Imperium

13 XIII - Visconde de Rochester


Naquela noite, Jessamine sonhou com o mar.

Em seus dezoito anos de vida, ela só viu o oceano uma vez, quando um dos clientes de sua mãe decidiu levá-la para uma viagem e Jessie foi forçada a segui-los. Ele era um homem rico, um banqueiro do continente, e não se importava de ser chamado de papa, até gostava. Eles ficaram na casa de campo de sua família. Jessamine pôde ter seu próprio quarto lá, com vista direta para o mar, a primeira vez em que algo desse tipo acontecia em sua vida. Tinha nove anos e, desde seu nascimento, dividia aposentos com os muito outros filhos das prostitutas de Madame Belcourt.

Enquanto sua mãe trabalhava para entreter seu patrão, Jessamine era deixada em paz e podia fazer o que quiser. Um dia, ela saiu das terras do homem, os criados nunca se importaram muito com ela e seu paradeiro, e correu até suas pernas não aguentarem mais. Queria ver a borda do mundo, onde o Sol e a Terra se tocavam, e foi exatamente isso o que encontrou ao ver a imensidão azul em sua frente. Ela usava apenas uma simples camisola naquele dia e correu pela praia, sentindo a areia áspera em seus pés descalços e a maresia fria em sua pele.

Jessamine correu para o mar, esquecendo tudo além da água. Foi burra. Não sabia nadar e logo a correnteza forte a puxou para o fundo, ondas e ondas se quebrando sobre ela, enchendo sua boca de água salgada. Pensou que iria morrer naquele momento e isso quase lhe aconteceu, quando seu corpo ficou pesado e ela afundou, desesperadamente batendo as pernas magras e compridas em uma tentativa de se salvar. Sentia como se sua cabeça fosse explodir e a dor só se aliviou quando ela aspirou água, um movimento involuntário de um corpo desesperado por ar.

Ela desmaiou naquele momento e, quando acordou, estava na praia novamente, deitada sobre a areia como uma donzela e os pulmões livres daquele líquido salgado e escuro. Intocada e viva. Aquele dia lhe marcou e Jessamine soube que continuava viva por algum motivo, alguma coisa maior havia lhe salvado com um propósito e ela não podia deixar essa chance ser desperdiçada.

Em seu sonho, Jessamine estava de volta naquele oceano gelado, mas afogamento não era mais um medo. Respirava sem problemas e sentia seu corpo leve, cortando a água como se fosse ar, nadando por entre as ondas. Ela olhou ao seu redor, a visão limpa e focada, e viu um menino nadando em sua direção.

Ele deveria ter três anos, no máximo. Suas bochechas eram gorduchas e rosadas, o cabelo loiro e longo. Ele nadou até estar frente a frente a ela, seus lábios vermelhos se partindo, inúmeras bolhas de ar escapando de sua boca, enquanto ele falava:

Mama, mama, mama — ele sussurrou antes de se virar e nadar para longe.

Jessamine franziu o cenho, estendendo os braços em uma tentativa de pegá-lo e seus dedos roçaram no pé gorducho do menino, incapaz de impedi-lo. Ela tentou ir atrás dele, mas seu corpo estava parado no mesmo lugar, como se uma parede invisível os dividisse. Quanto mais ela tentasse, quanto mais ela forçasse seu corpo a nadar, uma dor intensa aumentava em seu ventre, como se alguém estivesse lhe esfaqueando abaixo do umbigo.

Ela acordou naquele momento em uma poça de suor, cercada por paredes verdes e a luz do sol se infiltrando por entre as cortinas. Na semana anterior, Jonathan, claramente aceitando-a de volta em seu favor, re-instituiu seus quartos em St James, um lugar escondido dos olhos da princesa, porém perto o suficiente para ele visitá-la a noite.

Sua pele estava grudenta e nojenta e Jessamine sentia-se desconfortável em seu próprio corpo, como se fosse uma capa cobrindo-a. Ela empurrou os cobertores para longe e foi nesse momento que seus olhos encontraram a mancha vermelha crescente em seus lençóis.

