Imperium Lan - A Queda de Um Império
6 Maximus: Feriado Nacional
O sol nascia e era hora de hastear a bandeira do Império. Nas suas mãos trazia com cuidado a bandeira dobrada ao som do hino, sem música, apenas cantado. Era azul com a estrela vermelha ao centro e as riscas amarelas e verde que em pirâmide terminavam na estrela. O exército cantava em força o hino nacional em uníssono. As suas vozes estavam cheias do poder e da força que todos os jovens tem em si na idade em que ainda são verdes.
Oh grandioso Império
Tu que me guardas e proteges
Deixa-me viver para sempre
Neste belo sonho de glória.
Oh grandiosa nação
Esmaga os traidores
E vive para sempre
No nosso humilde coração.
Glória para sempre
Porque é teu o destino
De crescer infinitamente
E esmagar o inimigo.
Era feriado nacional, o dia do Império, a festa mais importante do calendário Lan. Milhares de soldados estavam na Praça do Povo. Vestiam os uniformes azuis escuros de comemoração e aos ombros traziam as armas bem limpas e polidas, reluzindo aos primeiros raios de luz da alvorada. A bandeira subia bem alto sobre ele no maior mastro da galáxia, duzentos metros de altura coroando a cidade. A praça era larga e plana e estava cheia de militares de todos os ramos do exército. Havia também naves e aviões, assim como tanques. Apesar de a cidade ainda estar em reconstrução e ainda se sentir o pesar dos ataques, o povo saiu à rua em força para comemorar o dia. Na praça reunia-se uma multidão, aplaudindo à sombra dos enormes edifícios dos ministérios. À direita o colossal edifício do ministério da guerra e paz, à esquerda o edifício do ministério do povo, na típica arquitectura do regime, e em frente o enorme edifício da sede do poder e residência oficial do Imperador.
Eram sete e o sol já espreitava por entre os enormes edifícios e prédios. A multidão aplaudia eufórica e gritava o nome do Imperador tão alto que até os deuses o podiam ouvir no céu. Chamado pela multidão surge o Imperador Marcus, o ducentésimo quinto Imperador da República Lan, na varanda da sede. Levantando o braço saúda o povo e como resposta recebe o levantar dos braços que esticados pareciam querer tocá-lo. Era um homem velho e encurvado com o peso da idade que a cada ano se aproximava mais dos cem anos. A sua pele estava cheia de manchas e o cabelo rarefeito estava cuidadosamente penteado para ambos os lados.
-Meu povo! – e uma salva de palmas ecoou no ar. – Meu querido e amado povo! Este dia é vosso, é o vosso dia e de todos os que nasceram e lutaram antes de vós. – A multidão eufórica bateu calmas como se não houvesse amanhã. – O Império nasceu há mil anos da sangrenta guerra civil que opôs todas as raças de lans. Os nossos antepassados lutaram e dos seus esforços surgiu o que é hoje o mais poderoso império que há. – Os gritos de entusiasmo ecoaram pela cidade. – Mas agora este império está em perigo. O vosso lar está em perigo. Os rebeldes minam as fundações do Império e ameaçam ruir todo o trabalho dos vossos antepassados. Lutem filhos! Lutem pelo que é vosso. É preciso chamar todos para a guerra que se avizinha. Oh e que os deuses nos protejam. Lutem filhos! – A multidão eufórica gritava. – Este é o vosso Império, não deixem que uns meros insectos o destruam. Glória ao Império! Glória ao deuses! Esmagar e ganhar!
-Glória ao Império! Glória ao povo! Esmagar e ganhar! – gritou o povo com uma grossa voz.
