Imperium

22 XXII - Duque de York


O mercado de Covent Garden estava cheio naquele dia. Não era algo incomum, apesar do horário, e Margaret não sentiu nenhuma irritação ao lutar para que abrissem o caminho a ela e seu filho. Estava acostumada, de certa forma, e até mesmo sentia conforto em ver rostos familiares entre as tendas, preparando e exibindo seus produtos de cereais, frutas e legumes. O pequeno James, de apenas seis anos, estava com os olhos semifechados, cobrindo a boca para esconder um bocejo enquanto segurava a mão da mãe firmemente.

O céu ainda estava cinza, brilhando de uma maneira ofuscada, e uma chuva leve caía sobre os londrinos. Nada com que ela não estivesse já acostumada. Apenas oito horas da manhã e a cidade já estava acordada. Muitos haviam acordado antes mesmo do Sol aparecer, ou estava voltando agora para suas casas quentes e esposas amorosa. Margaret possuía sorte no sentido de seu trabalho lhe permitir horários mais flexíveis, e sua posição alta na casa dos patrões era representada pela permissão de sair cedo e comprar coisas para as refeições de seus senhores. A governanta deixou isso claro a ela logo no primeiro dia em que lhe confiou o dinheiro do patrão e a lista. O coração de Margaret ainda acelerava ao pensar naquele momento, três anos antes.

Nunca havia falhado em trazer as coisas certas. Tinha um naco para encontrar os melhores produtos, mesmo quando os vendedores tentavam esconder as maçãs mais vermelhas ou as batatas mais gordas. Sua atitude fechada garantia que nenhum dos vendedores iria tentar passar a perna, permitindo um preço justo. Nos últimos meses, ainda havia tentado sua sorte na pechincha, e sentia orgulho ao pensar nos dois dias em que voltou com mais comida e moedas em sua mão do que o normal.

Às vezes, em momentos especiais como aquele, ela precisava de ajuda com as sacolas, e trazia uma de suas crianças com ela para o mercado como mãos extras. Havia escolhido James a pedido do próprio menino. Ela teria preferido levar Charles, seu mais velho, mas o aniversário de James havia sido na semana passada e aquele era seu presente, afinal não tinham dinheiro para comprar qualquer coisa nova. Margaret lhe avisou da necessidade de acordarem cedo para pegarem as comidas mais frescas, mas James não havia entendido a implicação daquelas palavras. Se fosse preciso adivinhar, Margaret pensava que ele estava se arrependendo daquela decisão.

Porém ser levado com a mãe para o mercado era quase uma honra, como Charles mesmo havia dito. Uma tarefa destinada apenas aos meninos, e James estava ansioso para provar que era grande. Ele não iria admitir o cansaço mesmo se ela perguntasse, e Margaret estava disposta a não humilhar seu filho.

Ela se aproximou da tenda de William Wells. Ele era um homem baixo e gordo, mas amigo. Suas raízes eram as mais gostosas e suculentas. Se comprasse batatas em outro lugar, o ensopado do cozinheiro da casa não teria o mesmo gosto.

William sorriu ao vê-la, o dente de ouro brilhando.

— Olá, Margaret — disse, colocando as mãos inchadas sobre a bancada de madeira da tenda. Seus dedos eram do tamanho de salsichas, e seus olhos verdes estavam cheios de malícia ao olhá-la, apesar da presença de James. Margaret ignorou seu olhar, mesmo se sentindo satisfeita ao saber de seu desejo. Depois do nascimento de seu quinto filho, ela foi incapaz de perder o peso ganhado durante a gravidez, e ainda se mantinha cheia de curvas. O olhar de William a fazia se sentir feminina, e bela. — O que posso fazer por você hoje?

— Batatas, cebolas e cenouras — ela disse. Margaret lhe entregou a sacola de pano em suas mãos. — Hoje é o aniversário de Dahlia e Peter irá fazer seus pratos favoritos. Eu vim aqui com instruções claras.

William Wells riu.

— Sim, sim — ele retrucou, já selecionando as melhores batatas. Margaret observou seu trabalho com cuidado, os olhos atentos. James puxou sua saia, mas ela não lhe prestou atenção. — Deve ficar tudo perfeito para a senhorazinha.

— Exatamente — ela disse. — Essa batata não, aquela.