O sangue escorria de suas coxas, acumulando debaixo de seu traseiro, caindo de seu ventre. Jessamine tocou em sua barriga e a sentiu vazia, não tão cheia como estava no dia anterior. Seus peitos pareciam mais leves e ela soube, imediatamente, que a produção de leite para alimentar seu bebê havia parado, pois não havia mais bebê para nascer.

Um aborto, obviamente. Deveria estar em preparação nas últimas semanas e finalmente as represas de seu útero se abriram para deixar o filho de Jonathan cair por entre suas pernas. Não era a primeira vez que algo assim lhe acontecia, mas, no acontecimento anterior, Jessamine havia desejado aquilo.

— Não — ela sussurrou, se levantando e descobriu, logo que colocou os pés no chão frio dos aposentos, o quão fraca se sentia. Uma nuvem negra tomou sua visão e ela quase caiu, mas não se permitiu ser levada por uma simples tortura. Precisava fazer algo com todo aquele sangue. — Não, não, não.

Lágrimas chegaram em seus olhos, mas ela as limpou rapidamente. Não estava triste pelo bebê perdido, era jovem, podia ter outros filhos, porém pela dificuldade que teve em começar a gerá-lo. Não seria tão simples engravidar de novo em um período de tempo que faria o Príncipe acreditar em suas mentiras, mas como poderia arrumar um bebê recém-nascido naquele exato mês?

Ela retirou sua camisola e a jogou no fogo, vendo o tecido queimar e reacender as chamas quase apagadas. Estava prestes à fazer o mesmo com os lençóis e os cobertores quando sua criada entrou no quarto, a boca aberta no meio de um cumprimento e a viu. Jessamine deveria parecer uma criminosa naquele estado e não demorou para a moça entender os acontecimentos ao ver os lençóis sujos de sangue e as pernas já manchadas novamente da atriz.

A criada respirou fundo e se virou, saindo pelo mesmo caminho de onde havia vindo.

Jessamine correu para segui-la, ainda nua, e a viu andando no corredor dos criados, puxando suas saias cinzas com as mãos. Jessie tocou em seu ombro e a virou, forçando a mulher a encará-la nos olhos. Era uma jovem quase de sua idade, talvez um pouco mais velha, com largos olhos castanhos e uma boca pequena. Parecia uma corça.

— Qual seu nome? — perguntou. Nunca havia se importado muito em aprender o nome de suas criadas, não eram relevantes.

— Agatha — respondeu a garota, confusa.

Jessamine soltou a respiração, irritada. Ela empurrou os ombros de Agatha até o corpo dela se chocar contra a parede com força. A criada gemeu de dor, fazendo uma careta.

— E o que você pensa estar fazendo, Agatha?

— Estou indo me encontrar com o Príncipe — a mulher respondeu. — Vou dizer à ele que a senhora perdeu o varão que carregava.

Alguma coisa primordial tomou conta de Jessamine ao ouvir aquelas palavras. Seu filho, seu FitzWales, havia sido roubado e essa mulher estava correndo para contar ao Príncipe e estragar todos os seus planos, tudo que ela havia sacrificado nos últimos anos, sem nem pensar nas consequências.

Ela correu seus dedos até o pescoço de Agatha e apertou sua garganta, forçando a obstrução de suas vias respiratórias. Apesar da fraqueza de Jessamine após a perda, uma força animalística a enriqueceu, unindo-se a má nutrição de Agatha ao longo dos anos, permitindo o desmaio da criada em poucos minutos. Jess, entretanto, continuou apertando, vendo na cara de Agatha o rosto de Clarissa e imaginando-se fechando suas mãos ao redor do pescoço pálido da princesa, vendo seus olhos verdes virarem para trás, seu corpo fracamente tentando sobreviver, sua língua escapando por entre seus dentes até, finalmente, a morte a tomá-la.

