In Your Dreams
1 Boring.
Notas iniciais
Seu corpo estava quieto sobre a areia. O barulho do mar, o cheiro de maresia. A leve brisa mexia os seus cabelos e o momento era de calmaria. Alguns pássaros cantavam, e aquilo o fez acordar, sentando-se e olhando fixamente a imensidão azul a sua frente. O tempo estava agradável e havia poucas nuvens no céu, o que significava um dia de calor. Levantou-se calmamente e andou, deixando a praia para trás, enquanto dava leves tapas em seu corpo, retirando os vestígios de areia. Alcançou uma pequena trilha dentre as plantas a beira da praia e por ali foi, ultrapassando coqueiros e arbustos até chegar a uma área em que começavam a surgir casas. E mais pra frente construções comuns, como armazéns, lojas e ao fim de tudo: uma escola. Rodeado por quase todos os lados de cadeias de montanhas, tudo demonstrava apenas que ali era um lugar calmo e pacífico. Passou por uma praça e virou para a esquerda, chegando a uma pequena rua e por ali adentrou a uma casa. Suspirou e ouviu uma voz vir da cozinha:
— Riku, tome um banho rápido. O almoço está quase pronto.
— Sim, mãe. — E subiu por uma escada, onde atravessou o corredor e chegou ao próprio quarto. Era simples e arrumado, pintado na cor branca. No meio do mesmo, ao lado da janela estava a cama, enquanto do lado oposto havia um armário com uma caixa de brinquedos embutida no mesmo. Uma mesa cheia de desenhos e folhas estava presa a uma das paredes e no teto havia um ventilador. O garoto retirou a blusa e pegou algo que parecia ser um uniforme dentro do guarda-roupa, e assim voltou para o corredor e adentrou o banheiro, despindo-se para tomar um banho.
Após se arrumar, o garoto usava uma camiseta branca com uma gravatinha azul xadrez, combinando com sua calça. Andava descalço pela sala e fora até a cozinha, já que um delicioso cheiro invadia o ambiente.
— Peixe para o almoço! – Disse a mulher que cozinhava com um sorriso esperto, observando o filho que a espionava tão discretamente.
— Notei pelo cheiro... Tão bom como sempre. – Disse mimando a própria mãe, enquanto dava uma última passada com a toalha nos cabelos de prata umedecidos. Afastou-se de lá e calçara sapatos sociais pretos, onde da mesma cor prendeu os cabelos com um elástico que formava um simples rabo-de-cavalo. A mãe trouxera a comida para a mesa e ambos a saborearam. Riku parecia ser o tipo de garoto quieto e sério para quem o vê de longe, mas quando está com seus amigos é diferente. Ele se levantou da mesa, retirou tudo da mesma e fora lavar a louça, enquanto sua mãe se preparava para sair.
— Tenha um bom dia na escola querido, eu vou fazer compras. – E beijou a testa do filho que era um tanto mais alto que esta. Afastou-se e ele escutou a porta bater, sinalizando que ela já havia ido. Faltava apenas secar a louça, quando alguém lhe bateu na porta. Pensou que a mãe possivelmente poderia ter esquecido algo em casa, mas ao abrir a entrada, lá estavam os dois: Sora e Kairi. O garoto era um tanto mais baixo que Riku e tinha cabelos castanhos espetados, que contrastavam com seus belos orbes azuis. Usava a mesma roupa que o outro, uma camiseta branca, gravata, a calça... E assim Kairi também estava arrumada, com a diferença de que sua camisa não tinha mangas e esta usava uma saia azul xadrez, que nem de longe se pareciam com a cor de seus cabelos, que tinham um tom vermelho, meio que indo para o vinho. O mais alto deu espaço para os amigos entrarem e este falou calmamente:
— Estou secando a louça, já, já a gente sai, ok? – E voltou para a cozinha. Sora e Kairi se sentaram no confortável sofá que tinha na sala, enquanto aguardavam Riku terminar os afazeres. Sem querer, ambos se encostaram ao se acomodarem. Ficaram vermelhos e sentiram-se sem graça, enquanto Sora sacudia as mãos se desculpando e resolvera ficar de pé, deixando apenas Kairi sentada. Nisso, o mais velho voltou e percebeu de imediato a situação, quis descontrair o clima comentando do horário. – Vamos pra escola, já estamos atrasados.
— Certo... – Disse Sora um tanto acanhado, mas acompanhado de um imenso sorriso no rosto, bem típico de seu jeito otimista de ser. Eles saíram as casa de Riku e tomaram a rua. Kairi caminhava animadamente, se mantendo sempre a frente dos dois, enquanto atravessavam a principal praça, onde havia um pequeno comércio e uma fonte a jorrar água. Sora falava animadamente sobre algo, enquanto a ruiva passava por uma lojinha e comprava frutas, mas nisso, Riku estava em outro lugar. Seus pensamentos lhe levavam para longe, as coisas aconteciam ao seu redor, mas ao mesmo tempo tudo parecia muito parado. Enfim, lhe ocorreu um simples pensamento: Sua vida era apenas isso. Praia, casa, amigos, escola. Uma simples e rotineira vida. É entediante, Riku estava sendo consumido pelo tédio naquela pequena vida. E ele só não a considerava vazia devido aos seus amigos que o acompanhavam pra tudo. Mas ainda assim... Era de fato monótona.