William colocou a raiz ofensiva de volta em seu lugar, os dedos suados se arrastando até a batata apontada por Margaret. Ele não mostrou sinais de se importar com isso, mas Margaret viu o arquear singelo de suas sobrancelhas negras, um símbolo de seu desprazer.

Ela pagou William logo em seguida e se moveu para a tenda de Samuel Carter, um vendedor de leito e produtos derivados. Samuel não lhe deu nada além de um olhar amigável e um sorriso gentil. Apesar de se regozijar com as atenções de William, ela sabia como poderia ser cansativo pedir por cabeças de olho enquanto tentava ignorar olhadelas nada discretas para seu decote. Se mover para a tenda de Samuel era como um descanso e não havia nenhum temor dentro de si de essa fachada amigável cair para revelar uma personalidade escura por baixo. Margaret sabia sobre os rumores de Samuel e seu colega de quarto, um francês chamado de Louis Delacour, mas não tinha coragem de confrontá-lo sobre isso, e nem mesmo de dizer sobre como não se importava se fosse verdade.

— Bom dia, Margaret — Samuel disse. Seus olhos azuis se moveram para James, que arrastava a mão sobre os olhos cansados. — Bom dia, garoto. Qual seu nome?

As bochechas de James se encheram de cor e ele respondeu em um fio de voz.

Samuel sorriu e voltou a olhar para Margaret.

— Então, o que será hoje? — disse. — Mesma coisa da semana passada?

Margaret balançou a cabeça. Na semana anterior, ela havia saído com uma sacola cheia de queijos, pois a governanta de sua casa queria um estoque grande do produto. Aquele dia seria diferente, entretanto.

— Nem tanto — respondeu. — Dahlia faz oito anos hoje. Preciso dos ingredientes para um bolo.

— Ah — Samuel disse. Ele pegou a sacola de pano, já carregando os produtos de William. — Duas garrafas, então?

— Seis — Margaret corrigiu. — Será um bolo bem grande.

— Entendo — Samuel disse.

Ele começou a colocar as garrafas de vidro de leite com cuidado dentro da sacola, assentindo lentamente. Margaret o observou em silêncio, segurando a mão do filho. Conhecia Samuel há anos, mesmo antes de começar trabalhar com seus patrões atuais; ele era amigo de seu irmão mais velho desde os tempos de escola. Sabia quando havia algo em sua mente e quando ele não queria dizer nada. Ele lhe entregou a sacola com um sorriso sem-graça.

Antes que ela pudesse perguntar se algo estava de errado, entretanto, algo mudou no mercado. O barulho das conversas e ofertas cessou e Margaret olhou ao redor, apertando seu aperto na mão de James. O filho, sentindo sua insegurança, apertou seu rosto contra suas saias, abraçando sua cintura.

Margaret logo encontrou o motivo para todo aquele silêncio. Era um menino, ou um homem muito jovem, alto e magro. Ele se vestia bem, com um casaco bege e calças apertadas. Margaret o observou subir em um palanque, segurando um amontoado de papeis em suas mãos, e limpar sua garganta. Ela logo entendeu o que ele iria fazer.

— Essa noite, logo após a uma da manhã, a Rainha Clarissa sentiu as dores do parto — o homem disse e todos os presentes prenderam a respiração. Muitos ainda se lembravam da morte no parto da Rainha Céline, apenas treze anos antes, e a Rainha Clarissa era amada por grande parte da população londrina. Margaret pensava que a esposa de Sua Majestade era uma jovem boa e doce, com um carinho em seu coração para aqueles sem a sorte de nascer princesa. Nos últimos meses, ao visitar a catedral de St Paul, ela acendia uma vela todas as semanas, pedindo para o Senhor proteger a Rainha durante as dificuldades do parto. — Às três e trinta cinco do dia oito de março do ano mil setecentos e vinte e um, Sua Majestade deu à luz a um menino saudável! Temos um Príncipe de Gales!

— O quê? — uma voz feminina gritou ao lado de Margaret ao mesmo tempo em que todo o mercado batia suas palmas, celebrando o nascimento do herdeiro ao trono. Estava claro, pelo tom de sua voz, que a mulher não estava feliz pela família real. — Clarissa teve um menino?

Ela olhou para a moça. A jovem era alta, mas não tão alta quanto Margaret. Seu cabelo era loiro e cacheado, enquanto os olhos eram castanhos. Seu rosto belo estava marcado por uma carranca irritada, quase ofendida. Ela usava um vestido roxo caro, mas estava claro que ele não era novo, pelo estado de seu tecido. Antes de seu casamento, Margaret havia trabalho como costureira para um artista famoso, e sabia muito sobre roupas e tecido.