Quando imaginou ter acabado, Jessamine se afastou, deixando o corpo sem vida de Agatha cair ao chão. A criada parecia uma personagem de conto de fadas com as saias se acumulando ao redor de seu cadáver, como se fosse a Bela Adormecida, apenas esperando o beijo de seu amado para acordar de seu sono eterno.

Porém o amado nunca viria e ela nunca iria acordar. Jessamine voltou para seu quarto, alguém iria encontrar o corpo eventualmente, nada a se preocupar nesse aspecto. Ela respirou fundo e, após colocar uma nova camisola, voltou ao trabalho de esconder as evidências de seu aborto.

Durante seus dezesseis anos de vida na Áustria, a mãe de Clarissa sempre a levava nos dias de suas caridades com o povo. Era um momento especial para a pequena Arquiduquesa, pois nunca recebia atenção da Imperatriz, que preferia se focar na Corte e no marido, não em seis filhos, além de poder ver outras pessoas fora de suas babás, tutores e governantas. Desde o nascimento, Seraphina Clarissa Jocelyn vivia presa nos castelos de sua família, longe dos olhos suspeitos dos austríacos.

Seu pai dizia ser para sua proteção. Ela era frágil, murmurava, afagando seu cabelo, sua jóia mais preciosa e ele não podia perdê-la para as doenças dos camponeses. Às vezes, Seraphina imagina como sua vida seria se ela não tivesse nascido um mês antes do termo. Ou se fosse um menino. Mais fácil, talvez. Ninguém nunca se importava se Sebastian estava andando com uma postura apropriada, ou se seu francês estava com ou sem sotaque. Eles não queriam colocar mais pressão no jovem que iria crescer para se tornar o chefe do Império Sacro Romano Germânico.

Sebastian não estava presente nas viagens beneficentes da mãe. Ele preferia passar seus dias correndo atrás de damas e criadas, sendo mais um dos motivos para Clarissa gostar tanto daqueles momentos especiais. Ficar longe do Arquiduque era sempre um presente.

Os vienenses e londrinos não eram tão diferentes. Todos a olhavam com desespero, dedos esquelético procurando seu toque, implorando por salvação. Clarissa tentou olhar todos com respeito, abaixando-se com as crianças, abraçando as mulheres e apertando a mão dos homens.

Helen e Sophie a seguiam por perto, preparadas caso ela precisasse de algo. Sophie carregava uma caixa com roupas, comida e dinheiro para os plebeus e Helen sorria para as crianças, encantando todas elas.

— Tenho seis irmãos mais novos, Alteza — ela explicou, apertando a bochecha de uma pequena menina ruiva. — Sou bem experiente nesses assuntos.

Clarissa sorriu, tentando imaginar uma vida em uma família tão grande como a de Helen. Ela afagou o cabelo da menina com sua dama e continuou andando na direção de uma mulher adulta nos estágios finais de sua gravidez. A senhora se curvou ao vê-la, sua barriga impediu um cumprimento mais apropriado, mas a princesa não se importou com isso.

— É o seu primeiro? — perguntou, sorrindo levemente.

— Não, Vossa Alteza — ela respondeu, acariciando sua barriga. — É meu terceiro.

— Sempre tive um amor intenso por crianças — disse Clarissa. — Já escolheu um nome?

— Sim, Vossa Alteza — a mulher murmurou. — James se for menino e…

Ela fez uma pausa, como se esperasse que Clarissa dissesse algo ou a interrompesse, porém, quando a princesa não fez nenhum dos dois, as bochechas se encheram de cor e ela mordeu o lábio.

— E se for menina?

— Se for uma menina, eu esperava ter a honra de lhe dá-la o vosso nome, princesa. — Clarissa piscou os olhos, dando um passo para trás em surpresa. Ela olhou para Helen e a dama sorriu.

— A honra seria minha — respondeu Clarissa. — Sophie, por favor.

Sophie, certamente sabendo o que ela queria, correu até Clarissa, entregando um pequeno saco de moedas. A princesa pegou o saco, sentindo seu peso em suas mãos, e o entregou para a mulher. Seus olhos cinzas se arregalaram e ela tocou em sua boca, completamente chocada.

