In the flesh
4 Um alfinete, velho amigo
Notas iniciais
[Duas semanas após o assassinato de Samantha Smith e 4 dias pós assassinato de Victoria Willians]
–Boas novas! – Disse, entrando na sala onde Lola e Nick estavam.
– Primeiro, – Lola disse – Nem minha vó fala boas novas. Segundo... Que foi, criatura de Deus?
– Achei uma pessoa que sabe algumas coisas sobre a morte da Victoria...
–Quem?! –Nicole disse com aquele ódio no olhar
–Audrey Garland. Pelo que parece, mora em Cambridge.
–Cambridge? Ah sim... Cambridge... Bonito lá, não?
–Nublado.
–Me diga um lugar de toda a Inglaterra que não é nublado boa parte do ano. –Nicole riu
–Fala com o chefe, e então você terá a honra de interrogá-la. –Lola sorriu
–Querida Lola, me conhecendo como conhece, parece que não sabe que eu já falei com o chefe. – Sorri
–Ui, desculpa ai. Vai quando pra lá?
–Em dez minutos. Só vim aqui para avisar vossas Eminências. Até.
As duas se despediram de mim, e eu me dirigi até a estação de trem.
Estava lotada, chovia baldes e baldes de água, minha sombrinha havia quebrado com a ventania... É... Comecei meu dia bem.
Mas tudo bem, era apenas uma hora e quinze minutos que eu iria passar dentro daquele trem de Londres até Cambridge.
Já disse o quanto amo meu chefe? Ele meu deu exatamente a localização da tal de Audrey. É muito amor mesmo... Facilitou meu dia. Ou não...
A uma hora e quinze se passaram lentamente. É nessas horas que meu sentia falta da Lola falando sobre a viagem para Milão. Quando finalmente cheguei em Cambridge, tinha que achar a casa da tal Audrey. E não, eu não pegaria um taxi, afinal, eu só tinha dinheiro para pagar o trem.
Não foi muito difícil, Audrey morava na parte operária de Cambridge, todos lá se conheciam, logo, alguém me disse onde ficava sua casa.
Olhando por fora da casa, parecia um tanto aconchegante, paredes pintadas e um vermelho um tanto desgastado, janelas grandes e um jardim florido.
Olhei pelo vidro, era uma sala simples e pequena. Um sofá, uma televisão antiga, e uma pequena porta que deveria levar para a cozinha. As paredes brancas tinham um pouco de mofo, mas a casa não tinha nada de diferente de uma casa britânica semi-abandonada.
A porta se abriu antes mesmo de eu ter qualquer reação.
–Não temos pão velho. – Uma voz divertida disse. Encarei o dono dela, vendo os olhos verdes tão conhecidos por mim. –Eleanor?!
–Keith?!
–Que diabos você está fazendo aqui?! Entre, você está encharcada!
Keith e eu éramos inseparáveis colegas de escola, mas depois que ele entrou na faculdade, nunca mais nos falamos. Ele continuava do mesmo jeito, talvez mais magro, mas com o mesmo nariz pontudo e torto (Resultado de uma violenta briga nossa)
–Keith, eu até te daria um abraço se eu não estivesse toda encharcada, mas eu estou procurando a Audrey Garland... Disseram-me que ela morava aqui... E...
–Morar ela mora aqui... Ela sempre sai... Uma hora dessas, ela deve estar no teatro de Chiswick.
Soltei um gemido frustrada. Eu vim até a porcaria de Cambridge pra chegar aqui e cadê a Audrey? Eu não sei! Yippee!
–Eu... Posso te dar carona... Se você quiser, claro.
–Mas é claro que eu aceito! – Eu ri, dando um abraço no rapaz
–Eu só vou pegar um copo d’água... Certo?
Concordei e ele sumiu pela portinha, voltando instantes depois.
–Vamos? – Chamou.
Viramos umas duas esquinas até chegarmos a um belo...
Eu gosto muito de fuscas, mas simplesmente não conseguia imaginar meu querido amigo dirigindo um fusca, o próprio odiava esse carro.
–As coisas mudam, minha cara. – Ele sorriu, reparando que eu havia olhado tempo demais para o fusca...
Mas poxa, era um fusca roxo, não é sempre que você vê um fusca roxo.
–As coisas podem mudar e você continuará o mesmo pálido ambulante. – Brinquei.
No meio da “longa viajem” de Cambridge para Chiswick, chegamos num ponto interessante da conversa
–Porque você estava sozinho na casa da Audrey?
–Ela é dona de um colégio. Eu preciso de um emprego, Eleanor.
–Não deveria falar sobre isso no colégio?
–Porque tanta desconfiança?
–Só quero saber.
–Eles disseram que eu teria mais chances... Eu realmente preciso de um emprego, já lhe disse isso.
–Quem diria que você trabalharia num colégio... Você que dançou macarena encima do tumulo do querido professor de Geografia...
–Qual é, ele mereceu a minha macarena! – Riu.
Logo, Keith me deixou no teatro, despedindo-se e virando a esquina.
Entrei no teatro, me amaldiçoei mentalmente por ter pisado com tanta força naquele chão barulhento, de qualquer maneira, segui em frente, atenta para o que estava acontecendo, ou a falta de movimentos, no teatro.
