In The Dark Beside You

4 Não fique tão perto de mim


Notas iniciais
Finalmente terminei o capitulo! Desculpe a demora, espero que gostem. E não me matem por ter acrescentado um pequenino personagem extra, heheh. Quem gosta muito do Dean vai querer me matar.

Olivia Pov

Parei indecisa em frente ao deprimente prédio escuro, caindo aos pedaços. Fechei meus olhos e senti o ar gélido da madrugada em meu rosto. Estava quase amanhecendo, era pegar ou largar. Eu me sentia extremamente egoísta, largar Lisa dessa maneira, mas prometi a mim mesma que voltaria para busca-lá. Eu ainda não sabia o que estava fazendo aqui, não entendia porque era tão difícil entrar em minha própria casa. Um lugar em que, ironicamente, era para eu me sentir protegida.
Eu não queria subir. Acredito que por medo, talvez. O medo que eu senti todos os dias da minha vida de encontrar alguém morto dentro de casa. Minha mãe violentada, meu pai em coma alcoólico ou minha irmã vítima de algo que deu errado. Mas eu jamais conseguiria ajuda — lá daqui, eu precisava de dinheiro, contatos e o mais importante, sanidade. No estado em que eu me encontro não seria capaz de tomar nenhuma decisão prudente sequer.
O que eu estava prestes a fazer agora, não era uma delas.
Vamos Olivia, pensar menos e fazer mais, isso nunca foi um problema pra você.
Subi as escadas correndo, evitando olhar ao meu redor, tentando repelir da minha mente o lugar que eu mais queria esquecer. Abri a porta de casa devagar, como sempre, destrancada. A casa estava vazia, às 5 horas da manhã. Algo muito normal na minha família.Entrei em meu quarto abafado, sentindo ânsia ao ver as paredes amareladas, a cama de solteiro no canto e minha única cômoda que guardava todas minhas roupas.
Sem pensar, o mais rápido que puder.
Procurei uma mochila e enfiei todas as coisas dentro dela que eu achava necessário. Ouvi a porta de casa bater, não conseguia me mexer, meu corpo todo paralisou. Esperei, ouvindo passos em direção ao meu quarto, minha respiração começou a ficar abafada e acelerada. Senti uma mão passar por cima do meu ombro.
– O que você está fazendo, Olive? – meu pai perguntou.
– Nada – consegui responder com a voz fraca.
– Não está pensando em fugir, não é mesmo? – ele perguntou com um tom que me fez estremecer.
– Onde está mamãe? – tentei mudar de assunto, minha voz vacilava e tremia a cada palavra que saía de minha boca.
– Você tem medo de mim Olivia? – ele me virou de frente, segurou meu queixo e me fez olhar pra ele.
Senti seu hálito de bebida e fiz um esforço pra não vomitar. Ele me dava nojo. Criei coragem e olhei em seus olhos, procurei meu querido pai, o homem que me criou. O homem que me levava à escola. Elogiava todos os rabiscos que eu fazia e queria chamar de desenho. Ele sempre foi magro, alto, um rosto amigável, o sorriso que eu idolatrava. Como ele foi ficar assim? Agora parecia um monstro. Os olhos ardiam de maneira irreconhecível, ele me olhava com desejo e apertava meu braço cada vez mais forte. Percebi que eu chorava.
– Você não é meu pai – consegui sussurrar. – Pelo menos, não isso que você se tornou.
– Ótimo. Porque se eu fosse, eu não poderia fazer isso – ele se aproximou de mim e beijou meu rosto, devagar foi descendo até minha boca.
Meu reflexo foi imediato, virei meu rosto e tentei sair de seu braço, mas ele era mais forte.
– O que diabos você está fazendo? – consegui gritar.
Ele apertou meu braço mais forte ainda.
– Se você gritar, eu te mato.
– Por favor... – agora eu já não conseguia dizer mais nenhuma palavra, eu chorava muito, tremia muito e minha raiva foi ficando cada vez maior.
Ele passava a mão em meu cabelo, meus seios, até que chegou a minha calça.
– Você é tão bonita, sabia disso? Não é a toa que você é minha filha.
– Por favor, me solte! – eu gritei.
Ele cobriu minha boca com sua mão e me jogou na cama.
– Mais uma palavra sua e você não sobrevive, está me ouvindo? – ele ralhou. Ele subiu em cima de mim, enquanto eu me debatia ferozmente, ele ainda era capaz de me segurar. Com os olhos cegados pelas lágrimas, senti um ardor em meu rosto e só depois percebi que havia levado um tapa. Senti-o abaixar minhas calças e algo me rasgou por dentro, gritei o mais alto que pude e acabei levando outro tapa. Consegui soltar uma das minhas mãos e nessa luta que parecia não ter fim, tateei em volta de mim, procurando qualquer coisa capaz de jogar nele.
Eu não podia me render. Com o maior alívio que já senti em minha vida, alcancei meu abajur e quebrei-o em sua cabeça. Ouvi um rugido que parecia ser ele gritando e consegui tira-lo de cima de mim.
– Sua filha da puta! – ele gritou, tapando o rasgo que eu tinha feito em seu rosto.
Levantei no pulo, peguei minha mochila e corri, sentindo ele me perseguir. Corri o mais rápido que pude, não enxergava um palmo a minha frente, mas corri. Tropeçando em meus próprios pés, estava decidida a não parar. Sai do prédio e continuei, até me certificar que estava longe o suficiente e que ele não estava mais me seguindo. Fui parar quatro quadras a baixo de minha rua. Sem ar nos pulmões, sem acreditar no que estava acontecendo, com muita dor, tudo que eu queria agora era morrer. A rua estava deserta, olhei para todos os lados para me certificar que eu estava sozinha, me joguei na calçada e chorei, até não aguentar mais.
Quando consegui limpar minha mente, procurei meu celular em meu bolso, fui para meus contatos e disquei o número desconhecido. Cada toque do telefone era um grito.
– Alô?
– Dean, eu preciso da sua ajuda.