Enquanto andavam, a frente deles surgia um prédio bem amplo na cor branco-acinzentado. Seus três andares circulavam o terreno e em seu centro era descoberto, onde havia um imenso salgueiro, o que indicava que ali era o pátio da escola. Na frente de tudo, havia uma imensa torre, chamada por muitos de “A torre do relógio”, devido ao velho, enferrujado e parado relógio que ali havia. Os três adentraram pelo portão e o homem uniformizado que ali se encontrava os olhou com reprovação e resmungou qualquer coisa sobre o atraso deles. Fechada a entrada, eles apressaram os passos e correram para a sala de aula. Riku e Sora em uma, Kairi em outra. Para a sorte deles, a aula mal havia começado e assim a bronca que ambos levaram não foi nada aterrorizante. O dia estava quente e os ventiladores não eram o suficiente pra acalmar o alvoroço geral, pois os alunos se agitavam naquele tempo desanimador conversando e reclamando por sequer se agüentarem de pé. Pronto, a aula entediante de história havia acabado. Estavam todos ainda conversando quando o aterrorizador professor de matemática entrou na sala. Por algum motivo estranho, ele colocava uma moral na turma que todos ficavam quietos em sua tensa presença. Suspirando, ele colocou sua pasta de trabalho sobre a mesa de lecionador e a abriu, retirando folhas e caminhando em direção ao quadro.
— Correção dos deveres de casa.
— Ahhhhh, professor! – Praticamente a turma inteira gemeu ao ouvir “deveres de casa” e nisso Sora tacou uma bolinha de papel para Riku que continha escrito “Você fez os exercícios?”. O garoto estava tão distraído olhando o céu azul através da janela que até se surpreendeu com aquilo. Desviou o olhar para o amigo e o garoto fez uma cara seguida de uma olhadela do tipo “Diga que você fez, por favor!” O mais velho fez menção de que sim e arrancou uma folha do caderno. Entregou então a Sora e o garoto sorriu, como quem agradeceria eternamente.
Era sempre assim, Sora nunca fazia os deveres de casa pra praticar esportes e espiar Kairi em seus normais afazeres. O hábito já era tão grande que Riku fazia os próprios exercícios e os copiava para o amigo. Era a mesma coisa todos os dias.
A aula acabou e assim teve o intervalo de almoço. Depois mais aulas, atividades extracurriculares e por fim... Casa. Era uma vida simpática pra quem não pensa muito grande, gente de interior. Mas isso deixava Riku praticamente maluco, ele não era o tipo de pessoa que conseguia se contentar em ter uma vidinha simples, queria descobrir viajar, saber se existia algo além daquele imenso mar azul.
Todas as três ilhas que formavam Destiny Islands ganhavam um tom alaranjado, já que o fim do dia estava próximo. Estava mais uma vez em silêncio, enquanto ouvia Kairi e Sora comentarem animadamente sobre algo, até que pararam no começo da rua aonde Riku morava.
— E aí, cara! O que você acha disso? – Dizia o amigo animadamente.
— Disso o que...? – Estava tão absorto em pensamentos profundos, viagens e dentre outras coisas que simplesmente não tinha ouvido nada do que disseram.
— Poxa, Riku! Estávamos falando da casa abandonada na sua rua!
— Aquela casa azul e branca que ninguém nunca quis morar lá? – Tentava forçadamente se envolver no assunto.
— Sim! O Tidus e o Wakka disseram que tem vindo sons estranhos de lá, além de movimentação. – Sora parecia muito empolgado com a idéia.
— É! E a Selphie disse que esses dias ela viu as luzes da sala acesas!
— Interessante. – “Algo de novo por aqui? Imagino que seja bobeira”, pensou. – E isso vem acontecendo a quanto tempo?
— Cerca de 5 dias. Olha cara, está meio tarde, eu vou levar a Kairi em casa e qualquer coisa eu passo aí mais tarde ou você chega lá em casa, ok?
— Certo, certo. Até mais pessoal. – E deu as costas, caminhando até a própria casa enquanto os amigos acenavam e também seguiam seu rumo.
Estava em casa mais uma vez. E era assim... Todos os dois, e isso era mórbido demais. Subiu as escadas sem fazer barulho algum, por algum estranho motivo não queria conversar naquele momento com a sua mãe. Adentrou o quarto e abriu as cortinas, deixando entrar os últimos raios de sol pela janela. Largou o material pelo chão mesmo até ouvir um forte barulho de coisas se quebrando. Algo como vidro. Abriu então rapidamente a janela também e sentiu-se atraído a observar a tal “casa mal-assombrada”. O lugar ficava a duas casas de distância e como a rua onde morava formava uma espécie de “U”, a casa do garoto era a última dali, como se fechasse a mesma. Os telhados da maioria das casas no final da área meio que eram interligados. Acho que era arriscado, mas quis espionar, porém ouviu um comentário vir do andar de baixo, exclamando:
— Droga! Eu gostava tanto desse prato...
Isso o aquietou completamente. Jogou-se na cama e então percebeu que possivelmente estava acreditando nas brincadeiras infantis de que existe uma casa abandonada com vida própria. Observou o teto que rapidamente escurecia e então suspirou.
As coisas bem que podiam mudar.— Disse para si mesmo.
E você pode ter certeza Riku, elas vão mudar de um modo bem violento.
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