Impossible's Path
3 Capítulo 02: Kaila - Pain's Path
Notas iniciais
Ano 2014, 9 de Dezembro
Por favor, isso tinha que parar. Eu não aguentava mais. Alguém precisava ajuda-lo.
Era impossível conter minhas lágrimas. Eu sentia toda sua dor. Meu irmão sofria tanto, que meu peito ardia só de olhar. Por favor. Eu não podia mais vê-lo chorar.
Meu querido irmão. Por que tinha de sofrer justamente em seu aniversário? No dia tão especial que esperou por tanto tempo. No dia em que finalmente estaria ao meu lado, para o início de algo incrível. Por quê?
Essas pessoas. Por que isso estava acontecendo? Porque eles tinham que machucar tanto meu irmão? Por que eu tinha que ficar parada, assistindo alguém que amo tanto, passar pelo momento mais angustiante de toda a sua vida?
A dor era tão forte que eu mal tinha forças para me manter consciente.
Eu lutava, com tudo o que tinha, para não olhar, para desviar meus olhos daquele pesadelo. Mas eles não iriam permitir isso. Eu tinha que olhar. Era forçada. Eles precisavam me destruir por dentro, me forçando àquilo.
Eu sentia que poderia morrer a qualquer instante. A dor dele, somando com a minha. Era intensa demais pra mim.
Eu não podia... mais...
Ano 2014, 10 de Dezembro
Fui acordada com um pouco de água fria. Me levantei, agitada. Fraca.
Eu mal tinha ficado lúcida novamente e já estava me lembrando de toda aquela cena. Eu ainda queria chorar.
− Já dormiu demais, pirralha – Disse aquele homem – Não imaginei que ficaria um dia inteiro desacordada, só por aquilo.
“Só” por aquilo? Eles tentaram matar meu irmão de agonia. Ninguém é capaz de assistir alguém amado passando por aquilo, sem perder totalmente a vontade de viver.
Era uma cena tão cruel, que eu nunca imaginei ter pessoas por aí capazes fazê-la. Eles eram o mal em pessoa.
− Você devia ter assistido até o final – A mulher com longos cabelos vermelho se divertia com tudo isso – Ver os dois filhos dele chorando até perderem os sentidos, foi um dos maiores prazeres que tive em toda a minha vida.
Parece que realmente era impossível esperar algum tipo de humanidade desses dois. Eu estava diante da personificação da crueldade.
Eu ainda estava com minhas mãos atadas e com uma fita em minha boca. Minhas Pokébolas e Pokédex não estavam mais comigo, eles haviam tomado. Dei uma boa olhada ao redor e, pelo barulho lá fora, eu percebi que estávamos em um avião.
Antes de ser sequestrada por eles, tudo o que me lembrava era de estar tomando um suco na lanchonete do shopping. Luna precisava ir ao banheiro, por isso fiquei sozinha por alguns minutos. Então, repentinamente, tudo ficou escuro e fui acordar já amarrada em um galpão abandonado da cidade.
A mulher não estava quando acordei, apenas o homem. Ele havia dito que ela estava esperando por meu irmão no aeroporto, para lhe enviar a mensagem assim que aterrissasse.
Ele tomou meus sapatos, dizendo que precisaria deles para nos fazer pagar. Pagar pelo quê? Eu não compreendia nada que estava acontecendo, mas estava aterrorizada. Principalmente quando meu irmão apareceu, ao lado de Brad.
Depois tudo o que aconteceu foi um sofrimento crucial. Algo tão brutal que era impossível para mim descrever.
Eu só podia ficar lá, parada. Assistindo meu irmão chorar, pensando que eu estava morta. Que aquele corpo era meu. Incapaz de puxar aquela lona e descobrir a verdade.
Algo tão cruel. Eu ainda mal acreditava em tudo aquilo.
Como eles nos conheciam, ou sabiam que meu irmão estava a caminho de Kalos? Por que estavam fazendo tudo isso? Aquele corpo. Como foram capazes disso, apenas para proporcionar uma terrível dor em mim e meu irmão?
− Sei que você deve estar se fazendo milhares de perguntas – Começou a mulher – Mas nada disso importa agora, ok? Tudo o que você precisa entender é que seu pai nos causou muita dor. Tanta, que nos sentimos no dever de compartilhar com seus filhos. Você e seu irmão.