Dean Pov

Já eram quase seis horas e eu não tinha feito esforço algum para ir pra casa. Não faço idéia de como o tempo passou tão rápido, eu bebia, mas não sentia o gosto do álcool. Na minha mente se passavam tantas coisas que eu não conseguia distingui-las. Até que meu celular tocou; eu juro que nunca senti tanto medo na minha vida. E agora eu estava no carro procurando desesperadamente a rua que Olivia havia me dito. Eu jamais desconfiaria de um pressentimento meu. Nunca mais.
Ao achar a rua, não queria acreditar no que via. Estacionei e desci para socorre — lá.
– Olivia! Meu Deus, o que fizeram com você? – eu não conseguia controlar minha euforia, tentei levanta — lá da calçada, mas seu corpo estava completamente debilitado.
A fiz olhar pra mim. Seus olhos assustados pareciam abismos, completamente perdidos.
– Eu estou aqui. Venha, vou te levar pra um hospital. – tentei carrega — lá, mas ela me impediu.
– Não! – olhei pra ela sem entender. – Não Dean, por favor. Nós vamos voltar pra escola.
– Nós não podemos voltar pra escola com você nesse estado!
– Eu estou ótima – ela limpou o rosto molhado. – Tudo que eu precisava era de uma carona.
– Olivia me poupe! Olhe pra si mesma! Você tem um corte na testa e além de estar inteirinha roxa, parece alguém que não dorme há três dias.
Ela colocou a mão na cabeça e gemeu.
– Eu devo ter caído quando corria. Obrigada por me lembrar o quanto eu estou horrível.
– Corria do que Olivia?
– Por favor, me leve pra escola.
– Se eu chegar com você lá e eles te virem assim, provavelmente ligarão para polícia.
Ela não respondeu.
– Me conta o que aconteceu. Me deixa te levar pra um hospital...
– Eu não quero contar! – ela grito. – Eu não quero lembrar! — tentando se acalmar sussurrou; — Eu te chamei pra me ajudar, então... Por favor, me ajude.
Respirei fundo.
– Você tem razão. Entre no carro, eu te levo pra escola. Mas depois, eu quero o relatório completo.
– Não posso te prometer nada.
– Você pode e você vai. Anda, me de a mão. — Ela me deu um olhar sugestivo. – O que? Orgulhosa demais pra isso?
Ela forçou um sorriso.
– Quase isso...
– Uau, como você conseguiu me ligar?
– Você tem um carro. Eu não chegaria à escola a tempo se estivesse a pé. – ela estendeu a mão.
– Ah... Então você admite que seja por interesse.
Ela riu e se apoiou em mim.
– Você chegou aqui rápido demais.
– Eu já te disse, não é porque eu te odeie que eu deixaria você morrer.
– Se você me odiasse tanto assim, você nem estaria aqui Winchester.
– Da pra fazer o favor de não me chamar pelo sobrenome? Obrigada. E se você me odiasse tanto quanto diz não teria me ligado.
– O carro Dean, você tem um carro.
Consegui rir. Fomos em silêncio o caminho todo. Quando paramos em frente da escola percebi ela suspirar.
– Tem certeza que quer fazer isso? – perguntei.
– Me esconder não vai fazer nada melhorar Dean. É só descer e fingir um sorriso. Faço isso todos os dias.
Parei para pensar no que ela disse, foi quando ela percebeu que tinha dito demais.
– E porque diabos eu estou contando essas coisas pra você? – ela revirou os olhos.
– Porque eu inspiro muita confiança aos que estão ao meu redor.
– Aham – ela murmurou com sarcasmo – Até mais Winchester — abriu a porta e desceu do carro.
– Espera! – gritei. – É assim então? Nem um ‘’obrigada’’? – fui atrás dela.
– Obrigada – ela disse e deu as costas.
Segurei em seu braço com força.
– Você acha que pode fazer isso? Me ligar chorando, desesperada, pedindo por socorro e depois sair como se não me conhecesse? Eu te ajudei!
– Eu sei. E eu já te agradeci.
– Como você consegue ser tão infantil? – perguntei inconformado.
– Dean, eu te agradeço pelo o que fez. Mas eu não te devo detalhes da minha vida, afinal de contas você não é nada pra mim. Você é só um estranho que me ajudou. A nossa história termina aqui – ela disse com seriedade, soltou seu braço e foi andando até o portão da escola.
– Da próxima vez que você ligar eu não vou atender. – gritei.
– Não vai ter próxima vez. – ela gritou de volta.
A nossa história não termina aqui Olivia. Ela acabou de começar.

Allison Pov


Eu não pude deixar de pensar, amanheci acordada, imaginando que algo poderia ter acontecido a Olivia. Me encontrava a beira da histeria nos portões da escola, quando Sam, o menino do dia anterior se aproximou de mim.
– Allison, não é? – ele perguntou suavemente.
Forcei um sorriso em afirmação.
‘’Ótimo Sam! Você aparecendo aqui não facilita nada! A propósito, já mencionei que não consigo respirar com você por perto?’’
– Parece preocupada – ele notou.
Tentei me forçar a manter uma conversa coerente, sem olhar pra ele, respondi.
– Olivia me deixou nervosa com algo que me disse no telefone ontem e está atrasada. Estou com medo de que algo possa ter acontecido.
– Então, somos dois. Dean também não voltou pra casa.
– Que ótimos amigos temos aqui!
– Ah não – ele riu – Dean é meu irmão.
Olhei pra ele assustada.
– O que foi? – ele retribuiu o olhar.
– Nada... Só... Bela genética. – tentei parecer indiferente. Sem muito sucesso.
Ele deu um sorriso torto.
‘’Bela genética? Da onde tirou isso? Você é muito melhor quando calada Allison.’’
Aproveitando o embalo da situação, parei para observá-lo melhor. Sam dificilmente poderia se passar por um menino de 16 anos. Era alto e tinha ombros largos. O cabelo cor de mel caia em seu rosto com uma franja de comprimento médio, o que lhe deixava com um ar doce, sensível, quase feminino. Mas seu rosto quadrado e de traços fortes, quebravam essa feminidade. Os olhos – minha parte favorita – de um azul claro, carinhoso e profundo.
Percebi que passamos por um silêncio longo e constrangedor, fingi procurar Olivia, quando, de fato acabei a encontrando.
Vinha na minha direção, às pressas, com uma expressão sombria.
– Olivia! – eu disse aliviada quando consegui por meus braços em volta dela. – Você está bem? – fitei-a desesperada em busca de algum ferimento. Encontrei vários.
– Eu... Estou ótima. – ela fez força para manter o tom calmo da voz. – Só preciso de um descanso. Se importa se eu ficar alguns dias em sua casa?
Tentei ver através dela, mas era impossível. Ela não deixava transparecer nada.
– Dean! Onde diabos você se meteu? – Ouvimos Sam murmurar do outro lado, uma figura distante. A voz foi ficando mais baixa à medida que se afastavam.
– Você estava com ele? Ele te fez isso? – apontei para o corte em sua cabeça, tentando controlar minha voz e não gritar.
– Longa história... – ela murmurou entediada.
– Longa história? – gritei. – Acha que pode me convencer com longa história?
– Allison! Menos, por favor. Ele só me deu uma carona, mal o conheço. Garanto que ele não vai incomodar mais.

