Impossible's Path
5 Capítulo 04: Luna - Vengeance's Path
Notas iniciais
Ano 2014, 12 de Dezembro
Foi há um ano e meio, mais ou menos. A última vez em que vi meus pais.
Por apenas quatro vezes, durante todo esse tempo, eu fui capaz de falar com eles. Ridículas quatro vezes.
Ainda me lembro perfeitamente do dia em que fui abandonada por eles. Deixada de lado. Na verdade, de acordo com suas palavras, eu fui “Mantida em Segurança”. Por isso fui deixada sozinha. Segurança. Minha maldita segurança.
− Josephine, obedeça ao Meowth, ok? – Disse ele, se esforçando para demonstrar alguma preocupação. Que se importava demais comigo, mesmo estando prestes a sumir de minha vida.
− Filha, o que estamos prestes a fazer, eu sei que não tem perdão – Ela sim parecia se importar – Mas é algo que seu pai e eu precisamos fazer. E quanto mais distante de tudo isso você estiver, mais segura você estará, tá bom? – Ela beijou minha testa – Te amamos muito.
Claro que sim. Com certeza me amavam demais.
Eu não precisei perguntar o motivo de tudo aquilo. Minha irmã estava morta. Com apenas 3 anos de idade, ela foi tirada de nós. Meus pais queriam vingança, mesmo que para isso, tivessem que abandonar sua outra filha. A mais velha, que estava prestes a iniciar sua jornada Pokémon. Relaxa, ela já é velha o bastante. Vamos abandoná-la. Nossa filha morta é mais importante que nossa filha viva.
Eu nunca os perdoarei por isso. Muito menos minha irmã, seja lá onde ela estiver.
Mesmo morta, ela conseguiu me tirar toda a atenção. Por quase 7 anos, eu fui tratada como a filha prodígio. A genial garota que, com apenas 6 anos de idade, havia lido centenas de livros sobre Pokémon e nosso mundo. Que foi capaz de programar o próprio robô, com um sistema único, voltado totalmente para a minha satisfação.
Mesmo criança, eu já era uma espécie de Cientista, fascinada por tecnologia. Ridicularizada pelas outras crianças da cidade, por ser inteligente demais. “Nerd Bizarra”, era como me chamavam. Perdi a conta de quantos óculos eu perdi, em seus ataques ridículos de inveja, por não serem metade do que eu sou.
Eu simplesmente era um ser humano diferente. Especial.
Mas então, ela nasceu. E de repente, não era mais: “Nossa, Jô, você é incrível”, e passou a ser: “Desculpe, Josephine, mas Jenny precisa de nós agora”. Simplesmente assim.
Ciúmes? Não, eu sou genial demais para sentir algo do tipo. Sou muito superior.
Ódio? É, eu sentia isso. Eu odiava a minha irmã mais do que tudo nesse mundo.
No entanto, eu tive que aprender a redirecionar todo esse ódio. Não tinha sentido em continuar odiando alguém que estava morto. E eu não podia odiar meus pais, mesmo sendo incapaz de perdoá-los pelo que fizeram, pois era da atenção deles que eu precisava. Apenas isso que eu queria. A atenção deles. Por isso, odiá-los estava fora de cogitação.
Eu não sabia o que fazer com todo o meu ódio. Mas eu sabia que ele apenas sumiria quando eu tivesse a atenção de meus pais de volta. E isso só seria possível, se eu fosse capaz de completar aquela vingança.
Mas como eu faria isso, se não tinha informação alguma sobre o caso? Meowth se recusava a falar sobre isso, e meus pais nunca comentaram sobre seu trabalho. Eu nunca soube o que eles realmente faziam para viver. Portanto, eu não tinha nem ideia de como minha irmã morreu, ou como fazer o culpado pagar. Mas era a única forma de eu conseguir o que precisava, então eu não iria parar até descobrir quem o fez, e como destruí-lo.
Não sei se por destino, ou apenas sorte, mas apenas alguns dias após a morte de minha irmã, e da partida de meus pais, um homem apareceu na porta de casa. Meowth disse para eu ficar quieta em meu quarto, mas, óbvio, eu não faria isso. O segui até a porta, onde o vi conversando com ele. Um homem muito, muito famoso. Todo mundo o conhecia. O nosso salvador. Herói mundial.
− Meowth, eu preciso conversar com eles novamente – Disse nosso herói – Isso não pode terminar assim.
− Pirralho, você não deveria estar aqui – Meowth parecia preocupado com alguma coisa – Eu também tentei explicar pra eles o que aconteceu, mas nada que eu dissesse serviria de algo. Eles estão completamente cegos pelo ódio. Pelo desejo de vingança.
