In The Dark Beside You
6 Confiança
Notas iniciais
Olivia Pov
Música 1
O caminho todo até em casa meu pai não havia dito uma única palavra, mas apertava meu braço cada vez mais forte. Subimos as escadas e ele abriu a porta de casa com um estrondo. Eu não agüentava mais chorar e pedir para que ele me largasse, minha garganta estava seca e minha voz saia rouca. Minha mãe nos olhou assustada, estava cozinhando tranquilamente antes de chegarmos, vestia um pequeno suéter branco que encaixava perfeitamente eu seu corpo magro. Doeu-me ver como o sofrimento havia lhe dado uma aparência de doente, suas rugas eram bastante notáveis e suas olheiras eram muito escuras. Seus ferimentos da surra que levou semana passada estavam começando a cicatrizar, eu nunca a tinha visto chorar. Não importava o quanto ele a machucava. Eu não sabia se ela não queria dar a ele esta satisfação, se tinha medo de assumir o quão infeliz era ou se não queria mostrar fraqueza diante de suas filhas. Quando ela notou a raiva que borbulhava nos olhos de seu marido, pegou minha irmã Lisa no colo e a levou correndo no quarto, pedindo-a que ficasse ali e tampasse muito bem os ouvidos. Proibindo-a de sair, não importava o que houvesse. Fechou a porta e voltou até nós dois, com nada mais do que medo nos olhos, com medo de que ele me machucasse. Ele largou meu braço me empurrando com força, me segurei no balcão para não cair.
– Você por um acaso sabe por onde ela andou se escondendo? – ele apontou pra mim, gritando com minha mãe.
Minha mãe segurava com força o pano de cozinha em sua mão, suando de nervoso.
– Por favor! – eu gritei – Ela tão pouco sabia onde eu estava! Eu fugi por conta própria!
– Cale a boca! – ralhou ele – Me responda Lilian! Você não se deu nem ao trabalho de procurar por sua filha! Estava ocupada demais com os homens casados do maldito hospital em que trabalha? Acha que alguém lá vai ser idiota o suficiente para te sustentar?
Ela olhou para meu pai com nojo.
– Eu preferia que ela fugisse, para muito longe e nunca mais voltasse. Ela teria uma vida muito melhor longe daqui. Longe de você Demiris! — disse com amargura, tentando ignorar o medo que crescia dentro dela.
Ele riu alto.
– Pobrezinha! – ele disse irônico – Acredito que também não saiba do riquinho que sua filha apanhou na escola, não é mesmo? Dean estou certo? – ele olhou pra mim – Você não passa de uma puta, igualzinha sua mãe.
– Já chega! – ela gritou – Isso é entre nós dois Demiris! Não envolva a Olivia nisso!
– Entre vocês dois? – perguntei transtornada – Vocês têm noção do tamanho do estrago que fizeram nessa família? O estrago que fizeram em mim? – gritei aos prantos – Isso nunca foi entre vocês dois! A partir do momento em que você passou a espancar minha mãe diante de meus olhos... Esquece! A partir do momento em que você começou a encostar sua mão em mim!
Minha mãe aturdida, agora com lágrimas nos olhos, parou diante de Demiris.
– O que você fez com ela? O que você fez com a minha filha? – gritava.
– Exatamente o que ela merecia – ele respondeu com frieza – Infelizmente não tive a chance de terminar. Está vendo isso aqui? – ele apontou para o corte na testa que eu havia feito quando o atingi com o abajur – Ela deve ter aprendido com você – ele deu um sorriso macabro.
– Você é um monstro! Você é louco! – ela tremia – Saia da minha casa! Suma da minha vida!
– Você não acha que é um pouco tarde demais para tomar essa decisão? – ele a segurou firme pelos braços, olhando profundamente em seus olhos. Eu me encontrava imóvel em um canto da cozinha, com as pernas bambas, sentia que iria desmaiar a qualquer segundo. Com um único rugido ele a esbofeteou e a jogou contra o chão. Fechei meus olhos com a maior força que pude, mas já era tarde demais, aquela cena já estava gravada em minha mente pela eternidade. Meu choro não cessava.
– Por favor, pare. – sussurrei.
Ele andava de um lado para o outro, tentando se acalmar.
– Você não sabe nem metade de tudo que eu passei! Você não sabe tudo que eu fiz por você! — ele a chutou, fazendo-a permanecer no chão, gemendo de dor.
Tudo aquilo era demais pra mim, eu não conseguia respirar. Ele a chutou mais uma vez, dessa vez juntei todas as forças que me restavam e empurrei-o pra longe dela.
– Pare! Pelo amor de Deus! Pare!
Ele me olhou com ódio.
– Você fugiu de mim! – ele estava a centímetros do meu rosto.
Foi quando eu parei, para prestar atenção nele, ele não fedia a álcool, não dessa vez.
– Você não está bêbado – sussurrei com lágrimas silenciosas caindo pelo meu rosto.
– E daí? – ele berrou com raiva.
– Isso é quem você é – a dor que eu senti foi insuportável, meus pulmões ardiam – Você realmente é um monstro – disse baixinho.
Com muita força, ele desceu sua mão em meu rosto, deixando a latejar. Doía muito, mas não se comparava a dor que eu sentia de ver que tinha perdido meu pai de vez. O homem que eu amava não existia mais, e dessa vez ele não tinha a bebida para culpar.
– Eu cansei desse drama de vocês duas! Você queria fugir não é? – ele olhou pra mim – Pois então vá, fuja! Mas eu quero avisa — lá, eu não quero que você pise nessa casa nunca mais!
