Império Radioativo
3 III - Um Senhor das Armas inseguro
Poucos registros existem sobre como o mundo era antes da Guerra de Todas as Guerras – na realidade, pouco se sabe sobre o mundo fora das Cúpulas. Nenhum humano sobreviveria plenamente fora delas: muitos tentaram, nenhum voltou. Segundo nossos estudiosos, o próprio ar é tóxico.
Talvez os deuses estivessem tentando nos matar.
Meu pai pensa o contrário. Talvez a Terra quisesse matar os humanos, mas os deuses não permitem. E por isso, para cada família real, deram as Cúpulas. Ninguém sabe de onde elas vieram, mas nos fornecem ar e água fresca. Ainda assim, eu me pergunto como é andar lá fora. É claro que já fui até os limites da Cúpula e tentei enxergar o máximo possível pelo seu grosso vidro que nos protege. E lá, vi apenas verde. Quando ainda treinava, ainda uma pequena Senhora das Armas, eu me pegava imaginando ser a primeira a desbravar com sucesso o exterior. Sentir novos cheiros, sentir o sol sem os filtros da Cúpula, beber a água da nascente. Em minha púbere mente, eu achava que os humanos haviam feito algo muito de ruim para a Terra e, se eu me desculpasse direito, ela deixaria que eu andasse sobre ela livremente. Ainda nos dias de hoje, às vezes desperto de um sonho semelhante.
— Senhora Calina?
Era a quinta vez que Aris – finalmente decorei o nome de minha dama de companhia! — me chamava. E pela quinta vez a ignorei, por demasia imersa no momento enquanto observava a paisagem pela janela. Eu deveria estar ocupada em me preparar para a viagem, mas saber que era a última vez que teria aquela vista diante de mim me fez dedicar-lhe algum tempo. Da janela do meu quarto, era possível ver as bordas da Cúpula; e, depois de seu resistente vidro, apenas intermináveis florestas. Suspirei, permitindo-me alguns últimos segundos de apreciação antes de voltar o olhar para o interior do quarto, girando em meus tornozelos. Aris me encarava ansiosa, segurando dois vestidos. — Qual dos dois prefere usar para partir? Será uma viagem longa, e imaginei que seria bom estar confortável... Obviamente, sem perder a elegância. – Franzi o cenho para as duas roupas, não conseguindo me ver confortável em nenhuma delas. Como jamais tive vestidos para usar, as costureiras reais prepararam alguns deles às pressas. Não era uma surpresa que eles não tivessem um caimento muito bom.
— Por que não uso aquele cinzento que usei ontem à noite? Ele era o mais confortável deles.
Aris fez uma careta.
— Senhora, aquilo era uma camisola.
Oh. Suspirei, derrotada. — Visto o que você achar melhor, eu acho.
Balançando a cabeça de leve, decepcionada, ela dobrou delicadamente um deles e me entregou o outro. Não era o pior que eu já provara, mas a quantidade de babados e fitas ainda me assustava. Eu não conseguia encontrar nenhuma utilidade para o tamanho daquelas saias além da possibilidade de esconder dezenas de armas sob elas. Na realidade, eu tinha quase certeza que com algum esforço eu conseguiria levar um pequeno exército embaixo sem ninguém perceber. Pelo menos a cor, algo parecido com um bege, não era irritantemente chamativa. Sinto admitir que dei um fim em um vestido rosado que Aris tentou colocar em mim.
— Antes de partir, temos que decidir o que faremos com seu cabelo. Como a senhora dispensou todas as criadas que exerceriam essa função, teremos que ser criativa com o pouco tempo que temos. – Com razão, ela parecia um pouco chateada com a minha decisão. Porém, não havia necessidade de levar meia dúzia de criadas apenas para cuidar de minha aparência. — Afinal, a senhora tem que ficar estonteante para seu noivo. Pensei em um coque alto com alguns cachos laterais, com alguns prendedores de esmeralda. Você sabe, temos que fazer seus olhos verdes brilharem! Talvez um pouco de cor nas bochechas também, para um ar mais saudável...
Meu esforço para não revirar os olhos foi grande. Eu não conseguia compreender o entusiasmo de Aris com o iminente casamento. Para mim, era pura e simplesmente uma obrigação com meu reino. Porém, na cabeça de minha dama de companhia, eu estava partindo em algum tipo de história romântica, um conto de fadas mágico. Desde que tornei-me Prometida eu tentava em vão fazê-la entender que não havia romance algum naquela situação.
Enquanto ela tagarelava sobre as mudanças que queria realizar em minha aparência, ouvi um leve farfalhar vindo da porta aberta. Com a expressão hesitante, lá estava Ames, segurando desajeitadamente em seus pequeninos braços um objeto coberto em um pano marrom. Ao perceber meu olhar, ele se endireitou. Demorei alguns segundos para entender que ele tentava se parecer mais com um guerreiro. Aquilo doeu em mim. Por todos os deuses, que raios de irmã era eu? Desde a morte de Jaene, que tipo de atenção eu havia dispensado para ele? Distraída em meus próprios problemas, acabara por esquecer que Ames também passava por um inferno semelhante.
— Oh, meu senhor Ames! – exclamou Aris antes que eu pudesse pensar em algo para dizer. — Não está em seu horário de treino? Devem estar procurando pelo senhor na academia...