Eu percebi na hora, o assunto daquela discussão. Eles falavam sobre minha irmã. Eu tinha de saber mais, não podia deixar uma chance dessa escapar. Me escondi ainda mais próximo da conversa, e escutei até o final.
− Eu os conheço muito bem, por isso preciso acertar isso antes que eles se percam e tentem algo perigoso. Como, por exemplo, trazer a Equipe Rocket à ativa novamente – Que surpresa, nosso herói também parecia estar preocupado com as ações de meus pais, apesar de não ter ideia do que ele estava falando – Se isso acontecer, Meowth, os estragos e consequências serão ainda maiores.
− Você acha que eu não sei disso? – Meowth tentou baixar ainda mais a voz, se esforçando para eu não ser capaz de escutar nada – Eles se foram, guiados pelo rancor, deixando a própria filha para traz, comigo. Não é como se eu pudesse ir atrás deles e deixa-la sozinha. No momento, não há nada que eu possa fazer.
– Mas eu talvez possa – Ele aparentava estar sério agora – Apenas me diga, onde eles estão?
Meowth ficou em silêncio. Estava pensativo. Aparentava não saber se entregava meus pais, ou não. Caso o fizesse, provavelmente, aquele famoso Treinador Pokémon se meteria nos planos vingativos deles. Isso seria traição. Tio Meowth não faria isso, certo?
– Pirralho, eu não posso... – Eu sabia, ele não teria coragem para isso.
– Meowth, me escute – Ele se abaixou, tocando o ombro de Meowth – Se deixá-los seguirem por esse caminho, uma hora ou outra, eles irão mergulhar tão fundo na escuridão, que não haverá mais volta – Sua voz tinha um tom sereno agora, parecia estar sendo sincero – Olha, eu sei pelo o que vocês já passaram juntos. Afinal, vocês participaram de praticamente todas as aventuras que vivi em minha vida. E, mesmo sempre me importunando, vocês abriram os olhos mais tarde, até mesmo me ajudaram a terminar de vez com a Equipe Rocket. Nos tornamos amigos. Parceiros. E agora, tudo isso sumiu, por causa de um engano. Um erro tão grave, que esta os levando para o outro lado. Por isso, quanto mais eles se afastam de você, ou de mim, mais perto de perde-los por completo todos nós estaremos.
Após toda aquela baboseira, percebi que Meowth estava com água nos olhos, emocionado. Eu estava errada, ele realmente seria capaz de trair meus pais:
– Tudo bem... – Ele trancou a porta, saindo com o herói.
Não pude ouvi-los mais, após terem saído de casa. Mas, antes de fecharem a porta, consegui ouvir Meowth dizer:
– Mas esteja pronto, pois o plano deles envolve liberar todos os outros...
Não tinha ideia do que tudo aquilo se tratava, mas agora eu sabia que Ash Ketchum, o famoso salvador do mundo, esteve por trás da morte de minha irmã. Ou seja, ele fez parte do plano maligno que tirou meus pais de mim.
Se para ter a atenção de meus pais de volta, eu tenha que fazer todos envolvidos pagarem, então era exatamente isso que eu faria. Nem que levasse anos, eu faria todos os envolvidos sofrerem.
Assim, como aconteceu por grande parte de minha vida, eu voltaria a ser a filha prodígio. A garota espetacular, que sempre fui. E que só desapareceu, por causa da vida, e da morte, de uma simples criança.
Meowth retornou naquele dia, após algum tempo, me dizendo que a visita na porta não era ninguém importante. Ele mentia na minha cara. Percebi que não podia mais confiar nele, mesmo tendo cuidado de mim desde que era um bebê. Mesmo sendo ele a ter me ensinado grande parte do que conhecia. Ele era meu tutor. Era. Não mais, após essa traição.
Alguns meses se passaram desde então, até que eu estava pronta para partir na tal jornada que sempre tive vontade de participar. Vontade que sumiu, assim que fui abandonada por meus pais. Após isso, tudo o que eu queria, era consertar toda aquela bagunça de uma vez por todas.
Não sabia o que meus pais fizeram desde que sumiram, ou o que Meowth passou a fazer assim que eu saí de casa, mas nada disso me importava. Mal tive contato com eles nesse tempo, e sempre que o tinha, apenas fingia estar tudo bem, tendo uma simples jornada Pokémon, reunindo insígnias para participar da Liga Pokémon de Kanto. Enquanto isso, eles continuavam a me deixar por fora de seus planos idiotas. Eu sabia, que se quisesse aquela vingança concluída, eu mesma a teria de fazê-la.
Não levei muito tempo para descobrir como faria isso. Eu tinha que fazer um homem pagar. E que melhor forma de se fazer isso, além de ir atrás de seus filhos? Eu sou uma testemunha viva, de como esse preço era alto demais. Era perfeito.