— Creio ser uma quantia suficiente para cuidar da nova criança e de seus outros dois filhos — Clarissa murmurou, o rosto suave. — Estou certa?

— Mais do que suficiente, madame. — ela olhou para as moedas douradas com os olhos arregalados, como se nunca as tivesse visto na vida.

Clarissa assentiu e continuou andando pelas ruas de Londres, os guardas de jaquetas pretas abrindo o caminho entre as pessoas. As pessoas estendiam os braços enquanto ela passava, tentando agarrar as mangas de seu vestido. Clarissa tentou acenar para todos, sorrindo.

— Olá, olá, olá — ela disse. — Deus lhe abençoe. — a princesa tocou nas mãos de um homem magro em seu caminho. — Olá.

Ela andou pelas ruas com cuidado, parando em lojas locais para comprar pedaços de tecidos, frutas, legumes e tônicos. Os vendedores a encaravam com olhos arregalados, surpresos em vê-la ali. O final de sua excursão foi a Catedral de St Paul, onde Clarissa rezou, pedindo a Deus por alguma bênção, algo para lhe mostrar que estava seguindo o caminho certo.

Na carruagem, em seu caminho de volta, Clarissa apoiou a cabeça no ombro de Sophie, segurando um pequeno buquê de violetas dado a ela por um menino gorducho com menos de seis anos. Ela acariciou as pétalas roxas, sentindo o cheiro doce das flores.

— Eles são tão gentis — murmurou. Helen estava sentada no outro banco, desenhando na névoa presente nas janelas, fez um som com a garganta em concordância. — Nunca fui tratada com tanto amor, tanta devoção.

— Um tratamento muito merecido, princesa — Helen respondeu, sorrindo. — Eles te amam.

Eles me amam, Clarissa pensou, apertado as flores contra o peito.

— Não teria feito isso sem você, Sophie — ela disse, erguendo os olhos para ver a criada. — Você me fez sair hoje e eu nunca poderei te agradecer o suficiente por isso.

Sophie sorriu. Com essa expressão, era impossível perceber sua cicatriz.

— Não se preocupe, princesa — ela respondeu. — Eu fiz apenas o melhor para Vossa Alteza e para o povo. Faz muito tempo que eles não amam um membro da realeza. Desde a Rainha Céline, na verdade.

Clarissa franziu o cenho. Era impossível. Amar Jonathan era tão fácil, quase um dever, porém ela conseguia ver os efeitos no povo. Seu marido nunca saía do castelo, uma ordem de seu pai, é claro, e o Rei dificilmente se importaria com seus súditos o suficiente para permiti-los ver seu rosto real.

— Serei boa como ela — Clarissa falou, afastando-se para olhar nos olhos de sua criada.

Sophie sorriu.

— Não, princesa — ela retorquiu. — Será boa como você.

Clarissa piscou os olhos, surpresa, porém, antes que ela pudesse responder, um sentimento de tontura a tomou com intensidade. Ela agarrou as paredes da carruagem, porém não deu para aguentar, para segurar.

— Pare a carruagem — ela disse.

— O quê? — Helen respondeu.

— Pare a carruagem! — Clarissa gritou, cobrindo sua boca com a mão, e Sophie bateu no teto do veículo, sinalizando ao cocheiro para parar. Antes mesmo da carruagem ter parado por completo, Clarissa abriu sua porta, quase caindo para frente, e vomitou todo o conteúdo de seu estômago na estrada de volta para o Palácio.

Um mensageiro trêmulo se aproximou de Jonathan, avisando lhe que o Rei estava pedindo por sua presença em seu quarto.

— Ah! — ele disse, colocando suas cartas na mesa. — O dever chama.

A Duquesa de Devonshire deu uma risadinha, cobrindo o rosto com seu leque. Jonathan sorriu e se levantou, ajeitando o casaco verde que estava usando. O mensageiro se curvou e se virou, liderando o caminho até os aposentos reais. Jonathan o seguiu sem medo, cruzando os corredores do Palácio.

