Imperium
15 XV - Longa Vida à Rainha
Notas iniciais
Minha amada irmã,
Escrevo essa carta de Milão, em uma das propriedades da família Morgenstern. Por minha ligação com a Arquiduquesa, o Imperador me permitiu ficar aqui por algumas semanas, descansando de minha viagem antes de continuar até Londres. Desde o minuto em que deixei Berlim, eu não parei e você não sabe como é bom poder cessar e aproveitar a vida por alguns poucos momentos.
Wilhelmina adorou a Itália. O Sol, as pessoas, tudo. Ela costumava ser uma criança tão quieta e tão melancólica. Apesar de eu ter tentado proteger meus filhos do abuso de meu marido, há momentos em que eu não conseguia fazer tudo. Desde a morte de Frederick William, eu a vi rir e brincar como nunca antes. Ela tem apenas oito anos, mas eu rezo para ela esquecer do pai e o que ele fez conosco. É a melhor alternativa para todos.
Meu Friedrich continua na Prússia. Ele é o novo rei, afinal. A madrasta de meu falecido marido é sua guardiã e a nova regente do reino. Friedrich é um menino doce e sensível e Sophia Louise irá destruí-lo, assim como ela destruiu Frederick William.
Fiz de tudo para poder ficar com ele, nem mesmo se precisasse levá-lo para as terras de minha família. Quando chegou a hora de me despedir, eu lutei, gritei e xinguei. Devo admitir, doce irmã, que não agi como uma rainha. Papai se envergonharia muito se soubesse.
Mas eu não desistirei. Sou uma Herondale, apesar de tudo, e irei ter meu filho de volta. Custe o que custar.
Com amor,
Ella, Königinmutter in Preußen.
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A Infanta Anna encarou o filhote de galgo espanhol com uma intensidade quase cômica, a sua expressão tão parecida com a de Rei Gabriel que Cecily precisou cobrir sua boca com as mãos para não cair em gargalhada. A princesinha não parece se importar, entretanto. Era como se estivesse prestes a bater no peito e pedir para o cachorro ofensivo sair do quarto para resolverem o assunto como homens de verdade. Suas mãos gorduchas se estenderam e caíram ao chão, as palmas batendo no tapete turco, mas ela não pareceu se importar. Apenas apoiou o corpo inteiro nos dedos cheios e ergueu o traseiro, erguindo-se em duas pernas trêmulas e inseguras.
A Rainha Cecily e suas atendentes prenderam a respiração e se inclinaram para frente, observando a Infanta com olhos atentos. Cecily mordeu o seu lábio inferior em antecipação, nervosa demais para fazer qualquer coisa além de olhar. É agora?, ela se perguntou, ansiosa, Agora ela vai dar os primeiros passos?
O rosto vermelho e os ombros tensos de determinação, Anna colocou um pé gorducho para frente, os braços estendidos em uma tentativa de se equilibrar. A Duquesa de Escalona saiu de sua cadeira, pronta para pegar a Infanta caso ela tropeçasse, mas Cecily logo viu que não havia necessidade para aquilo. Anna deu outro passo confiante, enfim quebrando mais uma das barreiras da infância.
As mulheres presentes na antecâmara da rainha se quebraram em aplausos, murmurando encorajamentos para a filha mais velha do rei. Anna olhou para aquelas pessoas estranhas com um careta e enfiou três dedos na boca, andando mais um pouco para testar suas habilidades.
Cecily saiu de sua poltrona e abriu os braços.
— Anna, — ela disse, estalando a língua para chamar a atenção da pequena. — Anna, querida, venha até a mamãe. Venha.
Ela bateu as palmas, enfatizando a sua posição, e Anna sorriu, os olhos verdes iguais ao de seu pai brilhando.
A Infanta não pôde andar até sua mãe, entretanto, porque, antes mesmo que ela pudesse colocar um pé para frente, as portas dos aposentos se abriram e o Rei entrou com toda a sua pompa, virando o rosto para os lados e absorvendo todos os presentes.
Cecily se ergueu do chão, as bochechas queimando. Estava envergonhada. Era a rainha da Espanha, a pessoa com o ranque mais alto em todo o reino depois de seu marido, e estava caída nos tapetes, agachada ao lado da filha como uma criada. Seu pai a criou para ser melhor. Ela fez uma reverência, curvando as costas e dobrando seus joelhos, vendo no canto de sua visão as outras damas fazendo o mesmo.
Gabriel não usava a sua coroa, mas estava vestido como um rei. Eram casados há dois anos e Cecily nunca o viu usando qualquer outra cor, além do preto, e agora não era diferente. Ele estava com um casaco negro e calças de montaria escuras, estava caçando? Ela analisou o seu rosto. Não suava, então só deveria ter cavalgado pela floresta. Seu marido era belo, com características nítidas e angulares. Sua expressão eternamente vigilante e os grandes e brilhantes olhos verdes a analisando de cima para baixo, absorvendo toda a sua figura. Ele era alto e magro, enfatizando sua altura ainda mais. Os cabelos castanhos estavam sempre despenteados, o único aspecto de sua aparência que ele permitia não estar perfeita.
Anna era pequena demais para entender as regras de etiqueta. Ela apenas viu o seu amado pai, a quem ela idolatrava, e caiu de quatro, engatinhando animadamente até ele. Ao chegar nos pés de seu pai, Anna sentou em seus tornozelos, balançando as mãos para chamar a atenção do rei.
Gabriel quase sorriu e se inclinou, pegando a menina em seus braços.
— Oi, querida — ele disse, beijando o rosto da infanta. — Como ela está?
O Rei estava falando com Cecily, o rosto másculo virado para a esposa.
— Bem — Cecily respondeu, olhando para seu marido e sua filha. — Saudável. Ela estava andando agora há pouco, quase correndo.
— Ótimo — Gabriel respondeu, sem realmente demonstrar satisfação em seu rosto, mas Cecily o conhecia e viu o brilho de orgulho em seus olhos verdes. Ele olhou para as damas ao seu redor, as mulheres nobres das Cortes espanholas. — Levem a Infanta para o berçário e deixem-me sozinho com minha esposa.
— Si, mi Rey — disseram as senhoras em uníssono. A Marquesa de Cañete pegou Anna, balançando-a com o quadril, e saiu pela porta dos aposentos, seguindo as outras damas-de-companhia da rainha.
Cecily as observou irem embora antes de se virar para o marido, piscando os olhos para ele. Ela esperou ele começar a falar, o Rei não gostava quando era encurralado por uma esposa curiosa, algo que ela descobriu cedo em seu casamento.
Gabriel era quinze anos mais velho e seu aniversário de trinta e sete anos havia sido comemorado apenas algumas semanas antes, uma festa esplêndida nunca vista antes. Nem mesmo o seu casamento pôde se comparar.