Ela sentiu seu sangue queimar com a falta de alegria da mulher. Por Deus, era um menino! Um menino significava que o reino possuía um herdeiro, e a continuidade da família real estava segura. Se o Rei morresse sem um herdeiro legítimo, como aquele menino recém-nascido, Jonathan Wayland iria herdar o trono, e Margaret havia ouvido rumores o suficiente sobre ele para não o querer como seu governante.

Então ela tomou ofensa pela rejeição daquela mulher. E por sua falta de respeito. A Rainha merecia melhor.

— Sua Majestade, a Rainha Clarissa teve um menino — Margaret corrigiu e a jovem a olhou com uma expressão estranha em seu rosto. Era como se não tivesse notado sua presença antes, e como se não se importasse com ela, como se Margaret fosse apenas um besouro preso em suas saias. — Você fará bem em trata-la com o respeito que ela merece.

Ela puxou a mão de James e andou para outra tenda, não dando espaço para aquela mulher lhe responder.

Alexander Lightwood andou pelos corredores de Hampton Court, incapaz de esconder o próprio sorriso. Sentia como se seus passos estivessem mais leves e seus ombros mais relaxados depois de tantos meses com a postura retesada e presa com tensão. Sabia que as pessoas ao seu redor notavam a sua própria felicidade, e o encaravam com desgosto pela incapacidade de esconder suas emoções, mas o Duque de Norfolk não era capaz de se importar com isso. Estava feliz e havia todos os motivos possíveis para isso.

Jessamine Lovelace não estava mais na corte. Jonathan a expulsou havia quase uma semana e, na noite anterior, a Rainha Clarissa deu à luz a um menino, o herdeiro necessário para o trono de seu melhor amigo. O príncipe, que só receberia um nome oficial durante seu batizado, era gordo e saudável, e todos os médicos contratados pelo Rei asseguravam que iria viver. Seria estranho se ele não estivesse de bom humor com todas essas notícias.

Seu ódio pela amante (ou antiga amante, agora que ela perdeu o favor) de Jonathan era claro e ele não tinha medo de esconder isso para ele ou ela. Jessamine era uma ameaça não só para o rei, mas como para ele também. Era ambiciosa e arrogante, traços não atraentes em uma amante real. Sua gravidez só trouxe esses defeitos a superfície. Alexander ainda se lembra da decepção ao ouvir da situação da moça, e sua ofensa cresceu ainda mais quando Jonathan falhou em lhe dizer isso. Alexander teve que descobrir sozinho, ao encontrar a meretriz em um de seus passeios pelos jardins.

Ela estava com um sorriso naquele dia, o vestido rosa perfeitamente complementando sua pele pálida, e a barriga inchada apontava para frente. Alexander sentiu a decepção tomar seu corpo no lugar do choque, aumentados pela demora de Jessamine em fazer uma semi-reverência. Rainhas não precisavam curvar em frente a Duques e estava claro que era essa ideia que ela queria apresentar.

— Vossa Graça, — ela disse, colocando as mãos sobre a barriga. — Certamente Jonathan já dividiu nossas notícias felizes com você.

— Infelizmente não — ele respondeu. — Apesar de eu já ter esperado isso. Um Duque tão nobre como eu nunca sabe sobre a gravidez de cada vaca em seus domínios.

Nos dias que passaram, ele a viu com frequência na corte, principalmente nas mesas de jogo. Estava claro para ele que ela se mantinha fora do caminho de Clarissa Morgenstern, e a Rainha era religiosa demais para fazer apostas. Alexander não sabia se Rainha estava ciente do bastardo de seu marido, apesar de todas as fofocas da corte estarem focadas nas gravidezes contemporâneas das mulheres do Rei.

A Duquesa de Devonshire jurava que havia visto Clarissa estapear Jessamine em um dos corredores, enquanto o Conde de Mar disse que a amante havia feito a Rainha chorar com seus comentários rudes sobre o bebê em sua barriga. Ninguém chegava a uma conclusão certa, entretanto, e Clarissa se mantinha tão polida e educada como sempre. Se havia existido uma confrontação entre as duas, a Rainha teve o cuidado de fazê-lo acontecer fora dos olhos da corte, apesar de Alexander duvidar muito disso. Cada dia, Isabelle ficava mais próxima de Clarissa e, como uma de suas damas de companhia, era esperado que a Rainha desabafasse com ela. Apesar da irmã não lhe disser tudo que sua senhora lhe contava, admitiu não saber nada sobre os pensamentos de Clarissa sobre Jessamine e seu bastardo.