Depois do discurso a banda começou a tocar e os soldados começaram a marcham por cima dos desenhos de figuras históricas da calçada, todos com o passo acertado e ao passarem pelo imperador estendiam o braço respeitosamente. Atrás seguia a mocidade, milhares de jovens que marchavam alegremente e em euforia na sua primeira parada militar. Depois vinham os tanques e os carros blindados. No céu passavam caças em voou baixo deixando atrás de si um rasto de fumo com a cores da bandeira. Olly, seguia no meio da ordem, no lugar que lhe estava destinado e com a cara séria que trazia sempre nos últimos meses olhava em frente. O sol começava a queimar e era difícil estar dentro daquele uniforme. Era o fim do verão, mas fazia calor como se estivessem no pico da estação.
-Que achas-te da tua primeira vez?
-Nada de especial.
-Eu gostei, foi interessante. — Ilius era uma das pessoas mais altas que Maximus conhecia, tinha quase dois metros de altura. Era um dos poucos companheiros com quem se dava, já que evitava o contacto social. Ultimamente as pessoas saturavam-no, irritavam-no. Simplesmente não tinha paciência para conversas fúteis e que não levavam a lado nenhum. Não era amigo de Ilius porque queria, simplesmente o rapaz não o deixava em paz e foi acontecendo. – Ah que belo dia. Foi um feriado e tanto, espero que para o ano também seja assim.
-Eh.
-Eh o que? Vá conta lá o que se passa.
-Eh. – disse Maximus rindo-se por fim e empurrando o amigo. Depois do que aconteceu nos últimos meses raramente se ria. Arrancar-lhe um sorriso era tão difícil como cavar um buraco em obsidiana pura, mas Ilius esforçava bastante para que isso acontecesse.
A vida no exército era dura e mudou-o inevitavelmente. Estava longe da família e só os podia ver aos fins de semana. Todos os dias da semana seguiam um plano feito pelo seu superior. Tinha que se levantar ainda o sol dormia e quando este despertava já tinha que estar a correr o percurso obrigatório. Quem não o cumprisse antes do tempo estipulado não comia o dia todo como castigo. Muitos não gostavam da ideia, mas pode-se dizer que a rigidez da Força não deixa margens para gostos. Aprendiam a pilotar as naves individuais de ataque, primeiro virtualmente e depois a sério. Maximus já sabia também conduzir os carros blindados e manejar com pericia as armas.
O dia de despedida da escola foi difícil. Quando fez dezoito anos anulou a matrícula para se alistar na Força Interestrelar. Muitos dos colegas tinham falecido e a escola tinha um ar triste nesse dia. A bandeira a meio mastro voava ao calmo vento da tarde e as lágrimas escorriam pelos olhos dos mais sensíveis. Tinha escrito uma carta individual a cada um, até mesmo aos que não estavam presentes, incluindo Mimi. Escreveu o que lhe ia no coração, os seus sentimentos, relembrou os bons momentos, aquilo que tinha ficado na memória. Depois do toque abraçou os colegas um a um e despediu-se da vida de civil e de liberdade para abraçar com o espirito todo o seu futuro de militar.
Nada estava a acontecer como tinha planeado e não podia ser mais frustrante. Por mais que tentasse esconder havia dias em que se sentia vazio, como se dentro de si apenas houvesse ar. Sentia-se consumido pela rotina de todos os dias, pela dor que sentia, pela futilidade que eram as pessoas que conhecia. À noite, quando se deitava na caserna, ficava horas e horas a fitar o nada do escuro. Olhava-o interminavelmente e a noite parecia-lhe infinita. Talvez até fosse infinita e não pudesse voltar a ver a luz do dia. As saudades começavam a esmagá-lo, mas de certo modo começara-se a habituar. Mas como alguém conseguia habituar-se a tal coisa? A vida tinha perdido o sentido que tinha, já nada lhe dava prazer ou fazia-o feliz. Quando se ria, o que era muito raramente, sentia-se feliz, sim, e tentava apanhar essa felicidade com ambas as mãos, mas depressa se evaporava. Sentia que dentro de si, o poço da felicidade e do amor tinha se esgotado, secado sob o calor da tristeza.