Ele era experiente na vida e um veterano sangrento de mil batalhas. Ele ganhou a Guerra de Sucessão Espanhola, sucedendo ao trono de seu tio materno, Carlos II. Depois de treze anos batalhando o império dos Morgenstern, era difícil para Gabriel confiar em alguém; nem mesmo seu irmão, Gideon, conseguia tanta confidência quando se falava do irmão. Era um dos motivos para ele ter voltado para a Inglaterra, isso e seu romance com uma criada do Duque de Norfolk, um primo distante deles.
Cecily foi sortuda. Seu casamento com Gabriel e o nascimento de Anna a fizeram Lightwood, quer ela goste ou não. Não havia como trair Gabriel e destruir a Espanha quando sua filha era a primeira na linha de sucessão.
Entretanto, Cecily tinha noção de que todas as cartas enviadas e recebidas por ela eram lidas pelo marido. Sortuda, mas nem tanto. Para driblar essa rigidez, ela teve de encontrar outros meios para enviar cartas à sua família.
Gabriel suspirou, arrastando a mão pelo rosto, e se sentou em uma das poltronas. Ele parecia tão cansado e velho, quase como se tivesse envelhecido dez anos em apenas um dia.
Cecily andou até Gabriel e sentou em seu colo, circulando seu pescoço suado com as mãos. Ele pareceu relaxar levemente ao tê-la perto e encostou sua cabeça no ombro dela. A respiração dele estava quente e fazia cócegas em seu pescoço.
— O embaixador austríaco me fez uma proposta hoje — ele sussurrou em inglês. Gabriel era o Rei da Espanha, sim, e falava o espanhol durante o dia inteiro com a Corte e os membros do governo, mas ali, com os dois sozinhos, ele se permitia voltar para a língua materna. Ele havia nascido na Inglaterra, afinal. — Uma proposta irrefutável — ele xingou baixinho, as mãos agarrando as saias de Cecily. Quando saía na Corte, a rainha usava todas as camadas determinadas pela modéstia, mas aqui, dentro da intimidade de seus aposentos, ela se permitia o uso de um vestido mais simples. Era a única maneira de sobreviver ao calor infernal da Espanha.
Cecily assentiu e acariciou os cabelos de Gabriel, arrastando suas unhas pelo couro cabeludo. Ele gemeu, suspirando.
— Diga-me — ela murmurou. — Tudo tem uma saída, se você procurar direito.
As suas palavras deveriam servir como conforto para ele, mas Cecily não acreditava nelas. Quatorze anos se passaram desde a Guerra, quando os Morgenstern reivindicaram o trono espanhol como deles, afinal Carlos II era um Morgenstern, e as tensões entre as duas famílias depois da vitória dos Lightwood continuavam queimando no continente europeu. Se o Imperador queria alguma coisa, seria difícil recusá-lo e enfrentar toda a raiva do império.
— Ele quer Tatiana — continuou Gabriel, mencionando a irmã mais nova. Tatiana era uma jovem de apenas dezesseis anos, nasceu durante a Guerra de Sucessão, quando o irmão ainda lutava pelos direitos da mãe, a Infanta Bárbara. Ninguém esperava o seu nascimento, a irmã do falecido Rei espanhol já chegava aos quarenta anos, afinal, mas, em um milagre certamente orquestrado por Deus, as duas mulheres sobreviveram aos terríveis testes da cama de parto. Tinha apenas um ano ao se tornar órfã, de mãe e pai, depois de um terrível naufrágio causado pelos austríacos, e foi criada sob a proteção dos irmãos desde então. Ela era jovem, um doce de pessoa, porém poderia ser cruel quando queria. — O Arquiduque tem dezoito anos e precisa de uma esposa. Tatiana é a candidata perfeita.
Cecily murmurou compreensão e arrastou seus dedos pelos fios castanhos de Gabriel. Estavam suados, porém tão macios quanto seda.
— Se você aceitar, ela será a Imperatriz do Império Sacro Romano Germânico — Cecily sussurrou, escolhendo suas palavras com cuidado. Se você aceitar, indicando que o casamento seria uma decisão somente dele. Ela deixou de lado o possível noivo, mantendo apenas o futuro título de Tatiana.
— Sim — ele murmurou. — Mas os Morgenstern são nossos inimigos há anos. Não consigo parar de pensar se isso é uma armadilha de alguma forma.
— Como assim? — ela perguntou, tentando manter sua voz e sua expressão o mais inocente possível.
Desde seu casamento, Cecily tomou cuidado para não se tornar um dos problemas de Gabriel. Com ele, ela era gentil, doce. Um leão sem garras. Depois de anos morando em um campo de batalha, a última coisa que ele queria era transformar a cama de seu casamento em outro.
— Meus espiões na Corte de Viena me dizem que o Arquiduque é cruel, com um gosto para jogos sádicos — ele sussurrou. — Temo por Tatiana naquele fosso de cobras.
Cecily se afastou, colocando suas mãos nas bochechas de Gabriel. A pele dele estava quente e úmida, seus olhos estavam afundados em seu rosto e olheiras escuras cobriam sua pálpebra inferior. Ela levantou seu rosto, forçando-o a olhar em seus olhos, e arrastou seus dedos, acariciando-o.
Ele era magro demais, não comia o suficiente. Não dormia o suficiente. Só conseguia relaxar ali, dentro do quarto dela, quando conseguia derrubar as preocupações de um Rei e se enterrar em seu abraço.
Cecily deslizou para fora do colo de Gabriel e um brilho de arrependimento passou por seus olhos verdes, os dedos finos e longos agarrando as saias azuis. Ele não queria deixá-la ir, ela percebeu, mas não havia problema. Cecily era a rainha da Espanha, mãe da herdeira. Ela não iria para lugar nenhum sem Gabriel.
— Venha — ela sussurrou, pegando a mão dele. — Você precisa descansar. Deixe sua irmã e o Arquiduque austríaco para amanhã.
Gabriel se levantou, ainda segurando os dedos de Cecily, e permitiu ser levado por ela para o interior dos aposentos da rainha.
— Assuntos de estado… — ele sussurrou, olhando para trás de seu ombro.
Cecily parou entre as duas salas, o corpo encostado contra a porta semi-aberta. Ela olhou para seu marido, os olhos arregalados, a boca aberta e a respiração ansiosa para o que estava prestes à acontecer. Ele a desejava. Gabriel só tomava amantes quando ela estava grávida, incapaz de dividir a cama com ele em favor de nutrir o infante ou Infanta em crescimento, e mesmo assim… ele as esquecia assim que o seu confinamento acabava e poderia voltar para os braços de sua esposa.
— Esse é o seu assunto de estado, cariño — disse Cecily, pegando a mão dele e levando-a até o decote do vestido. Ela apertou a mão de Gabriel contra um de seus seios e ele suspirou, toda a dúvida desaparecendo de sua mente. — Nada é mais importante do que eu, do que nós.
