Imperium
11 XI - Rex e Caesar
Notas iniciais
Por toda a noite, tudo o que Clarissa conseguia pensar era: o que eu fiz de errado?
Não parava de rever a consumação em sua mente, tentando encontrar alguma falha em suas atitudes e escolhas. Será que foi tímida demais? Fria demais?
A manhã se ergueu com suas perguntas. Ela não havia dormido por nenhum minuto, abraçada às cobertas, uma mão entre suas pernas, tentando amenizar a dor em seu ventre. Porém, apesar da falta de descanso, Clarissa estava completamente acordada, sem o arder nos olhos e o cansaço nos músculos típicos de uma noite em claro. Ela encarava a porta por onde Jonathan tinha saído, levando seu coração consigo.
— Não posso — ele havia dito. — Perdoe-me.
Por que ele não podia? Quem o estava esperando em seu quarto? Se fosse mais ousada, Clarissa teria o seguido, enchendo-o de questionamentos, exigindo por um tratamento mais apropriado. Mas, infelizmente, ela não era e foi obrigada a se contentar em se esconder na cama, apenas se perguntando como tudo teria sido se ela fosse diferente.
Jonathan voltou para os braços da amante, tinha certeza. Talvez um senso de lealdade para com sua meretriz que o impedia de lhe dar o devido respeito como sua esposa. A atriz havia o enfeitiçado e ele perdeu o senso de direção, nem rezava mais! Estava claro para Clarissa que precisava trazer seu marido de volta para a luz. Mas como iria fazê-lo?
Sophie entrou no quarto com pressa, segurando um amontoado de cartas em uma de suas mãos. Clarissa se levantou de sua cama, nervosa.
— Correio? — perguntou. — Mas me disseram que demora uma semana para cartas chegarem do continente.
— Devem ter sido mandadas antes de você deixar a Áustria então, milady — respondeu Sophie, entregando as cartas para a princesa.
Eram duas, porém tantas palavras haviam sido escritas que tomavam várias páginas preciosas em uma só mensagem.
A primeira possuía um fecho de cera negro, porém ainda era possível ver o selo sob a luz dourada do início da manhã. Duas águias de asas abertas, as línguas longas se alongando para frente enquanto uma auréola brilhava por trás de suas cabeças penosas. A coroa Imperial estava por cima de seus couros cabeludos, uma pequena cruz em seu topo, significando como a igreja estava por cima do estado. A primeira carta era da Áustria.
Meine liebe Tochter,
Quando essa carta chegar em suas mãos, você já estará na Inglaterra, vivendo sua vida como a princesa de Gales, e devo dizer que tenho muito orgulho desse momento, que tenho muito orgulho de você, mein tochter. Você é a jóia mais brilhante de nossa vasto império e não sabe como dói me separar de você.
Temi te casar tão cedo, pois é minha filha e, apesar de ter me mantido afastado com governar nossas terras, sempre tive um carinho especial por você. Carinho esse que nunca tive por seu irmão, o Arquiduque Sebastian.
Desde o momento que chegou ao mundo, um mês antes da hora, temi por você, porém sabia como estava destinada a coisas grandes. Sempre sonhei em te ver como rainha da Inglaterra, apesar de ter preferido William. Ele era tudo que um pai gostaria de ter em um genro. Inteligente, bondoso, gentil. Quando soube de seu falecimento, achei que seu irmão nunca iria te merecer, a única filha do Imperador do Sacro Império Romano Germânico, mas sabia que precisava te mandar para a Inglaterra. Stephen é um Rei poderoso, seus territórios aumentam a cada dia, portanto precisava tê-lo como aliado de nosso reino o mais cedo possível, antes de permitir a tomada da chance por outros. Felizmente, a reputação de Jonathan afastou outras noivas em potenciais e eu pude atacar a presa. Apesar de saber como se sente em relação ao marido, não irei pedir perdão pelo uso de minhas palavras. Espero que um dia entenda, quando tiver seus próprios filhos, como devemos mandá-los para longe de nossos corações pelo bem do reino e da família.
Rezo para que seja feliz e que nunca esqueça quem você é, Seraphina Clarissa Jocelyn. Minha filha, minha menina, a única que me resta. Você nasceu uma Morgenstern e permanecerá assim pelo resto de sua vida até o dia em que encontrar o nosso Criador. Confio em ti, Seraphina. Confio que irá servir o seu propósito em aumentar as relações amigáveis entre nossas duas grandes nações.
Você não é só uma princesa ou a esposa do herdeiro do trono inglês. Também é uma embaixadora austríaca.