— Não acho que ela saiba — disse durante um de seus jantares com a família. — Parece estar nas nuvens. Se soubesse sobre a criança, não estaria tão feliz.

Alexander concordava. Clarissa amava o marido de uma maneira quase obsessiva. O nascimento do filho, naquele dia ainda iminente, era uma de suas maiores felicidades e ela não parecia deixar nada lhe atingir. Se soubesse que a amante do rei também estava grávida, e muito provavelmente pariria antes dela, nem toda a educação formal da corte imperial seria capaz de apagar seus sentimentos.

E Alexander se encontrou ficando cada vez mais frustrada com a puta prenha de seu melhor amigo. A presença de Jessamine Lovelace era algo que ele aguentava há dois anos, mas parecia que ela havia ficado ainda mais insuportável, como se isso fosse possível. Mais de uma vez, ele a ouviu murmurando com damas inocentes, sempre repetindo a mesma coisa:

— Será um menino, tenho certeza — dizia, com orgulho. Estava sempre com a mão posta na barriga, exibindo-a como se fosse um prêmio. —O primogênito de Sua Majestade.

Havia acabado sendo um menino, mas o paraíso de Jessamine não havia durado muito após o parto. Jonathan pegou a criança e a mandou para longe, cortando todos os planos da jovem antes mesmo que eles realmente começassem. Alexander não a via desde aquele dia, quando observou da janela a antiga amante do Rei entrar em uma carruagem. Estava frio, e chovendo, e Jessamine parou uma última vez antes de embarcar, olhando para o palácio com olhos cheios de desejo e ânsia. Jonathan não lhe disse adeus.

E agora Clarissa também tinha um filho. Um menino de sangue azul e nascimento legítimo, primeiro na linhagem de sucessão ao trono inglês, e tudo iria ficar bem. Alexander iria se garantir disso.

Ele andou pelos corredores até o interior do palácio, passando por portas e guardas. Quanto mais adentro ele andava, mais íntimo a atmosfera ficava, e exclusiva. Apenas um dia após o nascimento real, ninguém havia visto o bebê ainda, e demoraria alguns dias, ou talvez meses, para o batizado.

Os guardas em frente ao berçário em deixá-lo entrar, sabendo muito bem de sua posição como o melhor amigo do Rei, e Alexander caminhou para dentro da melhor cena que ele havia visto em muito tempo.

Clarissa estava sentada perto de uma janela, segurando um embrulho de panos brancos e caros. Suas damas estavam ao seu redor, com Isabelle sentada ao chão e Helen Blackthorn se inclinando para ver o rosto do neném. Elas estavam sorrindo, murmurando doçuras para a criança que seria rei um dia.

Jonathan estava parado perto delas, os longos cabelos loiros jogados em suas costas, com um sorriso tímido em seus lábios. Ele apoiava o corpo em sua bengala decorada, e usava um casaco verde e calças combinando. Deve tê-lo ouvido entrar, pois logo se virou a ele, olhos dourados cheios de felicidade.

— Vossas Majestades — Alexander disse, fazendo uma reverência simples. Ele olhou para a criança nos braços de Clarissa e inclinou a cabeça. Ele não conseguia ver direito o rosto, ou qualquer outra coisa, mas era capaz de ver duas mãos se mexendo, a pele rosada e saudável. — Vossa Alteza.

— Vossa Graça — Clarissa cumprimentou, sem se levantar. — Veja meu filho. Veja como ele é perfeito.

Alexander se inclinou levemente, olhando para o rosto do menino. Ele ainda era muito novo para ter traços definidos, além de bochechas gordas e olhos inchados, mas sua cabeça estava coberta por um cabelo vermelho amarronzado, que certamente iria clarear com o passar dos meses. Estava longe para ver a cor de seus olhos, mas definitivamente seria cinza ou azul, como todos os outros recém-nascidos.

— Lindo — ele murmurou. Alexander olhou para Jonathan, andando até o seu lado. — Com a saúde plena do Príncipe, muitos esperarão pelo anúncio da data do batizado. Devemos nos preparar, e escolher nomes.