-Rapazes, hoje portaram-se bem. Hoje é dia de festa e como é para comemorar tem o dia de folga e não há hora para dormir. Estão dispensados. — Anunciou o seu superior levando a uma gritaria entusiasmada pelos colegas. Grande parte deles iria para a cidade, divertir-se noite fora pelos bares e casas de diversão.
-Queres vir conosco?
-Não, não tenho muita vontade.
-Vá, vem lá conosco. – Ilius continuou a insistir até que o amigo cedeu. Maximus preferia ter ficado no quartel, a escrever nos seus cadernos e a desenhar longínquas paisagens e as personagens das duas histórias intermináveis. Sim, preferia isso, mas decidiu contra sua vontade sair com os amigos, talvez isso lhe trouxesse um pouco da rara felicidade, que nos últimos dias andava tão escassa quanto gemas de purilo, uma das mais raras gemas do universo.
A noite estava amena e quente vento de sul dançava nas ruas, que estavam cheias de gente que comemorava. Apanharam o metropolitano e viram-se esmagados como sardinhas dentro das carruagens sobrelotadas. No bairro da diversão, como era chamado, quase era impossível uma pessoa andar, tal era a multidão. Os bares vendiam cerveja e outras bebidas como se fossem água. Aqui e ali bêbados lutavam com uma barulhenta multidão que aplaudia a cada murro.
-Venham rapazes, vamos a este. Tem uma gatas jeitosas. – Entraram num dos bares onde uma moderna música enchia o ar e raparigas em roupas eróticas dançavam em cima de um palco. – Sete cervejas, por favor.
-Sete cervejas para estes soldados, a força do império. A primeira é por conta da casa.
Depressa os rapazes se dispersaram, procurando cada um a sua gata. Maximus ficou sentado ao balcão, fitando o copo que transbordava espuma. Devia ter ficado na base. Definitivamente que não estava com cabeça para aquilo. Bebeu de uma só vez e a cerveja e com uma careta limpou o queixo na manga do uniforme. Saiu para o mar de gente da rua. Para cá e para lá o mar fluía ao suave empurrar da multidão. Vagueava sem rumo pelas ruas. Não tinha destino, apenas seguia o mar e esperava ser surpreendido pelo destino, fosse ele qual fosse. Pareceu-lhe uma boa ideia, talvez aí encontrasse a sua felicidade, aquela que perdera havia meses.
Era quase hora da alvorada há muito que o mar evaporara, deixando apenas pequenas gotas perdidas pelas largas ruas da cidade. Estava no jardim das muralhas do castelo. Não fazia ideia de como tinha parado ali, mas ali estava. Estava no mesmo banco onde um ano antes estivera com Mimi, o mesmo banco onde tudo começara. Com os olhos vazios contemplava a relva que, a cada minuto, tornava-se mais verde com o nascer do sol. Tentou cheirar Mimi, tentou lembrar-se do seu doce cheiro. Não conseguia, por mais que tentasse, já não se lembrava a que cheirava a sua amada. Estaria a começar a esquecer-se de tudo? Ficou com medo. Não a queria esquecer, queria-a lembrar para sempre. Fechou os olhos e deitou-se ao comprido. Sentiu que estava mais perto dela, a um nada de distância de lhe poder tocar, mas ainda estava tão longe. Esticava o braço o mais que podia mas quanto mais se esticasse mais ela se afastava. Não queria, mas chorava. As lágrimas salgadas escorriam-lhe pelo rosto molhando o banco. Tinha que voltar à base, mas não queria. Queria ficar ali um pouco mais, queria ficar ali uma eternidade mais. Talvez se esperasse tempo suficiente ela voltasse. Talvez aquilo fosse apenas um pesadelo. Mas quem queria enganar? Ele sabia tão bem como os deuses que ela não iria voltar. Tinha sido levada pelos rebeldes e nada naquele cruel universo a podia devolver.
Levantou-se e limpou a lágrimas. Não havia nada que pudesse fazer e estar ali não a ia trazer de volta. Pôs-se de pé e regressou à base. Tinha uma promessa que cumprir e para isso tinha que se esforçar.
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