Cecily soltou a sua mão, mas Gabriel a deixou ali, acariciando o peito dela pelo vestido. Parecia tão concentrado em sua tarefa. Com cuidado, ele colocou seus dedos entre o decote e a camisa interna que ela usava. Ele arrastou seu polegar pelo mamilo, provocando-o sem misericórdia, e Cecily suspirou, sentindo arrepios correr por sua coluna. Ele deu alguns passos para frente, retirando a sua mão e obrigando-a a andar para trás, e os dois entraram nos aposentos privados da rainha da Espanha.
O quarto de Cecily possuía paredes verdes, detalhes em folhas de ouro iluminando todo o cômodo. A sua cama de dorsel estava com lençóis azuis e chamas bordadas, símbolo da família Lightwood. Havia uma penteadeira, com caixas e caixas de seus acessórios. Quando eles se casaram, assim como Ella, Cecily recebeu permissão de seu pai de levar algumas das jóias da mãe para a casa nova, nenhuma extremamente valiosa quando se falava de dinheiro, mas emocionalmente preciosas. Ela tentou pedir um colar da rainha Céline, a mulher que realmente a criou e era sua mãe em seu coração, mas Stephen a recusou sem nem pensar direito na proposta.
— Vire-se — Gabriel disse, um tom de ordem em sua voz, e Cecily o obedeceu, mostrando suas costas para o rei. — Você é tão bonita.
As bochechas dela queimaram com o elogio e Gabriel se pôs a trabalhar nos nós de seu vestido. Seus dedos ágeis desataram as amarras quando tudo em seu corpo lhe dizia para rasgar o vestido e libertar o corpo belo de sua esposa. Em cada pedaço de pele exposto, Gabriel depositava beijos molhados, sentindo o gosto do suor e dos perfumes de Cecily.
A rainha sentiu os seus pulmões se encherem de ar, inflando com a falta de um espartilho, e suspirou, podendo dar a primeira inspirada livre em todo o dia. As saias azuis cobalto caíram ao chão, se acumulando em seus pés, e Gabriel empurrou a jaqueta para fora de seus braços, deixando-a apenas com a sua camisa interna de algodão.
Ela se virou e viu o rei, ainda completamente vestido, e se esticou nas pontas dos pés, procurando cegamente os seus lábios carnudos. Gabriel a beijou, agarrando sua cintura com dedos certeiros, e Cecily correu para despi-lo, retirando o casaco preto e puxando os fios de suas calças. A espera só a deixava mais excitada.
— Calma — ele disse, rindo de sua impaciência e ela quase ergueu as sobrancelhas em surpresa. Era raro ele sorrir, mais raro ainda tirar uma risada do rei. O marido de Cecily era conhecido pela frase: Irei parar de usar roupas pretas quando inventarem uma cor mais escura. Seus atendentes e conselheiros nunca viram esse lado de Gabriel, o divertido e jovem. Ele só se permitia aproveitar a vida quando os dois estavam sozinhos, com ou sem Anna.
— Eu preciso de você — ela retrucou, abaixando as suas calças. Em algum ponto entre saírem da cadeira e entrarem no quarto, ele havia retirado seus sapatos, assim como ela, apesar de Cecily não conseguir se lembrar de quando exatamente isso aconteceu. — Agora.
Ele a beijou novamente, mas seus lábios não duraram muito tempo na boca da rainha, se arrastando pela pele, tocando sua bochecha, sua orelha, sua mandíbula, seu pescoço. Ele chupou o seu ponto pulsante, sentindo os batimentos cardíacos em sua boca, e Cecily se perguntou se Gabriel sabia que o coração dela batia para ele, por ele. Provavelmente não. Declarações de amor não era o jeito deles.
— Venha — Cecily murmurou, andando até a cama, e Gabriel a seguiu, observando-a com olhos famintos.
Ela se sentou no pé da cama e retirou a camisa, ficando completamente nua. Cecily era jovem, tinha apenas vinte e dois anos, e seu corpo era belo. Sabia disso. Os seios pequenos, as cicatrizes em sua barriga deixadas pelo parto, tudo se juntava para atrair o Rei da Espanha a sua cama. Gabriel lambeu os lábios e caiu de joelhos, puxando uma de suas coxas para cima de seu ombro.
— Posso? — ele perguntou e Cecily poderia gritar. A honra inglesa do marido poderia ser insuportável às vezes, principalmente quando se considerava o estado de ambos naquele momento.
— Sim. Mas é claro. — ela estava sem fôlego e a expectativa do que estava prestes a acontecer acumulavam calor e umidade entre suas pernas, deixando-a incapaz de pensar direito. — Por favor. Gabriel…
Ele lambeu a sua intimidade, provocando o ponto de prazer com a língua, e Cecily caiu para trás, as sensações extremas se espalhando pelo seu corpo. Ele lambeu e beijou, focando todas as suas atenções apenas nela. Gabriel segurou o seu quadril, permitindo um acesso melhor, e enterrou seu rosto entre as pernas da rainha.
Cecily sentiu como se estivesse escalando uma montanha, as pernas tensas e o corpo esticado como a corda de uma cítara. Conseguia ver o topo, cada vez mais perto, se ela esticasse a mão…
Gabriel grunhiu e, gentilmente, colocou um dedo dentro dela. Depois outro. Esse foi o seu fim. Toda a tensão acumulada em seu organismo, todas as horas passadas na Corte, supervisionando os bailes, demitindo os servos. Tudo aquilo foi liberado com um simples movimento de seu marido, abrindo as portas e deixando o seu ápice correr por suas veias.
Ele se afastou, o rosto úmido com seu desejo, e subiu até a cama, cobrindo o corpo da rainha com o próprio. Gabriel a beijou e Cecily sentiu o próprio gosto em seus lábios, azedo e forte. Suas intimidades estavam próximas, um movimento em falso e tudo iria acontecer, seja bom ou ruim. Ela suspirou contra a boca dele, circulando o pescoço com os braços, e puxou a camisa de Gabriel para longe, libertando o peitoral glorioso de vosso marido.
O Rei da Espanha possuía um medo constante de ser arrastado para alguma guerra europeia e, portanto, se exercitava com frequência, desejando estar sempre em forma caso precisasse entrar no campo de batalha. Cecily não podia dizer que essa ansiedade não lhe trazia vantagens.
Gabriel beijou o canto da boca dela, encostando suas bochechas. Ele se mexeu, abaixando a mão direita para se ajeitar e, de repente, ele estava dentro dela.
Cecily agarrou o marido, acompanhando seus movimentos com o quadril, e gemeu, sentindo-o ir cada vez mais profundo.
— Deus — ele murmurou, rosnando em prazer, e Cecily suspirou, deixando o seu corpo cair contra o colchão.
Gabriel agarrou suas coxas, enfiando seus dedos longos contra a carne com tanta força que iria certamente deixar marcas, e ajeitou a posição de suas pernas, movendo-as de certa maneira para conseguir atingir um ponto mais profundo em sua intimidade.