Minha mãe me olhou melancólica, tentando se levantar do chão. Eu não poderia deixa – lá sozinha.
– Mãe...
– Vá Olivia. Por favor, vá.
– Eu não posso.
– Eu já estou condenada – ela deu de ombros – Não é a vida que eu quero pra você.
E o que eu faria com Lisa? Eu não deixaria as duas pessoas que eu mais amava nesse mundo na mão desse homem. Eu não podia deixar. Demiris se virou para mim, ainda não tinha largado meu braço e me deu um tapa mais uma vez. Respirei fundo e quando a dor passou, criei coragem para olhar em seus olhos pela ultima vez.
– Eu vou. Mas você não vai estar vivo para o ver o dia em que eu voltar. Guarde minhas palavras – meu ódio havia superado toda minha dor.
– Mal posso esperar – ele sorriu e me largou com toda força, tropecei em meus próprios pés e bati minhas costas contra a parede, dando um grito de dor.
– A porta está aberta a seus serviços – ele disse suavemente. Suor escorria pelo seu rosto e por um minuto eu percebi que ele gostava disso. Ele sentia prazer em infringir dor.
– Olivia vá! – minha mãe gritou.
Meu corpo todo doía, meus olhos já não tinham lagrimas o suficiente para derramar, meu pulmão parecia estar vazio buscando por ar, minha garganta doía como se eu estivesse engolindo fios e mais fios de arame. As cenas do rosto da minha mãe e do ódio fervente nos olhos de meu pai continuavam a repassar em minha mente, eu não podia controlar. Desci as escadas correndo, ignorando a dor, não sabia para onde ir, não sabia o que iria fazer em seguida, eu só queria desaparecer dali.
Dean Pov
Música 2
Meu desespero foi crescendo gradualmente, eu não sabia se corria para dentro, arrombava a porta e tirava Olivia de lá, ou se esperava até ter absoluta certeza de que algo estava acontecendo. Os gritos eram inconsistentes, às vezes ocorriam, outras vezes predominava um silêncio mortal. Com muito esforço resolvi esperar, se ela não saísse por aquele portão em quinze minutos eu iria atrás dela. Graças aos céus, quinze minutos exatos foi o que a discussão durou, ouvi o barulho do portão do prédio se abrir e Olivia saiu dele, andando as pressas na direção oposta ao carro. Desci do carro e me apressei para chegar até ela. Estávamos em uma esquina, muito mal iluminada, tão vazia quanto o resto do bairro. O frio era cortante, se ela percebeu ou não eu a seguindo, não parou.
– Olivia! – chamei-a.
Claro Dean, agora que ela ouviu sua voz ela vai parar, pensei irônico. Andei mais depressa para alcançá-la.
– Olivia! – a puxei pelo braço.
Ela se virou pra mim, seus olhos estavam encharcados, seu rosto um pouco vermelho e ela parecia transtornada. Agora tudo fazia sentido, agora o quebra-cabeça finalmente tinha se encaixado, agora eu entendia.
– O que? – ela perguntou irritada- O que mais você quer de mim, Dean? Diga agora, porque já não me resta mais nada.
– Você está tremendo. Está frio, vamos, entre no carro comigo.
Ela soltou uma risada.
– O que? – ela perguntou desacreditando – Deixe –me ver se eu entendi... Você está oferecendo ajuda a puta que só quer chamar atenção? – ela perguntou sarcástica.
Revirei meus olhos.
– Olivia...
– Não! – ela me interrompeu – Eu não te entendo Dean! Por um acaso eu pareço com uma pessoa que está em estado de lidar com um adolescente patético e mimado que acha que as coisas acontecem quando ele quer? Já chega Dean! Me esquece! Me deixa em paz! – ela parecia terrivelmente cansada e minha presença com certeza a irritava muito. Voltou a andar para a direção oposta. Eu não iria desistir.
– Eu não vim tão longe por nada! – gritei.
Ela parou e voltou duas vezes mais indignada.
– Ah é! Então pra que você veio? Han? Mais algum comentário venenoso que deseja fazer? Além de puta eu sou o que? O que mais Dean? – ela insistia.
– Eu entendo – sussurrei.
– O que?
– Agora eu entendo – repeti – Olivia, sua vida é tão complicada quanto a minha. Eu entendo.
Ela deu uma gargalhada sarcástica.
– Tenho certeza. Deve ser tão difícil ter tanto dinheiro! Como você lida com isso todos os dias? Aposto que você mal dorme a noite!
Senti uma súbita raiva por ela.
– Eu te julguei! – gritei – Quando não sabia nada de você, nada da sua história! E eu retiro o que eu disse! Mas você não me conhece – eu disse com fervor – Você não sabe nada da minha vida. Então peço que não faça o mesmo.
Ela pareceu abatida, permaneceu em silêncio por alguns segundos.
– Eu não tenho tempo pra isso... – ela sussurrou – Eu tenho que ir.
– Pra onde? Pelo o que eu saiba você não tem pra onde ir. – eu disse calmamente.
– Você está vendo? Está vendo o que você faz? Você simplesmente chega aqui e se intromete em toda a minha vida! Como se eu não tivesse problemas o suficiente pra lidar. Nada disso é da sua conta. Quem você pensa que você é? – ela me empurrou.
Me assustei com sua reação, eu jamais poderia revidar. Permaneci ali, parado olhando pra ela.
– Quem você pensa que é? – ela repetiu e me empurrou mais uma vez. Ela era forte.
– Olivia, por favor...
