Inércia
1 Capítulo único
Capítulo único
Uma releitura de: Casa Tomada de Júlio Cortázar
A primeira vez que sentiu aquela estranha dormência estava assistindo a TV, relaxado em sua poltrona favorita e acompanhando o noticiário, um dos muitos que anunciavam a mudança em uma lei qualquer. Como não se interessava por leis, política, ou qualquer coisa que não mudasse sua vida diretamente, pouco se importou com o que estava sendo dito e não ligou muito para o pé dormente, sacudindo-o um tanto até que a circulação voltou.
Lembrava-se, no entanto, muito bem desse momento, pois sua irmã — sentada ao seu lado — parecia preocupada com o que a TV anunciava, por isso decidiu nada dizer sobre o estranho que sentira, evitando deixá-la ainda mais angustiada.
Na segunda vez que a sensação lhe atingiu, estava lendo um jornal, tentando decifrar as letras miúdas de uma notícia de canto; notícia essa infamemente colocada em um rodapé sem importância no fim da oitava página e que falava sobre a aprovação de outra nova lei que diminuiria algum direito individual; isso muito depois de ler as notícia bombástica sobre a mais nova confusão de algum cantor nacionalmente famoso e outra sobre o apoio de alguns artistas à invasão de terras alheias, como se isso fosse algo normal e válido. A sensação de desconforto tomou-lhe a perna completamente, mas foi encarada sem muito susto, e vista como normal, mesmo levando algum tempo para sumir.
Recordava que foi sua irmã, de costas e preparando o café o café, quem havia mencionado o artigo, visto que, por certo, aquilo não chamaria sua atenção se ela nada dissesse. Resmungando, ela mencionara o quanto aquilo estava errado e dizia não entender porque as pessoas haviam permitido que algo assim acontecesse. Entretanto, ele não se pronunciou sobre o assunto, porque estava um tanto apático quanto a qualquer coisa que não o atingisse pessoalmente.
Quando ocorreu uma terceira vez, estava ouvindo o rádio no trânsito, parado em um sinal e observando o movimento das pessoas que iam e vinham, notando — apenas porque sua irmã chamou-lhe atenção — que a polícia desviava o trânsito por causa de uma manifestação qualquer, avistando a fumaça e, em alguns momentos, um ou outro movimento rubro. Naquele dia sua mão formigava, endurecida; tentara fechar os dedos, mas estes não lhe obedeceram; sendo que, por fim, sacudira a mão com força até que a sensação se foi, deixando-lhe com um ‘qualquer’ sentimento de impotência, ao passo que a sua irmã tirava fotos com o celular e escrevia algo nas mídias sociais.
Ao longo de alguns anos, a mesma sensação se repetia. Pensou em consultar um médico sem que levasse esse assunto adiante, imaginando que tal dormência só o acometia vez ou outra, mal notando que ela já o tomava completamente sem que o entendesse, apercebendo-se dela apenas, e só apenas, quando sua consciência o aguilhoava ou sua irmã, agora muito mais atuante, contasse-lhe sobre à loucura que era o mundo para além das paredes da casa em que viviam.
Por fim, um dia, a dormência o assumiu completamente. Ficou duro, sem poder mexer um músculo, completamente tomado. Isso aconteceu muito antes, mas ele só percebeu realmente quando eles entraram, abordaram e prenderam sua irmã de forma arbitrária, apenas porque ela costumava dizer o que pensava, por causa de suas ideias e ideais que chamavam de retrógradas e antiquadas, conservadoras demais, e que divergiam dos que estavam no poder.
Quis ajudar sua irmã de alguma maneira, dizer qualquer coisa, agir, mas estava tomado pelo torpor de uma existência marcada pela inércia e apatia; e, diante da dormência de uma vida inteira, nada pôde fazer.
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