Jonathan assentiu, sem olhar para o amigo por vários minutos.

— Venha aqui — disse, indicando o canto do berçário. Alexander o seguiu, colocando as mãos em frente ao corpo. Quando estiveram longe o suficiente das mulheres que elas não iriam escutá-los, Jonathan voltou a falar. — Eu decidi o nome, mas deve manter em segredo.

— Sim, é claro — Alexander respondeu.

Jonathan assentiu e um sorriso cresceu em seu rosto.

— O conselho privado acha necessário esperar pela coroação antes de ter um berçário — disse. — Uma coroação é mais importante que um batizado, e eles pensam em fazer as duas cerimônias serem um evento nacional. Meu filho foi o primeiro bebê real a sobreviver o parto desde meu próprio nascimento.

— Faz sentido — Alexander retrucou. — Todo o país deseja comemorar com Suas Majestades.

Jonathan Christopher balançou a mão como se aquilo não fosse importante e Alexander franziu o cenho, tentando ler seu rosto e entender as emoções dentro dele.

— Qual o problema? — ele perguntou, usando seu tom mais amigável e gentil.

— Não quero que o batizado seja um evento nacional — admitiu em um tom baixo. — Meu filho é precioso para mim. Expô-lo ao público é o último de meus desejos.

Alexander sorriu. Ele entendia sua opinião. Quando Maxwell e Eugenia nasceram, ele possuía os mesmos sentimentos de superproteção. Mataria qualquer um que ameaçasse seus filhos, sua segurança e sua saúde. O príncipe e o bastardo deveriam evocar emoções parecidos no Rei da Inglaterra.

— Sua coroação não acontecerá por muitos meses — Alexander disse. — O menino não pode ficar muito tempo sem um nome. Faça um batizado privado, mas crie celebrações nacionais.

Jonathan não disse nada, mas Alexander conseguiu ver em seu rosto que suas palavras estavam tendo seu efeito desejado. Ele tocou o lábio inferior com os dedos, e olhou pela janela, a luz do sol batendo em seu rosto dourado. Ele era bonito, e se cuidava bem, sempre querendo estar perfeitamente arrumado. Alexander ainda se lembrava da paixão adolescente que um dia sentiu pelo agora Rei. Dias de agonia e horas sofrendo de joelhos, rezando para Deus lhe consertar e fazê-lo ser um homem de verdade. Perceber que isso nunca iria acontecer e ele iria continuar daquele jeito para sempre foi difícil de admitir.

— Que ideias você tem? — o amigo perguntou, retirando-o de seus pensamentos.

— No nascimento de seu primeiro filho, o Duque de Cornwall, Henry VIII distribuiu vinho de graça para a população de todos seus domínios. Os sinos foram tocados e uma saudação de armas foram ouvidas da Torre de Londres.

Jonathan sorriu.

— Os sinos já foram tocados, meus amigos, assim como os tiros — disse. — E o Duque de Cornwall morreu cinquenta e dois dias após seu nascimento. Temo não ter vontade de repetir o mesmo para meu herdeiro.

Alexander apertou os lábios. Não estava ofendido pela recusa de Jonathan, ou mesmo pelo comentário sobre o pequeno Henry Herondale. O amigo estava certo, mesmo se suas ideias foram erradas.

— Então, que pensa em fazer? — perguntou.

Jonathan apertou os lábios, os dedos roçando a pele macia de seu queixo. Alexander viu a penugem dourada cobrindo o maxilar do Rei, ainda pequena, e provavelmente nascida depois de dois dias sem uma visita do barbeiro real. Se perdurasse até o fim da semana, todos os nobres da corte iriam imitar Sua Majestade, desejando cair nas graças reais de qualquer maneira possível.

— A ideia do vinho não seria ruim e falarei para Charlotte Branwell planejar um batizado privado. Extremamente exclusivo, apenas para os membros mais importantes da corte. Ela irá adorar isso — murmurou. Ele olhou para Alexander com um sorriso soslaio no rosto. — Não está curioso sobre o nome?

Alexander deu de ombros, mesmo quando estava extremamente curioso. O desejo de saber mordiscava suas extremidades, escalando seus braços e pernas para seu peito.

— Eu saberei, eventualmente — disse.

Jonathan sorriu como se reconhecesse sua mentira.