– Eu odeio você! Odeio! – agora ela metia tapas conta meu peito repetidamente, mas ela estava cansada demais para fazer com que eles realmente doessem. Ela continuava e era inútil, percebi que agora ela chorava.
– Olivia! – a segurei firmemente pelos braços, tentando controla — lá. Ela me olhou com a respiração acelerada parando exatamente onde estava, a centímetros de mim, foi quando desabou em meus braços. Abracei-a. Agora ela chorava descontroladamente.
– Shh – tentei acalma – lá – Vai ficar tudo bem.
Ela permaneceu em silencio por alguns segundos, me abraçando com o pouco de força que tinha. Aquilo era terrivelmente agradável e perigoso.
– Não vai ficar tudo bem – ela soluçava.
– Olha, temos uma puta pessimista aqui – brinquei.
Ela se afastou do meu abraço.
– Você é... Impossível.
Notei que havia dito besteira.
– Não. Espere... Eu, eu não sou bom com coisas assim. – pela primeira vez senti palavras sinceras saírem de minha boca. Eu só queria que ela ficasse — Geralmente quando fico constrangido com alguma situação eu acabo falando algo estúpido. E eu também sou péssimo em pedir desculpas. – me senti meio sem jeito, procurando palavras para explicar.
Ela me estudou com os olhos.
– Eu só... – eu ri pela primeira vez me sentindo nervoso por não saber como continuar uma frase – Eu disse que não sou bom com isso. – Eu só acho que posso ajudar – dei de ombros.
– Conte-me tudo – ela disse – Sem mentiras. E eu vou decidir se você pode ou não me ajudar.
– A minha história em troca da sua? – perguntei.
– Nada mais justo – ela disse, parecendo mais calma.
– Eu não sei...
Eu nunca tinha contado nada da minha vida para ninguém. E tinha um motivo, contar seria como reviver. Eu não queria reviver. Eu não era capaz de compartilhar todos os meus erros e minha vida com alguém sem me sentir fraco e humilhado. Meu orgulho era a única coisa que tomava conta de mim, a única coisa que eu tinha.
– Tudo bem. Então você não pode ajudar.
– Espere! – respirei fundo – Eu posso tentar.
– Você não confia em mim – ela me olhou de um jeito engraçado.
– Você também não confia em mim – retruquei.
– Eu não confio em ninguém – ela murmurou.
– Então vamos nos dar muito bem – sorri.
Allison Pov
Depois de horas dando voltas com o carro igual uma barata tonta, sem saber o que fazer a respeito de Olivia, resolvi parar em um dos meus pontos favoritos da cidade. Eu precisava me acalmar para pensar com clareza. Ouvia Olivia dizer em minha cabeça: Nunca faça nada sem me consultar antes, especialmente quando se tratar de minha família. E ela tinha razão, todas as decisões que tomei por conta própria até agora foram péssimas decisões. Eu não consigo ser racional, meus impulsos vão além do que se pode entender. De qualquer maneira, minha ansiedade não resolveria a situação.
Desliguei o carro, eu estava a alguns minutos de minha casa, não precisaria me preocupar com o horário. Sem abaixar o vidro contemplei a paisagem ao meu redor. Era um dos mais bonitos parques da cidade. Tinha uma incrível decoração botânica, com uma gigantesca fonte ao centro e milhares de bancos isolados entre as árvores. Um lugar extremamente romântico. Lembro de ter dado meu primeiro beijo nesse lugar, a época em que minha inocência ainda ocupava grande parte de mim e tudo que eu queria era encontrar meu príncipe encantado.
Flashback
Seu nome era Drake, ele era delicado, tão tímido quanto eu, mas de fato o garoto mais bonito de minha sala.
Nós tínhamos 11 anos. Lembro da pressão que sofríamos de nossos amigos, queriam tanto que algo acontecesse entre nós dois. Nunca entendi a empolgação alheia.
Andamos até chegar à fonte, era o lugar mais calmo e isolado. A iluminação era fraca, o silêncio extremamente constrangedor deixava com que o canto dos grilos ficasse mais alto. Era uma noite quente e o céu estava tão estrelado, que pude me imaginar em uma cena de filme.
Meu coração batia aceleradamente forte, eu tinha medo que ele pudesse ouvir. Seus olhos castanhos escuros eu evitava a todo custo, receava que se eu olhasse para eles perderia a habilidade de respirar.
– Então... – disse ele – Tem certeza de que quer fazer isso?
Apenas assenti com a cabeça. Sentia minha garganta seca demais para falar. Ele se aproximou devagar, eu estava cada vez mais assustada, fechei meus olhos com força.
Ele pressionou os lábios contra os meus, eles eram quentes e macios. Eu jurava que desmaiaria ali mesmo. Durou apenas alguns segundos, ele se afastou, sorriu para mim da maneira mais doce do mundo, disse boa noite e partiu. Deixou-me ali, completamente imóvel e estática por causa do beijo.
Depois desse dia nunca mais nos falamos. Nunca entendi o por que. De certa forma, sempre me culpei por não ter tido coragem de confrontá-lo. Eu sinto falta da época em que um único beijo era motivo para um turbilhão de emoções e toda aquela infantil insegurança. Ninguém nunca mais me fez sentir daquela maneira. A partir daquele dia, minha idéia de contos de fada foi destruída.
Lembrei-me de Sam. Isso era ridículo, eu não devia estar tão chateada com algo tão insignificante. Levei um fora, qual era o problema? Isso não é a terceira série. E ainda sim eu me sentia emocionalmente frustrada, da mesma maneira que me senti quando apareci no dia seguinte na escola e Drake nem sequer olhou pra mim.
