Incoherence

4 Capítulo 03 - Caminhos da Floresta


– O que? – Perguntou Chloe, confusa pelo que acabara de ouvir.

– Este sangue é meu – Respondeu ele, limpando na camiseta branca o sangue que estava em seu dedo – Estamos andando em círculos?

– Não é possível, viemos caminhando em linha reta – Disse Brad – Não tem como este ser o mesmo lugar.

– Brad, olhe em volta, é exatamente o mesmo lugar! – Ele exclamou.

– Então, uma dessas trilhas termina na outra – Falou Justin – Só é possível termos andando em círculos se tivéssemos dado a volta, certo?

– Sim, mas não havia nenhuma curva na trilha – Respondeu Layla – E é possível ver o fim da trilha daqui.

Ela saiu da cabana e os outros a seguiram. Ela ficou parada em frente ao começo da trilha e apontou para o fim, onde a luz do sol voltava a aparecer com intensidade.

– Viemos dali – Disse ela, não tem como ser o mesmo lugar.

– Então aquele sangue não é seu, esta não é a mesma cabana – Concluiu Kitty.

– Não tem como – Falou Chloe.

– Mas não é só o sangue, é tudo, a cabana inteira é exatamente igual – Disse Mark.

Neste momento, um som agudo de xilofone começou a tocar, vinha de dentro da cabana. Um toque de celular.

– É o meu celular – Disse Mark, correndo para o interior da pequena casa.

Os outros o acompanharam.

Ao chegar na cabana, o celular estava no chão, embaixo de uma estante de madeira, quase que imperceptível. Ele pegou o aparelho e viu o que estava escrito na tela.

– Número desconhecido – Disse ele para os outros.

– Atenda antes que o sinal desapareça! – Exclamou Chloe.

– Não tem sinal.

– Como assim não tem? – Perguntou ela.

– Está nulo, não sei como estão ligando.

– Atenda! – Disse Kitty.

Ele levou o celular ao ouvido e atendeu a ligação.

– Alô?

Ao ouvir o ruído agudo e ensurdecedor do outro lado, deixou o celular cair e colocou a mão no ouvido.

– Droga! – Disse ele, sentindo que havia perdido um pouco da audição do ouvido direito. Em seguida, ela voltou gradativamente.

– O que foi? – Perguntou Justin.

– Tinha um barulho alto quando eu atendi.

– Que tipo de barulho? – Perguntou Brad.

– Um zumbido bem fino, insuportável.

– Tente ligar de volta – Sugeriu Layla.

Mark pegou o celular e procurou discar novamente, mas não conseguiu, pois não havia sinal.

– Não dá – Lamentou – Que merda!

– Temos que continuar andando – Concluiu Layla.

– Espera – Disse Mark, percebendo algo estranho – Quem colocou meu celular no chão?

– Deve ter caído, acho que estava em cima dessa estante – Respondeu Justin.

– Não... Quem trouxe ele para a cabana?

– Foi você, ninguém mais pegou – Disse Kitty.

– Não pode ser – Lamentou ele, confuso.

– Por quê? – Perguntou Brad.

– Eu não trouxe o celular pra cá.

– Do que você está falando? Onde você tinha deixado então?

– Na outra cabana – Respondeu ele, se lembrando – Exatamente na estante da outra cabana.

– Droga! – Disse Chloe, com as mãos no rosto – Estamos andando em círculos.

– Não, eu já falei, não tem como! – Exclamou Layla.

– Então como você explica o fato de essa cabana ser igual a outra, e o sangue? E o celular?!

– Ele trouxe sem perceber, o sangue pode não ser dele e a cabana pode ser um padrão daqui, sei lá – Respondeu ela.

– É muita coincidência – Concluiu Chloe – Não é possível, esta é a mesma cabana.

– Então, o que? Vamos deixar de seguir a trilha? – Perguntou Kitty.

– Talvez – Respondeu Justin – Eu tive uma ideia.

Ele saiu da cabana e os amigos o seguiram até a parte de trás.

– Podemos ir por aqui – Apontou ele para a floresta.

– Mas não há trilha – Disse Chloe – Pode haver cobra ou algo pior.

– É melhor do que ficar andando em círculos.

– Ele tem razão – Falou Brad.

– Então vamos andar até encontrar a trilha – Sugeriu Kitty – Se ela realmente dá a volta em algum lugar, encontraremos andando em linha reta.

– Vamos.

Eles entraram na floresta, pisando em folhas e plantas.

– Ainda bem que eu não vim de sandálias – Disse Kitty.

– Tomara que não tenha cobras por aqui – Falou Chloe.

– Eu já duas quando estávamos na trilha – Disse Brad.

– É sério? – Ela se assustou.

– Tô brincando, relaxa.

– Muito engraçado, quando você for picado e pedir para eu sugar o veneno, vai achar mais engraçado ainda.

– Não tem cobras por aqui, Chloe.

– Por enquanto – Concluiu ela, olhando para a terra úmida do interior da floresta.

– Aqui não é tão claro como eu pensei – Comentou Justin.

– As árvores aqui tem mais folhas e estão mais juntas, a luz do sol não passa e por isso essa área é mais úmida e escura – Explicou Layla.

– Um ótimo esconderijo para cobras – Falou Chloe.