O Rei da Espanha enterrou seu rosto na curvatura do pescoço de sua rainha, arrastando o seu nariz contra a pele. Cecily acariciou as mechas castanhas de Gabriel, beijando sua testa, sua orelha. Ele gemeu, mordendo o ombro dela, e ela franziu o cenho, suspirando. Estava tão perto de seu ápice, poderia alcançá-lo se estendesse a mão, e a espera era frustrante.
Ela se ajeitou, presa entre Gabriel e a cama, e ele parou, erguendo o seu rosto e olhando para ela com uma expressão preocupada.
— Você está desconfortável? — ele perguntou e seu hálito tinha o cheiro das folhas de menta que mascava de vez em quando.
— Não — Cecily retrucou, arrastando seus dedos sobre a bochecha corada de Gabriel, limpando o suor acumulado lá. Ele sorriu, virando o rosto levemente para beijar sua palma. — Estou bem. Continue, por favor.
Ele assentiu e apertou seus lábios contra os dela, lambendo dentro de sua boca. As estocadas estavam ficando mais rápidas e estáticas, um sinal de que Gabriel estava chegando ao seu limite, e Cecily o abraçou mais forte, encostando seus lábios ao ombro dele e mordiscando a pele ali.
Estava tudo ficando demais para aguentar. O ar abafado do quarto, o cheiro, os movimentos da pélvis dele contra o quadril dela. Cecily enfiou suas unhas nas costas de Gabriel e sentiu mais um clímax a tomar. Estava tão extasiada e gasta que mal sentiu Gabriel atingir seu ápice, derramando dentro dela.
Ele suspirou e seu corpo inteiro relaxou, caindo sobre Cecily, prendendo-a contra a cama, mas ela não se importava. Até gostava de sentir o peso dele, era como se estivesse protegida de alguma forma.
Gabriel beijou os lábios de Cecily antes de sair de cima dela, os separando no lugar mais íntimo.
Cecily se virou para seu marido, deitando sobre o seu peito, e suspirou.
— Dorme comigo essa noite? — pediu, olhando bem nos olhos dele.
Gabriel parecia prestes a recusar seu pedido. Entretanto, ele beijou a sua testa e assentiu, sorrindo.
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Cecily acordou antes de Gabriel.
A luz da manhã entrava pela janela, se infiltrando entre as cortinas e iluminando os corpos reais. Ainda estavam nus, pois encontraram forças para consumarem o casamento mais duas vezes antes de sucumbirem ao sono. Cecily se cobriu com um dos lençóis antes de dormir, mas o marido se recusou, preferindo descansar do jeito que veio ao mundo.
Ele parecia tão calmo em seu sono, quase como se nada pudesse lhe atingir, as preocupações de Rei pertencendo ao reino dos acordados. Cecily se arrastou para mais perto, tomando cuidado para não despertá-lo, e sorriu, observando o jeito que ele inspirava e expirava, os olhos se mexendo embaixo das pálpebras com as imagens de mil e um sonhos. Cecily tocou em sua sobrancelha, ajeitando os fios castanhos, e acariciou sua bochecha, incapaz de se controlar.
Apesar de tudo, Cecily Herondale realmente amava o seu marido.
Gabriel franziu o cenho e ela parou, mas já era tarde demais. Ele piscou os olhos, abrindo-os e expondo as íris verdes. O Rei suspirou, arrastando uma mão por seu rosto, e olhou ao seu redor, como se estivesse tentando se lembrar onde estava. Cecily mordeu o interior de sua bochecha, não querendo dizer nada e estragar aquele momento belo entre eles. Raramente, Gabriel aceitava dormir em seu quarto. Os aposentos do Rei eram conectados à sala de reunião do conselho, caso alguém precisasse acordá-lo durante a noite ou logo de manhã.
Ele olhou para ela e seu corpo inteiro relaxou, um sorriso se abrindo em seu rosto.
— Bom dia — ela sussurrou, encostando seu rosto em suas mãos.
— Bom dia — Gabriel respondeu. — Que horas são?
Cecily olhou para o relógio em sua parede. Feito de ouro maciço, era pesado demais para ficar em cima de uma simples mesa de madeira, portanto, ela havia mandado fazer um apoio reforçado para o objeto.
— Oito — ela respondeu. — Está cedo. Pode dormir um pouco mais.
Gabriel balançou a cabeça em negação.
— Tarde demais — disse ele. — Quando acordo, não posso voltar a dormir. Deveria saber disso, estamos casados há dois anos. — ele se voltou para ela. — Venha aqui.
As suas mãos fortes pegaram os braços de Cecily, mexendo-a como se fosse uma simples boneca de pano. Ele era tão forte, seria impossível recusá-lo, apesar de não haver nenhum desejo dentro dela de negar a ele acesso completo ao seu corpo; seria bom, muito bom, e Cecily sabia disso. Ela se permitiu ser manipulada e puxada até o colo do marido, presa em seu abraço. Gabriel mordeu o seu pescoço, lambendo a área machucada para aliviar a queimação da mordida, e Cecily suspirou, fechando os olhos e se permitindo aproveitar todas as sensações.
Gabriel apertou sua bunda, acariciando a carne com suas mãos abertas, e a puxou para mais perto, arrastando sua intimidade contra a dele. Ela o sentiu ficando cada vez mais rígido embaixo dela, se preparando para mais uma rodada de carícias, e não encontrou dentro de si a vontade para negá-lo. Muito pelo contrário, na verdade. Cecily estava se abaixando, determinada a apertar os lábios contra os dele, quando a porta se abriu de supetão e um dos ministros do Rei entrou, um livro enorme apoiado em seu cotovelo.
— Senhor, eu… — o homem olhou para Cecily, nua e sentada em cima do marido, e arregalou os olhos, logo voltando para a antecâmara, murmurando mil desculpas, mas o estrago já estava feito.
Gabriel xingou baixo e Cecily saiu de seu colo, puxando os lençóis até seu corpo. As bochechas queimavam com a força de centenas de sóis, a vergonha de ter sido pega em uma posição tão imprópria. Por Deus, ela nunca havia sido tão humilhada.
As Cortes espanholas eram opressivas e religiosas. Tocar na rainha era proibido para todos menos suas damas, ou o rei. Uma mulher precisava seguir códigos de vestimenta rígidos se quisesse sair em público, com certas partes de seu corpo cobertas pelo bem da modéstia, e aquele… ministro… ter entrado em seu quarto e a visto daquela maneira era um ultraje. Ele a havia visto nua, em cima de seu marido.
— Droga — disse Gabriel, puxando sua camisa de onde ela estava no chão. — Maldito Echevarria. Irei matá-lo.