Havia uma mulher de meia idade atrás do palco, lendo um papel, chegando gentilmente ao seu lado, disse:
–Audrey Garland, certo?
–Sim rapariga... Por quê?
–Gostaria de lhe fazer umas perguntas...
Lentamente, coloquei minha mão para dentro da minha bolsa, tateando-a a procura do revolver...
Que eu não achava.
Caro leitor, não é possível que eu tenha esquecido um REVOLVER em qualquer lugar. Pelo simples fato de que é um REVOLVER!
Eu tinha um alfinete na minha bolsa também, aliás, pra que eu tinha um alfinete eu não sei.
–Pergunte. – Audrey disse.
–O que você sabe sobre uma garota chamada Victória Willians
–Victória Willians... Ela... Eu não sei nada sobre ela.
–Mas eu sei que a senhora está mentindo.
– Estou falando a verdade!
Pensa rápido Eleanor... O que se faz com um alfinete...? Ah sim...
Coloquei o alfinete perto de sua jugular, se ela fosse ao mínimo esperta, saberia que poderia morrer se eu resolvesse ir mais fundo com esse alfinete.
–Quem é você?! –Ela disse assustada. As coisas estão começando a ficar interessantes.
Estariam mais se eu tivesse a merda de um revolver e não um alfinete. Um revolver te deixa em evidencia em um assassinato.
–Eleanor Waters. Nada que seja importante no momento. Diga logo o que você sabe sobre a Victoria! – Aumentei meu tom de voz.
–Ela não vai dizer porra nenhuma, Eleanor. – Uma voz atrás de mim disse.
Keith...
Keith com um revolver...
Keith com o MEU revolver...
“Filhos da puta, aonde vivem? como se reproduzem tão rápido? Quais são seus costumes? Só aqui, no globo repórter”
–O que você está fazendo aqui?! – Disse
– Eleanor, uma pessoa que some tanto tempo, reencontra um amigo, anos depois atrás de uma ex-traficante, carrega uma bolsa com algo estranho dentro e você realmente achou que ninguém repararia.
Por favor, um coice na minha cara? Não? Ok.
–Keith, devolve a merda do meu revolver.
–Pra você matar essa mulher? –Ele soltou uma risada seca. –Quem sabe amanhã?
Eu virei para encarar a Mrs. Garland. Adivinha? Ela fugiu. EXATO, ELA FUGIU!
–Cadê ela, Keith?!
Nenhuma resposta.
–CADE ELA?!
Tentei tomar o revolver de suas mãos, sem sucesso. Ele era mais alto do que eu.
Pensei em algo, isso seria sujo... Mas o que seria da vida sem as trapaças?
Eu ainda segurava o querido alfinete, se eu colocasse aquela linda pontinha do alfinete na barriga esquelética do meu colega... Ele não morria e soltaria omeurevolver...
Deu certo
Assim que fiz isso, ele apertou as duas mãos no machucado, soltando o revolver, que eu logo peguei, correndo e subindo as escadas para uma parte superior, ouvi a mulher arfando. Sorri de canto e andei até lá.
–Olá olá! Veja o que temos aqui! Um... revolver! Então, ainda não sabe nada? Eu particularmente vejo as pessoas sentirem mais dor quando levam um tiro...
Segurei sua garganta com força, fazendo-a engasgar e apertando o revolver na sua jugular.
Espera... O revolver estava leve... Demais...
O revolver estava sem bala. É hoje que eu me mato mesmo.
Continuei apontando o revolver para Audrey, enquanto ela ofegava e olhava em meus olhos.
–Eu... Falo! – Ela disse
–Ótimo, pode começar.
(FLASHBACK PQ SIM)
Estranhamente, o dia estava nublado e frio, mas não chovia. Audrey saiu de casa silenciosamente de casa naquela manha, dentro da bolsa, carregava um pacote de cocaína, iria entregar para um antigo cliente.
Um grito ecoou nas ruas. Uma garotinha gritava, se esperneando no colo de um homem, ele pedia para a garotinha, “Victoria”, permanecer em silêncio.
Ele jogou-a no porta-malas, trancou, e deu partida no carro. Audrey pensou seriamente em chamar a policia, mas as coisas esquentariam pro lado dela se fosse encontrada com cocaína na bolsa.
(END OF FLASHBACK)
–Sabia que você pode parar na cadeia, não é?! –Audrey disse, mais alto agora.
–É?! Por quê? –perguntei
–Você está me ameaçando com uma arma!
O alfinete estava com Keith, ou melhor, no Keith. E meu revolver estava sem balas...
Ela sairia de lá viva.
Vi uma bala do revolver no chão, mas quem havia jogado...?
Olhei para trás, Keith atrás de uma viga de metal, com os olhos fechados, provavelmente não queria ver alguém morrendo.
Segurei Audrey com o ombro, recolocando a bala no revolver.
–Suas ultimas palavras? –Pedi.
Ela apenas fechou os olhos, esperando o tiro. Que foi dado logo em seguida.
Sim, eu também fechei os olhos. Ver alguém morrendo não é agradável.
– Keith...? –Chamei
–Oi, menina do alfinete. –Ele sorriu
–Perdão! –Eu ri, abraçando-o
–Ainda quer uma carona?
Balancei a cabeça em concordância, rindo.
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