– Pela última vez, não tem cobras aqui! – Disse Brad, sorrindo – Na verdade, não tem nada aqui, eu não vi nenhum inseto ou animal, nem mesmo pássaros – Continuou, ouvindo o silêncio em que a floresta estava mergulhada.

– Eu não tinha percebido, mas é verdade – Disse Layla, parando para ouvir o silêncio – Não tem pássaros, não tem grilos, formigas, besouros, nada.

– Eu só agradeço por isso – Falou Chloe.

– Olhem, já dá pra ver a luz mais forte daqui – Disse Mark, apontando para o horizonte, onde a luz do sol brilhava a muitos metros.

– Deve ser a trilha – Comentou Justin.

– Não, está muito claro para ser a trilha, deve ser um rio ou algo assim.

***

Minutos depois, eles estavam se aproximando cada vez mais da luz do sol, mas ao chegar um pouco mais perto, ficaram surpresos.

– Tá de brincadeira, né? – Disse Mark, correndo para fora da floresta.

Era uma cabana, exatamente igual às outras.

Quando os outros saíram, observaram as duas entradas das trilhas aos dois lados. No lado esquerdo e direito. Na entrada do lado esquerdo não havia nada, mas na outra tinha uma placa com o nome “xxxx” escrito em tinta preta.

– Essa deve ser outra, não é possível – Disse Layla, correndo para a janela para observar o interior. A sala era igual, a lareira estava acesa como nas outras e havia sangue no chão – É a mesma cabana – Concluiu ela, com as mãos na cabeça – Não pode ser, como isso é possível? – Layla não conseguia entender.

Brad foi entrando no local sem ao menos bater na porta.

– Mas que droga – Lamentou ele.

– Vamos ficar aqui até que alguém chegue, obviamente estamos perdidos – Sugeriu Chloe.

– Chloe tem razão – Falou Kitty – Talvez os moradores possam nos ajudar a encontrar o carro e a saída.

– Vocês não lembram da porra do acidente?! Não temos mais carro! – Exclamou Brad, explodindo.

– Então conseguiremos outro jeito de sair daqui, só vamos manter a calma.

– Eu vou lavar as mãos – Disse Layla.

Ela caminhou pelo corredor depois da sala e foi até o banheiro, ignorando um dos quartos vazios com a porta aberta pelo qual ela passou. A pia estava suja de sangue, como antes, quando lavou o braço de Mark, então ela abriu a torneira e limpou. Em seguida lavou as mãos.

Quando terminou, enxugou-as na blusa e saiu do banheiro. Ao passar no quarto e olhar de relance, no entanto, percebeu algo que não havia visto antes. Perfeitos cortes retangulares na madeira. Se aproximou e viu que havia também um tipo de ferrolho, que estava aberto. Era um alçapão.

Na sala estavam os outros cinco.

– Não deveríamos estar fazendo isso, é invasão de propriedade – Disse Kitty.

– Estamos desesperados por ajuda, eles entenderão – Respondeu Justin.

– Pessoal, eu achei algo que vocês vão querer ver – Anunciou Layla quando chegou à sala.

Segundos depois, quando estavam parados ao redor do alçapão.

– É um porão? – Perguntou Chloe.

– Claro que é um porão, mas por que a euforia Layla? O que pode ter aí dentro?

– Sei lá, mas eu quero olhar, vai que haja um telefone.

– Um telefone? Em um porão? Me poupe.

– Precisamos de algo para se comunicar e temos que procurar em qualquer lugar, não há motivos para não olhar.

– Não há motivos? Que tal o fato de esta cabana não ser nossa e estarmos invadindo sem ao menos saber quem mora?

– Talvez não more ninguém, Mark, você não viu a cama vazia e os colchões velhos, além do banheiro, que está vazio, com exceção de uma pia e vaso sanitário, não há condições de alguém morar aqui.

– E como você explica a lareira acesa?

– Eu não sei, mas acredito que ninguém more aqui.

Depois de um silêncio de tensão, Kitty quebrou o gelo.

– Eu quero entrar.

– Então façam o que quiserem, eu estou fora – Disse ele, saindo do quarto.

– Mark! – Chamou Chloe, mas ele ignorou.

– Deixa ele ir, vamos entrar – Falou Layla, puxando o alçapão.

Havia uma pequena escada e o resto era quase impossível de enxergar, pois estava escuro.

– Quem vai descer? – Perguntou Justin.

– Eu vou – Respondeu Layla, pisando no primeiro degrau.

Quando desceu, ela sentiu algo no seu rosto e soltou um grito.

– O que foi? – Perguntou Chloe.

– Nada, é só a corda pra acender a lâmpada.

Ela observou o porão, só conseguia enxergar alguns entulhos e algo que a deixou aterrorizada. Uma silhueta humana.

Layla puxou o cordão rapidamente e a luz incandescente acendeu, revelando uma mulher loira e suja parada no meio do porão segurando uma faca, assustando-a.

– Quem são vocês?! – Perguntou a mulher, com um olhar de medo extremo.

– Calma, calma – Respondeu Layla – Só queremos ajuda, qual o seu nome?

– Laura, meu nome é Laura.

– Laura, meu nome é Layla, eu não quero te machucar, pode abaixar a faca.

– Seus olhos, eles não brilham – Disse ela, estranhando.

– Como assim?

– Eles têm olhos brilhantes como estrelas, são assustadores – Falou, abaixando a faca.

– Quem?

– As criaturas da floresta.