Seu pai,
Valentim da Casa de Morgenstern, pela graça de Deus elegido o Sacro Imperador Romano, Augusto eterno, Rei na Germânia, de Castela, Aragão, Leão, ambas as Sicilias, Jerusalém, Hungria, Boêmia, Dalmácia, Croácia, Eslavona, Rama, Sérvia, Galícia, Lodoméria, Comânia, Bulgária, Navara, Granada, Toledo, Valência, Maiorca, Sevilha, Sardenha, Córdova, Córsica, Múrcia, Jaen, os Algarve, Algeciras, Gibraltar, as Ilhas Canárias, as ilhas da índia and a Terra Principal do Oceano Mar, Arquiduque da Áustria, Duque da Borgonha, Milão, Brabant, Lorena, Estíria, Caríntia, Carníla, Limburgo, Luxemburgo, Gelderlang, Württemberg, a Silésia de Cima e a de Baixo, Atenas e a Neopatria, Príncipe de Suábia, Catalunha, Ásturias, Marquês do Sacro Império Romano, de Burgau, de Moravia, Lusácia de Cima de Baixo; Conde Palatinado de Borgonha, Conde Príncipe de Morgenstern, Flanders, Tyrol, Ferrete, Kyburgo, Gorizia, Artois, Dono de Terra de Alsácia, Margave de Oristano, Conde de Goceano, Hainaut, Namur, Roussillon, Cerdagne, Lorde das Marchas, Pordenone, Biscay, Molina, Salins, Tripoli e Mechelen, etc.
A segunda carta foi selada com cera vermelha, um brasão de armas que ela não conseguia identificar. Clarissa a abriu sem pressa, porém a curiosidade parecia se inflamar dentro de seu peito.
Clarissa,
Você não me conhece e eu também não te conheço, mas, desde que se casou com Jonathan, o Príncipe de Gales, nos tornamos irmãs. Meu nome é Cecily, segunda filha de Sua Majestade, o Rei Stephen. Fui criada ao lado de vosso marido e sei muito bem sobre suas manias, seus costumes e sua teimosia.
Escrevo essa carta como um aviso para Vossa Alteza, pois sei muito bem como já deve ter sido decepcionada pelo Príncipe. Rezo para que encontre dentro de si as forças para perdoá-lo. Meu irmão é jovem e sua cabeça está enfeitiçada pelos desejos da carne. Ignore-o se precisar, por quanto tempo quiser. Isso o colocará em seu lugar.
Espero continuar uma correspondência estável entre nós, pois nós duas somos princesas presas em uma terra estranha com uma religião diferente. Acredito que iremos nos entender.
Com carinho,
Cecília, Reina de La España
Clarissa, suspirou, e se levantou, deixando sd cartas para trás. Ela se vestiu em silêncio, as criadas sussurrando entre si, enquanto apertavam seu vestido cor de creme, as palavras de Cecily e seu pai transformando sua mente em um turbilhão de ideias e pensamentos, deixando-a sem rumo. Não conseguiu pensar em que jóias usar no primeiro dia na Corte inglesa, porém Sophie, doce e abençoada Sophie, conseguiu encontrar um belo colar de pérolas e brincos de diamante, além do anel dos Herondale dado por Jonathan durante a cerimônia de casamento. Estava ali por menos de um dia e Clarissa já era incapaz de imaginar sua vida sem ela.
Ethel e Mary prenderam o seu cabelo para cima, deixando cachos ruivos caindo em seu pescoço. Passaram pó de arroz em seu rosto, porém não muito, pois ainda era jovem e a manhã ainda brilhava no céu. Uma criada usou um pincel para pintar seus lábios de vermelho escuro e outra usou um pequeno travesseiro para iluminar suas bochechas com um pó rosada que se destacava em sua pele pálida acentuada pelo pó de arroz. Ela estava linda. Parecia a rainha que estava destinada à ser.
Os dedos de Clarissa roçaram seu estômago. Apenas o Senhor sabia como rezava por um herdeiro varão, crescendo dentro suas estranhas, concebido na noite anterior. Era impossível descobrir tão cedo se algo havia acontecido, mas ela apenas pensava em um futuro filho, tão grande quanto seus antepassados, com o Sol em seus cabelos e a grama em seus olhos.
Talvez um filho traria Jonathan para seu lado, afastando-o definitivamente de sua concubina, mas como iria garantir uma gravidez? Apenas uma noite não era suficiente, sabia disso, mas como poderia atraí-lo, convencê-lo a entrar em sua cama?
Muitas perguntas, mas nenhuma resposta a vista.
