Inércia

1 Oneshot


Cinco e meia da manhã.

Está cheio. Está sempre cheio; horário de ponta na Cidade Maravilhosa, afinal. Isso não te surpreende — é o mesmo metrô que você pega de segunda a sexta, com as mesmas pessoas que furam fila e se acotovelam umas às outras para entrar.

As mesmas que, mais tarde, vão reclamar que o país não está bom, que a corrupção está demais. Vão se queixar do impeachment ou pedir outro, e defender vermelho ou azul como defendem time de futebol.

Todos os dias o mesmo túnel, a mesma falta de espaço que te impede de sequer alcançar o celular no bolso das calças. Você não tem nada para fazer, então ouve. Nunca diz nada, não se posiciona. Você nem mesmo gosta de política. Não afeta o seu trabalho...

O trabalho.

O que te obriga a levantar antes das cinco e a passar horas no trajeto. Que drena as suas energias e te deixa exausto até no fim de semana.

Só o nome já te intimida. Você ainda nem chegou e quer voltar para casa, quer o sono que você nunca consegue aproveitar porque está sempre cansado. O chefe é chato. As horas extras também.

Mas o emprego é estável. Paga bem, e as férias vão ser boas, quando você tiver tempo. Sim, basta você ter tempo.

São seis horas; o metrô para no terminal. Você se prepara para a abertura das portas. Do seu lado, dezenas de pessoas se posicionam para a saída. Elas também estão apressadas, como você. Vão se atropelar na correria, e você vai ser pisoteado se for levado pelo fluxo. Mas você entende. Você, como elas, também quer chegar rápido ao trabalho, que vai te prender até depois de você ir para casa.

Você já não nota o seu andar lento e arrastado ao sair do metrô; não percebe mais a diferença entre você mesmo e o jovem de cabeça erguida, que vislumbrava um futuro nunca alcançado.

São outros tempos. A velhice está chegando, ou pelo menos é isso que você diz a si mesmo enquanto caminha, cabisbaixo — sem a energia de quando era moço.

Jovens, tão tenros e tolos, acham que sabem algo do mundo! Você está melhor agora, não está? A experiência de vida te tornou mais humilde.

Claro; você não perseguiu os sonhos imbecis que pareciam ter tanto brilho, que teriam te deixado preso na vida. Seguiu o conselho de tantos outros que diziam saber o que você diz saber agora. Queria ser astronauta, bombeiro, filósofo; parvoíce tamanha!

Não era coisa para gente como você.

Gente como você não podia sonhar alto. Era mais fácil de cair e se machucar.

Você não sonha mais.

Você já não pensa em felicidade, pensa em tempo e riqueza; já não abre um sorriso para o ascensorista no elevador, e o "bom dia" é mecânico e pesado.

A amargura e o tédio vão tomar conta do seu dia mais uma vez, e a previsibilidade vai acabar com o que resta da sua eficiência. É o que tem acontecido todos os dias, e vai continuar acontecendo pelos próximos anos.

Por que ponderar, agora, o que poderia ter sido? Já não há tempo, não há meio; o presente já é o bastante, para que correr riscos?

Você repete o mesmo discurso para si mesmo, vez atrás de outra; você não poderia ter feito melhores escolhas. A culpa é das circunstâncias, não sua. Como seria sua, com tantas variáveis em jogo?

Outra vez, e mais outra, até você sair do trabalho. Até você chegar ao metrô de novo, até as portas se abrirem e você suspirar porque está cheio demais. Até começarem a falar de política e futebol e você se misturar à paisagem, como uma decoração mal colocada.

Você deixa os seus pés te arrastarem até casa enquanto se convence e aceita a condição desagradável do seu próprio existir. Deixa o peso da pasta do trabalho curvar as suas costas e esmagar as suas contestações.

Com um murmúrio de relutante contentamento, você não percebe que se tornou o personagem secundário da própria história.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!