Dei um grito de raiva e apoiei minha cabeça – que latejava de tantas preocupações – no volante. Pulei do banco de meu carro quando, subitamente, batiam contra o vidro. Era Sam, acenando para que eu destravasse a porta.
Ótimo. Existe tão pouco que uma única pessoa consegue agüentar...
Ele entrou sorrindo e fechou a porta.
– O que está fazendo dentro do carro? Por que não desce?
– Como achou esse lugar? – retruquei na defensiva.
– Elizabeth me trouxe. Ela está sendo ótima, me mostrando a cidade toda. Ainda não conheço nada por aqui.
Isso era proposital! Só podiam estar de brincadeira comigo. Eu realmente precisava ouvir tudo isso? Como sempre, meu ímpeto de falar sem pensar foi maior.
– Por que está aqui? Veio se gabar e me dizer que ainda não tenho companhia para a festa? – perguntei ácida.
Seu sorriso divertido desvaneceu.
– Você disse que isso não seria um problema. Disse que iríamos juntos da próxima vez – ele disse com inocência.
– Cínico – murmurei.
– O que?
– CI-NI-CO – repeti em alto e bom tom.
– Eu não estou te entendendo Allison.
– Por favor – bufei – Elizabeth está te usando. E você sabe disso.
Ele riu.
– Então eu espero que ela continue – seu tom era de malicia.
Revirei meus olhos.
– Saia do meu carro.
– Quem está sendo patética agora?
– Saia! – eu já não conseguia controlar minha irritação.
– Está bem – deu-se por vencido – Espero te ver na festa. Com ou sem acompanhante – ele disse provocativo.
– Vai à merda! – bati a porta do carro com força.
Era obvio que Elizabeth estava querendo me dar o troco. O mais impressionante era Sam ter concordado em participar. De fato as aparências enganam. O que na minha cabeça já foi um conto de fadas, agora não passava de uma comédia de muito mau gosto. Onde o príncipe foge com a princesa errada e a princesa que foi abandonada – por amargura – apela para a companhia de seu ex-namorado, pois é ótima em dar o troco e jamais aceitaria esse tipo de humilhação.
Olivia Pov
Entramos no carro, ainda estávamos em frente de casa, mas não seria um problema, já que eu não esperava que alguém saísse de lá tão cedo. Senti um calafrio. Eu não queria nem imaginar o que se passava lá dentro.
O carro era um hyundai preto, muito sofisticado. Com bancos de couro extremamente confortáveis. No painel existiam milhões de botões dos quais eu não fazia idéia para que serviam. Com a péssima situação financeira de minha família, nunca entrei em um carro como esse e jamais pensei que um dia teria a oportunidade.
Dean me olhava curioso.
– O que houve? – perguntou com vestígios de um sorriso.
– Nada – murmurei – Eu só não sabia da quantia de dinheiro que você tinha. Agora eu posso ter uma idéia – continuei a encarar o painel.
Ele riu suavemente.
– Nada disso me pertence. É tudo do meu pai.
Era estranho o quanto sua presença conseguia me acalmar. Era como se não existisse mais nada no mundo. Estar dentro desse carro com ele era o mesmo que estar em uma segunda dimensão. Toda aquela angustia e desespero aos poucos tinham um peso menor. No rádio uma música um tanto quanto romântica começou a tocar. Ele abaixou o volume constrangido, mas ainda sim existia um fundo sonoro agradável.
Musica 3
– Seu pai, hãn? – perguntei.
Ele balançou a cabeça.
– A razão de todos os meus problemas.
– E a solução pra muitos deles – eu disse, ele fez uma careta – Afinal de contas, olhe para isso –passei a mão dele leve no painel do carro.
Ele riu.
– Nunca achei que me divertiria tanto com o seu fascínio por um monte de lata – seu sorriso permanecia sereno.
Ele evitava falar sobre seu pai. Tentei outra abertura.
– Como é sua relação com Sam? Vocês parecem próximos.
– É... – ele parou para pensar. O silencio durou alguns segundos.
– Por Deus, Dean! Você tem que me dar algo aqui! Fizemos um trato! – eu disse irritada – Ou você me diz algo relevante ou eu saio desse carro.
Ele revirou os olhos.
– Porque isso é tão importante?
– Porque é! Dean eu preciso saber em que nível de compreensão você se encontra. Eu preciso saber se eu posso... Confiar em você – eu disse com dificuldade.
– Você não confia em ninguém – ele retrucou.
Respirei fundo.
– Caso contrário você vai ser mais um curioso querendo saber da minha vida! Não quero ser a única vulnerável aqui! Não é justo! Devemos ter a mesma quantia de informação um do outro para eu ter certeza de que...
– Eu não vá usá-las contra você – ele completou.
– Exatamente.
De uma forma estranha éramos parecidos.
– Você realmente tem problemas de confiança – murmurou.
Ergui uma sobrancelha.
– E você não? – perguntei irônica.
– Está bem – ele disse. Senti uma leve excitação. De uma hora pra outra ele havia se tornado algo intrigante demais para eu desistir de receber informações.
– Eu... Odeio meu pai. Ele é frio, insensível e tem uma preferência sinistra por mim. Ele diz certas coisas a Sam – ele parou para conter a raiva – Coisas das quais não existem necessidade de ele ouvir. Ele é muito ocupado. Daria sua vida por aquela maldita empresa, mas não tem o mesmo fervor e paixão pelos próprios filhos. Dinheiro é tudo para ele. Eu o desprezo. Desprezo pelo fato de ele ter coragem de passar por cima de qualquer um para conseguir o que quer. Sem arrependimentos. Às vezes não acredito que ele tenha uma consciência. – tomou o fôlego e olhou pra mim. Parecia aliviado.