Por isso, após mudar totalmente meu visual e nome, eu fiz uma pesquisa sobre nosso famoso herói, e descobri que ele tinha dois filhos. Uma garota de minha idade e outro um ano mais novo. Quando descobri isso, eu realmente passei a pensar que o destino queria mesmo que eu o fizesse pagar pelo o que fez. Sua filha havia saído em uma jornada, sozinha, praticamente ao mesmo tempo que eu. Encontrá-la não seria tão difícil, eu apenas precisava ficar parada em algum Ginásio Pokémon, esperando por sua chegada.
Me deparei com ela em seu segundo desafio, no Ginásio de Pewter City. Após vê-la receber sua segunda Insígnia, eu dei um jeito de iniciar uma conversa com ela no Centro Pokémon da cidade. Era uma garota fácil de entender. Alegre, boba, que adorava falar. Idiota. O tipo de pessoa que eu mais odiava.
Mas, se eu quisesse mesmo fazer isso, o único jeito seria me aproximando dela o máximo possível. Então, num passe de mágica, eu me tornei o tipo de garota perfeita para ser sua melhor amiga. Minha personalidade foi totalmente trocada, apenas pelo bem de minha necessidade. Eu queria minha atenção de volta, portanto, me transformar numa garota irritante, que sorri e se diverte o tempo todo, não seria um problema. Afinal, eu sou um gênio. Sou capaz de qualquer coisa, por simplesmente ter um intelecto acima dos outros.
Mas ela não era o suficiente. A vingança não estaria completa, se apenas a garota fosse tomada daquele herói. Eu precisava dos dois filhos dele. Por isso, e para ter tempo suficiente para me tornar uma pessoa totalmente de confiança para Kaila Ketchum, eu passei aquele ano inteiro ao seu lado. Fingindo, de uma forma que apenas eu conseguiria. Evoluindo nossa falsa amizade. Aumentando ainda mais sua confiança em mim.
Eu me tornei sua melhor amiga. Passei a ser uma boa pessoa, aos olhos de seu irmão. Estava tudo dando certo. Eu tinha paciência, então tempo era o de menos, contanto que eu pudesse atingir meu objetivo. Ky se juntaria a nós em breve, e eu finalmente poderia fazer algo que me levasse ao final daquela vingança.
Continuava longe de Meowth e meus pais, sem notícias verdadeiras sobre o que eu estava fazendo, e muito menos sobre o que eles faziam, apenas uma ligação de tempos em tempos, para mostrar que estava tudo bem. Fiz de tudo para clarear minha cabeça de todas as coisas, me tornar totalmente objetiva, fria. Deixando apenas um foco em minha mente: Vingança.
Uma vingança que traria meus pais de volta. Minha atenção.
Mas, meio que o destino me dizendo que não seria assim tão fácil, eu me deparo com o sequestro de Kaila. A primeira coisa que pensei, foi que havia perdido quase um ano de minha vida, atoa, simplesmente para nada. Não importava se Ash Ketchum viria a sofrer com isso, do jeito que eu precisava. Não seria o bastante para meus pais pararem e voltarem para casa, eu tinha certeza. A vingança tinha de vir por mim ou por eles, e teria que ser completa, tendo seus dois filhos como centro, e não apenas a garota irritante.
Aquilo me deixou furiosa. Ao ponto de ter ficado aliviada, talvez até feliz, ao receber a notícia de que ela estaria voltando para casa, com seu pai. Eu recebi uma nova chance, e dessa vez eu não poderia falhar. O momento havia chegado, eu finalmente tinha os dois. Ambos confiavam em mim.
Mas, eu admito que acabei passando dos limites, com aquele beijo. Vi a chance de fazer aquela idiota sofrer um pouco, e aproveitei. Eles podiam enganar qualquer um ao redor, mas não a mim. A paixão que ambos sentem um pelo outro, não é normal para dois irmãos. Vai além disso. Portanto, caso eu beijasse Ky na frente dela, o quão triste ela ficaria? Ah, foi tão bom ver o quão chateada ela ficou. Tanto ciúme, aposto que ela teve que se esforçar demais para me perdoar e voltar a agir como se nada tivesse acontecido. Saber disso, simplesmente me deixava numa paz enorme. O sofrimento de inimigos, é sempre um prazer de se ver.
No entanto, mesmo que tudo tenha dado certo após o ocorrido, ainda havia algo que pudesse vir a me atrapalhar. Eu já tinha a confiança de todos, mesmo que Ky estivesse um pouco aborrecido comigo após aquele beijo. Portanto, a única coisa que poderia me impedir, seria o cancelamento de nossa jornada. E isso, definitivamente, estava prestes a acontecer, com aquele maldito garoto tendo esses pesadelos ridículos. Se ele não melhorasse, não poderia ir, e Kaila dessa vez não partiria sem ele. Eu seria forçada a ficar por perto até ele estar curado, e eu não podia aceitar uma perda de tempo dessas.