Cecily não disse nada. Ela simplesmente vestiu a camisola de linho, desceu da cama e suspirou. cruzando os seus braços. Deixe Gabriel ter sua raiva masculina e incontrolável. Com passos cuidadosos, ela andou até a sua escrivaninha e pegou um dos sinos de prata colocados ali, caso precisasse chamar alguma de suas criadas. Cecily balançou o sino e, meros segundos depois, uma jovem loira entrou no quarto, fazendo uma reverência.
— Su Majestad — ela disse. Seus olhos azuis se esbugalharam ao ver o Rei em tal estado de indecência, as bochechas atingindo um tom avermelhado, mas logo caiu em outra reverência. — Su Majestad.
— Traga minhas roupas — Cecily disse. — Quero usar o vestido da tafetá roxa. — ela olhou para seu marido. — E roupas para o Rei também. O conjunto de seda, com detalhes em vermelho. Por favor.
A criada assentiu e fez mais uma reverência antes de sair, sem nunca mostrar as costas para o casal real.
Quando ela saiu, Gabriel se virou para a esposa:
— Obrigado — disse.
— Sem problemas — Cecily respondeu. Ela andou até ele, parado na janela como um Príncipe de um conto de fadas, e o abraçou por trás, circulando sua cintura com seus braços. — Eu vou te ver hoje?
Gabriel balançou a cabeça.
— Não sei — ele retrucou. — Preciso negociar o noivado de Tatiana com o embaixador. Só o Senhor decidirá quanto isso irá durar.
— Você tomou a sua decisão, então? — ela perguntou, beijando o espaço entre suas omoplatas.
— Sim — disse Gabriel, cansado. — Não posso recusar uma proposta dessas. Nos trará muitas vantagens e garantirá a paz com os Morgenstern. Tatiana será a esposa de Sebastian, a futura Imperatriz e Arquiduquesa-consorte da Áustria. — ele se virou em seu abraço, olhando bem para ela. Cecily era mais baixa do que Gabriel e eram momentos assim em que essa diferença ficava ainda mais óbvia. — Você pode falar com ela?
Cecily pensou bem na proposta. Falar com Tatiana? A moça tinha apenas dezesseis anos, mais próxima em idade da rainha do que de seu próprio irmão. Não eram extremamente próximas, mas também não se desgostavam. O relacionamento era neutro, como todas as outras coisas na vida de Cecily.
— Claro — ela respondeu. — Posso lhe oferecer um pouco de perspectiva no assunto.
— Perfeito — Gabriel disse. — Não posso te agradecer o suficiente.
Cecily fez uma careta, como se estivesse pensando, e tombou a cabeça levemente para o lado.
— Tapeçarias novas — disse e Gabriel arqueou uma sobrancelha. — Por favor. Estou incrivelmente entediada com essas.
Ele suspirou.
— Tudo bem.
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Tatiana Lightwood era a luz das Cortes. Os olhos verdes brilhantes, o longo cabelo castanho e sedoso, as sobrancelhas angulares, as altas maçãs do rosto. Ela parecia uma pintura viva, tão perfeita e artística. Estava sempre usando a mais nova moda, sempre querendo ter a melhor aparência possível. Era bonita e certamente sabia disso. Apesar de ter nascido na Inglaterra, cresceu em Aragão durante a Guerra de Sucessão, e mal falava o inglês. Para todos os efeitos, Tatiana era a perfeita princesa espanhola.
Cecily a encontrou nos jardins, andando com uma de suas amigas, cuidando das roseiras da falecida rainha Maria Anna da Áustria. Ela se abaixava, segurando uma tesoura, cortando as melhores rosas para sua coleção pessoal.
A amiga da princesa foi a primeira a perceber a chegada da rainha e se curvou, abaixando a cabeça em sinal de submissão.
— Mi Reina — sussurrou e Tatiana se ergueu, caindo em uma reverência similar.
— Vossa Majestade, — ela disse. — Como é bom te ver.
Cecily sorriu. Tatiana poderia ser extremamente doce quando queria.
— Deixe-nos a sós — murmurou, olhando para a dama de Tatiana. — Precisamos conversar.
A garota nobre, provavelmente filha de algum dos conselheiros de Gabriel, se virou e andou de volta para o castelo, simulando seu desinteresse no assunto, porém Cecily sabia que ela iria ouvir tudo da boca de Tatiana muito em breve. A princesa era muito fofoqueira.
— Conversar? — ela murmurou. — A que devo a honra de vossa presença, majestade?
— Venha — disse Cecily, enrolando o seu braço no de Tatiana e a puxando para um lugar mais privado dos jardins do Real Alcázar de Madrid. — Seu irmão pediu para eu vir falar com você.
A expressão animada de Tatiana vacilou.
— ¿El Rey? — perguntou. — Mas por quê?
Cecily apertou os seus lábios e deu tapinhas calmos na mão da princesa.
— Tatiana, — ela começou. Não havia maneira fácil de dizer isso. — O que você sabe sobre os Morgenstern?
Tatiana franziu o cenho, confusa com a pergunta. Ela lambeu o seu lábio inferior e buscou em sua mente as respostas para sua pergunta.
— Eles são os governadores da Áustria. Receberam seu nome de um castelo na Suíça, onde se tornaram os Condes de Morgenstern no século XII. — ela mordeu o lábio. — São católicos, como nós. Seraphina Morgenstern é casado com seu irmão, Vossa Majestade.
— Correto — Cecily disse. — O que sabe sobre o Arquiduque Sebastian, princesa?
Tatiana arregalou os olhos, a sua expressão traindo todos os seus sentimentos internos, e lágrimas mancharam as íris verdes, transbordando e escorrendo por suas bochechas.
— Ele é o herdeiro de todos os domínios austríacos — murmurou e uma parte de si já devia saber o motivo para toda aquela conversa, o que mais poderia explicar tal reação? — Ele tem dezoito anos. Ele é tão bonito quanto um anjo caído, ouvi dizer.
— Exatamente. — Cecily respirou fundo. Não havia uma maneira delicada de dar aquela notícia. — O Imperador fez um pedido formal de vossa mão em casamento no nome do filho. — ela pausou, deixando Tatiana absorver todas aquelas notícias. — E seu irmão pretende aceitar.
Tatiana balançou a cabeça, dando alguns passos para trás, e Cecily suspirou, seguindo-a.
— No, no, no, no, no. Eu sou jovem demais, por favor, minha rainha — ela murmurou, desesperada. — Eu não entendo. Por quê?
— Porque Espanha precisa de paz, doce Tatiana. — Cecily tentou erguer sua mão para ajeitar um dos fios de cabelo da princesa, mas ela se afastou, recusando o carinho. — Não podemos ter uma nova guerra e a Áustria pode nos proteger.
— Mas eu quero ficar aqui!
— Você não quer ter sua própria família? — questionou a rainha. — Filhos e netos? Não quer ter alegrias?
— Não precisamos da Áustria para isso — retrucou Tatiana. — Eu não entendo. A Áustria é aliada da Inglaterra, assim como nós. Isso não nos torna amigos por tabela? Parentes, até mesmo.
