Incertezas
1 Capítulo único
Notas iniciais
Ele nunca foi de ter muitas certezas na vida, desde criança, principalmente por ter um temperamento um tanto... instável.
Não tinha certeza se acabaria machucando ou não algum colega de classe.
Não tinha certeza se seria expulso ou não da escola por destruir alguma coisa.
Não tinha certeza se seu irmão mais novo passaria a temê-lo em algum momento, assim como todos os outros.
Não tinha certeza se seus pais continuariam o amando com tantos problemas que causava, mesmo não sendo por querer.
Não tinha certeza se algum dia conseguiria controlar sua raiva e força descomunais.
Não tinha certeza se algum dia alguém iria querer se aproximar o suficiente para conhecê-lo de verdade, e quem sabe até, vir a amá-lo.
Não tinha certeza se deixaria esse alguém se aproximar de si, por medo de acabar machucando, magoando ou decepcionando essa pessoa.
Eram muitas incertezas. E em meio a tantas, algumas certezas foram surgindo aos poucos.
Teve certeza de que Izaya não prestava assim que pôs os olhos nele.
Teve certeza de que jamais conseguiria ignorar aquele moreno tão irritante.
Certeza de que a pessoa que lhe fazia mais mal, de alguma forma irônica e distorcida, era a que lhe fazia mais bem. Com ele não precisava se segurar, poderia ser ele mesmo, sentia-se livre.
Certeza de que algo estava errado quando seus pensamentos, de uma forma ou de outra, sempre acabavam na mesma pessoa.
Certeza de que a tal coisa errada era atração, quando a vontade de beijá-lo se tornou imensamente maior que a de matá-lo.
Certeza de que havia se viciado nos beijos, na pele, no cheiro, nos toques, nos gemidos dele.
Certeza de que havia se apaixonado perdidamente por ele.
Depois dessa certeza, tudo se tornou incerto.
Não tinha certeza se deveria ignorar ou não esse sentimento. Se deveria dar ou não um passo à frente e dizer com todas as letras o que estava sentindo. Se havia feito certo ou simplesmente acabado de vez com qualquer chance de ser feliz que havia tido, quando pôs pra fora tudo aquilo que estava em seu peito.
Se deveria ter se ofendido quando Izaya riu e disse que aquilo era impossível. Se deveria ter cedido ao informante e continuado com o que tinham ao invés de ter se mantido firme em sua decisão. Se deveria tê-lo impedido quando ele saiu pela porta dizendo que se aquela era a condição, não voltaria mais ali. Se deveria mesmo ter ficado ali, parado, enquanto a pessoa que amava ia embora de sua casa, de sua vida.
Eram muitas incertezas. Sua única certeza era a de que nada estava bem.
Uma semana. Fazia uma semana que não o via, e isso era doloroso. Doloroso saber que ele não voltaria. Doloroso saber que ele provavelmente nem estava sentindo sua falta. Doloroso saber que ele não o amava.
Deveria esquecê-lo. Deveria. Mas tinha certeza de que isso não seria possível. Talvez pudesse procurá-lo e pedir que tudo voltasse a ser como era antes. Não era bem o que queria, mas era infinitamente melhor do que não tê-lo.
Planejava fazer isso assim que a forte chuva que caía sobre Ikebukuro desse uma trégua, mas a ansiedade era grande, não daria para esperar tanto. Estava prestes a sair quando a campainha tocou. Ficou estático. Sabia quem era. Tinha certeza que era ele. Abriu a porta e viu-o realmente ali, não soube o que dizer, e nem se deveria dizer algo. Decidiu esperar.
- E-Eu... – viu-o gaguejar e morder o lábio inferior, parecendo inseguro. Ficou surpreso. Nunca o tinha visto daquela forma – Eu... também te amo.
Izaya não havia ido embora por que não gostava de si, ele havia ido por que estava com medo. Medo de admitir que sentia o mesmo, de parecer fraco, de se tornar vulnerável e acabar se machucando, medo de apostar em algo tão incerto quanto o amor.
Acariciou seu rosto suavemente, achando graça quando ele corou com esse gesto, e então uniu seus lábios, beijando-o com todo o sentimento que havia em seu peito e tendo a única certeza da qual realmente precisava.
A certeza de que era amado.
Fale com o autor