Então, acabei fazendo algo que, com toda certeza, eu viria a me arrepender um pouco mais tarde, antes que pudesse realmente preparar tudo para minha vingança.
Eu salvei Ky, tornando-o livre daqueles pesadelos. De toda aquela dor. Fui forçada a salvar meu inimigo. Ato que me deixou com ânsia de vômito por vários dias.
Mas antes de eu tornar público a minha ideia de como salvá-lo, aquele dia ainda havia guardado algumas surpresas bem interessantes para mim. Duas, para ser mais exata.
A primeira:
– Luna, eu preciso muito desabafar com uma amiga – Era Kaila, aparentando estar infeliz.
Isso aconteceu após o café da manhã. Ky já havia sofrido seu segundo pesadelo, naquela noite. Apesar que dessa vez, seu despertar não foi tão dramático, quanto na primeira. Antes mesmo de Kaila e eu chegarmos em seu quarto, após ouvirmos os gritos desesperados daquele pirralho, Brad já o havia acordado. Com alguns socos, disse ele.
Tivemos que ficar ao seu lado a noite inteira, e mesmo assim ele não caiu no sono. Estava tremendo, totalmente apavorado com aquilo. Brad e eu acabamos pegando no sono por algumas horas, mas quando acordamos, percebemos que aquela família ainda estava acordada, tudo por causa do garoto. Ele não podia dormir, então nenhum dos outros poderiam, também. Meio patético, se me perguntar.
Brad, Ky e sua mãe, foram ter uma consulta com o tal Dr. Silas. Aparentemente, nosso herói havia falado com ele no dia anterior e já pedido por uma ajuda profissional.
Kaila estava triste com tudo aquilo, por isso veio até mim, enquanto esperávamos a volta deles. De começo, ela não me disse nada de importante. Apenas desabafou sua preocupação, seu medo de que tudo aquilo pudesse ser permanente. Ela realmente se preocupava com aquele garoto. Por isso eu gostava dela. Pessoas assim, geralmente, são fáceis de serem controladas. Era um alvo perfeito.
Após todo seu drama, e blá, blá, blá, ela finalmente estava prestes a me contar algo muito interessante.
– Amiga, eu não contei isso ao Ky, por medo de sua situação ficar ainda pior. Ele já vinha sofrendo por causa da cena que presenciou, atormentado pela visão de minha morte. Então, definitivamente, eu não poderia preocupa-lo com nada mais, entende? – Droga, essa garota falava demais, tão irritante – Mas eu não consigo mais guardar tudo aquilo em meu peito, eu preciso contar para alguém, além de meus pais, tudo o que aconteceu naquele dia. Foi o pior de toda a minha vida, por isso eu agradeceria muito se você pudesse me ouvir.
Admito que eu não tinha ideia de que sua situação aborrecedora, pudesse ser, na verdade, uma história totalmente de meu interesse. Ela me contou tudo que aconteceu, desde o momento em que foi forçada assistir seu irmão ser torturado psicologicamente, fato que quase me forçou a gargalhar, até o final, onde participou de uma cena de filmes de ação.
Meus pais e Meowth. Eu não acreditava nisso. Foram eles a sequestrar essa garota. Sem meu conhecimento, meus pais quase conseguiram atingir o objetivo da vingança. Apesar de tudo isso não fazer sentido algum. Afinal, meus pais sumiram por mais de um ano, planejando coisas. Obviamente, deveria ser algo grande. Mas então, mesmo após tanto tempo fora, eles simplesmente aparecem e sequestram a garota, sem mais nem menos?
Não. Definitivamente não. Eu não podia aceitar o fato de eu ter sido gerada por dois idiotas. Duas pessoas que passam quase dois anos planejando algo, para um simples sequestro. Aliás, não um sequestro, apenas uma falha. Mesmo que tenham conseguido afetar o garoto. Nem pensar. Eles precisavam ter uma inteligência maior do que essa. São meus pais. Havia algo mais acontecendo, eu tinha certeza.
Foi fácil eu bancar a melhor amiga, consolando ela da maneira mais gentil possível. Disse que seu irmão ficaria bem, afinal, ele era filho de um grande herói. Era um garoto forte. E quanto ao incidente de seu sequestro, ela tinha apenas que deixar isso de lado. Era passado, e isso não importava. Apenas o momento de agora importava, e claro, o futuro.
Era tudo mentira de minha parte, mas ela era fácil de se enganar. Rapidamente ela conseguiu dar um sorriso, e passou a me agradecer bastante, emocionada, me dizendo palavras melosas, sobre o fato de eu ser uma ótima amiga e blá, blá, blá.