Meu pai? Ele nunca seria capaz de ferir uma pessoa desse jeito. De maneira alguma, muito menos da forma que eles faziam comigo e meu irmão. Jamais.
− Ele nos fez perder uma filha – Era nítido a frieza na voz daquele homem – Portanto, nada mais justo que fazê-lo perder uma, enquanto assiste o outro sofrer um lapso de sanidade. Pois lhe digo isso, a forma como aquele garoto parecia sofrer, era mais que o suficiente para lhe deixar com um trauma perturbador para o resto da vida – Ele sorriu, me deixando sem ar – Não é perfeito?
Lágrimas escorriam novamente por meu rosto. Eu não merecia aquilo. Por favor.
− Bom, apenas se mantenha quieta, pois em breve você verá o final dessa história – O olhar que a mulher me dava era assustador – Um pequeno spoiler? Não será um final feliz pra você, pirralha.
Eles saíram, me deixando naquele cômodo. Eu ainda chorava muito. Minha dor não iria sumir, de maneira alguma. Estava com tanto medo.
O lugar parecia ser algum tipo de cômodo para bagagens, pois haviam caixas espalhadas por todos os cantos. Estava bem escuro, mas era possível enxergar um pouco, graças às duas pequenas janelas ao fundo. Era noite ainda, provavelmente a madrugada do dia seguinte.
Eu havia perdido nosso aniversário. Mal conseguia imaginar o quanto meu irmão deveria estar sofrendo agora.
− Sinto muito, garotinha – Disse uma voz, nessa parte ao fundo do lugar – Não era para nada disso estar acontecendo.
Eu não conseguia ver direito, por causa de minhas lágrimas. Me esforcei para enxuga-las e clarear minha visão.
Era um Meowth. Falante? Como isso era possível?
− Sabe, eles não eram assim. Quero dizer, a gente sempre foi uma equipe do mal, mas não dessa forma – Ele parecia triste.
Suas mãos também estavam atadas. Ele era um prisioneiro, assim como eu. Eu não conseguia falar, mas estava disposta a ouvi-lo.
− Eles mudaram depois da morte de Jenny – Ele começou, com lágrimas nos olhos – Aquele incidente transformou seus corações em cinzas. Deformou completamente suas personalidades.
Falar sobre isso era difícil pra ele. Eu gostaria de saber o que aconteceu entre eles e meu pai, mas também o motivo de um Meowth falante fazer parte de uma equipe do mal. Não fazia sentido imaginar que há Pokémon por aí capaz de fazer coisas horríveis com os outros. Eu não gostaria de pensar assim.
Mesmo aborrecido com tudo aquilo, eu sentia que ele precisava desabafar, por isso continuei prestando atenção em suas palavras.
− Não importava qual fosse nosso objetivo. Qual Pokémon tínhamos que roubar. Estávamos sempre juntos – Seu olhar estava distante, parecendo reviver todos os momentos que falava − Brigando, na maioria do tempo, mas juntos. Éramos uma família. Mas, quando você percebe que sua família se perdeu completamente, entrando num mundo muito mais obscuro que o nosso, um lugar sombrio que poderia facilmente obliterar suas almas, só então você entende o quão importante para você eles são. Então você se dá conta, que trazê-los de volta desse lugar, seria a sua missão de vida, custasse o que for.
Ele ficou em silêncio por um tempo. Eu queria poder conversar com ele, tentar entender melhor toda essa dor. Afinal de contas, ele era apenas um Pokémon, não importando seu passado. Eu me sentia mal por ele.
− Eu sou um Pokémon – Retornou a contar, dessa vez olhando diretamente pra mim – Sou incapaz de sentir tanto ódio assim. Humanos têm o defeito de se desviarem desse caminho de uma forma tão fácil, que me intriga. Os Pokémon são diferentes. Nós também somos capazes de sentir raiva, de nos sentirmos tristes e desolados. Só Arceus sabe quantas vezes eu já fiquei furioso com alguma coisa. Mas já os humanos...
Eu estava totalmente sem palavras. Esse Pokémon era incrível. A forma como ele era capaz de sentir e entender o mundo ao redor, era impressionante. Era tão sábio. Tão humano, de certa forma.