— Eu... – Ruborizando por estar descumprindo seus deveres, ele desviou o olhar para o embrulho que trazia nos braços. — Sarife me pediu para trazer isso. Ele disse que... Estava ocupado demais para trazer. Disse que se sentiria mais seguro se você levasse isso com você, Calina.
Andei até ele, ainda me amaldiçoando pela ausência ultimamente. Magro e pequeno para um garoto de sete anos, ele exibia os mesmos cabelos encaracolados e incontroláveis que eu tinha. Seus olhos, porém, não eram verdes como os meus. Eram de um marrom quase escuro, que num primeiro momento poderiam ser quase impenetráveis – mas um olhar mais cuidadoso permitiria ver quão dócil ele era. E agora, ele deveria se tornar um mestre da guerra, um Senhor das Armas.
Por que fez isso, Jaene?
— Diga a Sarife que eu agradeço profundamente por permitir que eu passe um tempo com meu irmão antes de viajar. Agora vamos, Ames. Entre.
Uma sombra de um sorriso passou por seu rosto enquanto ele atravessava a soleira do quarto e deixava o embrulho com cuidado sobre a cama. Depois eu veria o que era, apesar de já ter uma boa ideia. Eu precisaria agradecer Sarife pessoalmente por isso. Sentando-me na cama com ele, passando a mão em seus grossos cabelos e tirando-os de seus olhos.
— Já passa da hora de cortar os cabelos, sabe?
— Na verdade... Penso em deixa-los crescer. Um dos garotos da academia disse que se eu tiver uma barba e cabelos compridos, vou me parecer mais com um Senhor das Armas.
Aris, que respeitosamente havia se dirigido até a varanda para nos dar mais espaço, abafou uma risada.
— Ora! – Bufei, fingindo estar irritada — Por acaso ostentei uma barba esses anos todos e não percebi?
Corando, Ames deu uma pequena risada. Havia, porém, um tom de tristeza em seus olhos que eu jamais vira. Tentei imaginar o quanto tudo aquilo estava sendo difícil para ele, largar seus estudos de Senhor das Palavras e se dedicar à guerra... Sem contar a perda de Jaene. Mesmo que os dois não fossem tão próximos como nós, aquilo havia o abalado fortemente. E com esse pensamento, me senti egoísta. Que direito eu tinha de me ressentir de meu destino quando Ames estava em situação parecida?
— Já está de partida? – Perguntou ele depois de algum tempo de silêncio. Ele não me olhava, encarando fixamente as mãos cobertas de ataduras.— Digo, entreouvi conversas entre o Embaixador e o Rei. A caravana de Metral está quase pronta para partir, e eu achei que...
— Em breve. – cortei-o, incapaz de ouví-lo por muito tempo tentando encontrar desculpas para se despedir de mim.— Será um longo tempo sem vê-lo, até a cerimônia do casamento. Seja um bom garoto, hm? Mas não deixe que Sarife pegue muito pesado nos treinos.
— Ele diz que não tenho jeito com espadas. – Com uma careta, ele estendeu as mãos feridas para mim, provando sua afirmação. — Mas diz que tenho mente de um estrategista. Há dois dias, confundi um dos garotos durante o treino e consegui derrubá-lo em batalha. Papai estava assistindo, e disse que ficou orgulhoso de mim. – Por entre o véu de melancolia em seus olhos, pude ver um leve brilho de alegria com seus resultados. — Ele disse que daqui algum tempo já poderei escolher minha montaria. Sarife disse que gatos de guerra são difíceis de montar, e que talvez eu devesse usar um porco de guerra, que é mais dócil. O que você acha?
— Você deve escolher um que o faça se sentir confiante e combine com seu estilo de arma. Não se brande um pesado machado se estiver nas costas de um sorrateiro gato de guerra, sabia? – instruí-o, mesmo sabendo que ainda demorariam meses a fio até que ele tivesse competência o suficiente para lutar montado. Eu mesma só consegui depois de muito treino.
— É, é... – fez ele, um tanto quanto desapontado com minha resposta vaga. Entretanto, essa era uma escolha que ele deveria fazer sozinho. — Mas não foi só por isso que eu vim, Lina. Tem algo mais que eu queria te entregar.
Levando a mão até as costas, ele puxou um objeto que estava escondido entre o cós da calça e a camisa. Era um quadrado de couro curtido, que reconheci como sendo um livro costurado a mão.
— Eu mesmo escrevi, enquanto treinava a Arte das Palavras. – disse orgulhoso, entregando o livro para mim.— Ele é sobre você. Todas as vezes que você voltava de uma batalha e me contava como foi, eu transcrevia aqui. Pretendia compilar relatos de todas as suas batalhas e transformar em um livro para te dar quando você virasse Rainha. Eu, hm... Achei que você gostaria de leva-lo com você. Para lembrar de mim?
Não me importando se estava amassando completamente os vestidos que estavam colocados na cama entre nós, puxei-o para um abraço. Ficamos assim por alguns minutos, até que Ames se afastou com os olhos molhados. Ele fungou e balbuciou algo sobre seu treino, pulando da cama e indo até a porta. Então já haviam dito-lhe que um guerreiro não chora.
— Ames.
Com o meu chamado, ele virou na porta, olhando-me ansioso. A careta que fazia para segurar o choro deixava-o com o rosto retorcido, mas mesmo assim manteve-se firme.
— Tente o arco e flecha. É uma das mais finas artes na batalha.
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