Eu realmente sofri com ânsias de vômito naqueles dias.
E, então, a segunda surpresa interessante:
– Ei, você poderia dar uma caminhada comigo? – Dessa vez era Ky, demonstrando uma expressão deprimida.
Ele havia acabado de chegar de sua consulta, com sua mãe e Brad. Kaila mal se continha, após abraça-lo, enchendo sua cabeça com preocupações. As notícias não pareciam ser boas, já que nenhum dos três estavam sorrindo. E isso fez Kaila ficar com lágrimas nos olhos, ao perceber que ninguém queria comentar o assunto diretamente.
Senhora Ketchum insistiu em levar Kaila até o quarto, para que pudessem conversar melhor sobre o assunto, enquanto Ky e eu caminharíamos um pouco. Sozinhos. Mesmo se esforçando, dizendo que precisava saber o que de fato estava acontecendo, e que não queria sair de perto de seu irmão, ela subiu com sua mãe e Brad.
Ky e eu partimos, indo em direção à trilha da floresta. Totalmente diferente do local de sua batalha de ontem, onde apenas corriam sem rumo algum, essa trilha nos levava até um lago, alguns quilômetros à frente.
Andamos por um bom tempo, em silêncio, antes que ele pudesse dizer algo. Ele parecia estar sofrendo, e isso era meio divertido. Ele mal tinha forças para comentar sobre o assunto. Apenas fiquei ao seu lado, caminhando e esperando ele finalmente abrir a boca:
– Luna, eu preciso lhe pedir uma coisa – Ele olhava diretamente pra mim, com aqueles olhos melancólicos – Algo muito importante.
– Claro, Ky, pode dizer – Tentei ser o mais amável possível – Se tiver a ver com aquele beijo de ontem, só quero que entenda que foi apenas uma-
– Não, relaxa, não tem nada a ver com aquilo – Disse ele, me interrompendo. Demonstrando objetividade.
– Então, o que é tão importante, a ponto de termos de caminhar para longe de sua irmã? – Perguntei, sendo ainda mais objetiva, tentando ser gentil, mas ao menos tempo cortando o papo furado.
– Passei duas horas conversando com o Dr. Silas, e no fim da consulta, ele... – Ky era tão fraco, que tinha dificuldades em continuar.
Tentei confortá-lo, botando minhas mãos em torno de seu ombro, aproximando meu rosto do dele, para que pudesse me ouvir dizer, bem baixinho:
– Ei, está tudo bem, não há porque ter medo ou se preocupar. Independentemente do que ele possa ter lhe dito, saiba que todos estão do seu lado. Inclusive eu – Virei seu rosto com minha mão, tentando fazê-lo olhar diretamente em meus olhos – Aquele beijo de ontem, não foi apenas uma brincadeira. Tinha um sentimento envolvido, algo que eu passei a ter, após perceber o garoto incrível que você era. Sempre cuidando de sua irmã, se preocupando com ela. Você é especial. Você sente demais, se importa demais. É tudo o que um homem precisa ter: Sentimentos. E eu o respeito demais por isso – Me aproximei lentamente de seus lábios, passando a ser capaz de sentir sua respiração, enquanto percebia seu coração bater mais rápido – Está tudo bem, não precisa ter medo – Foi o que eu disse, com um tom ainda mais gentil e suave, antes de tocá-lo com meus lábios, tentando transmitir segurança para ele. Demonstrar que eu me importava, o bastante para estar ao seu lado. Dessa vez ele não se esforçou em se livrar de mim, ficou apenas parado, provavelmente sem saber o que fazer. Apenas participando daquela sensação comigo. Nossos lábios unidos.
Aquela mentira não durou muito, pois eu não precisava enganá-lo mais. Já era o bastante. Por isso recuei um pouco, devagar. Olhando em seus olhos, enquanto me afastava, deixando-o totalmente hipnotizado. Fosse pelo meu charme, ou pelo fato de eu realmente ser capaz de lhe deixar confortável, ele estava encantado. Totalmente diferente da brincadeira de ontem.
– Agora, me diga – Voltei a dizer, após perceber que ele se sentia pronto para compartilhar comigo seu grande segredo – O que aconteceu? Não me deixe ainda mais angustiada.
Eu realmente era genial.
– Luna... – Ele finalmente se sentiu seguro para dizer – Por ter sido uma tragédia perturbadora, eu posso não ser capaz de me curar totalmente por um bom tempo. Ele disse que poderá levar até mesmo meses. E isso...
Agora eu entendia sua preocupação, e o porquê de ser tão difícil para ele falar sobre o assunto. Ele não se importava em ter de levar meses para se curar. O único problema, era que assim, ele perderia sua jornada com Kaila. E isso, também era um problema meu. Se ele não fosse, tinha certeza de que ela também não iria, e eu não poderia completar minha vingança. Pela primeira vez, desde que planejei me vingar, eu comecei a ficar preocupada.