− ...os humanos vão além. Eles permitem o ódio os controlarem, deixando-os totalmente cegos. Passam a odiar tanto, que se esquecem de tudo o que há de bom em suas vidas, para enxergar apenas o que perderam. Enxergar apenas o caminho destrutivo que deverão seguir, guiados pelo gigantesco rancor. Isso é tão errado, que eu não podia permitir que acontecesse, entende? Você seria capaz de deixar sua família seguir por um caminho desses?
Eu nunca passei por algo do tipo, mas sentia perfeitamente o que ele dizia. Tanto que meu coração chegava a doer. Um Pokémon com uma dor dessas, era tão injusto. Minhas lágrimas voltaram a cair. Eu realmente era uma chorona.
Eu movi minha cabeça, tentando responder a ele que nunca permitiria isso, também. Que o entendia bem e estava de seu lado.
− E é por isso que estou aqui, jogado de lado, como se não tivesse importância alguma para eles – Suas palavras me faziam chorar ainda mais – Tudo graças ao meu amor por eles, minha vontade de leva-los de volta para o caminho certo – Ele deu outra pausa, dessa vez para se levantar e caminhar até mim − Mas enfim, garotinha, desculpe se a incomodei com tudo isso. Eu apenas gostaria que você não os visse como monstros, mas sim como humanos que se perderam na densa névoa que é a vida. Só lhe peço isso.
Ele sentou ao meu lado. Agora era ainda mais nítido para mim, as lágrimas em seus olhos.
− Mas não se preocupe, tudo vai ficar bem. Seu pai já deve estar a caminho.
Isso me surpreendeu. Seria possível meu pai saber onde estávamos? Ele, com certeza, já estaria ciente que aquele corpo não era meu, que eu ainda estava desaparecida. Devia estar com Luna, meu irmão e todos os outros. Mas como ele poderia estar a caminho, se não sabia nem o que estava acontecendo? Eu não tinha essas respostas, mas admito que me tranquilizei bastante com aquelas palavras. Ele parecia estar sendo sincero. E o agradecia muito por isso.
Ele ficou em silêncio após isso. Estávamos apenas ali, sentados em um canto escuro, um do lado do outro. Parecíamos amigos. Ao menos, eu gostaria de pensar nele como um.
Algum tempo passou e acabei ficando com sono. Estava tão cansada. Tão frágil. Havia sentido tanta dor naquele dia, que eu ainda me perguntava como conseguia me manter acordada.
Devo ter começado a tirar um cochilo, que, infelizmente, não durou muito. Eles voltaram e, novamente, me acordaram com um pouco de água fria.
− Ei, olhe, pirralha – Disse o homem, enquanto eu me recompunha, por ter sido acordada às pressas de novo – É o seu pai.
Ele segurava minha Pokédex, mostrando uma chamada holográfica. Era o meu pai.
Aquilo me fez acordar de uma vez. Eu sabia que ele viria me procurar.
− Não é bonitinho, ele ligando atrás de sua filha? – Ele dava gargalhadas, zombando de mim – Mal sabe ele que sua filha está bem perto de conhecer um destino terrível.
− James, você precisa aterrissar esse avião imediatamente – Disse Meowth, olhando fixamente para aquele homem – Você sabe muito bem o quão poderoso o pirralho se tornou. Ele não irá lhe dar uma nova chance. Apenas faça isso, por favor.
− Que tipo de merda você está falando? – As palavras de Meowth o deixaram totalmente fora de si – Não irá me dar uma nova chance? SOU EU QUEM NÃO IRÁ DAR UMA SEGUNDA CHANCE PARA AQUELE MALDITO! – Sua ira me deixou completamente aterrorizada. Ele apertava minha Pokédex com violência – ELE ACABOU COM MINHA FAMÍLIA!
− Não – Persistiu Meowth – Vocês ainda têm a Jô. Sabe pelo o que aquela garota está passando? Sendo forçada a ver os pais se distanciarem. Ela é quem mais sofre com essas atitudes. E além do mais... – Ele parecia tão triste agora, que partia meu coração – Vocês ainda têm a mim, também.
A mulher colocou suas mãos no ombro do homem, o acalmando um pouco. Seus olhos pareciam duvidar, mesmo que por milésimos de segundo, de suas ações. Mas, infelizmente, ele não deu ouvidos ao bom Pokémon.