— Ele terá outros nomes, devido a tradição, mas penso em chamá-lo apenas pelos dois primeiros. — o sorriso de Jonathan tomou uma escuridão familiar, como se ele sentisse prazer em sua escolha dos nomes do filho. — Meu Príncipe se chamará William. William Alexander.

Alexander um passo para trás. Estava surpreso, chocado. Em nenhum momento, ele teria pensado isso, considerado a possibilidade Alexander era um nome tradicional para monarquia escocesa, mas não havia nenhuma instância parecida na linhagem inglesa da qual Jonathan era descendente.

— Vossa Majestade, eu... — ele hesitou, incapaz de formar sentenças coerentes.

Jonathan colocou a mão em seu ombro, fazendo-o parar de falar. Alexander levantou o rosto, os olhos dos dois amigos se encontrando. Azul e dourado se encostando em um misto de emoções.

— Meu filho receberá os nomes de meus dois irmãos — Jonathan disse, seus dedos de apertando onde o encostavam. Ele sorriu e puxou Alexander para um abraço, segurando-o perto. — Sorria, Alec. Deveria ser uma honra.

O Duque de Norfolk riu, as lágrimas quentes queimando seus olhos.

— Estou honrado — ele disse.

Eles se afastaram. Alexander olhou para Jonathan, seu grande amigo, seu mais antigo amigo. Desde os anos da escola em Eton, ele era leal ao Príncipe, naquela época o Duque de York. Conhecia seus segredos como ninguém outro e, mais de uma vez, havia cuidado das mulheres em sua vida, garantindo que não iriam correr para o Rei ou a imprensa com as histórias do segundo filho de Sua falecida Majestade.

— Eu achei... — começou ainda gaguejando. — Achei que daria seu próprio nome para o menino.

Jonathan riu e, no canto do berçário, uma babá pegava o bebê do colo de sua mãe, gentilmente o segurando para impedir qualquer choro. Alexander observou o olhar derrotado no rosto de Clarissa, e a tristeza estampada em seus olhos de ser separada do Príncipe.

Mas ele logo voltou a observar o Rei. Havia algo de diferente nele. Seus ombros pareciam leves e relaxados, um sorriso leve sempre presente em seu rosto, e Alexander foi incapaz de não pensar que a falta de Jessamine era a mudança necessária para deixar Sua Majestade de bom humor. Se tivesse descoberto disso antes, teria insistido mais para o amigo colocá-la de lado, mesmo se ele o ignorasse como o fez antes.

— Não pretendo fazer isso — admitiu o Rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda. — Se eu chamar um filho de Jonathan, Wayland poderá pensar ser uma homenagem para ele.

Alexander apertou seus lábios, o sorriso e a felicidade sumindo de seu peito. O Duque de Buckingham ainda era um assunto difícil para eles, mesmo cinco anos depois das desavenças que acarretaram o fim da amizade entre os três. Era difícil pensar em Jonathan Wayland e não lembrar de seus sorrisos, suas piadas e sua força, além das mentiras, manipulações e destruição.

Em Eton, os três eram grandes amigos. Um trio, criando caos e problemas na respeitável faculdade. Os professores costumavam separá-los durante as aulas para poderem ensinar sem o incomodo das conversas entre Alexander e Jonathan e as risadas de Jonathan quando ficava perto de Wayland. Os dois Jonathan eram muito próximos, pois as ligações de sangue tornavam a amizade mais forte.

Mas Wayland mudou depois da morte de seus pais. Um acidente horrível de caça e os rumores cresceram quando ele ascendeu o ducado de Buckingham, os nobres sussurrando sobre a sombra da mão do menino pairando sobre a morte do Duque e Duquesa. Jonathan e Alexander perguntaram um milhão de vezes se os rumores eram verdades, mas ele sempre se recusava a responder. Nunca afirmou, mas também nunca negou.

E quando estavam com quinze anos, Jonathan Wayland levou uma garrafa de vinho para Eton, encorajando o Duque de York a beber e desabafar. Após o primo bêbado reclamar do pai em seu estupor, e de seu tratamento, falando sobre como não poderia esperar para o reinado do irmão mais velho, Wayland correu para contar ao Rei.

Discutir a morte de um monarca, mesmo se ele já estivesse moribundo, era traição. Se não fosse seu filho de sangue, Stephen poderia fazer o que quisesse com o garoto. Execução, exílio. O relacionamento entre pai e filho, já fraco, não se recuperou, e York nunca perdoou Buckingham.