Fechei meus olhos e tentei me concentrar no meio de tantas explicações pela metade.
– Se quer ficar na minha casa, você me deve explicações! – contestei.
– Mais tarde – ela estava calma demais.
Coloquei minhas chaves em sua mão.
– Toma, pode ir, meus pais não estão, você vai conseguir descansar.
– Não vou embora. Vou entrar na escola.
– Você não pode entrar assim! Tem dois cortes na testa, sangue por toda a roupa, joelhos rasgados e seus braços estão completamente roxos!
Ela olhou pra si mesma. Provavelmente não fazia idéia de que parecia tão mal.
Respirei fundo.
– Por favor, me diga que não está acontecendo de novo.
– Não está! – ela gritou. – Já passou Allison! Já passou... Eu vou ficar bem. – Eu não sabia quem ela queria convencer, eu ou a si mesma.
– Tudo bem, tudo bem – tentei ignorar, por mais difícil que fosse. – Você sabe que se entrar por essa porta e te virem nesse estado, ligarão para o conselho tutelar.
– Não! – ela me olhou assustada. – Eles não podem. Não dessa vez...
Olhei em seus olhos perdidos, aflita sem poder fazer nada. Em instantes vi seu medo se transformar em obstinação. O sinal tocou.
– Vou me limpar. Eu dou um jeito, se perguntarem cai de skate. – Ela se afastou com pressa sem me dar tempo para responder.
Eu não acreditava que tudo isso estava acontecendo mais uma vez. Tivemos problemas o suficiente ano passado. Eu realmente esperava que fosse diferente, desejei com todas as minhas forças que, dessa vez, ela realmente‘’desse um jeito’’. Não podia continuar assim pra sempre.
Mas é claro, se a desgraça não existe alguém sempre faz questão de cria — lá. Mal sabia eu que Amber estava nos observando esse tempo todo.