Não conseguia imaginar o que seu pai queria. Dar lhe uma bronca, talvez, por erros invisíveis cometidos durante seu cotidiano. O Rei nunca estava completamente satisfeito com o filho, mesmo após seu casamento com Clarissa. Se tornar ligado em sangue com o Imperador austríaco foi o único feito histórico da qual Stephen podia agradecer ao filho.

Ele entrou na antecâmara de seu pai em silêncio, desejando não atrair mais atenção à si mesmo do que necessário. Stephen VII estava sentado em frente à uma mesa, comendo seu almoço com extrema voracidade. O suco de uma laranja corria por seu queixo, manchando um pedaço de pano enfiado em sua camisa, enquanto ele mastigava a coxa gorda de um frango.

O primeiro-ministro, Malachi Dieudonné, estava sentado ao lado do rei, mas não comia. Jonathan não se surpreendeu em vê-lo ali. Apesar do governo da Grã-Bretanha ser oficialmente delegado por Lorde Dieudonné, era seu pai quem realmente governava na Inglaterra.

— Pai — Jonathan disse, curvando-se levemente. — Chamou?

— Sim — o Rei respondeu, limpando o rosto. — Sente-se, Jonathan.

Com a testa franzida, Jonathan se sentou ao lado do pai em uma poltrona oferecida por um criado presente. Como o Príncipe herdeiro, ele possuía o direito de usar uma cadeira com apoio de braços na presença do rei.

— Aconteceu algo, Vossa Majestade? — ele perguntou, cuidadoso.

O Rei olhou para Malachi, um grande amigo de Stephen VII, e o primeiro-ministro assentiu para qualquer comunicação silenciosa que estava acontecendo entre eles, como se estivesse confirmando alguma informação recente.

— Sua irmã está voltando para a casa — o Rei disse, pegando outra coxa de frango. — O marido morreu.

Jonathan piscou os olhos, surpreso. Sua irmã estava voltando? Ele pensou em Cecily, os olhos azuis intensos, o cabelo negro como o carvão. Fazia mais de dois anos desde que ele a viu pela última e a prospectiva de ela estar voltando para Inglaterra, para casa, o trouxe mais felicidade do que ele gostaria de admitir, principalmente quando considerava a tristeza de sua chegada.

— Gabriel morreu? — ele questionou. — Mas como?

O Rei arregalou os olhos e bufou, irritado com a pergunta do filho.

— Não estou falando de Cecily, seu tolo! — disse. — Ella está voltando. O Rei da Prússia morreu na semana passada. Varíola, segundo os médicos de sua Corte.

Ella. Jonathan não se lembrava muito da irmã mais velha. Tinha dez anos quando ela se fora, indo se casar com um Rei de um país distante. A Princesa Real sempre fora mais próxima de William do que dele, porém ainda trocavam cartas com frequência. Uma vez por mês, pelo menos. Em suas correspondências, a irmã comentava a crueldade do marido, o medo frequente da Corte prussiana e como ela ansiava em voltar para casa. Deveria estar feliz com essa ideia, se não fosse…

— Ella tem filhos — ele disse, lembrando-se dos sobrinhos. Um menino e uma menina, as maiores alegrias da irmã. — Wilhelmina e Friedrich. O novo Rei tem apenas seis anos, precisa da mãe.

Stephen bufou novamente.

— Besteira — murmurou. — Ella apenas irá deixar o Rei fraco. E a garota irá voltar com a mãe, poderemos encontrar um bom marido para ela.

Jonathan assentiu, pois era melhor do que dizer que sua sobrinha era apenas uma menina de oito anos. Isso poderia irritar o pai.

— Quando devo esperar minha irmã? — ele perguntou.

— A rainha viúva irá permanecer mais um mês na Prússia, imagino para as Cortes garantirem que ela não está grávida de um novo herdeiro. — ele riu, sarcástico. — Se conheço minha filha, ela irá tentar garantir a regência para si, porém duvido que tal coisa aconteça. — o Rei olhou para cima, como se percebesse a presença do filho ao seu lado, e suspirou. — Pode ir agora, Jonathan.