– O importante, é que eu quero que você faça Kaila a ir com você, me deixando para traz por um tempo – Ele voltou a dizer, um pouco menos deprimido agora, porém convicto – Eu não posso impedir vocês assim. Mas sei que ela é teimosa e pode não aceitar, por se preocupar comigo. Por isso quero que você fale com ela, ao meu lado, e a convença de que ficará tudo bem. Ela confia em você, também. Tenho certeza de que juntos podemos convencê-la a ir.
Não, isso era impossível. Aquela garota irritante nunca deixaria seu irmão perturbado para trás. E isso, definitivamente, me deixava furiosa só de imaginar. Eu não podia mais perder tempo, precisávamos partir a qualquer custo. Eu tinha que ter meus pais de volta.
Eu não sabia o que fazer. Pela primeira vez, eu me vi em uma situação da qual eu não poderia sair apenas com minha inteligência. Ser um gênio não estava me ajudando naquela hora.
Mas então, provando que eu estava errada, e que meu intelecto podia sim me tirar de qualquer problema, eu descobri a solução, após ouvi-lo dizer:
– Enquanto eu tiver esses sonhos, eu não serei capaz de partir com vocês, mesmo que isso me magoe e me destrua por dentro.
Eu não prestava atenção no que ele dizia. Apenas em uma palavra que saiu de sua boca: Sonhos. Sim, seu problema é simplesmente um sonho idiota que aparece, o atormenta, e me impede de seguir em frente. Malditos sonhos. Apenas isso, nada mais.
Como eu não percebi isso antes?
– Ky! – Gritei, interrompendo seja lá o que ele estivesse me contando – Eu sei como te curar!
Eu sorria. Mas não era fingimento, eu realmente estava feliz em ter descoberto uma forma de curar aquele garoto. Pois só assim poderíamos partir.
Ele ficou chocado ao me ouvir dizer isso. O puxei para perto e o abracei forte, dizendo que ficaria tudo bem. Eu cuidaria dele daqui pra frente. Ele poderia sim, partir em uma jornada com sua irmã. Comigo.
Eu sentia suas lágrimas caindo em meu ombro, enquanto o mantinha seguro em meus braços. Ele não sabia o que dizer, ou acreditar, mas demonstrava confiar em mim. Eu havia me tornado importante para ele.
Sonhos. Simples e malditos sonhos. Caso eles não ocorram, não haveria nada mais sobrando para atormentar aquele pirralho. Tudo o que eu tinha de fazer, era consumir seus sonhos, impedindo-os de continuarem a me atrapalhar. Sim, seria um pé no saco fazer o que pretendia, mas com certeza daria certo, e ele poderia partir em uma jornada tranquilamente.
Eu estava tão feliz. Minha vingança estava ainda mais perto.
Antes de contar a ele meu plano, eu o convenci a continuarmos nossa caminhada, até chegarmos ao lago. Eu queria que o local fosse lindo, para quando eu lhe mostrasse o que salvaria sua jornada, ele pudesse sentir algo especial em relação a mim. Algo forte, que ele fosse incapaz de esquecer. Algo que me manteria em seus pensamentos.
Eu tinha que enganá-lo perfeitamente, controla-lo da melhor maneira possível. Precisava elevar ainda mais sua confiança em mim. Seria tão divertido.
Assim que avistamos aquele belo lago, eu segurei sua mão e o puxei até uma bela árvore, cheia de flores lilás. Era um local perfeito. Calmo, sereno. Incrivelmente belo e que transmitia, por si só, uma paz enorme. Uma tranquilidade. Não havia local melhor para iludi-lo.
Nos sentamos em baixo daquela bela árvore. Olhando suas flores, e observando o lago, com uma brisa gentil nos confortando. Ele sorria, inocentemente. Alegre. Era nítido que aquele momento já havia se tornado especial para ele. Minha mão se mantinha sobre a sua, como se fossemos um casal, quando eu finalmente lhe disse:
– Se der certo o que eu estou pensando, eu serei capaz de consumir seus sonhos, permitindo você a dormir tranquilamente, Ky – Continuava sorrindo para ele, delicadamente.
– Como? – Ele parecia tão bem agora. Totalmente relaxado, sem preocupações.
– Minha Kirlia! – Abri meu maior sorriso, após dizer isso, demonstrando estar muito feliz por poder ajuda-lo.
Ele parecia não entender como um Pokémon poderia ajudá-lo. Estava totalmente surpreso, e um pouco encantado comigo, por ter descoberto isso.