Sua voz fervia em raiva e ressentimento ao falar de seu pai, era como ouvir duas nações inimigas... Não. Era como me ouvir falar de meu pai. Senti uma súbita simpatia por Dean.
– Ele parece adorável – sorri, querendo deixá-lo menos tenso.
– Nada comparado ao seu – ele me olhou com compaixão, querendo que eu cumprisse minha parte do trato.
– Minha história de família é um eterno clichê – dei de ombros – Meu pai começou a beber quando perdeu o emprego. Minha mãe passou a nos sustentar. Cada dia que passava e cada entrevista de emprego em que ele era recusado chegava a um estado pior em casa. Um dia meus pais tiveram uma discussão. Lembro como se fosse ontem. Minha mãe o culpava pela falta de comida na mesa e por ele ter sido visto com outras mulheres aquele final de semana. Foi quando ele a bateu pela primeira vez – estremeci – Eu tinha quatorze anos. Eu estava muito desesperada para tentar pará-lo e com medo demais para buscar ajuda. Eu simplesmente sentei ali e esperei ele parar, aos prantos e em silêncio. Amanheci ao lado do corpo inconsciente de minha mãe. No dia seguinte ela simplesmente acordou e fingiu que nada tinha acontecido. E ela continuou a agir dessa maneira, por quatro anos – tentei manter minha voz estável.
Dean olhou dentro de meus olhos de maneira intensa.
– Eu não fazia idéia...
Eu odiava compaixão vinda de qualquer outra pessoa, fazia com que eu me sentisse fraca, mas não com ele. Ele era puro arrependimento. Me olhava com outros olhos. Eu senti um pouco de satisfação.
– E sua mãe? – perguntei.
Ele desviou o olhar.
– Ela – gaguejou – Ela não mora com a gente.
– Entendo.
O silêncio se prolongou por alguns segundos.
– Olive... – o ouvir dizer meu nome com tanta suavidade me arrepiou – Eu sinto muito. – eu me alimentava da sinceridade no fervor de suas palavras.
– Era tudo que eu precisava ouvir – sorri – Obrigada.
Ele sorriu de volta, seus olhos verdes em mim aqueciam toda minha alma. Por alguns minutos lutei bravamente para não abaixar minha guarda. Eu não podia sentir nada por ele. Eu não deveria sentir nada do que sentia ao ouvir o som de sua voz, ao ter seus olhos em mim. Tinha medo de que se eu o tocasse, pudesse morrer.
Dean Pov
Era absurdo a maneira como sua presença me deixava estático e sereno ao mesmo tempo. Cada movimento, cada palavra era imprevisível. Eu não conseguia tirar meus olhos dela. Tinha algo de viciante em seu jeito, sua respiração, a maneira que mexia em seu cabelo de ondas leves. O sorriso, extremamente sedutor que existia mesmo sem sua intenção de me provocar, seu corpo maduro e seus mistérios levavam qualquer homem a loucura. A ironia e a inteligência de suas respostas faziam com que ela parecesse uma criança birrenta as vezes, mas tinha muita maturidade e sofrimento nos olhos. Ela é uma sobrevivente. Como eu, como muitas outras pessoas, que já receberam da vida mais do que foram programados para agüentar. Sem deixar de mencionar o mais importante: ela é extremamente e inacreditavelmente linda. Mesmo no escuro, seus traços nunca foram tão perfeitos.
Ela fitou-me de maneira engraçada.
– O que você está olhando?
Percebi que a olhava fixamente.
– Nada – soltei uma risada nervosa – Você só parece diferente.
– Eu me sinto... Diferente. Um pouco mais leve talvez.
Era exatamente assim, um pequeno alivio, que eu não sentia há anos. Passamos por alguns segundos de um silencio confortável e o que eu juro que poderia chamar de uma leve tensão sexual. O celular de Olivia começou a tocar fazendo com que nós dois pulássemos de susto.
– Meu Deus! É Allison. Eu me esqueci de ligar pra ela. Ela tinha mandado umas mil mensagens – ela suspirou – Ela vai querer me matar.
– Me dê isso aqui – pedi e atendi o celular – Cena do crime. Ligou para pagar o resgate? – perguntei tentando manter a seriedade.
– Olive? Olive? – ela gritava histérica do outro lado da linha – Por favor! Me deixe falar com ela.
– Allison, assim você estraga a brincadeira.
– Dean?
– Quem mais poderia ser?
– O que você fez com ela?Eu juro que se algo aconteceu com ela e você for o culpado por isso, eu irei te caçar até o fim da sua vida e triturar cada parte do seu corpo! Agora, por favor, passe pra ela! – ela gritava.
– Sua amiga é um pouco descontrolada – murmurei para Olivia, ela riu.
– Sinto muito Allison. Ela não pode atender no momento. Quer deixar um recado?
– Dean! Não me faça ter mais raiva de você do que eu já tenho! Traga Olivia agora para minha casa, um minuto a mais e eu ligo pra policia.
– Preciso de mais de um minuto.
– Por favor, só me diga se ela está bem. – ela pediu cansada.
– Ela está bem. Está aqui do meu lado, viva e inteira, e eu vou leva — lá daqui dez minutos no máximo.
– Obrigada.
Desliguei o telefone.
