Incidente

1 Capítulo 1


— Então, foi você quem matou aquele presidente? Lembro das reportagens, seu rosto foi bastante divulgado.

Francisco se mexeu nervosamente na cadeira, encarou as próprias mãos cruzadas em cima da mesa e limpou a garganta antes de responder. Essa era a sua terceira entrevista de emprego e novamente trouxeram este assunto a tona. Ele esperava não ser reconhecido, havia deixado o cabelo e a barba crescer, mudado completamente seu estilo, mudado de país, porém todo esforço foi em vão, uma vez que as pessoas sempre faziam aquela pergunta ao encontrá-lo.

— Sim, mas o governo me perdoou. Ficou comprovado que foi um acidente.

Há um ano atrás, Francisco descontava sua raiva e frustações jogando pedras do alto de um penhasco. Era comum ele fazer isso, ir para um lugar alto e isolado, e atirar coisas quando estava se sentindo mal. Naquele dia em especial, Francisco tinha passado por uma serie de infortúnios, havia perdido o emprego por conta da redução de pessoal para cortar gastos, sofrera um acidente ao atravessar a rua que o deixara com o braço esquerdo sustentado pela tala em seu pescoço, sua cozinha havia sido consumida por chamas quando tentou esquentar um lanche envolto em papel alumínio no microondas, que entrou em curto circuito, pegou fogo, queimou o pano de prato próximo fazendo com que as chamas se alastrassem pela cortina deixando a cozinha completamente preta. E para completar, seu maior infortúnio, enquanto jogava pedras não tão pequenas com uma considerável força, acabou acertando sem querer o presidente que estava de férias e passeava pela antiga rota esquecida que dava na praia. A pedra atingiu o homem bem na cabeça fazendo-o morrer na hora.

Francisco passou alguns meses na prisão até as investigações acabarem e determinarem que realmente fora um acidente. o governo ofereceu-lhe perdão e o libertou. Quando saiu, já estava conhecido mundialmente como um assassino.

Ele suspirou, voltou a encarar com expectativa a entrevistadora, que surpreendentemente consegiu manter uma expressão neutra o tempo inteiro.

— Então, o que acha do meu currículo? Tenho chances? — ele perguntou rápido.

— Seu currículo não é tão impressionante mas acho que você servirá para trabalhar conosco. Nossa empresa poderia lucrar com uma boa propaganda associada a sua imagem, se você estiver disposto a usar do... "Incidente" a seu favor.

Ele ponderou por alguns minutos, por um lado queria o emprego, precisava urgentemente, por outro queria se distanciar da sua "fama". Por fim respondeu:

— Claro, quando começo?

— Amanhã, esteja aqui as 7h e trabalharemos a sua imagem

Era melhor que nada. Com isso apertaram as mãos e cada um seguiu seu caminho preparando-se para o encontro do outro dia.

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