Impiedade do Tempo [CcL 20]

1 Impiedade do Tempo - Capítulo Único


Notas iniciais
Oi gente!
Minha primeira tentativa de yuri (tipo, eu amo yuri, mas nunca escrevi, então... lskdhgsdt). Ah, e eu também não tenho muita certeza de que dá pra entender como funciona a relação entre viajar no tempo e criar universos paralelos, qualquer coisa apenas pergunte ^^
Não sei porque, mas eu pensei em um anime que eu amo muito enquanto escrevia: Kobato. A ideia original era fazer a protagonista ser parecida com a Kobato, meio ingênua e com perda de memória, mas acabou desse jeito. Bom, de qualquer forma, ouçam a música tema, Ashita Kuru Hi, enquanto lerem, porque ela é linda (link com tradução: https://youtu.be/uwbPH4EmV54).
Beijos de Mel ^^

Eu vivia em meados do século XIX quando morri.

Eu morri com um tiro no estômago, dado por um bandido com quem meu pai tinha dívidas. Ele assassinou os membros da minha família um por um – inclusive eu, é claro. Um triste fim para uma garota ordinária. Seria o fim, se o Tempo não tivesse me trazido de volta.

Tempo não é uma pessoa, tampouco um Deus. Não é homem, nem mulher. É apenas o Tempo – e o Tempo simplesmente existe.

Existem infinitas linhas temporais espalhadas pelo multiverso, e ele precisa tomar conta de todas simultaneamente, e protegê-las de qualquer perigo atemporal que perturbasse sua ordem natural. Mas, regularmente, ocorrem anomalias – erros nas linhas temporais, que são causadas por um indivíduo, acidentalmente ou não, viajando no tempo.

O tempo e o espaço são intimamente atrelados um ao outro. Por isso, sempre que alguma viagem temporal acontecia, criava-se um outro universo alternativo, que não existia originalmente. Então, o universo anterior colapsava e se autodestruía, por ir contra as leis da natureza. Basicamente, viajar no tempo causava inúmeros estragos, o que era uma grande dor de cabeça para o Tempo.

Para ajudá-lo e para pagar a minha suposta “dívida” pelo meu renascimento, fui obrigada a cuidar de uma fração do Tempo por uma eternidade, como uma guardiã. Eu nunca morria, e sim vivia eternamente no século XIX do universo onde nasci e morri, velando por aquela época para que nada de mal acontecesse com ela. Não sei se existem outros como eu, espalhados pelas diversas camadas temporais do multiverso. Provavelmente sim. Mas eu nunca soube; aquela fenda onde estava presa era o meu pequeno e restrito mundo.

Eu estava cansada... cansada daquela realidade deprimente, cansada da ideia de reviver as mesmas coisas perpetuamente; aquilo estava me deixando insana. O Tempo foi cruel comigo; estava morta, enclausurada, e sendo obrigada a fazer parte do seu trabalho, como se eu precisasse me sentir agradecida por aquela vida miserável.

Foi quando eu roubei as Chaves do Tempo.

As Chaves mantinham as diversas ramificações temporais do multiverso separadas, como se estivessem trancadas. Um giro de uma Chave poderia abrir uma passagem para outra parte de uma linha temporal. Era irônico, mas era minha única salvação: viajar no tempo para escapar do Tempo. Quando tive a oportunidade, roubei as Chaves e, depois de um periodo interminável confinada no século XIX, comecei a pular para outras épocas, finalmente vivendo.

Fugir do Tempo não era fácil, mas eu sempre dava um jeito de escapar. E cada vez que eu girava uma Chave e saltava para outra época, eu deixava para trás um universo alternativo, que era destruído.

Eu não sentia a menor parcela de culpa. Afinal, viver no mesmo século, sem morrer, havia acabado com a minha sanidade – assim como a minha capacidade de sentir remorso. E aquela súbita liberdade era tentadora demais.

Mas, aparentemente, o Destino resolveu dar um basta na minha inconsequência, e eu acabei no século XXI. Diziam que aquele era um século de milagres, e acho que isso é a mais pura verdade. Porque foi nele que eu me apaixonei.