Cecily suspirou. Ela queria que fosse tão fácil assim.
— Não exatamente — respondeu. — Os austríacos são aliados à Inglaterra, desde o casamento entre meu irmão e a Arquiduquesa, porém isso não garante uma amizade entre a Espanha e o império. Sua união com Sebastian da Áustria fará isso. Pense nisso, Tati. Você será a Imperatriz, seus filhos carregarão o nome Morgenstern. Você irá ser a mulher mais importante de toda a Europa.
— Eu não quero ser a mulher mais importante de toda a Europa — retrucou Tatiana. — Eu não quero viver em Viena, ou ser a esposa de Sebastian. Quero ficar aqui e me casar com um espanhol.
— Sinto muito — disse Cecily. — Mas você irá se casar com quem o seu irmão decidir e ele escolheu o Arquiduque. — ela suspirou. — Irei falar com os seus tutores e pedir para adicionarem alemão aos seus estudos, assim como a história e a geografia da Áustria. Deve se preparar.
Cecily se virou, começando a trilhar o caminho de volta para o Palácio, quando a voz de Tatiana soou atrás dela, alta e estridente como a de uma jovem moça deveria ser:
— Você só está aqui porque meu irmão queria uma aliança com a Inglaterra para nos proteger! — ela gritou, irritada. — Você falhou em nos dar um herdeiro homem e agora eu irei ser vendida para a Áustria porque você se provou inútil como rainha!
O corpo de Cecily queimou. Vergonha, humilhação. Não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Em toda a sua vida, ninguém nunca lhe ergueu a voz dessa maneira. Pelo Senhor, era uma princesa, uma rainha!
Ela se virou e olhou para Tatiana, as lágrimas descendo pelo rosto de sua cunhada.
— Você está chateada, portanto não irei dizer ao seu irmão sobre suas palavras duras. Vá para o seu quarto. Irei pedir ao cozinheiro lhe mandar uma sopa calmante. Fará milagres em seu humor, lhe garanto — murmurou. — Tenha um bom dia, princesa Tatiana.
Cecily se virou e continuou andando pelos jardins, se direcionando até o Palácio. Ela estava subindo as escadas para o salão de entrada quando a viu, sentada em uma mesa de cartas como se não tivesse nada de errado em suas ações ou até mesmo a sua presença ali.
As outras mulheres, pouco entretidas no jogo, ergueram seus olhos e a viram, parada na varanda do Palácio, completamente chocada. Cristina Mendoza Rosales se virou, colocando as próprias cartas viradas para a mesa, e sorriu.
— Su Majestad — disse a Duquesa de Cádiz sem nem ao menos se levantar de seu lugar. — Como é bom te ver. Gostaria de se juntar a nós? Tenho certeza de que há espaço para mais um jogador. — ela olhou para suas companheiras de jogo. — Precisamos de vossa opinião em um assunto muito importante. Um ministro do Rei encontrou ele e una puta em uma posição vergonhosa. A mulher, completamente devassa se você quiser saber minha opinião, estava nua e no colo de Vossa Majestade, os dois deitados na cama sem nenhuma outra preocupação no mundo. O que acha sobre isso, mi reina?
Cecily não disse nada. Aquilo era uma humilhação muito pior do que as palavras de Tatiana. Aquela… Aquela… Aquela mulher! Ela estava ali, bem embaixo do seu nariz, vivendo como se não tivesse se condenado ao inferno. Por Deus, quando ela havia voltado? E por que o Rei não havia lhe dito nada sobre isso? Ele sabia?
Cecily quase se beliscou por tamanha tolice. É claro que Gabriel sabia. Nada acontecia naquele Palácio sem seu consentimento.
Ela se virou e puxou as saias, correndo para dentro da residência Real. Cecily percorreu todos os corredores do Real Alcázar de Madrid, o sangue fervendo dentro de suas veias. Não conseguia acreditar. Como ele poderia ter feito aquilo com ela? Com eles?
A rainha ignorou os Cortesãs que tentaram lhe dirigir a palavra, andando pelo o Palácio Real como uma loba procurando sua presa. Dois anos haviam se passado desde a sua mudança para aquele lugar e já conhecia a residência favorita do marido com a palma de sua mão. Poderia andar por ali de olhos fechados e ainda assim conseguiria encontrar a sala de reuniões do conselho.
Os guardas postos na porta a viram chegando de longe e, como se soubessem o estado de seus sentimentos pela expressão em seu rosto, não hesitaram em deixá-la entrar, abrindo as portas duplas de madeira.
Cecily entrou na sala do conselho com passos fortes e cuspindo fogo. A mãe dela havia sido uma nobre galesa e todos sabiam que o símbolo do País de Gales era um dragão vermelho.
— Como você ousa? — ela gritou, interrompendo a reunião.
Os conselheiros e ministros de seu marido a encararam em choque, parados ao redor do trono de Gabriel, surpresos com tamanho desrespeito para o rei.
— Por favor, déjame solo con la Reina — murmurou Gabriel e seus ministros se ergueram, fazendo curtas reverências para Cecily e saindo pela porta aberta. O marido da rainha suspirou, esfregando o rosto com a palma. — Por favor, me esclareça. O que eu fiz?
Ele se fazia de inocente. Cecily quis estapeá-lo.
— A Duquesa de Cádiz está de volta — disse ela. — Cristina está aqui! Você me prometeu de que ela iria ser banida. Mentiu para mim!
Gabriel saiu de seu trono, colocado em uma elevação no chão, e andou até ela, erguendo as mãos em sinal de paz.
— Acalme-se — ele respondeu, a voz neutra. — Posso explicar tudo isso…
— O corpo de nosso filho ainda nem esfriou na terra e você já chamou a sua meretriz de volta? — ela questionou. Gabriel tentou tocar em seus braços, certamente para acalmá-la, mas Cecily estapeou suas mãos para longe. — Não tem respeito por mim? Ou por Anna, sua doce herdeira. Quer exibir a sua amante pelo Palácio onde a sua filha vive? É isso mesmo, Gabriel? Que tipo de marido é você? Que tipo de Rei é você? Vossa Majestade se esqueceu de quem eu sou? Eu sou sua esposa, sua rainha, membro da família Herondale...
— Cristina está grávida — Gabriel disse e Cecily se calou, as palavras morrendo dentro de sua garganta.
Foi como se alguém havia virado um balde de água fria sobre ela. Ela não conseguia reagir. Estava paralisada, chocada. Grávida? Mas… Como?
— Eu não poderia abandonar a mãe de meu filho para sofrer a raiva de seu marido — ele continuou e sua voz parecia estar em luto.