Talvez para provar seu ponto, ele atendeu a ligação. Um holograma de meu pai apareceu na Pokédex. Vê-lo me deixou tão aliviada.
Foi meu pai quem falou primeiro:
− James, eu sei que está com minha filha – Era tão bom ouvir a voz de meu pai novamente, que me sentia muito mais segura agora – E sei exatamente o porquê de estar fazendo isso. Sei tão bem, que estarei disposto a deixa-los irem. Apenas entreguem minha filha e poderão partir, totalmente ilesos.
As palavras de meu pai ascenderam novamente as chamas do ódio daquele homem.
− Você deve estar de brincadeira... – Sua voz parecia tão distante, que eu sentia que ele nem ao menos estava mais presente – Sério, pirralho, diga que está de brincadeira... irá me deixar ir? Você disse que sabia exatamente o meu motivo, então sabe perfeitamente de quem é a culpa, certo? E ainda... nossa, estou tão irritado que mal consigo falar... não fale como se estivesse tudo bem, seu maldito! Eu estou com sua filha bem em minha frente, posso fazer você pagar pelo o que fez em questão de segundos!
− É sua última chance, James, não irei dizer novamente – Meu pai estava tão sério. Era a primeira vez que o via desse jeito.
− Morra, você e suas palavras, seu lixo! – Bufou aquele homem, jogando minha Pokédex na parede.
O homem chamado James ainda rogava pragas, quando Meowth começou a mover suas orelhas. Ele parecia estar ouvindo alguma coisa, além do barulho do avião.
− Ele está aqui – Foi tudo o que ele disse.
Depois daquelas palavras, tudo aconteceu tão rápido e com uma adrenalina tão forte, que parecia apenas um sonho. Um enorme sonho de ação. Com emoções fortes o bastante para me fazer esquecer totalmente de minha situação, para pensar em outra coisa muito importante pra mim.
Uma rajada gigantesca de fogo atravessou a aeronave, a cortando ao meio. Fomos arremessados de um lado para o outro, enquanto a metade em que estávamos começava a girar, em queda livre.
Eu pude ver a outra metade do avião começar a cair, pelo buraco enorme que se criou à frente. Foi uma cena tão aterrorizante que meu coração pensava seriamente em parar. Mas não foi o que aconteceu. Pelo contrário, ele começou a bater tão intensamente que me manteve acordada, pensando.
Dizem que quando você está prestes a morrer, toda a sua vida passa diante de seus olhos. Pode ser verdade, mas comigo foi diferente. A única coisa que eu pensava, era no futuro e não em meu passado. No futuro que eu não seria capaz de dar ao meu irmão. Seu sonho. Nossa promessa. Era a única coisa que me vinha â mente.
Estávamos em queda livre por mais ou menos cinco segundos, mas parecia uma eternidade. Enquanto caixas voavam para todos os lados, gritos, meus e dos outros, ecoavam por todo o lugar, o céu ainda brilhava acima de nós, com tantas estrelas quanto possível. Esperava que meu irmão estivesse olhando-as naquele momento.
Mesmo que eu tenha imaginado que aquela imagem fosse a última que eu chegaria a ver, uma enorme sombra surgiu, tampando completamente o buraco, fazendo as estrelas desaparecerem. Instantaneamente aquela metade do avião parou de cair, a sombra nos segurava com suas enormes garras, enquanto batia suas incríveis asas.
− Desculpe por isso, querida – Disse uma voz, vinda daquela sombra – Eu não tive a intenção de lhe assustar.
Não demorei para clarear a mente de toda aquela adrenalina, e percebi que era a voz de meu pai. Consegui, também, ver quem segurava aquela metade do avião em que estávamos, enquanto voava tranquilamente em direção ao chão. Era o Mega Charizard de meu pai.
Realmente parecia tudo um sonho. Principalmente após o grande barulho causado pela outra parte do avião, bem distante de onde estávamos.
− Pika-pi – Ouvir essa voz me fez sorrir.
Pikachu desceu do ombro de meu pai, usando toda sua destreza ao descer pela bagunça que o lugar havia se tornado, até chegar onde eu estava. Ele tirou a fita de minha boca, me fazendo respirar fundo, finalmente. Enquanto ele tentava me desamarrar, com seus dentes, eu dei uma olhada ao redor. Meowth estava acordado, porém sentia muitas dores. Já a mulher e o homem foram totalmente soterrados pelas caixas. A mulher parecia estar inconsciente, mas o homem ainda era capaz de falar:
− Como isso... é possível...? – Ele mal conseguiu dizer aquelas palavras.
