Por mais que Nina tivesse acabado de entrar na escola, já era sexta-feira. Considerado por muitos o dia da preguiça e que os alunos mais ficavam animados e esbaforidos nas salas de aula, comentando sobre os planos de fim de semana.

Eram 8:45 da manhã, Sora, Kairi, Riku e Nina corriam pela praça, aproximando-se da escola.

— Me desculpe... De verdade... – Dizia Nina arfante, enquanto corria. – Eu fiquei até tarde ajudando minha mãe a pintar o quarto do meu irmão, então eu me atrasei...

— Não esquenta com isso. O negócio agora é chegar à escola antes do porteiro fechar a entrada principal. – Replicou Sora, correndo pouco atrás de Riku, onde este liderava a corrida. Alcançaram enfim a entrada, mas não pararam de correr, apesar de Kairi ter ouvido atentamente “mal é nova aluna e já fica por aí, chegando atrasada com esse triozinho... Crianças!” vir do porteiro mal humorado. Kairi se separou e adentrou a sala de aula dela, que ficava a umas quatro salas de distância da de Riku, Sora e Nina.

Por sorte, o professor ainda não havia chegado e a representante de turma falava algo sobre sorteio e troca de lugares, para que a nova aluna pudesse se interagir melhor com a turma. Ela colocou uma numeração em cada carteira e em uma sacola ela foi passando de aluno pra aluno, onde estes pegavam papéis com suas novas definições de lugar.

Para o azar de Riku (mas ao mesmo tempo sorte), ele não ficaria mais sentado do lado da janela, observando o céu e o mar. Estava no meio da sala de aula. Porém, ao seu lado direito, Sora havia pegado uma carteira. “Oba, estamos juntos cara!” – Comentou Sora, enquanto copiava os deveres do amigo no exato momento. E ao seu lado esquerdo, estava Nina. Ela não era de falar durante as aulas, assim como Riku, mas sentados perto de Sora, não iriam demorar muito a perder esse hábito.

O dia correu bem. O intervalo tocou e os três se uniram à ruiva, onde foram para a cantina. Lá eles encontraram os amigos de Nina, a tal garota de cabelos castanhos, chamada Lina e o loiro, Roxas. Mais tarde o trio Tidus, Wakka e Selphie uniram-se a eles, e o grupo de nove pessoas ocupou toda uma mesa de refeitório. Passou a ser divertido ver todo aquele grupo unido, e passariam a ser assim todos os dias. Depois de alimentados, voltaram às salas de aula, até que batesse o último sinal e seriam liberados. Sora, mais uma vez, deu a desculpa de levar Kairi em casa apenas para ficar sozinho com ela. Selphie, Tidus e Wakka moravam na mesma rua e assim iam juntos. Lina e Roxas eram os que moravam mais distantes, estando na terceira ilha, a norte, caminhariam algum tempo até chegarem em casa. Nisso restou apenas Riku e Nina, que praticamente moravam um do lado do outro. Caminharam sozinhos e o garoto ofereceu ajuda com os deveres de casa. A menina aceitou e disse que iria após o jantar, assim separaram-se mais uma vez.

Ele não sabia definir o que era essa sensação, mas acreditava que estava muito bem. Pensou em aproveitar os momentos de estudo e perguntar sobre as viagens da garota, como era navegar e o que havia além do mar. Mas ao mesmo tempo pensou que seria cedo, então achou melhor perguntar algum dia que ele pudesse apresentar Destiny Islands a ela. Era o tipo de assunto que ambos falariam sobre suas raízes.

A noite, e eram cerca de 20:00 hs, Nina chamou pelo garoto, sendo então recepcionada pela mãe deste. A mãe dele era alguém de beleza imensurável, chegando a ser quase intimidadora. Tinha a pele muito branca e cabelos louros tão claros presos em uma imensa trança. Os olhos desta eram incrivelmente verdes, iguais aos de Riku, um verde incrivelmente intenso e vivo. Educadamente, ela abriu o portão e deu passagem para a garota, que timidamente caminhou até a sala de estar.

— Riku deve estar no banho, eu acho. Vou chamá-lo e ele logo irá te ajudar com os deveres da escola. – A mãe deste era alguém realmente perspicaz, já que logo entendeu sobre uma garota de catorze anos que apenas viaja e agora estava na escola. Obviamente tinha algum tipo de dificuldade, então pediria socorro logo a aquele que morava mais próximo ou fosse da mesma sala. E Riku enquadrava-se em ambas as definições.