– Ela está pirando, não é? – Olivia perguntou.
– Completamente louca – afirmei.
Ela riu e como se não bastassem as surpresas de hoje, algo começou a bater na porta do carro, mas nada podia se ver pela janela. Olhei assustado para Olivia. Ela respirou fundo e sem sair do banco abriu a porta do carro. De repente, a coisa mais linda que eu já vi em toda minha vida, em forma de miniatura, estava parada a nossa frente. Devia ter quatro anos, seus cabelos eram de um mel claro, igual os de Olivia, só que eram extremamente lisos. Tinha olhos grandes e castanhos e um sorriso imenso por ver a irmã.
– Lisa! – Olivia a pegou no colo e fechou a porta – O que você veio fazer aqui?
– Não brigue comigo. Eu estava te procurando – ela disse chorosa.
– Você sabe que não pode sair por ai sozinha a noite Lis! Você me prometeu que não faria isso – A maneira com que Olivia a segurava e a repreendia me fez sorrir involuntariamente.
– Eu sei disso Olive. Eu cumpro minhas promessas. Mas eu precisava te ver.
Ela soava exatamente como a irmã.
– Onde estão eles? – Olivia perguntou tensa.
– Papai não está mais em casa e mamãe não voltou para me tirar do quarto. Achei que não teria problema se eu saísse, já que eu não ouvi a voz de mais ninguém. – finalmente ela tirou os olhos de Olivia e me fitou curiosa, e subitamente abriu o maior sorriso.
– Oi, eu sou a Lisa.
– Meu nome é Dean – respondi rindo. Ela era uma cópia perfeita de Olivia.
– Dean, você namora minha irmã?
– Lisa! – Olivia a repreendeu.
– Tudo bem – eu geralmente me sentia sem jeito perto de crianças, não sei lidar com elas. Mas aquela criaturinha era tão hilária e por falar igual a um adulto, acabou me confundindo. – Não Lisa, eu sou um colega de classe da sua irmã.
Lisa olhou de volta para Olivia.
– Ou seja, namorado.
– Ele não é meu... Quer saber? Volte lá pra cima, você tem aula amanhã. Mamãe sai pra trabalhar logo cedo e você já devia estar na cama.
– Você é quem me coloca na cama todos os dias – ela deu de ombros.
Não precisou de mais nada, Olivia tinha lágrimas nos olhos.
– Você está crescendo agora Lis – ela tentou controlar a voz – Precisa aprender a se cuidar sozinha.
– É verdade que você vai embora? – ela perguntou baixinho.
– Eu nunca iria embora daqui sem você – ela disse.
Lisa sorriu imensamente.
– Eu vou dormir na casa de uma amiga esse final de semana. Prometo que Domingo, assim que acordar, eu venho te ver.
– Promete? – ela fez um bico.
– Eu prometo. Agora volte pra casa, anda.
Ela pulou na irmã, com seus braços pequenos e a abraçou forte.
– Eu te amo Olive.
– Eu também te amo pequena.
Lisa desceu do carro e subiu correndo as escadas que dava para seu apartamento. Olivia apoiou a cabeça entre os joelhos e suspirou. Eu não sabia o que dizer, eu queria confortá-la de alguma maneira. Sua situação de uma hora pra outra tinha ficado cem vezes mais complicada. O amor dela por aquela menina estava escrito em seus olhos, o cuidado com que ela a segurou, o carinho com que a olhava e a dor que deve ter sentido ao deixá- la ir embora.
– Você deve estar exausta. Vou te levar até Allison.
Ela olhou pra cima e enxugou o rosto.
– Você já fez demais por mim hoje Dean.
– Eu insisto.
Ela assentiu com a cabeça, ainda estava incapacitada de falar. A viagem não era demorada, chegamos em alguns minutos. Era um dos melhores bairros da cidade, a casa por fora parecia uma casa de boneca, com grades brancas, paredes rosa e um imenso jardim. Descemos do carro e a deixei na porta, querendo desesperadamente abraçá-la de alguma forma, dizer algo para ela se sentir melhor. Seu desespero era quase palpável. Paramos na varanda, antes da entrada da casa, a noite esfriara mais, a única iluminação que existia era da própria lua. Ela se virou para mim a fim de se despedir.
– Dean...
– Não diga nada – a interrompi – Você já teve o suficiente de cargas emocionais por hoje.
Ela deu um sorriso fraco.
– Obrigada – ela sussurrou.
– Lisa vai ficar bem. Algo me diz que se ela tiver o gênio da Irmã, não existe nada que ela não possa enfrentar – sorri.
Olivia riu aliviada. De alguma maneira, senti que disse exatamente o que ela precisava ouvir.
– Você vai ficar bem – olhei em seus olhos e dei-lhe um beijo de leve na testa.
Não sabia se tinha a liberdade para fazê-lo, mas simplesmente o fiz. Nós éramos tão parecidos, orgulhosos demais para realmente dizermos em voz alta que precisamos de ajuda, mas ela precisava. Aos meus olhos, tudo que ela precisava era de algo para se manter em pé, ela estava prestes a desmoronar, e eu estaria aqui por ela. Porque eu sei como é achar que ninguém se importa. Eu sei como é me sentir sozinho e sufocado em meus próprios pensamentos. Involuntariamente, sem eu poder controlar, nada na minha vida era o mesmo. Em apenas algumas horas ela virou o centro de todo o meu universo.
Allison Pov
Abri a porta da frente de casa, na esperança de que as vozes que eu ouvia vindas da varanda fossem de Dean e Olive.