Percebi que Meowth gostaria de responde-lo, mas não o fez. O homem praguejou uma última palavra, antes de finalmente ficar inconsciente.
− Segure-se, querida, estamos prestes a aterrissar – Disse papai, me tranquilizando por completo. Eu podia finalmente me acalmar e descansar um pouco, mesmo sentindo um pouco de dor.
Aparentemente estávamos sobrevoando um deserto, pois foi num lugar cercado por dunas de areias que Mega Charizard nos aterrissou. Aquele pesadelo finalmente havia terminado.
Papai me ajudou a levantar, tirando seu casaco e colocando-o em torno de mim. Eu o pedi para ajudar Meowth. Ele ficou surpreso, mas o fez mesmo assim. Com dificuldades, andamos até o ar seco do deserto, fora daquele destroço enorme do avião.
− E quanto a eles... pirralho? – Perguntou Meowth, com dificuldades.
− Não se preocupe, irei tirá-los de lá, também – Sua voz demonstrava um enorme senso de dever.
− Não foi isso... que eu quis dizer... – Percebi que Meowth poderia vir a desmaiar se continuasse se esforçando, por isso fiz com que se sentasse, bem ao meu lado.
Pedi que descansasse. Ele não estava bem, tinha que parar por um tempo, tentar relaxar.
− Eles virão comigo, até a prisão do governo, Meowth – Respondeu papai, após um tempo – Por ainda possuir aquilo, você não será julgado. Mas eles terão de sofrer as consequências de seus atos. De novo.
Eu não entendia nada que diziam, exceto a parte do governo, já que meu pai era um dos grandes agentes que trabalhavam lá. Mas continuava preocupada com Meowth.
Ele se esforçou para se levantar. Queria dizer algo tão importante, que, mesmo com muitas dores, se pôs de pé.
− Você me deve – A voz dele era fraca, mas ele estava obstinado a falar – E muito... pirralho.
Papai não respondeu. Ambos ficaram se olhando, fixamente.
Eu estava preocupada. Eles estavam tão sérios que chegava a me assustar.
− Ei, você dois... – Eu não sabia o que falar, mas tentei mesmo assim.
− Eu sei bem disso – Respondeu meu pai, respeitando Meowth – Acredite, eu nunca vou me esquecer daquilo. Mas o que espera que eu faça? Eles pensam que matei Jennifer e não importa o que eu diga, nada parece fazê-los entender a verdade. Isso os mudou tanto que agora estão até mesmo sequestrando crianças, atormentando seus amados familiares e até mesmo... Meowth, aquela garota no galpão... eu não posso deixá-los irem.
É mesmo. Aquele corpo no galpão. Imaginar que ela foi usada, por minha causa. Meu peito doía tanto.
Meowth respirou fundo, tentando relaxar um pouco. Então, respondeu ao meu pai:
− Eles não têm nada a ver com aquilo. Sei que parece impossível de acreditar, e eu não tenho provas do que falo, mas você terá que acreditar em mim. Assim que chegamos em Kalos, eles foram a procura de um galpão, um que pudesse ser usado para esconder seus filhos. O plano deles era outro. Porém, lá estava, o corpo de uma garota – Ele voltou a ficar com aquela expressão triste de antes – E eles... eles estavam tão consumidos pelo ódio que, sem pensar duas vezes, resolveram usar aquilo em um outro plano diabólico...
Ele não prosseguiu. Meu pai estava quieto, enquanto eu estava totalmente sem jeito, sem saber o que dizer. Apenas sentada, ao lado de Meowth, segurando-o para que não caísse de dores. Aquela conversa estava tão além dos meus conhecimentos, que eu me sentia ao lado de dois estranhos. Porém, Charizard e Pikachu pareciam entender bem o que conversavam. Acho que passaram juntos por tudo o que comentavam naquela discussão.
Mas, afinal, se não foram eles que mataram aquela garota, então, quem foi?
− Você está me dizendo que há um assassino solto em Kalos, e vocês não têm a mínima noção de quem possa ser? – Meu pai parecia acreditar em Meowth, mas mesmo assim sentia que devia fazer aquela pergunta.
