriu um pouco a cortina. Olhou para o exterior e, ao ver o corpo de Chloe lá fora, ele fechou, para que Kitty não visse.
– Oh meu deus – Disse ele, com os olhos fechados.
Kitty estava olhando para a porta.
– Vamos sair pela janela, venha – Disse ele.
***
Quando saíram pela janela, caminharam pela terra.
Kitty, ao ver o corpo de Chloe, parou e ficou em choque.
– Não! – Exclamou ela.
– Kitty, vamos – Disse Mark, puxando-a pelo braço.
– Eles mataram-na, Mark, mataram nossos amigos! – Falou ela, aos prantos.
Ele puxou-a até o poço.
– Vamos descer – Avisou Mark, pegando uma pedra no chão e jogando-a lá dentro.
Ao ouvir o som da água, ele colocou uma perna para dentro e sentou na borda.
– Eu não consigo.
– Consegue, é só segurar nas pedras, não é muito alto.
Ele colocou o pé em uma das pedras e começou a descer com cuidado.
Kitty colocou uma das pernas para dentro e fechou os olhos ao ver a escuridão do poço.
– Venha, não tenha medo.
– Eu não consigo.
– Pise nas pedras, eu estou bem aqui, não precisa ter medo.
Ela colocou o pé em uma pedra e, relutante, começou a descer. Estava tremendo, Mark pôde perceber.
– Eles estão vindo? – Perguntou Mark.
– Não consigo ver mais – Respondeu ela.
Estava ficando escuro e quente lá dentro, além da dificuldade para descer que só aumentava.
– Está muito difícil de segurar.
Mark ouviu uma pedra se soltando e em seguida, ouviu Kitty gritando. O pé dela bateu em sua cabeça e ele percebeu que ela havia caído.
– Kitty! – Gritou ela.
Quando ouviu o barulho da água no fundo do poço, ele parou e esperou escutar alguma coisa que fizesse-o saber que Kitty estava bem. E foi exatamente isso que ouviu.
– Eu estou bem! – Exclamou ela.
– Graças a deus – Disse ele.
– É fundo aqui, você pode pular – Gritou ela, lá de baixo.
– Se afaste daí que eu pulo.
– Ok.
Dois segundos depois, ele se soltou e caiu. Instantes depois, atingiu a água gelada, mergulhando nela.
Quando voltou à superfície da água, encontrou Kitty bem ao lado.
Olhou ao redor e viu o que parecia uma sala escura, com uma grande porta de vidro e um corredor mal iluminado do outro lado.
– Onde estamos? – Perguntou ela.
– Eu não sei, mas vamos descobrir.
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