Dean Pov

Quem essa garota pensa que é?
Enquanto Sam me enchia de perguntas evasivas e me dava sermões do quanto o deixei preocupado, fui tentando controlar minha raiva. Nada mais passava pela minha cabeça a não ser um ódio fervoroso que me consumia.
Graças aos céus desenvolvi a habilidade de colocar Sam no mudo, caso contrário estaria maluco.
Ao andar pela escola senti alguns olhares em mim. Não é possível que as notícias se espalhem tão rápido!
Não! Não fiz nada de errado. Devo estar paranóico.
Na sala de aula me isolei aos fundos na esperança de que Sam desistisse e me deixasse em paz, mas ele ainda me seguia.
– Dean! Você ouviu alguma palavra do que eu disse? – ele perguntou irritado.
– O que você ainda está fazendo aqui? Não estuda nessa sala. – desviei.
Tirei meus fones do bolso e lhe dei um olhar sugestivo
– Dean! – li seus lábios.
– Se eu não estava te ouvindo antes, não é agora que eu vou escutar – eu disse apontando para os fones de ouvido.
Ele respirou fundo e quando eu pensei que fosse desistir arrancou meus fones com força e me encarou com seriedade.
– O que aconteceu com a Olivia?
– Não faço a mínima idéia e não tenho o menor interesse – respondi com frieza.
– Estou falando sério – teimou.
– Eu também! – finalizei a conversa.
– Tudo bem. Eu desisto.
– Obrigado – forcei um sorriso sarcástico.
O sinal finalmente tocou, pareceu uma eternidade.
Quando os alunos começaram a entrar na sala, analisei todos os rostos no ímpeto de ver Olivia passar por aquela porta provando tudo estar bem.
Ela nunca entrou.
Minha vontade era de levanta da cadeira e ir procurá-la. Mas eu sabia que isso seria ridículo, quanto menos eu me envolvesse menos problemas teria.
Procurando por um rosto conhecido avistei Amber me olhando fixamente, esperei que ela desviasse o olhar mas nada aconteceu, me desprendi do seu olhar quando uma voz distante ecoou nos corredores da escola:
‘’Dean Winchester, aluno do segundo ano, sua presença é requisitada na direção.’’
Ótimo!
Então eu não estava paranóico, as notícias realmente se espalham.
A sala fez um coro enquanto alguns gritavam ‘’O dia mal começou!’’.
Bem vindos ao meu mundo, pensei.
Eu estava tenso o caminho todo, aliviado de ter saído da sala e um pouco intrigado. Mas nada se compara ao susto que tomei ao ver Olivia sentada em uma das cadeiras da direção.
Era uma sala pequena e desconfortável. As paredes pintadas com um azul marinho que escurecia o cômodo. Estava lotada de títulos e diplomas de faculdades. No centro da sala uma mesa com algumas fotos de uma tradicional família americana e a frente da mesa duas cadeiras, uma das quais Olivia estava sentada.
A diretora ainda não havia chegado. Olivia me ignorou como se não houvesse mais ninguém no cômodo junto a ela. Contra gosto engoli meu orgulho e perguntei.
– O que diabos está acontecendo?
Devagar ela virou os olhos pra olhar pra mim e suspirou.
– Aparentemente falhei em ser discreta com o meu "estado" – respondeu desinteressada.
– Olivia, não falo em códigos, por favor, desenvolva.
– Se eu não me engano tem algo a ver com a minha pressão. – ela disse devagar.
Perdi a paciência.
– Como você veio parar aqui? – perguntei irritado.
– Me acharam desmaiada no banheiro. – ela disse com tanta normalidade que demorei para digerir a informação. Me sentia pasmo.
Quando finalmente consegui organizar meus pensamentos para perguntar o que eu tinha a ver com o assunto a diretora entrou na sala e fechou a porta.
– Por favor, sente-se.
Era uma mulher grande de ombros largos e gorda, devia estar na casa dos 45 anos. Sua testa franzida nos dava o sinal de que ela não se encontrava de bom humor.
Sentei e permaneci em silêncio.
– Vejo que tenho um rosto novo aqui – olhou pra mim. – Já que Olivia é minha visitante costumeira.
– É sempre um prazer – Olivia sorriu com um tom sarcástico venenoso.
Minha tensão não passava, milhões de perguntas corriam pela minha cabeça.
– Parece que a coisa foi feia dessa vez. Deixe-me adivinhar Olivia, outro acidente com o skate?
Ela riu. Era impressionante como enfrentava a situação com tanto pouco caso.
– Dessa vez não Senhorita Bennet. Foi uma moto.
– Uma moto que você dirigia? – disse cética- Ou uma moto dirigida por outras pessoas? – me lançou um olhar insinuante.
– Que eu mesma dirigia. – ela disse com convicção.
– Olivia você sabe que se estiver com problemas é sua obrigação nos informar, nós podemos ajudar.
– Senhorita Bennet! Eu não tenho a obrigação de lhe informar absolutamente nada sobre minha vida pessoal e o que eu faço ou deixo de fazer fora da escola. Simplesmente não é da sua conta – ela gradualmente perdia a calma.
Ver Olivia passar de sarcasmo e falsa ingenuidade para raiva era como assistir os últimos segundos de uma bomba se esgotarem e esperá-la explodir sem sair do lugar.
Desesperado tentei remediar a situação.
– Desculpe-me mas onde é que eu me encaixo nisso?
Ela me olhou ferozmente.
– Diga-me você meu caro! Onde se encaixa? Em cima? Em baixo? Eu não dou a mínima para o tipo de relacionamento que vocês têm, mas você não tem o direito de encostar um dedo nela!
– Isso é um absurdo! – explodi. – Acha que eu fiz isso? Eu só ofereci uma carona, mal a conheço!
– E eu jamais teria qualquer tipo de relacionamento com esse ai. – Olivia protestou.
Tentei me acalmar.
– Isso é um completo mal entendido. Eu não a machuquei.
– Espero que seja. Mas a partir de agora vou observá-lo mais de perto.
Olivia levantou da cadeira e fez menção de sair.
– Você sabe Olivia, que se seus problemas familiares estejam se repetindo eu tenho o dever de contatar a assistência social e conselho tutelar.
Olivia respirou fundo e sem se virar para respondê-la saiu da sala batendo a porta com força.
Sra. Bennet prensou as mãos contra as têmporas em sinal de preocupação.
– Dean, não é mesmo?
– Sim senhora.
– Dean, as pessoas falam... Tome cuidado com quem anda, Olivia é... Complicada. Pode sujar o nome de seu pai te metendo em problemas.
Revirei meus olhos.
– É claro que conhece meu pai.
Era tão óbvio! O filho da mãe tinha vindo ameaçar a escola, ele não perderia a chance de controlar minha vida e seu tão precioso nome de família.
Assenti com a cabeça e me levantei.
– Estou dizendo a verdade Dean, pare seu próprio bem, fique longe dela.
– Verei o que posso fazer.
Sai da sala com a cabeça borbulhando de perguntas. Primeira coisa a fazer? Procurar Olivia.


Olivia Pov

Assistência Social? Conselho Tutelar? Essa mulher estava louca, me mandariam para um orfanato, provavelmente separada de Lisa. Não, eu jamais deixaria isso acontecer. De novo não. Perdi muito tempo tentando fugir daquele lugar da última vez.
Parei no meio do caminho, indecisa, se entraria ou não na sala de aula. Lembrei que minha aparência era grotesca. Minha roupa manchada de sangue e hematomas nos braços, sem contar um pequeno e profundo corte na maça do rosto do lado direito. Pensando melhor, dei meia volta e fui ao banheiro. Joguei tudo que tinha dentro da minha bolsa em cima da pia. Só estava com o meu material, minha mala de roupas tinha sido confiscada pela direção. ‘’Droga’’, pensei alto. Por sorte o banheiro era grande e estava vazio, eu tinha tempo.
Molhei alguns papéis toalha e tentei limpar o corte no meu rosto.
– Isso não vai adiantar sabia? – pulei de susto com a voz vinda da porta do banheiro.
Dean estava apoiado na porta com um esparadrapo na mão.
– Aqui – se aproximou e jogou o esparadrapo na minha mão. – Isso deve funcionar.
– Meu Deus, você está obcecado por mim! – olhei para ele descrente.
– Você me prometeu respostas.
– Não te prometi absolutamente nada – respondi com acidez.
– Você realmente não gosta de ser ajudada, não é mesmo? Quanto mais te ajudo pior você me trata.
– Não tem porque me ajudar Winchester. Não me deve nada – cortei um pedaço do esparadrapo com os dentes e coloquei em cima do corte.
Ele me olhou dos pés a cabeça.
– O que foi? – perguntei.
– Sua roupa – ele tirou seu moletom – Toma, vai cobrir seu braço e a roupa manchada. É grande o suficiente.
Olhei para ele com seriedade, mas antes me demorei na blusa fina que ele vestia por baixo que ressaltava cada linha de seu corpo, se ele percebeu minha admiração fingiu não notar.
– Pra que tudo isso?
– Não posso ser gentil com uma desconhecida?
– Não.
– Bem, se acha que não vai precisar... – Começou a arrumar o moletom para vesti-lo novamente.
Arranquei de sua mão.
– Me dê isso aqui.
Ele sorriu.
– Você é um presunçoso, desgraçado.
– Obrigado.
– Se pensa que vou te contar qualquer coisa sobre o que aconteceu, está muito enganado.
Ele se aproximou e me olhou diretamente nos olhos.
– Ou você conta ou eu descubro, simples assim. – ele disse suavemente.
– Isso foi uma ameaça?
– Entenda como quiser – ele se afastou e foi até a porta – Quero o moletom de volta amanhã, certifique-se que ele esteja lavado.
– Vou desinfetá-lo da melhor maneira possível, álcool e fósforos – insinuei.
– Ah, e mais uma coisa. Espere um tempo até voltar pra sala, vão pensar que eu estava com você. Tenho uma reputação a zelar – ele sorriu.
– Eu te odeio.
– Estou feliz que tenha ajudado – disse com certa delicadeza e ironia ao deixar o banheiro.