E eu estava certa, olhei para Olive com o maior alivio que eu ja senti na vida, ela estava inteira, ou pelo menos, com ferimentos menores do que a última vez.
– Graças a Deus! — sorri aliviada e abracei-a.
– Deus? — Dean perguntou sarcástico — Fui eu quem a trouxe aqui.
Ignorei-o.
Olivia parecia cansa demais para participar da conversa.
– Porque você não entra? — alcancei seu olhar perdido, ela estava um tanto quanto aérea — Tome um banho e vá dormir — acariciei seu braço.
Ela assentiu e subiu as escadas.
– Te vejo amanhã — Dean gritou da porta.
Ela acenou sem se virar.
Encostei a porta e sai na varanda, para ter certeza de que não poderíamos ser ouvidos. Eu tenho um trato sério comigo mesma de que nunca mais roubaria namorados de amigas minhas. Dean e Olive não namoravam, mas de fato ele se encontrava em um alto nível de obsessão para com ela e ainda sim, não posso deixar de admitir, que da mesma forma que o irmão, ele era de tirar o fôlego.
– Dean... — comecei.
– Oh, oh! Você está usando o tom sério de melhor amiga super protetora. O que acha que fiz com ela dessa vez? — revirou os olhos.
– Essa é a questão Dean! Eu não sei o que você pretende conseguir com isso tudo. Esses seus atos heróicos não vão durar pra sempre.
Ele respirou fundo.
– Você não gosta de mim. Tudo bem. Já entendi o recado.
– Não, Dean! Eu só gosto demais de Olivia para permitir que você seja mais um problema na vida dela.
– E se eu não for o problema? E se eu for a solução?
– Dean, me poupe! Isso não é um romance de Nicholas Sparks!
Ele riu.
– Estou falando sério! Eu não quero você brincando com ela. Se você está nisso por mera curiosidade, caia fora.
– Agradeço o conselho.
– Isso não foi um conselho. Foi uma ameaça — tentei parecer incisiva.
– Não soou como uma ameaça...
– Mas foi uma ameaça! — interrompi-o irritada.
Ele riu.
– Sim, senhora! — ele fingiu bater continência.
– Agora suma daqui antes que meus pais cheguem — pedi — E Dean...
– O que foi? — ele perguntou sem paciência.
– Obrigada.
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.
– Cuide dela.
– Cuidarei.
Respirei fundo e entrei em casa. As luzes todas apagadas, o silêncio perturbador preenchia a sala gigantesca. Meus pais não estariam aqui por mais uma semana. Ótimo. Mais um cartão de crédito que eu terei o direito de estourar.
Olive desceu as escadas, parecia melhor.
– Peguei um dos seus pijamas, espero que não se importe.
Sorri pra ela.
– Por favor, não me dê esse olhar patético de pena. Eu não suporto isso.
– Tudo bem. Me desculpe — tentei mudar o assunto — Então! — eu fingi animação — Temos uma festa para comparecer amanhã!
– Allison, eu estou oficialmente sem teto e sem nenhum centavo no bolso. Acha que tenho condições pra isso?
Tentei não parecer tão chocada com suas palavras e ignorei os fatos. Eu sabia como ela odiava conselhos clichês. No caso dela, não existiam conselhos suficientes que fizessem algo melhorar.
– Eu não ligo! Amanhã você será meu projeto! Você pode usar um dos meus vestidos, vai beber, dançar e se divertir. Esquecer tudo isso! Por um único dia. Por mim — pedi esperançosa.
Ela suspirou.
– Está bem.
– Isso! — gritei de alegria — Temos que nos arrumar cedo, porque o Josh passa nos pegar as oito.
– Josh? — ela perguntou com desprezo — Josh? O mesmo Josh que te chifrou ano passado em uma mega orgia? Esse Josh?
– Você realmente precisa enfatizar toda a história? — perguntei irritada.
– E ele continua sendo o mesmo Josh que dormia com a Amber toda vez que você saia da cidade! — ela me lançou um olhar desaprovador.
– Eu sei! Eu sei disso tudo! Eu só... E precisava de um par.
– Por favor, não me diga que está fazendo isso pelo Sam?
Dei de ombros.
– Talvez — murmurei.
– Você é patética.
– Ei! — gritei magoada.
– Mas você é! Não tem orgulho algum? Eles estão conseguindo fazer sua cabeça de novo Allison! Você me disse que não queria ser igual a todos eles.
– E eu ainda não quero. Eu quero vingança Olive.
– Não é uma coisa que você vai conseguir com o Josh, porque ele deveria ser o primeiro da sua lista.
– Eu não ligo Olive. Eu não sei o que estou fazendo, mas...
– Você acha? — ela disse irônica.
– Mas! — repeti — Eu não vou continuar a ser ignorada. Esse mundo era meu. Essas pessoas eram minhas amigas! Aquela loira maldita destruiu tudo que eu tinha!
Olivia deu uma gargalhada.
– Cabeças vão rolar pelo pátio da escola — disse num tom macabro.
Mesmo sendo brincadeira, senti um arrepio. O que Olivia havia dito não deixava de ser verdade. Eu estava praticamente declarando guerra por ir acompanhada pelo menino mais filho da puta do universo. Que ja desvirginou todas as meninas da cidade e que faz questão de lembrar ao mundo que conseguiu manter um relacionamento comigo e Amber ao mesmo tempo, por um ano.
Eu sei do que eles são capazes, essa legião de ''seguidores'' da Amber. Essa panelinha de adolescentes insuportáveis com pais muito bem sucedidos, que acreditam que podem fazer qualquer coisa. Bem, eles podem. Cabeças iriam rolar, eu só esperava que não fosse a minha.