− Exatamente – Meowth voltou a se sentar, parecia ter o fôlego necessário para continuar a falar agora – Olha, eu sei que no momento eles estão completamente perdidos. Mas você precisa se lembrar que um dia fomos todos parceiros. Você os conhece bem, sabe que nunca passariam a fazer o que estão fazendo, se não tivessem sofrido algo terrível antes.
− Meowth-
− Apenas ouça − Disse Meowth, interrompendo meu pai – Eu não estou lhe pedindo para deixá-los cometendo crimes atrás de crimes. Apenas quero que você me dê uma última chance, para tentar ajuda-los e fazê-los voltar ao normal. Então, caso eu falhe e eles voltem ao lado obscuro, eu mesmo virei até você e o ajudarei a detê-los de uma vez por todas.
Eu não sabia nada do relacionamento de meu pai com aquelas pessoas e Meowth, mas era nítido que havia uma confiança enorme por parte de meu pai, pois eu sentia que ele acreditava de verdade naquele bom Pokémon. Ele confiava em Meowth.
− Tudo bem – Respondeu meu pai. Ele não precisou de muito tempo para demonstrar que estava disposto a deixar tudo com Meowth. Tamanha confiança, eu estava totalmente admirada.
Eu tinha que me lembrar de perguntar tudo ao meu pai, quando voltássemos. Tudo aquilo me deixou tão curiosa, que eu precisava saber o passado que tiveram juntos.
Charizard ainda estava Mega Evoluído, quando foi até os destroços do avião e tirou aqueles dois de lá, a comando de meu pai.
Percebi que minhas Pokébolas ainda estavam com a mulher. Tirei um peso enorme de minhas costas, ao juntar todas elas novamente. Meus queridos Pokémon. Esperava que nada de ruim tivesse acontecido com eles, por causa de toda aquela confusão. Queria chama-los, para lhes dar um abraço bem forte, dizer que estava tudo bem. Mas eu não queria que me vissem assim, por isso resolvi esperar, até voltarmos pra casa.
− Você precisa que eu os deixe em algum lugar? – Perguntou papai, olhando para Meowth.
− Não – Foi tudo o que Meowth respondeu, demonstrando ainda um pouco de dor.
− Certo – Compreendeu papai, se virando e caminhando em minha direção – Venha, querida, vamos pra casa.
Ele me pegou no colo, deixando Meowth sentado onde estava.
Já estávamos em cima de Mega Charizard, quando olhei para Meowth, observando-o. Eu realmente o considerava um amigo agora. Após tudo o que passei, conhecer esse maravilhoso Pokémon, foi o suficiente para me fazer sentir confortável. Eu precisava vê-lo uma outra vez.
− Ei, Meowth... – Eu disse, ainda me sentindo mal por ter de deixa-lo ali, naquela situação.
− Não se preocupe, garotinha – Ele sorriu, pela primeira vez naquela noite – Eu ficarei bem e, definitivamente, iremos nos encontrar novamente. Numa melhor situação, claro.
Seu sorriso era tão lindo, que me fez sorrir, também, apesar de tudo. Percebi que ele, também, me considerava uma amiga. Me sentia tão feliz.
Mega Charizard começou a bater suas asas, afastando minha visão de Meowth, até que já não era mais possível vê-lo. Pikachu sorria para mim, tentando me consolar, provavelmente dizendo “Deu tudo certo, Kaila”. Eu sorria, encantada e agradecida.
Papai disse que demoraríamos algumas horas, até chegarmos em Vaniville Town, por isso eu deveria dormir. E foi o que eu fiz. Fechei meus olhos, tentando deixar tudo o que aconteceu pra trás, e comecei a descansar.
Dessa vez eu não fui acordada com água fria, graças a Deus. Pelo contrário, dormi o máximo que pude e, ao abrir meus olhos, percebi que estava no quarto antigo da mamãe. Estávamos na casa de minha avó, em Vaniville Town.
− Ei, Bela Adormecida – Era Luna, em frente à janela – Você dormiu o dia todo.
Percebi que era noite. Eu realmente tinha que começar a mudar isso, pois estava me transformando numa espécie de monstro do sono. Era a segunda vez que eu dormia o dia inteiro e acordava à noite.