Jonathan se levantou e fez uma reverência para o pai. Não se podia dar as costas para o rei, portanto ele andou com cuidado até a porta, a cabeça abaixada em sinal de respeito. Dois valetes abriram a porta do quarto e ele se virou, batendo de frente com alguém alto e esguio.

— Opa! — disse uma voz masculina virtuosa. — Cuidado, Jace. Dessa maneira, irá acabar andando sem querer dentro de um poço.

Jace. Fazia meses desde que alguém o chamou de Jace pela última vez. Mais de um ano, na realidade, logo antes de William contrair uma cepa perigosa de tuberculose, na sua última visita ao ducado de York. O apelido criado com as iniciais de seus dois primeiros nomes só era usado por uma outra pessoa em toda a terra cristã.

Jonathan ergueu seus olhos e viu James Carstairs, o Visconde de Rochester, em sua frente. Um silêncio desconfortável os tomou por um segundo antes de Jonathan dar um passo para frente e puxar o visconde para um abraço.

Jem riu, dando tapas leves em suas costas, e os separou, olhando para Jonathan como se ele ainda fosse uma criança, correndo ao lado de Cecily pelo Palácio. E era assim que o Príncipe de Gales se sentia em sua presença. Jovem, despreocupado, quase como se William ainda estivesse vivo e ele não fosse nada mais do que o Duque de York.

A última vez que Jonathan viu o melhor amigo de seu falecido irmão foi no funeral de William. Jem estava inconsolável, mas parecia se manter forte enquanto sussurrava no ouvido de uma jovem com longos cabelos castanhos e olhos cinzentos. Jonathan lembrou de pensar como aquela dama chorava como uma viúva, não uma simples Cortesã.

Naquele dia, Jem ainda se recuperava de um de seus ataques de pneumonia. Sua pele estava pálida, doentia e ele parecia perto de seguir seu amigo para o túmulo. Agora, no entanto, a cor havia voltado ao rosto do visconde. Seu cabelo negro estava longo e uma fina faixa cinza cortava a magnitude escura. Ele parecia bem, saudável até, mas Jonathan sabia ser impossível tal coisa.

— Como está Vossa Alteza? — ele questionou, puxando os dois para longe do quarto de seu pai. — Soube de seu casamento.

— Estou bem — Jonathan respondeu. — Senti sua falta na cerimônia. Adoraria ter lhe apresentado à Clarissa. Ela toca violino, sabe.

— Ah — Jem disse, um sorriso calmo estampado em seu rosto. — Ouvi rumores sobre a princesa. Dizem que ela é tão graciosa quanto bonita e sua devoção religiosa é louvável. — ele fez uma pausa, respirando fundo e olhou ao redor, como se para ter certeza de que ninguém os ouvia. — Eu vim à Corte para falar com você, Jonathan. Depois da morte de Will, eu… — ele parou e seus olhos ficaram vazios, viajando com imagens de memórias distantes e jamais esquecidas. — É difícil estar aqui e não tê-lo ao meu lado, mas eu sei que estou fazendo o que ele iria querer.

— Jem, você está me assustando… — começou Jonathan.

Jem sorriu, talvez para parecer menos aterrorizado, e colocou uma mão no ombro do Príncipe.

— Venha comigo — ele disse e sua voz era convidativa. — Tessa está nos esperando.

Alexander olhou pela janela, vendo Jonathan seguir o visconde de Rochester até uma carruagem. Antes de aceitar a mão auxiliar de um cocheiro para entrar, ele se virou, os olhos focados em uma janela perto da de Alexander. Parecia estar esperando alguém, talvez um fantasma esquecido entre os corredores do Palácio de St James, ou uma princesa a quem gostaria de se despedir.

Ele sorriu. Jonathan estava mais apaixonado do que pensava. .