Allison Pov


Só Deus sabe com o que Olivia se meteu dessa vez e eu não quero fazer parte disso! Ah! Mas como eu queria ajudá-la, justo ela que já fez tanto por mim. Posso resumir, sem exageros, que se não fosse a Olivia, eu talvez nem estivesse viva.
Olivia tem me ajudado desde que eu decidi bancar a adolescente rebelde para ver se eu conseguia manter meus pais em casa por mais de cinco minutos e fazer com que prestassem atenção em mim, na realidade, foi assim que nos conhecemos.

Minhas amizades costumavam ser rigidamente selecionadas. Era só ter a quantia certa de dinheiro, aparência e estar pronta para ser manipulada e influenciada a fazer qualquer coisa que não queira fazer.
No currículo devia estar incluso: maligna o suficiente para fazer alguém chorar usando apenas palavras, manipuladora ou manipulável, contato físico direto com algum garoto do time de futebol da escola e o ultimo e não menos importante, “tomo tudo que me oferecerem” tipo de garota.
É assim que as coisas funcionam nesse colégio, ou pelo menos, funcionavam. Amber adorou me ter como um projeto. Eu sempre fui o tipo de pessoa que faz tudo o que é preciso para se chegar onde quer, mesmo que isso signifique passar por cima de carreira e amigos de meus pais, para conseguir alguns momentos de atenção. E ainda assim, nunca foi o suficiente.
Até que então eu cedi. Cedi à tentação dos convites às festas inapropriadas, com pessoas inapropriadas e bebidas inapropriadas, inapropriadas para alguém com apenas quinze anos.
Eu tinha tudo que era preciso para fazer parte desse mundo. Eu era desejada por muitos e odiada por muitas. Para Amber – a menina que criou essa definição de “personalidade para sobrevivência de período escolar” – eu era perfeita. Tudo que ela precisava fazer era aumentar meu “currículo”.
Bem, eu era virgem. E me dói muito dizer era. Eu também nunca tinha usado drogas ou bebido mais que um copo de champanhe. E como Amber me dizia: “Para fazer parte desse mundo Al, você precisa se arriscar.” E lá fui eu me arriscar, em outras palavras, confiar em quem não devia.


Flashback

– Qual é Allison! Vai me dizer que nunca ficou sozinha com um garoto antes?

A festa acontecia na casa de uma garota do terceiro colegial, Elizabeth “alguma coisa”, metade da escola se encontrava no mesmo local, seus pais estavam fora da cidade e Amber tentava me convencer a chegar a 3ª base com um cara chamado Peter.

– É claro que já! – Menti – É que ele realmente não faz meu tipo.

– E você acha que eu vou acreditar nisso? Hello! Você por um acaso já viu os braços dele?

Suspirei.

– Amb, não é assim que você vai me convencer.

– Deveria ser assim! O que significa que tem algo muito errado com você!

Andávamos no meio de muitos adolescentes pirados, que dançavam, bebiam, quebravam coisas e dançavam de novo – tentando manter a voz mais alta que a música.

– Não tem nada de errado comigo! Eu realmente ficaria para satisfazer seus desejos incontroláveis de fazer com que eu transe com alguém Amb, sério, eu adoraria, mas eu tenho que voltar para casa, já é tarde.

Ela me lançou um olhar indignado.

– Você realmente precisa relaxar. Jesus! – Ela deu risada e me olhou com seriedade – Como se seus pais se importassem com o horário que você volta para casa. Se você fizesse falta Allison, eles já teriam ligado.

Permaneci em silêncio. Amber parecia irritada.

– Quer saber? Me procure quando deixar de ser uma covarde e quiser beber algo. – Se afastou e me deixou sozinha com meus pensamentos mais sombrios.
Uma raiva me atingiu. Amber tinha razão, se nem meus próprios pais ligavam para o que eu fazia comigo mesma, porque deveria eu? Olhei fixamente para o casal que se beijava loucamente em um canto da sala, tentando tomar uma decisão.
– Suas ‘’amigas’’ não são pessoas muito confiáveis, sabia disso? – uma garota me tirou do transe, olhei pra ela, eu não sei o que esperava ver, mas definitivamente me surpreendi.
Ela era deslumbrante, parecia um pouco mais velha. Sombria, com roupas nada convencionais. Um coturno preto nos pés, meias calças rasgadas, uma mini saia com estampa do uniforme do exército, pulseiras e uma maquiagem excessivamente preta que faziam com que seus olhos verdes se destacassem. Seu cabelo era longo, ondulado de um loiro dourado magnífico. Ela parecia calma, se aproximou com uma voz rouca e suave.
– E você é? – perguntei grosseira.
– Eu sou a pessoa a quem você deveria dar ouvidos.
Revirei meus olhos em desprezo.
– Obrigada, mas não preciso de conselho de nenhuma dark/roqueira/drogada – sorri amarga.
Ela riu e se aproximou de mim.
– Se te oferecerem algo para beber, não aceite – sussurrou – Pode haver algum ‘’boa noite Cinderela’’ dentro e acredite, nessas histórias os príncipes nunca querem que você acorde.