Maldito século XXI.

Ela trabalhava em um hospital sueco, em Estocolmo. Todos os dias eu a via entrar e sair, vestida de enfermeira, salvando tantas vidas que passei a ter vergonha de quantas delas que encerrei por causa do meu egoísmo.

É claro, eu a observava de longe – eu nunca interagia muito com as épocas por onde eu passava, para não me apegar quando precisasse fugir de novo –, mas fazer isso não me impediu de gostar cada vez mais dela, do seu cabelo, dos seus olhos, do jeito que ela ria, e da maneira adorável que ela nunca entrava no hospital sem cumprimentar cada um dos pacientes que encontrava no caminho.

Indo contra todos os meus princípios, certa vez, falei com ela na saída do hospital. Fingi que estava indo visitar um parente internado, e esbarrei nela no caminho. Meu coração disparou, mas consegui disfarçar o suficiente para ter uma conversa normal.

“Eu vejo que você trabalha aqui todos os dias. Não é perigoso voltar à pé tão tarde?”

Ela sorriu.

“Não. Meu namorado sempre me leva para casa”

Dei um sorriso triste. É claro que ela tinha um namorado. E por que diabos eu me importava? No fim, aquele universo seria destruído, eu viajaria para outra era da História e nunca mais a veria.

Comecei a encontrá-la “sem querer” mais vezes. Era inconsciente. E inconsequente. Nos tornamos amigas; ela inclusive me apresentou ao seu namorado. Doeu? Doeu. Mas ela morreria em breve; tudo aquilo desapareceria, e eu não estaria mais naquele século.

Eu repetia aquilo todos os dias para mim mesma, mas não conseguiria me enganar. Eu estava arrependida de ter viajado para aquela época, de ser a culpada pela futura morte da pessoa que eu amava. A única que eu havia amado em tanto tempo de existência.

Logo o Tempo me encontraria, tentaria acabar comigo, eu giraria a Chave e saltaria para outra época, como eu sempre fiz. Mas a verdade é que eu não queria que aquele universo fosse destruído. Eu não queria abandonar a época onde eu havia conhecido ela.

Certa noite, eu parei em um morro perto do hospital, onde eu gostava de observá-la pelas janelas, e olhei para o céu noturno. Tudo ao meu redor ficou em câmera lenta, até finalmente parar.

“Eu não sou desta era. E não deveria estar aqui.”

Era o que eu gostaria de dizer, mas era tarde demais. O Tempo havia me achado.

“Não vai fugir? Viajar no tempo de novo?”

“Não” sorri, tirando as Chaves do bolso e jogando para Tempo. “Você pode ficar com elas”

“Você se tornou um perigo atemporal, e deve ser eliminada. Sabe que terá que enfrentar as consequências, não é?”

“Faça o que quiser. Mas não destrua esse universo. Por favor”

“A única maneira de deixar um universo com uma anomalia temporal intacto é extinguir o causador dela, e você sabe disso”

“Eu...” engoli em seco “Toda a minha existência será apagada?”

“Todo e qualquer resquício de que, algum dia, você existiu, será exterminado”

“Ótimo” abri os braços “Leve-me. Não gosto de esperar”

Senti o meu corpo começar a desaparecer, aos poucos. Olhei ao redor e vi algumas luzes saindo do cidade e desaparecendo na escuridão do céu. Imagens de memórias minhas, mesmo que fossem um pequeno vislumbre de um motorista na rua, ou a visão de um caixa de supermercado, se fragmentaram.

Dentre elas, vi as memórias dela sobre mim... lentamente sumindo. Fechei os olhos, enquanto desaparecia completamente.

As últimas coisas que sobraram foram minhas lágrimas amargas, que não soltava há um longo tempo. Até que estas também desapareceram no ar, levando consigo minha existência.

Notas finais
E então? Gostaram? Ficou confuso ou deu pra entender?
Beijos de Mel ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!