Elena estava assustada, seu corpo estava exausto de se debater, de tentar achar alguma maneira de livrar-se das correntes que a mantinham presa naquela carruagem de transporte de escravos. Ela precisava fugir, não aguentava mais viver daquele jeito, sendo mal tratada, humilhada, subjulgada como um animal, mas ela era apenas uma escrava, tinha menos direitos do que um animal e fora comercializada como um objeto.


Servira sempre a mesma família tirana, que lhe tratava como lixo, lhe batiam muito, lhe exigiam mais do que podia aguentar. A menina tinha apenas quinze anos, mas sua vida sempre fora daquela forma, já deveria ter se acostumado, mas não conseguia, sempre fora sonhadora demais, sonhava com uma vida melhor, uma vida onde no mínimo pudesse ser tratada com dignidade.


Havia sido vendida para outra família que não tinha ideia de qual era, não sabia nem para onde estava sendo levada, estava trancada no cubículo que era aquela carruagem com outras escravas que estava na mesma situação humilhante. Tinha momentos que sentia seu corpo falhar, quase adormecer, mas os solavancos da carruagem a faziam despertar para seu pesadelo. Mais alguns quilômetros e algumas das escravas foram deixadas para seus novos Senhores até que ela ficasse sozinha ali ainda mais assustada do que antes. Quando abriram a porta da pequena cela móvel onde ela estava presa, Elena pudera ver o suntuoso palácio e ela estava sendo conduzida até lá. A jovem garota seria vendida como escrava para algum nobre, na verdade, seria escrava da própria família real.


Um dos homens que a transportara até lá a puxara de forma bruta pelas correntes que a prendiam e ela tivera que caminhar a força, ou melhor, quase correr, pois o homem dava passos largos e ela teria que seguir seu ritmo. A menina suspirou pesadamente, sentia seu corpo doer por ter passado horas amarrado, ainda possuía marcas do último castigo por sua pele. Bem, sua vida sempre fora um grande sofrimento e seria daquele jeito para sempre.


–Como você pode ver ela é uma excelente escrava, está jovem ainda e saudável. –O homem falou como se ela fosse um objeto que estava sendo apresentado para venda.


–Deixe-me ver mais de perto. –O Rei Giuseppe Salvatore aproximou-se da garota e a analisou cuidadosamente. O Rei estava procurando uma nova escrava para o palácio. Precisava de uma nova escrava para realizar o trabalho doméstico e principalmente cuidar dos aposentos de seus dois filhos.


Elena sentiu-se horrível, era uma sensação ainda pior do que a que costumava sentir normalmente. Observava a forma arrogante como era observada e era avaliada como uma mercadoria barata. Ao lado do Rei estava um dos príncipes, um garoto que não deveria ser mais do uns dois anos mais velho do que ela e parecia seguir fielmente as recomendações e passava a olhá-la da mesma forma.


–Eu acho que ela vai ser mesmo ótima para o trabalho, não acha Stefan? -O Rei perguntou tranquilamente ao filho.


–Eu acho que sim, papai. -O garoto respondeu obediente.


–Eu vou ficar com ela. -Falou. -Qual o preço? -Perguntou ao homem que a carregava.


–Vinte moedas de outro. -O homem falou friamente, estava cobrando um preço alto, mas estava negociando com o Rei, ele tinha para pagá-lo e aquela era ótima escrava.


–Ótimo. -O Rei assentiu e entregou às moedas ao homem que deixou a garota e foi embora.


–Onde está seu irmão? –Perguntou ao garoto notando a falta do outro filho. Eles teriam uma reunião com outros membros da nobreza em pouco tempo e o filho ainda não havia chegado.


–Eu não sei. -Falou tentando soar natural.


–Damon sempre faz isso, ele sabe que nós temos um compromisso e some. -O Rei falou contendo sua irritação, não iria reclamar daquela forma na frente dos escravos. -E você sabe onde ele foi, não sabe?


–Procurando por mim, papai? -O príncipe surgiu exibindo um sorriso sarcástico em seus lábios. Estava meio desarrumado, os cabelos bagunçados como se tivesse acabado de voltar de alguma festinha que ocorrera nos arredores do palácio.


–Você está atrasado. -O Rei o repreendeu. -Quantas vezes eu vou ter que ensiná-lo que não deve se portar dessa forma, Damon?


Damon rolou os olhos como se o que seu pai lhe dizia não tivesse nenhum sentido ou importância. -Quantas vezes você quiser ensinar e eu não vou aprender mesmo. -Arqueou uma das sobrancelhas e continuou em seu tom cínico.