Estremeci.
Ao dizer isso se afastou e desapareceu no meio da aglomeração de pessoas que estavam na sala. Me esforcei para esquecer o que ela havia dito. Fui atrás de Amber... E depois? A única coisa que me lembro é que Peter cheirava a uísque e era um pouco violento.
Acordei 3 horas depois, com poucas peças de roupa no corpo, suava frio, fedia a álcool e estava deitada em uma cama com dois meninos ao meu lado. Meu corpo todo doía. Minha primeira reação foi chorar, sem saber o por que. Vesti-me e corri, a festa ainda acontecia. Sai pela porta dos fundos para que não me notassem. Ainda estava escuro e muito frio. As ruas desertas eram como um abismo silencioso, eu andava tropeçando em meus próprios pés. A única coisa que eu queria era fugir dali. Eu estava atordoada, bêbada, confusa e com medo, sentia nojo de mim mesma. O ultimo lugar que eu podia ir era pra casa. Meu desespero foi ficando cada vez maior, mesmo assim não parei de caminhar. Na esquina encontrei com um grupo de meninos que riam alto, meu corpo congelou, eu estava sozinha. Mudei de calçada na esperança de passar por despercebida, mas mesmo assim me notaram.
– Hey! – gritaram do outro lado da rua.
Apertei o passo.
– Espere um pouco!
Eles começaram a me seguir, nesse exato momento eu pensei que iria morrer, eles se aproximavam cada vez mais e eu não tinha coordenação o suficiente para correr. Um deles tocou meu ombro, foi quando paralisei.
– Uau! Você é bonita É modelo ou algo do tipo? – seus amigos riam. Ele segurou na minha cintura e me puxou pra perto.
Por favor, deixe-me ir – gaguejei.

Ele ignorou, eu não conseguia olhar pra ele, estava escuro demais pra ver como ele era.
– Linda blusa, se importa se eu rasgar? – ele riu e começou a acariciar meus braços.
Eu já tinha me dado por morta quando ouvi uma voz feminina se aproximando.
– Lindos testículos, se importa se eu rasgá-los? – ela gritou.
– Olivia! Veio se juntar a nossa festinha? – eu ainda estava tensa.
– Larga ela, Jack! – ela pediu autoritária.
– Eu sinto sua falta, sabia? – ele disse com intensidade.
Olivia o empurrou com força.
– Já chega! – segurou firme no meu braço e começou a me arrastar.
– Pensa que é assim, você simplesmente chega e acaba com a nossa diversão, sem mais nem menos?
Ela largou do meu braço e se aproximo dele.
– Se você realmente está precisando, pague alguém Jack. E não estupre a bêbada mais próxima! – ela disse com nojo.
Ele levantou as mãos como alguém que se da por vencido. Olivia se afastou e andou comigo até que estivéssemos longe o suficiente. Chegamos a uma praça e ela fez com que eu me sentasse. Permaneceu em silêncio.
– Porque fez isso? – perguntei confusa.
– Ah! Desculpe! Quer que eu os chame de volta? – ela me olhou de um jeito engraçado.
– Não! Você entendeu o que eu quis dizer...
Ela sorriu.
– Não se preocupe, só estou esperando o momento certo pra te dizer: ‘’ Eu te avisei’’.
– Como você sabia?
– Você não faz o tipo.
Olhei pra ela confusa.
– Do tipo sexo, drogas e rock n’ roll.
– Ah – murmurei.
– Vai passar. Você vai se odiar por mais alguns dias...
Senti certa simpatia por ela.
– Sejam quais forem seus motivos, não é tão ruim quanto parece.
– Não posso voltar pra casa – desabafei.
– Pode ficar em casa – olhei pra ela assustada – Olha, eu sei que mal me conhece, mas é pegar ou largar. Descanse um pouco, até a ressaca passar e então pode voltar pra casa.

Assenti com a cabeça. Ela se levantou.
– Vamos.
– Olivia... Obrigada – dei um sorriso fraco.
– Você não espera um abraço não é mesmo? Por que...
– Não – a interrompi sorrindo.

O sinal tocou me fazendo acordar completamente do devaneio e voltar para a vida real. Corri em direção ao corredor para me encontrar com Olivia.
– Olive! – gritei, sua roupa me chamou atenção – De quem é o moletom?
– Longa história – ela desviou.
Ignorei.
– Vamos, você vai voltar pra casa comigo. Vai ficar até as coisas se acalmarem.

Ela sorriu aliviada.
– Obrigada.
– Eu te devo isso – sorri de volta.
– Realmente – ela riu.

Sam Pov

Dean nunca foi flor que se cheirasse... Não estou dizendo que ele seja uma pessoa ruim, ele só é uma péssima influencia.
Seus antecedentes variam de roubo, drogas, álcool, brigas e milhões de mulheres. Foi a maneira que ele encontrou de ‘’melhor’’ lidar com a perda de mamãe. Eu praticamente não saio do lugar, esse é o meu problema. Dean tem vivido com a inconsistência de sua personalidade, entre seu lado bom e ruim. Pelo menos ele reagiu de alguma maneira, eu não reagi de forma alguma. Alias, ainda estou esperando o momento em que eu vou sucumbir a todos os meus prazeres e pecados, o momento em que eu vou explodir e cansar de ser tão... Controlado. Eu quero perder meu controle, só que ainda não achei um motivo para fazê-lo.
Enquanto isso, meu trabalho tem sido controlar Dean e quando não o consigo, — quase sempre – ajudo-o a limpar a bagunça que causou e voltar inteiro pra casa.