− Há há, relaxa, parceira – Dessa vez era Brad, ao lado de Luna − Ela apenas passou por tanta coisa, que dormir, definitivamente, era o único jeito de se recuperar.
Apesar de ter seus defeitos, Brad sempre me tratava muito bem. Ter alguém como ele cuidando de meu irmão por mim, me deixava tranquila.
Dei uma olhada ao redor. Ainda faltava alguém. Alguém muito, muito importante.
− Onde ele está...? – Minha voz saiu mais fraca do que imaginei, eu realmente estava exausta.
− Não se preocupe, ele está lá em baixo, arrumando as flores que colheu – Disse Luna, me tranquilizando.
− Flores...? – Dei um pequeno sorriso, disfarçando minha alegria.
− Não se faça de boba – Ela disse, puxando Brad até a porta – Iremos chama-lo pra você. Não se esqueça de agradecê-lo apropriadamente, mocinha – Ela me deu uma piscadinha obscena, me deixando sem jeito.
Eles fecharam a porta ao sair, me deixando sozinha. Eu finalmente veria meu irmão, após tanto tempo. Eu corava, só de imaginar.
Voltei a dar uma olhada ao redor e percebi que minhas Pokébolas estavam numa pequena escrivaninha, bem ao lado de minha cama. Não pensei duas vezes e soltei cada um deles. Eu precisava vê-los.
− Ivysaur, Vaporeon, Persian, Sneasel, Ampharos e Rapidash – Chamei-os, enchendo aquele quarto com meus queridos amigos.
Minha Persian foi a primeira a se mover, assim que apareceu. Ela subiu em cima de mim, deitando em meu colo, lambendo as próprias patas. Seu jeito era tão majestoso, que me orgulhava por tê-la.
Ampharos e Rapidash ficaram tão felizes em me ver, que soltaram um grunhido de alegria. Vê-los bem me fez sorrir feito uma boba. Era tão bom sentir a alegria de meus Pokémon.
Meu lindo Vaporeon se aproximou de mim, pelo lado de minha cama. Ele então abaixou sua cabeça, começando a lamber minha mão. Sua língua era áspera, e eu adorava isso.
Do outro lado da cama, Ivysaur e Sneasel estavam um do lado do outro. Ivysaur sorria, provavelmente me pedindo para ser mais cuidadosa da próxima vez. Ele sempre cuidava de mim. Já Sneasel, meu querido guerreiro, estava de braços cruzados, com um pequeno sorriso em seus lábios. Seus olhos estavam fechados, demonstrando uma magnífica pose, que ele simplesmente amava em fazer.
− Awnnn, é tão bom vê-los novamente, pessoal – Eu estava tão feliz, que meus olhos chegaram a encher d’água de alegria.
Eu tinha tanta coisa para contar a eles, mas, principalmente, me deu vontade de falar sobre o incrível Pokémon que havia conhecido.
Foi então que me ocorreu:
− Como eu não pensei nisso annntes? – Eu disse, segurando minha Persian com as duas mãos – Sisi, eu encontrei um incrível namoradooo pra você! – Ela fez uma cara de confusa ao me ouvir dizer isso – É sério, ele é tão incrível e bonito, que você ficaria caidinhaaa por ele se o visse – Mesmo confusa, ela começou a lamber meu rosto, me fazendo rir feito uma boba.
Segundos depois, eu ouvi a porta do quarto se abrir. Eu ainda me divertia com meus Pokémon, quando ouvi sua voz:
− É bom ver que você continua a mesma boba de sempre – Ele sorria. Meu querido irmão.
Ele segurava um enorme buquê de flores amarelas, do jeito que eu sempre amei. Ele aparentava estar bem, sorria lindamente. Isso me deixou tão aliviada, que eu comecei a chorar só por vê-lo assim.
Seus olhos começaram a lacrimejar, também, mas seu lindo sorriso permanecia lá. Encantador, como sempre.
Ele se aproximou de mim, sentando na cadeira ao lado, bem juntinho de mim. Finalmente pude abraça-lo, após tanto tempo. Sentir seu cheiro, poder tocar seu cabelo. Sentir seus braços em torno de mim, sempre me protegendo.
Eu sentia tanta falta disso.