O Príncipe precisava de amor, atenção e carinho. Era um dos motivos para ele procurar tantas amantes ao longo dos anos. Jonathan queria alguém completamente leal a ele, sem questionamentos, apenas devoção. Jessamine era uma boa atriz, mas não conseguia amar ninguém além de si mesma. Clarissa, no entanto, era altruísta e boa. Amava o Príncipe com todo o seu coração e, como sua esposa, não tinha medo de deixar isso evidente.

— Por que sorri tanto, querido irmão? — perguntou uma voz doce ao seu lado. Alexander se virou e viu sua irmã mais nova, Isabelle.

Ela estava usando um vestido rosa e uma peruca com cabelos platinados, a tinta em seu rosto fora cuidadosamente aplicada por uma de suas criadas. Isabelle sempre se vestia como alguém de sua estação.

— Estava apenas pensando — ele respondeu, beijando o rosto da irmã.

— Em mim, aposto — ela disse, tocando em sua bochecha. Isabelle olhou pela janela e viu a carruagem, o cocheiro pronto para dar início ao seu caminho. — Quem está saindo?

— Jonathan e o Visconde de Rochester — Alexander disse.

Isabelle ergueu uma sobrancelha e deu um sorriso maldoso.

— Mesmo? — ela questionou. — Para onde vão?

— Eu não sei.

Isabelle soltou um muxoxo, fazendo um bico com seus lábios rosados.

— Pensei que o Príncipe lhe contava tudo, querido irmão — disse. — Você perdeu o favor real?

— Não seja burra — Alexander respondeu. — Não deveria estar com a princesa, Isabelle, ao invés de me atazanar?

— Estou indo lá agora — Isabelle murmurou, piscando os olhos como uma donzela inocente. — Clarissa e eu estamos ficando muito próximas.

O corredor em que estavam era o último antes dos exclusivos aposentos da Arquiduquesa Clarissa, a Princesa de Gales, um lugar onde era necessário permissão da esposa do herdeiro para entrar e Alexander estava esperando a princesa sair para poderem conversar. Não seria apropriado para um homem casado entrar em tal lugar, principalmente considerando o fato do Príncipe ser seu melhor amigo.

As portas duplas que levavam ao quarto se abriram e duas pessoas saíram. O médico da Corte, um homem gordo e baixo, com um buraco de calvície começando a aparecer em sua cabeça e uma criada de cabelos castanhos e uma longa cicatriz cruzando o lado esquerdo de seu rosto outrora belo. Eles conversaram por alguns minutos antes do médico sair, ignorando completamente a presença de Alexander e Isabelle.

Antes que a criada pudesse sair, o Duque foi rápido e disse:

— Sophie? — Alexander chamou, franzindo o cenho, e sua antiga criada se virou, caindo em uma reverência ao ver seu velho mestre e amigo. — O que houve? Por que o médico da Corte estava no quarto da Arquiduquesa? Ela está doente?

Sophie suspirou:

— Ela achava que sim, mestre Lightwood — respondeu. — Mas seus sintomas eram muito específicos. O médico a fez ver razão.

Alexander franziu o cenho.

— O que ela tem? — perguntou e ele olhou para a janela, vendo a carruagem onde Jonathan estava ser levada por dez cavalos para longe, alheia ao que acontecia com a princesa. — Quais são seus sintomas?

Sophie olhou para os lados, como se para garantir de que ninguém os ouvia, e disse:

— Está aqui há mais de um mês e ainda não sangrou, ela vomita toda a manhã e não consegue comer nada, além de peixe e chá. Ontem, tive de alterar seus vestidos, porque o decote estava muito apertado. — Sophie piscou os olhos castanhos e o Duque de Norfolk entendeu tudo.

— Ah — disse, suspirando. — Eu entendo.

— Eu não — Isabella resmungou, chateada por estar de fora da conversa. — O que é? Ela está fingindo tudo isso?

Alexander se virou para a irmã.

— Não, pelo contrário. É quase impossível fingir essa condição, principalmente o resultado final. — ao ver a expressão confusa permanecer no rosto de sua irmã, Alexander bufou. — Não há uma maneira educada de se dizer isso, mas… Clarissa está grávida.