Mas dessa vez... Dean realmente conseguiu me preocupar.
Assim que o sinal tocou corri para o carro para esperá-lo. A manhã passou mais rápida que eu esperava, foi um alivio. Depois de alguns minutos avistei Dean vindo em direção ao carro, com uma expressão serena, quase divertida. Ele entrou no carro e sorriu pra mim.
– Olá Sam.
– Você tem algum transtorno bipolar do qual eu não sei? – perguntei.
Ele continuou sorrindo e não respondeu.
– Passei a noite em claro por sua culpa! Da próxima vez ao menos ligue avisando que ainda está vivo! – não soei tão irritado quanto pretendia. Dean estava bem agora, era o que importava.
– Desculpe. Você tem razão. Deixo um bilhete da próxima vez. – ele disse calmo.
– Que bicho te mordeu? – perguntei atônito. – Se desculpando, sorrindo, dizendo que eu estou certo? O que acontece depois? Vai me dizer o quanto eu sou importante pra você e me abraçar?
– Sim – ele me olhou sério. – Eu te amo Sam.
Encarei-o assustado.
– Dean, você sabe que eu...
Ele começou a gargalhar.
– Ótimo! – revire meus olhos. – Você é doente.
É claro que Dean jamais diria algo desse nível emocional em voz alta. Ele é a pessoa mais fria que eu conheço;
– Eu só estou de bom humor. Pare de analisar e aproveite.
– Como a Olivia está? – perguntei. Ele fechou a cara.
– Não pergunte pra mim.
Lembrei da coisa mais estranha que havia acontecido na sala de aula hoje. A sala toda comentava sobre Olivia e o estado em que ela foi vista no estacionamento. Nas escolas as noticias se espalham rápido demais, mas como todos sabem os professores são completamente alheios as fofocas de colegiais. Entretanto um deles reagiu de uma forma interessante ao assunto do dia, que era Olivia. Talvez Dean soubesse de algo. Pensei muito mesmo antes de perguntar, porque aparentemente quando o assunto era Olivia, Dean não era muito complacente.
Respirei fundo. Lá vai.
– Dean...
Ele ignorou.
– Uma coisa estranha aconteceu comigo hoje. Nosso professor de história, Xavier, veio me perguntar o que tinha acontecido com a Olivia, ele parecia uma pilha de nervos.
Esperei alguma reação. Nada. Continuei.
– Tive a ultima aula com ele. O sinal tocou e ele simplesmente desapareceu da sala de aula. Parecia muito preocupado. Acha que ele é parente dela ou algo parecido?
Dean absorvia a informação. Deu uma risada de escárnio.
– Parente? Duvido muito. Xavier é o professor mais novo que nós temos. – Algo passava pela cabeça de Dean e eu podia apostar que não era nada agradável.
– Eu não sei. Ele pareceu ser o único professor a reagir a noticia.
Dean continuou em silencio.
– Seu bom humor passou. Ótimo. Você me assusta quando está feliz.

– Você já me infernizou o suficiente por hoje Sam. Mais uma palavra, e você vai ter que começar a pegar ônibus para voltar pra casa. – ele não tinha expressão alguma.

Dean, com ciúmes? Essa semana vai ser muito interessante.