Certamente, Jonathan Wayland, primo da família real, esperava que Stephen punisse seu filho com a retirada de seus privilégios, talvez até mesmo mudar a linhagem de sucesso. Jonathan Christopher nunca mais olhou aos olhos de Wayland e Alexander seguiu seu exemplo, sempre leal ao Duque de York.

Mas aquilo era passado. O futuro da Inglaterra já havia saído do ventre de sua mãe, descansando nos braços quentes de sua ama de leite. Alexander precisava aprender a olhar para frente, sem repensar suas decisões. A ausência de Jonathan Wayland no parto do pequeno William, ou até mesmo da corte durante os últimos três meses, já havia sido notada e Alexander temia em pensar sobre o que ele estava planejando.

— É claro — ele disse, sorrindo. — E os padrinhos, já tem alguma ideia?

Jonathan assentiu.

— Clarissa me pede para nomear seu pai. William é o primeiro neto do Imperador, e é o esperado, então mandarei a carta hoje mesmo — murmurou, revirando os olhos levemente. — Penso em chamar minha irmã também. Ella fará proveito dessas pequenas alegrias. E você, é claro. Meu Príncipe não pode usufruir de seu nome sem ter você como padrinho.

Alexander assentiu, guardando os nomes em sua mente para poder repassá-los a Charlotte mais tarde. A ideia de ser padrinho de um príncipe real não lhe chocava tanto quanto a ideia de ter um herdeiro ao trono nomeado após ele. Era um pensamento quente dentro de seu estômago e reconfortante, como longas tardes de infância em Norfolk ou as ruas barulhentas da Indonésia.

— Preciso ir — Alexander avisou. — Alguém deve avisar a Condessa de Pembroke de seu novo trabalho.

— Ah. Boa sorte. — Jonathan fez uma careta, porém Alexander não conseguia decidir se ele estava assustado ou enojado. — Não queria estar em seu lugar.

Sem dar uma resposta mordente, Alexander fez uma reverência para os dois monarcas presentes e saiu do berçário, sem mostrar as costas para o Rei. Ele se virou no corredor, andando sem direção pelo palácio.

Poderia ter perguntado a alguém se eles soubessem onde estava Charlotte Branwell, mas não estava com pressa. A Condessa era uma ótima pessoa, mas exaustiva de interagir. Não havia nenhuma ansiedade em si para encontra-la e ele andava sem preocupação, simplesmente examinando os retratos pelos corredores dos membros da família de Jonathan.

Estava analisando os cachos dourados do falecido Rei Marcus, o marido, primo e co-monarca da Rainha Imogen I, quando ouviu uma voz lhe chamar. Mais tarde, ele pensaria que deveria ter previsto essa mudança de eventos, pois tudo estava muito calmo, e o mundo não funcionava assim. A vida não funcionava assim. Era irônico, realmente.

— Alexander? — alguém disse, a palavra laceada com um sotaque estrangeiro. O Duque de Norfolk sentiu seu corpo inteiro congelar ao ouvir aquela voz e aquele tom tão familiar tão longe do lugar a qual pertencia.

Ele se virou para o outro lado do corredor e viu uma forma comprida e magra se aproximar dele. Alexander subitamente se lembrou de noites passadas com ele lambendo aquela pele morena, acariciando os ombros largos. Maçãs do rosto salientes, cabelos negros escuros e olhos curvados e claros como âmbar.

Alexander sentiu seu coração parar e o estômago cair ao reconhecer aquele homem como Magnus Bane.

O homem não lhe deu tempo de reagir a sua presença, ou até mesmo perguntar o que fazia na Inglaterra, pois logo ele cruzou o espaço entre os dois com suas pernas longas e agarrou o pescoço do Duque. Seus lábios se encostaram forçadamente e Alexander fechou os olhos sem pensar, suas mãos se movendo para os ombros de Magnus no reflexo.

Era fácil beijar o outro e se esquecer de tudo. Ele não precisava pensar em como estavam em público, ou como aquilo era ilegal, ao sentir a língua de Magnus contra a sua, mas tão rápido como começou, terminou, e Alexander empurrou o homem para longe.

Ele olhou ao redor, temeroso que alguém tivesse visto, e seus ombros se relaxaram significantemente ao perceber como estavam sozinhos.

— Qual o problema? — Magnus perguntou.