Elena o observou cuidadosamente, ele parecia ser um pouco mais velho que o irmão e também parecia diferente dos outros nobres que a menina já vira, havia algo nele, algo que não pudera definir o que era.


Giuseppe tivera vontade de matar o próprio filho, não tinha mais ideia do fazer para ensinar alguma educação a ele, Damon era desobediente demais, sabia o que poderia ter feito de tão errado para criar um filho assim e o pior é que ele era o seu mais velho e consequentemente seu sucessor, seria o Rei e só de pensar nisso se desesperava. -Você vai se tornar o Rei, deve parar de comportar dessa maneira e assumir alguma responsabilidade.


–Quando eu for o Rei, pelo menos não vou negociar pessoas como mercadorias. -Falou irritado.


–Esses seus pensamentos são um problema para nosso Reino. -O pai retrucou. -E enquanto eu for o Rei as coisas vão funcionar sob as minhas regras e eu acabei de adquirir essa nova escrava.


Elena se encolheu, ainda mais assustada do que antes, mal havia chegado e já tinha muito medo do Rei, ele nem de longe era uma boa pessoa.


–Eu não quero nenhum escravo. -Damon continuou mal humorado, ele era muito diferente de seu pai, tinha suas próprias ideias e não estava disposto a deixá-las de lado para seguir o que os outros lhe diziam para fazer e isso gerava muito problemas, principalmente entre ele e o Rei.


O Príncipe olhos cuidadosamente para a menina que estava quase congelada de pânico, sentiu-se mal por vê-la daquele jeito e Elena percebeu isso, percebeu que ele não a olhava com arrogância ou se achando infinitamente superior a ela, ele apenas a fitava, de uma forma quase carinhosa.


Elena suspirou um pouco mais tranquila e o fitou diretamente nos olhos e os olhos dele eram tão azuis, tão lindos que a encantaram. Damon também a olhou da mesma forma, observou um brilho diferente nos olhos castanhos da garota, um brilho que nunca vira nos olhos de nenhuma das inúmeras mulheres com quem ele já havia se deitado.


Não conseguia entender porque ela o atraía tanto, mas havia algo nela que despertava sua atenção e seu afeto. Quando a olhava não via uma escrava, cujo corpo possuía inúmeras marcas, não via os cabelos mal tratados, via apenas os traços delicados de seu rosto, os lábios róseos, o olhar angelical. Ela parecia uma princesa.


Elena sentiu seu coração acelerar involuntariamente, como se algo nela reagisse a simples presença do Príncipe, havia algo nele, algo diferente, algo que a atraía, que fazia com que ela se sentisse bem apesar daquela situação humilhante. Ele era especial... Ele era lindo, ele era... Um estalo forte em seu rosto tirou-lhe de seus pensamentos ao machucar-lhe a face fortemente. O Rei a havia golpeado, julgou uma falta de respeito à forma como ela se comportava. -Você não deveria olhar para o Príncipe dessa forma, você é uma escrava, não tem o direito de fitar ninguém nos olhos...


–Eu não me importo que ela me olhe assim. -Damon interviu desafiando o pai como sempre costumava fazer e as discussões dos dois eram quase intermináveis, sempre havia um motivo para discordassem um do outro. –E você não deveria bater nela. –Falou irritado. Revoltado. Ninguém tocaria naquela garota, ele pensou. Não entendeu porque se sentiu tão protetor em relação a ela, só podia sentir as batidas de seu coração, como seu corpo inteiro se agitava por ela.


–Eu... -Elena tremeu, assustou-se. -Eu sinto muito. -Baixou o olhar, mas mesmo assim tentava fitá-lo novamente, sentia algo quando o olhava, sentia o mesmo que ele sentia, havia algo entre eles, algo que parecia uni-los quase que naturalmente. O ritmo cardíaco aumentou, era como se seu coração pulsasse por ele, era como se, de alguma forma, um sentimento nascesse. Era algo completamente inexplicável.


–Tudo bem... -Damon respondeu suavemente e abriu-lhe um sorriso. Queria perguntar o nome dela, mas não conseguira, o Rei já havia mandado que os guardiões a levassem embora dali, levassem-na para ficar com os demais escravos. Damon baixou o olhar, não queria vê-la partir, sentia uma estranha necessidade de estar perto dela, como se ela o tivesse cativado de um jeito que nenhuma garota nunca conseguira.