Cecily deu um passo para frente, determinada, e o rosto de Gabriel pareceu se iluminar, a esperança cobrindo toda a sua expressão. Ele era tão tolo, tão inocente. O Rei realmente achava que Cecily poderia perdoar uma afronta dessas, uma ofensa tão cortante? Se era verdade, ele não deveria conhecê-la então. Não sabia que o sangue correndo dentro de suas veias era quente, quase fervendo. Ela torceu a sua boca e, de maneira certeira, cuspiu no rosto do rei.
— Você ganha um filho, mas perde uma esposa — ela disse antes de se virar e ir embora da sala.
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Cara Cecily,
Obrigada por sua carta. Jonathan fala muito bem de você, assim como toda a Corte. É uma honra poder continuar essa correspondência com Vossa Majestade. Histórias de sua elegância me encontraram até mesmo durante meus anos na Áustria.
Estou na Inglaterra há quase dois meses e já a vejo como minha casa. Esse país é perfeito, completamente e inteiramente perfeito. Minha qualidade de vida melhorou dez vezes. Nunca fui tão feliz. Morar no Palácio de St James, ser a esposa de Jonathan... É indescritível. Eu nunca imaginei que a vida poderia ser tão boa assim.
Vosso irmão é gentil comigo. Toda noite, ele vem até o meu quarto e me beija, sussurrando coisas maravilhosas em meu ouvido antes de irmos para a cama. Tenho certeza de que não há princesa mais feliz em toda a Europa. Rezo todos os dias para ter um filho dentro de mim. Seria a única coisa para completar a minha vida. Gostaria muito de ser mãe.
Estou ansiosamente esperando por sua resposta.
Carinhosamente,
HRH Clarissa, the Princess of Wales.
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As criadas a despiram em silêncio, vestindo-a com uma camisola de algodão, tingida de preto. Intimamente, Cecily ainda estava de luto por seu menino falecido.
O quarto da rainha possuía uma atmosfera pesada, abafada, e todos pareciam assustados, andando em cascas de ovos ao redor da rainha com medo de sua reação. Todos na Corte já sabiam de sua briga com o rei. Fofoqueiros, pensava Cecily. Odiava todos eles. Os nobres e as damas eram o pior tipo de ser humano em existência, presos com os olhos voltados para o próprio umbigo. Se todos explodissem em chamas na frente de seus olhos, seria pouco.
Não conseguia acreditar. Cristina? Grávida? Como ele podia ter feito aquilo com ela? Essa era a traição de pior nível. Era fácil aguentar a Duquesa de Cádiz quando Gabriel apenas dormia com ela, usando-a para seus próprios prazeres, mas agora que ela iria ter um filho dele, seria impossível suportar. E ele não poderia realmente achar que a criança iria viver ali no Palácio, ou poderia? Cecily tentou imaginar como seria essa possível vida. A criança bastarda deles, vivendo debaixo de seu próprio teto…
Não. Ela preferia a morte.
Cecily simplesmente não conseguia entender. O que Cristina tinha e ela não? Títulos? Beleza? Riqueza? Impossível. Ela era apenas um corpo quente perto quando Gabriel precisava e, por uma desventura do destino, a semente real acabou dando frutos dentro de seu útero.
Não importa, Cecily pensou. Os filhos dela serão ilegítimos, incapazes de herdar o trono. Mesmo se nunca tivesse um filho homem, Anna era saudável e crescia bem, atingindo todas as marcas de uma criança de sua idade. Ela carregava o nome Lightwood e possuía sangue Herondale correndo por suas veias. Seria uma rainha e ótima governante. Cecily a criaria para saber quem era, quem seus antepassados eram e ela nunca iria esquecer disso.
Sim. Parecia um bom plano.
Cecily se virou para uma das criadas.
— Chá — ela disse. — Traga agora.
A mulher fez uma reverência e saiu, andando até a cozinha atrás do chá da rainha. Uma servente pegou uma escova, penteando seus longos cabelos negros até brilharem como pedras de ônix, e Cecily tentou relaxar. Ela estava tensa, irritada. As feridas em sua alma cobriam o seu corpo, tão profundas e brutas que até mesmo roçar contra elas seria se tornar um condutor para a sua violência e ódio.
Maldito seja Don Gabriel Lightwood. Aquela era a última vez que ele a tratava daquela maneira.
Cecily se sentou, encarando a chama crepitante da lareira acesa, sentindo o seu calor a tomando. A armadura ao seu redor não era mais tão confortável depois de dois anos permitindo ser vulnerável, se apaixonando por Gabriel, criando uma família com ele, mas ela estava ali e ela iria lhe proteger.
A criada voltou com uma bandeja de prata com chá e biscoitos. Cecily pegou apenas a xícara, não estava com vontade de comer nada. Sentia nauseada e enjoada, prestes a vomitar.
Seja prazer ou conselhos, se for o melhor em sua vida, ele não irá perambular para longe. As palavras de sua antiga governanta queimaram seus ouvidos, assombrando-a, e Cecily precisou admitir que ela estava certa até certo ponto, porém a baronesa era uma virgem; não sabia nada sobre os jeitos dos homens e foi incapaz de preparar a antiga princesa para o seu dever como rainha.
Por dois anos, ela foi uma esposa boa e leal. Era obediente, amável. Nunca ergueu sua voz por nada, ou pediu alguma coisa. Gabriel não iria encontrar opiniões e conselhos mais amorosos e devotados. Ela nunca iria traí-lo. O nascimento de Anna a fez uma Lightwood oficialmente, sem contestação. E o que ele fez? Pagou essa lealdade com um bastardo dentro da barriga de Cristina Rosales.
— Deixem-me sozinha — Cecily ordenou e as criadas correram para obedecer, aliviados por terem um descanso de seu mal humor.
Cecily encarou a lareira e sentiu o fogo tomar o seu peito, queimando seu coração. Não era justo.
O fogo era o símbolo dos Lightwood, representante de sua força e poder incontestáveis. Aeterna flamma, não era esse o lema deles? Chama eterna. Os Lightwood eram nobres desde o início da Inglaterra e agora governavam a Espanha e todos os seus domínios. Casamentos vantajosos os levaram ao epicentro da Europa.
Cecily se levantou, segurando a xícara em sua mão e pegando o bule, ainda cheio até a tampa com o chá espanhol. Ela arrastou seus dedos pela porcelana chinesa e, com um movimento certeiro, jogou o líquido quente na abertura da lareira. O fogo se apagou com um assobio longo, quase como um grito de agonia final, e uma corrente de fumaça se ergueu da lenha apagada.
Chama eterna. Cecily poderia rir. Ela preferia muito mais o lema dos Herondale. Malo mori quam foedari. Morte antes da desonra.
A porta se abriu e Cecily se virou, vendo o seu marido entrar em seu quarto. Gabriel não havia mudado desde que ela o viu de manhã, nem mesmo as roupas. Ele parecia cansado, entretanto, com olheiras profundas embaixo de seus olhos. Estava claro o estresse em seu corpo, resultado da briga dos dois.
Ótimo. Ela queria o seu estresse. Cecily queria que ele sentisse a dor como ela sentia, sofresse como ela sofria.