24 horas depois
Sam Pov
Acordei incrivelmente animado, com aquela ansiedade deliciosa, tentando ocupar todas as horas do meu dia até o horário da festa, caso contrário iria enlouquecer. Faltavam 3 horas para a festa, eu iria sobreviver. Fiz uma lista mentalmente das coisas que ainda faltavam. Roupa, perfume, banho tomado, carona... Pra isso eu precisava da Dean. Droga!
Fui até ele, estava sentado na cama, com um livro na mão. Dean, desde pequeno costumava devorar livros, quatro livros por semana era seu recorde. Desde que nossa mãe morreu ele nunca mais havia segurado um livro nas mãos. Ele parecia calmo e até alegre. Parei para analisá-lo. Devagar ele desviou os olhos do livro e olhou para mim.
– O que foi?
– O que é tudo isso? – perguntei confuso.
– Tudo isso o que?
– Você, lendo.
– Isso... Sou eu lendo – ele riu.
– Uau! Você realmente está de bom humor.
– Acontece em alguns raros dias do ano – ele disse sereno e voltou para o livro.
Permaneci em silêncio, de pé, olhando pra ele, pensando em uma maneira de pedir que ele desse carona a mim e Elizabeth. Minha respiração era o som mais alto no cômodo.
Mais uma vez, ele voltou a olhar pra mim.
– Posso ajudar? – ele ergueu uma sobrancelha.
Sentei nos pés da cama.
– Eu queria saber que hora você planeja levar Amber até a escola hoje, pensei em aproveitar sua carona e pedir que você passasse pegar Lizzie também.
– Lizzie?
– Sim, Elizabeth.
– Meu Deus! Amber – ele me olhou assustado.
– Sim, Dean. Amber. A menina que você convidou para te acompanhar hoje à noite. E Elizabeth, a menina que me convidou pra dançar com ela hoje à noite. Não é à toa o seu bom humor. Você bateu a cabeça em algum lugar?
– Não. É que eu esqueci completamente que havia convidado a Amber – ele parecia preocupado.
– Falando nisso, por onde andou ontem? Não cheguei a ver você chegar em casa.
Ele fechou o livro e sentou na cama.
– O que eu faço? – ele perguntou desesperado.
– Faz o que?
– Com a Amber!
– O que tem a Amber?
– Adoro nossas conversas – ele sorriu irônico.
– Dean o que está acontecendo?
Ele suspirou.
– Eu meio que... Convidei a Olivia pra ir comigo.
– A Olivia? – perguntei sem acreditar.
– A Olivia – ele repetiu.
– Ao mesmo tempo em que a...
– Ao mesmo tempo em que a...
– E você não avisou a outra...
– Não avisei a outra.
– E agora as duas acham...
– As duas acham.
– Meu Deus! Da pra parar? – gritei — E o que você vai fazer?
Ele me olhou sem paciência.
– Se eu soubesse eu não teria acabado de te perguntar!
– É simples. Com quem você realmente quer ir?
– Eu acho que com a Olivia.
– Você acha? – perguntei cínico.
– Eu acho.
– Não comece de novo! – repreendi-o – Então tudo que você tem que fazer é ligar para Amber e dizer que trocou de par.
– Eu não consigo fazer isso! Sou péssimo com essas coisas. Você faz por mim – ele me jogou o celular.
– Eu não vou dar o fora nela por você! Foi você quem a convidou!
– Sam! Ela me assusta.
Eu soltei uma gargalhada. Fazia tanto tempo em que eu não mantinha uma conversa com Dean dessa maneira. Costumávamos passar o dia todo juntos, desde pequenos. Nós riamos, brincávamos, brigávamos, sempre fomos a dupla dinâmica mais perfeita que existia. Eu só não fazia idéia do quanto senti falta disso.
– Então vá à festa e quem você encontrar primeiro lá vai ser seu par. Deixe pro destino resolver isso pra você.
– Isso é errado!
– E ter convidado duas meninas ao mesmo tempo não é? – perguntei transtornado.
– Eu quero ir com a Olivia.
– Então ligue para a Amber! – joguei o celular para ele.
Ele respirou fundo e discou o número.
– Caixa postal – ele jogou o celular de volta para mim como se fosse uma bomba atômica – E agora?
– Você simplesmente vai ter que avisa — lá quando chegar lá.
– Com certeza! Oi Amber, eu sei que você veio aqui pensando que eu iria te fazer companhia, devido ao fato de eu ter te convidado três dias atrás. Adivinha só, a festa é agora nesse exato momento e eu acho que não estou mais a fim de ser seu par. Divirta-se – ele disse sarcástico.
– Está ótimo. Tenho certeza que ela vai entender.
Ele sufocou um grito no travesseiro.
– O problema não é ela entender. O problema é Olivia não entender. Amber vai fazer questão de contar para ela que eu a convidei. Nós vamos ter que chegar lá antes de todo mundo.
– Você é um desastre Dean.
– Você vai ter que me ajudar. Custe o que custar! – ele ameaçou.
– Está bem – revirei os olhos – Mas se algo der errado, eu não me responsabilizo.
Ele assentiu com a cabeça. Sorri pra ele.
– O que foi?
– Senti sua falta irmão.
– Vai se foder – ele deitou e abriu o livro de novo.
Eu ri.
– Estou certo em me preocupar com as catástrofes que podem ocorrer hoje à noite? – perguntei.
– Certíssimo.
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