In Love Again
6 CHARLIE (PARTE I)
Notas iniciais
- Para, para, para! — Eu gritei quando ví o Damon espancando a massa do risole com o rolo de massa.
— O que foi? — perguntou sem compreender
— O que. Você. Está. Fazendo?
— Com esse rolo compressor? — ele o levantou e ficou sacudindo-o no ar
— Não é rolo compressor, é rolo de massa. — eu disse
— Tanto faz. — ele voltou a espancar a coitada massa de risole, então tomei o "rolo compressor" da mão dele e fiquei encarando-o:
— WTF? É para esticar a massa, não pra mandar ela pro hospital! E desse jeito você vai acabar quebrando a mesa também!
— Meu Deus! — ele disse esbugalhando os olhos como se houvesse um fantasma atrás de mim, mas como seu foco era eu e não algo atrás de mim, então comecei a me olhar procurando alguma aranha ou escorpião subindo pela minha blusa.
— O que é? — gritei assustada
— A Bella falou um palavrão. — sussurrou com désdem
— Idiota! — eu disse batendo com o rolo de massa em sua cabeça
— É sério! Falar palavrão não é contra uma das suas mil leis para ser uma boa garota?
— Primeiro: Eu não sou uma boa garota! Segundo: Eu não tenho mil leis para ser uma boa garota. Terceiro: Eu só falei as iniciais, então tecnicamente eu não disse nenhum palavrão.
— Eu acho isso uma merda, é como dar um tiro em alguém mas estar usando uma luva para não deixar as impressões digitais na arma e não ser descoberto. Pra mim é tudo a mesma merda, se você diz as iniciais você teve a intenção de dizer o palavrão e o que vale é a intenção. — ele discurssou uma de suas teorias... Porque o Damon sempre tinha que ter uma opinião sobre tudo? Bem, isso era bem Damon.
— Você não pode falar nada! — esbravejei colocando o dedo indicador em seu peito — De dez palavras que você diz onze são palavrões.
— E isso significa que eu sou profissional no assunto, então obviamente eu posso sim falar porque eu sou profissional. — ele disse sériamente como se estivéssemos discutindo sobre a queda da bolsa de valores.
— Ok Sr. Profissional de palavrões, você pode ir pro fogão enquanto eu cuido da massa?
— Hmrm. — murmurou distraído enquanto assumia a panela com o recheio do risole.
— Vocês não precisam fazer isso crianças. — minha mãe disse pela trigésima sétima vez.
— Mãe, eu me importo com o meu pai e não acho nada justo que ele chegue aqui para me visitar e não tenha alguma coisa ao menos comestível, para comer. — tentei explicar, dando de ombros.
— E é por isso que vocês estão cozinhando no meu lugar. — ela concluiu fazendo beicinho.
— Isso aí!
— E eu não posso fazer nada para ajudar? — perguntou esgueirando-se no fogão para ver o trabalho de Damon.
— Bem, a comida é massa então acho que seria bom um vinho para acompanhar. — ele respodeu no meu lugar.
— Estou indo providenciar o vinho. — Rennée disse e saiu porta afora, feliz por poder ajudar em algo.
— Esqueceu a chave do carro! — gritei para ela e pela janela a ví voltar relutante.
Tive que reprimir uma risada.
Renée voltou pisando duro e resmungando enquanto pegava a chave encima da mesa e retornava a seu carro agora podendo dar a partida, então o carro sumiu de vista e voltei a me concentrar no jantar.
Eu sorria inconscientemente pensando em todas as maluquices da minha instável mãe e sacudi a cabeça sem querer acreditar que fiquei tanto tempo sem isso, sem toda a insanidade que me fazia gargalhar.
— Pensando no que? — perguntou Damon, perto demais, perto demais, com a boca ao pé do meu ouvido me fazendo arrepiar e pular para trás.
— Você me assustou! — eu disse com a mão no pescoço, respirando fundo para tentar normalizar meu batimentos cardíacos que galopavam.
— Desculpe, mas não resisti. — ele disse pegando uma mexa do meu cabelo que saíra do lugar e colocando atrás da minha orelha. Corei.
Damon me olhava esperando que eu respondesse sua pergunta. Raramente ele desistia depois que fazia uma, então suspirei derrotada.
— Estou com saudades. — confecei.
— Do seu pai?
— Não. Da minha mãe.
— Não entendo. — ele enrugou a testa fazendo uma careta engraçada.
Toquei sua pele macia no local onde a testa se vincava, suspirando novamente.
— É complicado sabe. Eu estou aqui, mas ao mesmo tempo sei que não estou presente o suficiente e sei que deveria recompensa-la por tudo. E agora Charlie vai chegar e obviamente com ele virá todas as lembranças, e eu me sentirei ainda mais culpada e envergonhada, em dobro, pelos dois. — encostei a cabeça em sei peito, seus braços fortes me envolveram e senti algo tocar de leve meu cabelo. Seriam seus lábios? Mas não me virei para confirmar.
Inspirei profundamente o seu perfume de frésias, mel e algo cítrico que eu nunca consegui identificar, um cheiro indecifravelmente delicioso que não era colônia, era apenas ele.
— Eu preciso me arrumar. — disse relutante, dando um passo para trás mas ainda me agarrando à sua camisa.
Ele sorriu e beijou minha testa se afastando para arrumar a mesa.
Subi as escadas me arrastando apoiada pelo corrimão. E a sensação da água quente escorrendo pelas minhas costas e aquecendo-me foi surpreendentemente relaxante quase me deixando preparada para o 'reencontro'. Sim, eu estava ansiosa por ver Charlie novamente, — nesse tempo que passei com ele, aprendi que me importava mais com ele do que eu pensava. Com ele eu não precisava ficar falando o tempo todo só para preencher o espaço. — mas tinha medo de que com ele viessem as temidas lembranças que levei tanto tempo para afundar no escuro, em alguma gaveta profunda do meu subconsciente.
Joguei a cabeça para trás deixando que a água caísse em meu rosto, escorrendo por meu cabelo. Até quando percebi que a temperatura estava quente demais, então resolvi sair. Desliguei o chuveiro e quando abri a porta box já cuidadosamente enrolada em uma toalha, percebi que uma grande nuvem de vapor tomava conta de todo o banheiro, deixando as coisas em que ela se impregnava meio molhadas.
Abri a porta do closet, desanimada, à procura de algo que me agradasse e acabei por vestir um vestido preto de renda, acima do joelho, bem acima na verdade mas eu ainda podia dar a desculpa do calor.
Deixei meu cabelo solto, pendendo em ondas cimetricamente feitas, passei uma maquiagem rápida e descí as escadas de dois em dois degraus tendo cuidado para não torcer o pé com o salto.
— Hmmm... — Damon soltou mordendo o lábio inferior, meu coração perdeu a compasso voltando a bater normalmente — Isso tudo é pra mim?
— Bobo. — eu disse dando uma espiada por cima de seu ombro na mesa.
— É eu tenho que admitir que como desempregado você é um ótimo arrumador de mesas. — verbalizei meus pensamentos.
Analisei sua espressão de descrença, com uma sombrancelhas levantadas. Eu ri.
— Isso de desempregado já está ficando ofensivo. — disse Damon
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