Ela subiu as escadas e fora chamar o filho, que por sinal estava andando em meio ao corredor. Apenas de toalha presa na altura da cintura.

— Sua nova amiga de escola está aí, a Nina. Imagino que você vá ajudá-la a estudar, não?

— Ela já chegou?! – E o garoto apressou o passo, fechando a porta do quarto e abrindo as portas do armário, procurando roupas e enxugando o cabelo. A mãe deste aproximou-se da porta e disse qualquer coisa sobre fazer um lanche para os dois, até se afastar. Riku estava se comportando de modo estranho. Talvez fosse culpa pelo fato de nunca ter recebido uma garota em casa. Não que Kairi ou Selphie não contassem, mas uma garota sozinha já era bem diferente.

Riku trajava uma camiseta preta e uma calça jeans. Olhava-se no espelho e pensava “Se eu usar essa camisa, vou parecer um cara folgado? E se colocar a minha camisa social branca? Não... Vou com essa mesma, não estou indo a uma festa.” – Não era do tipo de pessoa que se preocupava com a aparência, mas queria estar apresentável. Penteou os rebeldes cabelos prateados e os manteve soltos, para secarem de uma vez. Por baixo da franja, colocou um curativo sobre o machucado que a encrenqueira da Clarisse havia feito. Pôs um par de sandálias masculinas nos pés e desceu, levando parte do seu material escolar. Nina o aguardava sentada no sofá, mas levantou-se acenando, como quem indicava estar à espera do mesmo.

— Desculpa a demora... – Disse um tanto sério. – Não achava meu caderno de matemática. – Mentiu, não querendo parecer nervoso.

— Ah... – Ela brincou com os próprios cabelos, enquanto sorria. – Não tem problema, mas era justamente nessa matéria que eu preciso de ajuda. Onde vamos estudar? – Ao fazer a pergunta, Riku pegou duas almofadas bem grandes e colocou no chão, diante de uma pequena mesinha.

— Tudo bem se ficarmos aqui? Geralmente estudo com o Sora assim. – Disse, enquanto distraidamente notava as roupas da garota. Parecia bem confortável, usando uma camisa regata branca e justa, além um short azul, acompanhados de uma fina meia branca até o meio das coxas. É, parece que o vestuário de Riku não era problema para satisfazê-la. Não que ele quisesse, mas enfim... O importante agora era estudar!

— Ah, de modo algum. É até melhor assim, podemos ficar mais confortáveis aqui do que em uma mesa tradicional.

E ficaram por lá, estudando e conversando até cerca de umas 22:00 da noite. A mãe do garoto trouxe pães de queijo, suco de laranja (que segundo ela faz bem pros olhos e para o estudo.) além de balinhas de chocolate.

Riku não perguntava nada, por mais que quisesse, sobre as viagens da garota. E ela nem parecia indicar entrar no assunto, apesar de ter gostos bem normais para uma adolescente que viajava tanto. E com isso ficava mais tarde, o tempo passava depressa e a garota começava a pegar o jeito com as matérias da escola. Ela era até bem animada e sorria constantemente, o que contagiava facilmente o garoto. Riku, as vezes, ficava apenas observando-a escrever as antigas matérias da escola, completamente centrada. Pelo menos até ela olhar para um relógio que marcava 22:30 da noite, assustou-se e pôs-se de pé, catando todo o seu material escolar.

— Droga! Está muito tarde...

— Realmente. – Ele concordou, já pensando no fato de que ela teria de ir embora. – Eu te acompanho até em casa.

— Riku, eu moro praticamente aqui do lado. – Ela disse, observando-o como quem não precisava de escolta e super proteção. Mas o que ela não sabia era que o mesmo não tinha vontade de se afastar de uma vez da presença de Nina. Ele suspirou e assentiu, abrindo a porta da sala e caminhando até o jardim de casa, abrindo o portão. A garota o seguiu e atravessou, pondo os pés na calçada da rua. Porém não fora embora de imediato. Riku aguardava que ela fosse de uma vez, mas notou que ela esperava por algo.

— Alguma coisa errada? – Perguntou em tom curioso. Ele não havia admitido para si próprio, mas achava-a completamente misteriosa e um tanto quanto reservada. Ela virou-se para o garoto e sorriu.

— Boa noite... Riku. – E ela se afastou, deixando-o para trás. Olhava para a garota adentrar o portão velho que ainda não fora consertado na antiga casa abandonada. Ele não sabia ainda exatamente o que aquela garota significava na sua vida, já que ela havia caído de pára-quedas, quebrando a teoria de nada existia além do mar. Fechou os olhos e então fechou o portão, subindo diretamente para o seu quarto e jogando-se na casa.

