Incógnita
1 Prólogo
O festival da adoração começaria em algumas horas e Callie não tinha encontrado nenhum vestido bom o suficiente para isso, preferia ir com suas calças de treinamento e suas botas enlameadas, mas conhecia a mãe o suficiente para saber que aquilo seria motivo de fúria. Chutou suas botas para longe e resmungou, indignada. Como pudera esquecer de uma das coisas mais importantes do dia? Olhou para o rastro de lama e comprimiu os lábios, se tivesse sorte estaria longe daquela casa antiga em algumas horas e se livraria de uma bronca pela sujeira. O seu quarto era pequeno, mas aconchegante, a enorme janela ao lado da cama lhe proporcionava uma boa visão do campo de lírios que se estendia atrás da casa, seu peito apertou em saber que provavelmente nunca mais veria essa paisagem, que nunca mais passaria noites contemplando a beleza dos campos a noite ou de contar as estrelas até dormir.
Illyria era uma boa cidade, apesar de tudo. Tinha riquíssimas mansões de vidro, pátios enormes e feiras barulhentas, os lírios apareciam em quase todos os lugares, simbolizando os donos do lugar, os seres féericos que ela tanto admirava e repugnava ao mesmo tempo. Eles incendiaram o mundo com sua magia e ela era prova disso. Sonhou por dias a fio com o festival da adoração, ele só acontecia de cem em cem anos, representando a necessidade de novos soldados, novos guardiões. Semi-imortais que precisavam ser treinados eram escolhidos por tutores. Muito dos humanos não tinham a oportunidade de ver o festival acontecer, mas ela não era humana, não totalmente. Callie viveria tempo o suficiente para ver vários festivais.
Ela era um exemplo, ela era metade deles.
Suspirou ao livrar-se das calças e enfiar-se em um vestido branco que achou no fundo do guarda-roupa, ele revelava suas costas nuas e as cicatrizes que escondeu por tanto tempo, tocou-as levemente e estremeceu com o pensamento em dias longínquos, seus cabelos longos e totalmente brancos as esconderiam durante a cerimônia então os soltou do rabo de cavalo delicadamente para cobrir as duas linhas verticais que cobriam quase suas costas inteiras.
A garota inclinou a cabeça para o lado, observando sua imagem refletida no espelho da penteadeira que ficava no canto do quarto, estava bonita, o vestido tinha ficado justo, mas não vulgar e sua saia era solta e leve, dando-a um ar de simplicidade. Seus cabelos longos desciam como cascatas e ondulava nas pontas. Tudo aquilo contrastava tão bem com a tatuagem que tinha no ombro, uma lembrança de quem era, o símbolo da chama brilhara ardentemente quando fora queimado em seu ombro, anos atrás. Apesar da aparência, levava em si o fogo do mundo. Seus olhos cinzas brilharam de expectativa e medo, o que faria se não fosse uma das escolhidas hoje? Ela nunca foi uma das mais fortes, de fato, mas controlava seu poder elemental muito bem e conseguia passar de todos os testes da academia, mesmo com seu corpo franzino e sua aparência frágil. Passou os dedos gentilmente pela saia uma última vez e sorriu, a melancolia lhe invadiu ao dar uma última olhadela para o quarto, sentiria falta das paredes descascando e de sua penteadeira enorme. Com o peito ainda apertado de saudade de algo que ela ainda não tinha perdido, desceu as escadas ao encontro de Arsen, que a esperava ansiosamente. O garoto já tinha passado a mão nos cabelos loiros umas oito vezes desde que chegara, titubeava os dedos no sofá rústico e já estava irritado com o crepitar da lareira quando Callie chegou a sala.
— Você está muito bonita, Callieach — Seus olhos brilharam em admiração e a garota revirou os olhos, mas sorriu.
— Você também, Arsen – E procurou a mãe rapidamente, mas ela não parecia estar em lugar algum – Ela já foi, não é?
— Sim, ela saiu daqui faz alguns minutos – Callie suspirou em decepção – Não se importe com isso, faísca.
A miúda socou seu braço em brincadeira e murmurou algo sobre não gostar desse apelido e assim, entrelaçando os dedos, saíram rumo ao pátio principal. Cinco estátuas se erguiam altas como prédios em seu centro, cada uma representando os poderes repassados para os herdeiros. Escuridão, chama, gelo, mente e cura. O pátio se enchia cada vez mais e os dois tiveram que se separar, eram divididos por sexo e idade. Seu estômago revirou em antecipação, sabia o que estava por vir, hoje era o dia que finalmente veria a face do seu tutor. Pessoas de toda a cidade estavam ali para ver seus filhos serem levados, todos estavam orgulhosos de suas crias, partindo para o treinamento de deuses. Um palanque de madeira enorme foi erguido para a situação e depois de algumas horas de espera um dos humanos, o que ela julgou ser o emissário dos féericos, subiu rechonchudo, em um palanque montado e sorriu para todos.
— Lembrem – Sua voz ressoou alta como um trovão e Callie tremeu, pensando onde estaria Arsen, ela precisava dele aqui, precisava que ele fosse com ela. – Nem todos serão escolhidos, mas os que forem, sintam-se honrados. Serão representantes da magia, portadores da verdade, mas não devem esquecer de onde veio esse poder, de onde irradia tanta magia. E, ao entrar nos locais onde eles passam, sejam corteses e saúdem aqueles que por ali caminham há mais tempo que nós.
Então eles apareceram.
E todos caíram de joelhos.
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