— Como posso ajudar Vossa Majestade? — ela perguntou, a voz formal até demais.
Gabriel suspirou.
— Cecily, eu não quero que as coisas sejam assim entre nós — ele disse.
— Deveria ter pensado nisso antes de dormir com Cristina Rosales — retrucou Cecily. Ela suspirou e se virou, olhando para a janela. A cidade de Madrid dormia no horizonte, descansando para um novo dia de trabalho no dia seguinte. Cecily não era boa de geografia mas gostava de imaginar que ao longe, bem ao longe, a Inglaterra residia na direção onde olhava. — Estou cansada, marido. Estou cansada de ser humilhada por suas amantes, de receber perguntas diárias sobre quando irei lhe dar um filho homem. Estou farta de tudo isso.
— O que eu posso fazer para melhorar? — ele questionou. — Diga-me e eu faço.
— Você não pode fazer nada — respondeu ela. — O que está feito não pode ser desfeito. — ela olhou para ele. — Vou me retirar da Corte. Amanhã, levarei a Infanta para Aranjuez e ficaremos lá até o nascimento de seu bastardo, talvez até mais.
Os olhos de Gabriel se arregalaram e ele abriu a boca várias vezes para falar, mas parecia estar em falta de palavras. Demorou alguns minutos antes dele se recompor, conseguindo finalmente falar.
— Não — ele disse. — Preciso de você.
— Não, não precisa — murmurou Cecily, sentindo uma calma estranha tomar seu corpo. Ela esperava estar gritando, irritada, mas não conseguiu encontrar dentro de si a chama para isso. — Você não me procura para assuntos de estados, nem perguntou minha opinião sobre o casamento de Tatiana. Agora, com a gravidez de Cristina, também não precisa de mim para lhe dar descendentes. Sou completamente desnecessária.
— Cecily… — ele sussurrou, dando um passo para frente.
Ela ergueu a mão, indicando-o para parar de se mexer.
— Você me disse que eu sempre seria a mãe de seus filhos, Gabriel. Não importava o número de suas amantes, pois as crianças sempre seriam minhas. Você se lembra disso? — murmurou e ele olhou para baixo, envergonhado. Gabriel lembrava daquela promessa. — Fui tola em acreditar nas suas palavras.
— Mas você não pode ir — ele replicou. — Cecily, seu lugar é aqui. O lugar de Anna é aqui.
— Aqui? — Cecily sentiu a acidez em sua voz. — Só estou te pedindo um ano, Gabriel. Anna não merece ver a amante do pai inchar com a semente dele. Eu também não mereço.
— Eu não vou deixar — ele disse. — Preciso de você, creia nisso ou não. Você irá ficar aqui, comigo. Anna também. Continuaremos sendo uma família. Tudo ficará bem.
Ele andou até ela e encostou em seus braços, arrastando as mãos pela pele. Deveria ter sido reconfortante, um carinho gostoso, mas o toque de Gabriel queimava.
— Nada ficará bem — ela replicou, empurrando suas mãos. — Eu nunca irei me esquecer disso. Vou para Aranjuez com Anna e minha decisão é final. — uma ideia chegou em sua mente, perversa e tóxica, mas seria perfeita para conseguir o que quisesse. — Se não permitir, eu vou me matar. — os olhos de Gabriel se arregalaram ainda mais, quase pulando para fora de sua face. — Me jogarei da janela mais alta do Palácio, cortarei os pulsos com as facas de meu jantar, farei greve de fome. Não me importa. Me recuso a ficar aqui e ver a sua amante dar a luz ao seu bastardo. É uma ofensa demais para mim.
— Tudo bem — ele disse. — Tudo bem. Você pode ter seu ano em Aranjuez com Anna. — Gabriel suspirou. — Só, por favor… Não se mate.
— Muito bem — Cecily respondeu e, porque parecia certo. — Perdoe-me, mas você está me forçando a fazer isso.
— Era eu quem deveria pedir desculpas — Gabriel disse e deu um passo para frente, apertando os lábios contra os dela.
Cecily pensou em recusar o beijo, em empurrá-lo para longe, estapear seu rosto, mas não encontrou dentro de si a vontade para isso. Estava tão cansada e precisava tanto de atenção, de um pouco de carinho, e qual era o problema em encontrar isso em seu marido? Era um de seus direitos como esposa. Para a igreja, Gabriel só poderia dormir com ela, apenas com ela.
Ele agarrou sua cintura, puxando-a cada vez mais perto até seus peitos se apertarem, incapazes de se aproximarem mais. Cecily suspirou, segurando os ombros dele, e seu coração acelerou descontrolado.
Ela o amava. Deus, ela o amava. Não era possível parar de amá-lo, não importando o quanto ele a machucava.
Gabriel puxou sua camisola para cima, expondo suas pernas, e Cecily arfou, sem fôlego. Seus dedos ágeis desataram o nós de suas calças, empurrando o tecido para baixo, e ele grunhiu quando ela agarrou seu membro pulsante, acariciando-o com a ponta dos dedos.
— Cecily... — ele sussurrou. — Você vai ser a minha morte.
Ótimo, ela pensou, mas não disse nada. Estava focada demais em sua tarefa.
Ele a levou até a cama, descendo suas carícias até o seu pescoço, e Cecily suspirou quando seus lábios se fecharam ao redor de seu pulso, sugando a pulsação em sua boca. Gabriel pegou seus joelhos, empurrando-os até encontrarem seu peito, e a penetrou, forte e rápido.
Ela queria chorar. Estava tão triste, com tanta raiva, e, no entanto, era incapaz de se negar o prazer de tê-lo ali, dentro dela, onde ele pertencia. Se pudesse, ficaria sempre assim, colada nele. Por Deus, Gabriel sabia exatamente como deixá-la gentil e obediente. Poderia matá-lo se não estivesse tão inebriada com o desejo e a luxúria.
Se sua mãe a visse agora... A imagem que veio em sua mente não foi a da Rainha Linette, cujo rosto Cecily só conhecia de retratos, mas de sua verdadeira mãe, a de alma, com olhos e cabelos amarelos como o ouro e um sorriso amável e cheio de ternura. Céline de Montclaire criou a princesa até os onze anos, amando-a como se tivesse nascido de seu próprio ventre. Desde sempre, quando imaginava sua mãe, a imagem da segunda esposa de seu pai era a que pensava.
Gabriel mordeu o seu pescoço e Cecily abriu os olhos, encarando o teto do dorsel de sua cama com uma calma calculada.
Ali, bordado em fios de ouro no tecido azul, estavam três letras, as linhas se entrelaçando como se estivessem se abraçando, unidas em uma dança eterna. Elas brilhavam no escuro, refletindo a luz pálida da lua, infiltrando o quarto pelas janelas abertas, voando no ar junto com o vento. As letras encararam Cecily de volta, quase a zombando.
G&C.
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