Escuridão. Não fez questão de acender qualquer tipo de luz, e então se jogou na cama. Por algum estranho motivo sentia-se bem assim, era como se estivesse envolvido, protegido pela negritude espalhada no ar. Estranhamente, de alguns anos pra cá, Riku não conseguia sonhar, sabe-se lá o motivo para isso. Ele apenas deitava, dormia e ao acordar o sol já começava a manchar o céu em tons cor de rosa, bem leve.

Mas dessa vez ele não conseguia sequer dormir. Pelo menos era o que ele achava. Momentos mais tarde ele veio a alegar que tudo não teria passado de um sonho, porém parecia intensamente real.

Estaria ainda deitado em sua casa em um momento em que ele mesmo achava estar dormindo. Estava deitado de lado, contra a janela, virado para a parede. Às vezes mexia-se um pouco, empurrava o cobertor, cobria-se de novo. Estava muito inquieto, até que ele sentiu um vento frio invadir o quarto, fazendo todo o seu corpo arrepiar. Virou-se e abriu os olhos calmamente.

Nina estava parada no meio do aposento, usava uma espécie de capa negra que parecia ser um vestido de couro e os cabelos da mesma estavam soltos, balançando com a brisa. Riku não podia ver o rosto da mesma direito, pois estava contra a luz que vinha de fora. Ela estava descalça e recuou um passo quando ele se sentou.

— Nina? O que...

— Riku! Salve-me... – Ela estendeu sua mão para ele. – Por favor, salve-me...

— Riku, tudo bem? – E a mãe do garoto adentrou o quarto, acendendo a luz rapidamente. Ele observou a mulher, assustado, mas não era importante, não depois do que aconteceu. Ao virar o rosto pra frente e encarar a menina novamente, ela já não estava mais lá.

— Ahn... Tudo bem sim, mãe. P... Por quê?

— Estava andando pelo corredor, indo dormir após o banho e ouvi a sua voz. – O rosto da mulher era de quem estava levemente preocupada, mas que tentava disfarçar.

— Não... Foi apenas um sonho, eu to bem, mesmo.

— Certeza? – Ela quis se certificar. Ela sabia que o garoto não sonhava tinha anos.

— Mãe! – Ele respondeu em um tom levemente indignado.

— Tudo bem, tudo bem. Eu já entendi. – Ela se aproximou do garoto e beijou a testa do mesmo. – Durma bem, meu anjo.

— Você também, mãe.

Ela saiu do quarto e apagou as luzes, caminhando em passos leves até o seu próprio aposento. Riku estava mais uma vez sozinho, em meio a escuridão. Mas sentia um estranho pesar naquele momento, como se algo apertasse seu coração pouco a pouco. De um salto, chegou até a janela e espiou pra fora dela. Seus olhos mostravam o quanto estava aflito, então pensou que “checar pra ver se tudo estaria bem” não faria mal algum. Pulou para o lado de fora da janela, que ficava no segundo andar, e caminhou pelo telhado do primeiro andar, que protegia um pequeno quintal dos fundos. Saltou para a casa ao lado e por fim chegou nas telhas da casa azul e branca, conhecida por ser “abandona”, que agora não era mais.

A janela exibia luzes, então manteve-se agachado, para que ninguém notasse sua presença de imediato. Ouviu vozes mais velhas, que ele suspeitou ser os pais da garota e então tudo se apagou, exceto por uma luz estranhamente azul. Foi erguendo-se aos poucos e então vira Nina. Ela estava sentada sobre a cama e brincava com um abajur azul, aparentemente o causador daquela luz. Ela soltou os cabelos e usava um pijama branco bem delicado. Puxava os lençóis delicadamente enquanto deitava e abraça um travesseiro. Parecia uma pequena princesa indo dormir, foi o que pensou o garoto.

— Espero que o Riku durma bem esta noite. – Ela disse baixinho. Baixinho, mas o suficiente para o garoto ouvir. Ele ficou desconcertado e com isso encolheu-se um pouco de novo, parecendo estar levemente acanhado.

O importante era saber que tudo estava bem. E aparentemente, sim, tudo estava. Não sonhava havia muito tempo, e algo assim, do nada o havia assustado. Mas parecia... Ser real demais, verdadeiro demais. Bom, sonhos muitas vezes pregam peças na gente. Sorrateiramente, ele voltou para os telhados de sua casa e pulou a janela, jogando-se na cama onde então dormiria até o dia amanhecer e tomar lugar das trevas por luz.