Contei a ele sobre um dos Golpes que minha Kirlia conhecia. Um Golpe que poderia funcionar com um humano, também. Eu não tinha certeza se poderia mesmo funcionar, mas não tínhamos outra escolha. Ele percebeu isso e ficou decido a tentar. Ele faria aquilo ao meu lado, e demonstrava estar feliz quanto a isso.
– Pode não dar certo, mas não importa o que aconteça, eu quero você saiba que tudo isso que está fazendo, é muito importante para mim, ok? – Ele segurou minhas duas mãos, enquanto nos preparávamos para voltar – Muito obrigado mesmo, Luna! – Ele também deu seu maior sorriso para mim, totalmente feliz.
Mas sorri em retorno, caminhando ao seu lado, até a casa de sua avó. Iríamos contar aos outros sobre o que pretendíamos, e a noite veríamos se iria funcionar ou não.
– Isso é sério? – Perguntou Kaila, ao nos ouvir explicar nosso plano – Meu Deus, Luna, muito, muito obrigada! – Ela pulou em mim, me abraçando o mais forte que podia, emocionada. Era irritante, mas eu tinha que fazer aquilo.
Não só ela, mas todos passaram e me olhar como se eu fosse uma espécie de heroína, me agradecendo com toda aquela comoção. Brad me deu um agradecimento barulhento, que me fez duvidar, mais uma vez, se ele não tinha algum problema na cabeça. Enquanto Ky ainda se mantinha ao meu lado, ainda encantado com tudo aquilo. Mais agradecido que os outros. Afinal, eu estava prestes a salvar seu futuro romance com sua irmã. Podia apostar que ele me amava mais do que ao próprio Brad, naquele momento. E isso me deixava com uma vontade enorme de rir.
Para tentar descontrair um pouco o momento, enquanto esperávamos o anoitecer, já que ele teria que estar dormindo para meu plano acontecer, eu chamei os dois garotos e perguntei:
– Vocês dois perderam tanto tempo ontem, após a batalha, que esqueceram de olhar os EV’s recebidos. Se esqueceram que qualquer experiência obtida irá crescer seu Pokémon, tornando-o mais forte fisicamente?
Todos, inclusive Kaila, ficaram de boca aberta. Eles realmente nem haviam reparado que não fizeram algo tão simples e importante, quanto checar a evolução de seu Pokémon.
Ambos tiraram suas Pokédex, após pegarem a Pokébola dos dois Pokémon envolvidos no combate de ontem. Então, segurando a Pokébola em uma mão, e usando a Pokédex para checar as atualizações com a outra, eles disseram:
– EV’s de meu Chespin: HP (002/400) – Attack (002/400) – Defense (001/400) – Special Attack (000/400) – Special Defense (002/400) – Speed (001/400) – Disse Brad, contente.
– Agora a vez de meu Froakie – Ky, também sorria – HP (001/400) – Attack (001/400) – Defense (002/400) – Special Attack (002/400) – Special Defense (000/400) – Speed (002/400).
Expliquei a eles, que o crescimento de um Pokémon, também era baseado em seus pontos fortes e fracos, e não apenas na forma como obtiveram a experiência. Por isso o ganho foi diferente para cada um deles.
– Nossa, o máximo obtido foi 2 pontos, apenas – Reclamou Brad – Essa Pokédex deve estar estragada, não é possível que é tão complicado assim, terminar o crescimento físico de um Pokémon.
– Geralmente é assim mesmo, o ganho de EV’s. De 0 a 2, na maioria dos casos – Explicou Kaila – Mas, raras vezes, você verá que a experiência foi tão alta, que seu Pokémon poderá receber de 3 a 4 pontos.
Foi o suficiente para fazê-los entender. Mesmo que sejam idiotas.
– Ei, espera, nos esquecemos de uma outra coisinha, também, parceiro – Disse Brad, soltando seu Chespin – Estávamos tão animados com nossa batalha, que nem ao menos registramos nossos Pokémon em nossa Pokédex.
Após aponta-la para seu Chespin, que tinha uma expressão bem confiante, sua Pokédex o informou:
“Chespin, um Pokémon Noz Pontiaguda. Os espinhos maleáveis em sua cabeça, podem se tornar tão duros e afiados, que são capazes de até mesmo cortarem pedras. Uma couraça grossa de madeira cobre suas costas e a parte traseira de sua cabeça. Ela é tão resistente, que nem mesmo uma batida de caminhão o incomodaria.”
Brad sorriu, inocente. Aparentava estar ainda mais feliz com seu Pokémon, mesmo já, provavelmente, já estar por dentro de todos esses detalhes, já que Kaila me contou que ele e Ky são fascinados por livros Pokémon, principalmente os sobre espécies.