Ficamos ali, conversando. Não queríamos falar sobre coisas tristes, por isso conversamos apenas assuntos divertidos. Meus Pokémon sorrindo, ao lado de nós. Era a cena que eu precisava para esquecer tudo de ruim que aconteceu e finalmente voltar a ser feliz.
Meus pais nos chamaram para comer, várias vezes. Mas não saíamos dali. Ainda tínhamos tanto para falar. Tanto para rir. Que acabamos perdendo o jantar, apesar de minha avó ter deixado várias tigelas com ração para meus Pokémon no quarto.
Mesmo tendo conversado com ele várias vezes durante esse ano, eu sentia que essa era a nossa primeira conversa de verdade.
Conversamos sobre alguns fatos engraçados que passei com Luna. Sobre todas as coisas interessantes que vi, durante minha jornada. Sobre os problemas que ele passou com Brad, no Curso Preparatório do Professor Carvalho. E muitas outras coisas.
Já havíamos conversado sobre a maioria desses assuntos, pelo celular, mas pessoalmente era tão melhor, que parecia ser a primeira vez que conversávamos sobre isso.
Já passava da meia noite, quando demos nosso primeiro bocejo de sono. Precisávamos dormir, pois afinal, amanhã eu iria com ele até o laboratório do Professor Sycamore, pegar seu primeiro Pokémon. Ele já estava pronto. Finalmente poderíamos começar nossa jornada.
Foi então que eu decidi perguntar a ele. Admito que não parecia ser uma má ideia, até que saiu pela minha boca:
− Gostaria de dormir aqui comigo, hoje?
Ok, ouvindo em voz alta realmente pareceu ser uma pergunta bem estranha. Mesmo sendo apenas meu irmão.
− O-o quê...? – Ele se assustou com a pergunta, ficando envergonhado. Foi bem fofo, mas admito que estava começando a corar, também. Eu não imaginava que seria um assunto tão constrangedor quando pensei em perguntar.
Ele estava tão tímido, que acabou me aliviando, pois percebi que ele poderia recusar a proposta e não teríamos que passar por isso, já que agora até mesmo eu imaginava ser algo totalmente inapropriado.
− Tudo... bem... – Ele consentiu, me deixando completamente surpresa. Eu estava de boca aberta, pois agora não tinha mais volta.
Tudo que consegui fazer, foi dizer “Ok”.
Ele se levantou e foi até o outro quarto, onde iria dormir com Brad, pegar seu travesseiro. Comecei a corar tanto, enquanto esperava por ele, que chamei meus Pokémon rapidamente e me deitei, cobrindo meu rosto. Fingindo já estar dormindo.
Ele voltou e me viu dormindo. Talvez assim ele pudesse desistir e voltar pro quarto dele, mas não foi o que fez. Ele colocou seu travesseiro, bem ao lado do meu, e se deitou, de costas pra mim.
A cama de minha mãe era de solteiro, por isso era bem pequena. Isso fez com que fosse impossível não haver o toque entre nossos corpos.
É apenas meu irmão, me forcei a pensar. Apenas meu irmão.
Apesar de estar totalmente constrangida com a situação que eu mesma havia criado, acabei percebendo que ele dormia tranquilamente. Ele havia dormido mais rápido que imaginei. Enquanto eu me mantinha lá, tendo mais problemas em dormir que ele, por causa da sensação que o momento transmitia. Era chato saber que meu irmão era até mesmo mais maduro que eu, já que conseguiu esquecer o constrangimento e dormir.
Algum tempo depois eu havia finalmente me agarrado ao sono. Finalmente dormia tranquilamente. Não sei quanto tempo durou isso, mas fui acordada, aos gritos de meu irmão:
− Não! Por favor, não pode ser ela! – Ele estava tendo um pesadelo, e isso me deixou assustada.
Rapidamente meus pais apareceram pela porta, perguntando o que havia de errado. Eu estava sem saber o que dizer. Em um momento tudo estava bem e no outro ele parecia sofrer.
Levantei da cama, enquanto meu pai tentava acordá-lo. Meu irmão continuava grunhindo sua dor, implorando para que não fosse eu.
Apesar de ainda estar espantada com a situação, as palavras daquele homem surgiram em minha mente:
− “...Pois lhe digo isso, a forma como aquele garoto parecia sofrer, era mais que o suficiente para lhe deixar com um trauma perturbador para o resto da vida...”
Não podia ser. Por favor, não!
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