— O que está fazendo aqui? — Alexander respondeu, ignorando a pergunta. — Deveria estar em Pequim. Sua última carta me disse que estava em Pequim. — estava tão certo disso. Por um segundo, Alexander pensou ter lido errado, mas certamente se lembraria se Magnus escrevesse: decidi entrar em um barco e passar quatro meses no mar para ir te ver. Não tente me impedir. Quando sua próxima carta chegar, já estarei na metade do caminho!

Mas a última carta de Magnus havia chegado seis meses antes. A gravidez de Clarissa ainda nem havia sido descoberta e Alexander, ao não receber resposta, pensou que o outro havia esquecido dele. Seguido em frente. Uma parte de si estava feliz com isso. Não era fácil ter um relacionamento em lados opostos do mundo.

— Quis te ver — Magnus disse, fazendo um bico. Ele tombou a cabeça de lado, como um filhote abandonado, e foi necessário tudo no corpo de Alexander para não o beijar naquele momento. — Pensei que seria romântico.

Alexander quis gritar. Aquela viagem repentina não era romântica. Era o oposto. A simples presença de Magnus ali poderia arruinar e, por Deus, como ele havia conseguido entrar?

— Alexander? Querido? — Magnus chamou, a voz doce. — Está tudo bem?

Demorou alguns minutos para Alexander encontrar sua própria voz.

— Você não deveria estar aqui — disse. — As coisas são diferentes. Não sabe a situação em que me coloca simplesmente por estar nesse Palácio.

Magnus deu um passo para frente e o Duque se afastou institivamente, sem pensar. Ele não foi capaz de ignorar o olhar de dor que passou no rosto do homem, mas tentou esquecê-lo.

— Sinto muito — murmurou, o tom de voz baixo. — Achei que fosse uma boa ideia. Aline me convenceu. Suas sugestões normalmente são boas. — Magnus deu de ombros e Alexander desejou puxá-lo para dentro de um quarto vazio e pedir desculpas na cama. Matar a saudade com seus membros entrelaçados. — Se quiser, eu voltarei para a Ásia. Aline e eu ficaremos em um hotel até o próximo barco sair. Nem precisará nos ver.

Aline está aqui?, Alexander pensou, triste e imaginou a prima — ou melhor amiga, ele nunca descobriu realmente — de Magnus. Aline era uma boa pessoa, mas abrasiva, e barulhenta. Ela falava o que via a cabeça sem se importar com as consequências e era terrivelmente leal a Magnus. Poderia ser perigosa, assim como amigável. Ele não gostava de imaginá-la solta na corte de Hampton Court, mas era como deveria estar, se o lugar vazio ao lado de Magnus lhe era uma indicação.

Alexander pensou em dizer sim, por favor, vão embora. Esqueça-me e finja que aqueles dois meses nunca aconteceram.

Mas as palavras a deixarem seus lábios foram:

— Não quero que você vá — admitiu e sua voz estava cheia de dor.

Ele olhou para Magnus e Magnus olhou para ele. Amarelo e azul, como as coisas deveriam ser. Alexander desejou estar de volta na Ásia, naquelas semanas abençoadas e celestiais, deitado na cama de Magnus sem qualquer preocupação no mundo. Ele desejou e desejou.

— Diga-me — Magnus sussurrou. — Diga-me como as coisas são. Diga-me o que dizer. Diga-me como agir.

— A Rainha acabou de ter um filho — Alexander respondeu, o tom tão baixo que ele mesmo não se ouviu.

— Ótimo — Magnus disse, colocando uma mão na curva do quadril de Alec. Ele o puxou para perto gentilmente e Norfolk não soube como responder. — Então ninguém irá prestar atenção em nós.

Alexander Lightwood pegou a mão de Magnus Bane e o puxou pelos corredores até encontrarem um quarto vazio.

Notas finais
pensei em adicionar uma cena da Clary e do bebê juntos, mas logo percebi que iria divergir a atenção do verdadeiro astro desse capítulo que era o magnus. o grande capítulo que eu havia mencionado, que iria ter vinte mil palavras e acabou sendo dividido entre esse capítulo e os outros dois últimos realmente acabaria com a chegada do magnus bane, então achei que seguir meu plano original iria me dar uma descansada, e uma relaxada, tremenda. o próximo capítulo terá cecily e clary sendo mães e poderemos descobrir o nome do bebê lightwood! agora sabemos o verdadeiro motivo para a briga entre wayland e herondale, mas onde será que o duque de buckingham está?!