Ky o seguiu, e fez o mesmo com seu Froakie:
“Froakie, um Pokémon Sapo Borbulhoso. Ele é capaz de criar bolhas em suas costas e peitos, tão macias quanto algodão, porém muito mais resistente. Essas bolhas são conhecidas como Frubbles, e elas o protegem de ataques, tal como o deixa apto para usá-las de outras maneiras em uma batalha. Froakie é capaz de cobrir todo seu corpo com seus Frubbles, e apesar de ter uma aparência despreocupada, ele sempre se mantém atento.”
Ky também sorria, bobo. Admito, era muito patético ver esses garotos, felizes com qualquer coisinha. Eu chegava a ficar com pena deles.
Kaila estava tão feliz, ao ver seu irmão sorrindo novamente. Tanto que não parava de olhar pra mim, me agradecendo sem precisa dizer nada, apenas com sua expressão alegre e grata. Eu sempre sorria em retorno, deixando-a ainda mais confortável. Eu era ótimo em deixar as pessoas ao meu redor, se sentirem bem. Todo mundo me amava.
A noite havia chegado. A avó de Kaila fez questão de preparar uma comida deliciosa para comemorar o provável sucesso de meu plano. Após comermos, fomos até o quarto de Ky, que já estava pronto para dormir e convocar aquele pesadelo para atormentá-lo.
Eu liberei minha Kirlia, após algum tempo sem vê-la. Eu podia não ser capaz de amar as pessoas de uma maneira mais fácil, mas com os Pokémon era diferente. Principalmente com os meus. Eu os respeitavam com todo meu coração. Cuidava e amava cada um deles.
Kirlia estava pronta. Kaila, sua mãe e avó, se mantiveram ao meu lado, enquanto Ky caía no sono. Brad acabou dormindo, também, demonstrando não estar muito preocupado com o plano. Ou tinha certeza de que funcionaria, ou não ligava para o resultado. Acho que era a primeira opção, já que seu amor pelo amigo parecia ser verdadeiro, mesmo que ridículo ao meu ver.
Tudo o que tínhamos que fazer, era esperar o pesadelo chegar. Tínhamos que ficar acordadas, até o momento acontecer.
– Mesmo que isso dê certo – Começou dizer a avó de Kaila – Será uma solução permanente, ou você teria de fazer isso todas as noites, ao lado dele?
Kaila percebeu que essa era uma pergunta bem importante. Afinal, se a resposta fosse a segunda opção, isso significaria que eu estava disposta a sacrificar muita coisa pelo bem de seu irmão. Pensar nisso a deixou com ciúmes, pois nunca imaginou que eu viesse a sentir algo assim por Ky. Eu disse, ela era uma garota fácil de entender. Apenas olhando suas expressões, eu era capaz de decifrá-la por completo.
– Creio eu que a segunda opção, senhora – Respondi, notando Kaila ficar totalmente surpresa, imaginando de onde veio toda essa vontade de ajudar seu irmão – Mas, não se preocupe, não há problema algum pra mim. Eu faria muito mais por ele, se fosse capaz – Essa última fala. Ah, como essa última fala a fez ficar sem jeito. Nossa, eu sentia um frio em minha barriga, de tão bom que era, sentir aquela garota ficando mais e mais desconfortável com seus sentimentos pelo irmão.
Eu era tão incrível.
Pena que aquele momento não durou muito, pois o pesadelo havia chegado. Ky começou a se mexer, de começo apenas se incomodando com alguma coisa, e sem seguida iniciando todo aquele desespero. Porém, antes que aquilo pudesse continuar por mais que alguns segundos, eu agi:
– Kirlia, agora! – Ela fechou seus olhos, demonstrando estar pronta – Dream Eater! Consuma todo o seu sonho, deixe-o finalmente livre para dormir e descansar, por favor!
Sua energia começou a penetrar a cabeça de Ky. Segundos depois, ela começou a consumir seu pesadelo. Uma força preta era sugada da mente de Ky, passando pela energia conectada diretamente a cabeça de Kirlia. Ao chegar em seu destino, passando de Ky para Kirlia, o pesadelo era filtrado em uma energia boa, pronta para ser digerida por minha Pokémon, que se fortalecia ao comê-los.
O processo durou cerca de um minuto. Kirlia havia digerido toda a energia ruim em sua mente, todo aquele pesadelo.
Ky dormia tranquilamente, sem nada mais lhe perturbando, enquanto toda sua família demonstrava sinais de aliviamento. Enquanto eu sorria para Kaila, gentilmente, demonstrando a ela que fui capaz de salvar seu irmão, enquanto ela apenas pôde observar, indefesa.
Eu tinha Ky em minhas mãos agora. Aquele garoto era meu, até eu finalmente ser capaz de completar minha vingança.
Realmente. Eu era fantástica.
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