Olivia Pov

– Tem certeza de que não vou incomodar? — perguntei pela centésima vez para Allison.
– Pelo amor de Deus! Olive, eu tenho certeza! A maioria das vezes meus pais nem sabem que eu estou em casa.
– Vou ficar por pouco tempo. Eu juro.
Nós duas estávamos indo a direção resgatar meus pertences quando trombamos com professor Xavier.
– Olivia! – ele exclamou – Procurei por você em todos os cantos.
– Oi Charlie – Allison disse sorrindo, insinuante ao chamá-lo pelo primeiro nome.
Revirei meus olhos. Puta. Eu a amo. Mas isso não deixa de ser verdade.
Professor Charles Xavier tem 27 anos. E é incrivelmente e inacreditavelmente sexy. Tem os olhos azuis da cor do céu e a voz mais suave que existe. Qualquer uma perde a concentração perto dele. A vontade que eu tenho é de puxar seu cabelo cor de mel com força enquanto o beijo. Além do fato de ele ser a pessoa mais inteligente que eu conheço – algo que me deixa um pouco intimidada – ele também tem uma personalidade incrível, é a única pessoa que sabe me fazer rir. E não existe uma única garota que não o deseje nessa escola. Me chame de louca, mas ele parece ignorar todas elas, com uma única exceção, eu.
Ele sorriu para Allison e se voltou para mim.
– Tem um minuto?
Olhei pra ele desafiadora. Idiota, é claro que ele sabe o efeito que tem em todas as meninas. Ele pode mexer com os meus hormônios, mas aparentemente eu sou a única que consegue lidar com ele.
– Claro – respondi – Al se importa de pegar minhas coisas e me encontrar lá na frente?
– Claro que não – ela disse com um tom malicioso – Boa sorte – sussurrou no meu ouvido.
Charles percebeu e sorriu – magnificamente.
Ele transmitia uma energia sexual impressionante. Era um magnetismo do qual eu lutava brutalmente para não me deixar ser seduzida.
– Você está bem? – ele perguntou com intensidade.
Olhei diretamente em seus olhos, tentada a não mentir pra ele, mas era o melhor a fazer.
– Eu estou bem.
No ano anterior, em que a escola toda ficou sabendo da minha ‘’perfeita história de família’’, Charles dedicou todo o seu tempo a mim. Nós conversávamos por horas, enquanto todo o resto só queria as fofocas, ele realmente se importava. Ele entendia porque eu odiava essa escola, porque me recusava a ser amiga dessas pessoas e entendia o que era ter seu mundo caindo aos pedaços e não poder fazer nada. E como se não bastasse eu me apaixonei por ele e eu podia jurar que ele também se apaixonou por mim.
A tentação e a frustração de não poder tocá-lo eram horríveis. Mas ele sempre soube como me tirar do inferno que era minha vida – e que ainda é – ele me ensinou a tocar piano, me indicou livros, me fez companhia, brigou com o conselho tutelar e a direção escolar por mim. O conto de fadas perfeito. Até que as férias chegaram. Fiquei três meses sem o ver, depois de um ‘’quase’’ beijo nosso. Hoje era a primeira vez em muito tempo em que nós nos falávamos. Eu que esperava ter esquecido, tudo o que eu sentia por ele voltou com uma força incrível.
Ele era a pessoa mais importante na minha vida, que fez mais por mim do que meus próprios pais.
– Não minta pra mim. – ele retribuiu o olhar – Eu sei quando você não está bem.
– Por onde você andou? – eu finalmente perguntei.
Ele me encarou com uma dor profunda nos olhos. Levantou devagar a mão e passou de leve em meu rosto, depois a fechou em um punho.
– Eu precisava me afastar. Estava ficando perigoso demais.
Eu assenti. Ele tinha razão.
– Mas eu ainda cuidei de você. Mesmo que de longe. Você realmente precisa diminuir a quantidade de álcool que consume.
– Você estava me vigiando? – perguntei querendo soar brava, mas de fato estava lisonjeada.
– Não haja como se isso fosse absurdo. Você é uma bomba relógio. Tenho medo do que possa fazer – ele riu.
– Minha miséria é engraçada pra você? – perguntei irritada.
Ele sorriu pra mim, me desarmando por completo.
– Eu só senti falta do quão imprevisível você é.
Eu não sabia o que responder. Como podia alguém como ele ter tanto interesse em alguém tão problemática e confusa como eu?
Ele olhou para os lados certificando-se de que não havia ninguém ao nosso redor.
– Você sabe que não vai escapar de mim. Vai ter que me contar o que aconteceu. Eu achei que as coisas tinham melhorado.
– Elas tinham melhorado... — pensei em contar que havia fugido e que não pretendia voltar, mas ele provavelmente ofereceria um lugar para eu ficar. Isso não seria bom.
– Olive, você está machucada dessa vez. Não vou deixar que volte pra lá – a preocupação em sua voz me aquecia.
Eu tinha esquecido o quanto ele sabia sobre mim e o quanto era fácil pra ele me ler e saber o que eu estava pensando.
– Eu preciso voltar... Eventualmente. Por favor, me de mais tempo. Eu vou resolver isso.
– Se algo te acontecer, eu não vou me perdoar. Você sabe disso.
– nada vai me acontecer – eu disse sem tanta certeza – Você tem que tirar da cabeça que é responsável por mim.
– Eu me sinto responsável por você Olivia. Mas não faço só por responsabilidade, você e eu sabemos disso.
Ignorei-o.
– Você me salvou – eu sorri – Mas você tem que parar de se envolver, isso só vai te prejudicar.
– E quanto a você?
– Eu não tenho mais nada a perder – sorri de leve.
– Então somos dois. Eu não tenho família e uma merda de emprego, somos perfeitos um pro outro.
– Charles, por favor – pedi.
– Eu não vou desistir de você Olivia. Nada vai te acontecer.
Minha vontade era de abraçá-lo o mais forte que podia. Deixei uma lágrima escorrer.
– Não há nada que você possa fazer por mim agora.
– Me avise quando houver.
Uma onde de emoções percorreu pelo meu corpo, lembrei de tudo que havia me acontecido. Tudo que eu precisava era abraçá-lo e chorar por horas, até adormecer. Eu precisava gritar, dizer o quanto estava com medo. Eu não precisava dizer, ele sabia disso tudo. Mas como seria bom se eu conseguisse de fato dizer algo.
– Eu odeio você – tentei rir, mas as lágrimas escorriam com mais pressa.
Ele riu, me puxou pela mão para dentro de uma sala de aula, agora vazia e escura. Ele olhou pra mim, que ainda lutava para me manter em pé. Inutilmente tentando reconstruir minha muralha que ele tão facilmente derrubava. Chorei por mais alguns minutos, ele se mantinha distante, apenas me olhava.
– Eu não consigo... – sussurrei.
– Você não precisa me contar agora.
– Isso mudaria tudo – olhei pra ele – eu não tenho para onde ir. Eu não posso ir para um orfanato, por favor, não me mande para um orfanato.
– Eu te prometi que jamais faria isso. Olivia confie em mim. Eu preciso de você. Aqui.
Respirei fundo e olhei para cima, estava cegada pelas lágrimas.
Aquela distancia entre nós dois foi quebrada e ele me abraçou. Era exatamente do jeito que eu sonhava que seria. Eu me encaixava perfeitamente a ele. Seu cheiro me acalmou. Ele apoiou minha cabeça em seu ombro.
– Você nunca mais vai voltar pra lá.
Com muita dificuldade, sai do seu abraço. Olhei pra ele assustada.
– Não. Por favor, não faça nada. Eu preciso de mais tempo. Você prometeu – acusei.
– Você tem três dias. Depois disso, vai morar comigo.
– O que? – gritei – Ah, é claro Professor Xavier! Não conseguimos nos controlar na escola, na sua cama vai ser muito mais fácil!
Ele sorriu.
– Céus! Você é irritante! – tentei me acalmar – Você não vai destruir sua vida por mim. Você perdeu a noção Xavier!
– Pare de me chamar assim.
– Mas é isso que você é! Meu professor Xavier! Você já me ajudou o suficiente. Você sabe que eu sei me virar sozinha. Agora é minha vez de tomar conta de você. Não faça besteira. Eu vou ficar bem.
– Eu preciso de você viva. Não se esqueça disso.
– Muita gente precisa – sorri presunçosa.
Abri a porta da sala, antes de sair parei por alguns segundos a centímetros dele.
– Charles...
– Não precisa me agradecer. E é professor Xavier pra você — ele fingiu seriedade.
Eu sorri tristemente.
– Droga! Você podia ser feia! Mas não... Tinha que ser assim – ele disse irônico, apontando pra mim.
– Idiota – retruquei.
– Eu odeio te dizer isso, mas eu até que gosto de você – ele se aproximou e me segurou pela cintura.
Eu estremeci.
– Eu também Xavier. Eu também. – apressei-me em sair dali, deixando um pedaço de mim com ele. Antes que eu cedesse aos meus desejos mais perigosos.


Notas finais
Criticas e sugestões são sempre bem vindas.