Quando estava pronta, ela se levantou, suas saias se arrastando pelo chão de madeira enquanto caminhava até a porta, um crucifixo de rubis apertado entre esses dedos. Suas criadas ajoelharam quando passou por elas, porém não tentaram segui-la. Estava indo para um lugar onde apenas os membros da mais alta sociedade podiam ir.
Ela entrou em sua antecâmara sem medo, o cheiro de um perfume de rosas recém-passado nos travesseiros, janelas, tapetes, cortinas e tantas outras coisas postas no cômodo a envolvendo em uma nuvem aromática, impregnando-se em suas roupas e cabelo. A condessa de Pembroke estava ali, conversando com duas donzelas extremamente belas.
A primeira era mais baixa, com longos cabelos loiros e olhos verdes, ou azuis, Clarissa não conseguia determinar direito naquela luz, só sabia que a cor era linda, algo que ela nunca iria atingir, não importava quantas tintas misturasse. Ela estava usando um vestido rosa, com detalhes em púrpura. Parecia uma fada, como dos contos que costumava ouvir de suas governantas quando pequena, porém elegante. A mulher sabia seu lugar no mundo e não havia ninguém que poderia mudá-la.
A segunda, no entanto, era o completo oposto da primeira. Seus cabelos eram tinta negra, escorrendo por suas costas em cachos sadios e brilhantes, emoldurando sua bela face, e seus olhos felinos eram escuros, como duas pedras de ônix cravejadas em seu rosto. Ela usava um vestido cinza claro, quase azul, com um decote que poderia parecer escandaloso em qualquer outra pessoa, mas não nessa dama. Ela fazia tudo parecer apropriado. Tudo o que a primeira possuía de amável, ela possuía de perigosa.
— Vossa Alteza! — disse Charlotte, caindo em uma reverência. As duas desconhecidas seguiram o ato, abaixando seus rostos em um sinal de submissão. — Confio que teve uma ótima noite de sono.
Clarissa preferiu ignorá-la, a memória de Jonathan saindo do quarto ainda tendo um gosto azedo em sua boca. Ela se virou para as duas garotas e ergueu o braço, como se dizendo para elas levantarem.
— Apresentem-se — exigiu quando as duas obedeceram.
A loira foi a primeira a falar:
— Sou Helen Blackthorn, alteza — disse, fazendo uma nova reverência. — Meu pai é o Marquês de Wessex, um grande membro da Casa dos Conservadores no Parlamento.
Clarissa se virou para a morena e inclinou a cabeça para o lado, franzindo o cenho levemente. Ela era tão familiar, desde as sobrancelhas arqueadas até o sorriso aparentemente inocente estampado em seu rosto, porém Clarissa conhecia aquele sorriso. Ela já havia o visto muitas vezes durante seus poucos dezesseis anos de vida. A primeira vez foi durante sua infância na Áustria e a última vez foi quando chegou no território inglês, procurando um marido para apoiar Era o tipo de sorriso que dizia: venha, apaixone-se por mim. Posso até sentir-me mal quando te destruir. Era o sorriso do Arquiduque Sebastian e do Duque de Norfolk, mas de onde sua dama poderia ter arrumado tal bondade disfarçada?
— Você é uma Lightwood — murmurou, a resposta chegando à sua mente.
A segunda dama piscou os longos cílios negros e caiu em uma reverência, as saias caindo ao seu redor como pétalas de uma flor recém desabrochada.
— Vossa Alteza, — ela sussurrou, se erguendo. As palavras pareceram erradas em seus lábios rosados. Clarissa sentia como se ela devesse ser a princesa, enquanto ela era rebaixada para uma simples dama de companhia. — A senhora conheceu meu irmão, Alexander, quando chegou de sua longa jornada até aqui. Todos dizem que somos bem parecidos.
Alexander… Clarissa não conseguia se lembrar se o Duque havia mencionado alguma irmã ou de ter visto seu nome em uma árvore genealógica quando estudava a nobreza inglesa, apesar de que meninas raramente eram lembradas.
— Como se chama? — perguntou, levemente irritada ao pensar que já havia exigido uma apresentação das duas, mas apenas Helen havia acatado ao pedido.
— Isabelle, minha princesa — respondeu. — Estou ao seu serviço.
— Eu me lembro de você — disse a princesa, a memória subitamente chegando ao seus olhos. — Estava no baile ontem à noite.
Jonathan não conseguia tirar os olhos de você, pensou, porém não ousou dizer nada.
Clarissa encarou Isabelle, respirando fundo em uma tentativa de se acalmar. Não era culpa da dama se seu marido estava doente e não conseguia se prender a uma mulher, era culpa de Clarissa por não ter tentado melhor na noite anterior.
— A senhora me bajula, alteza — disse Isabelle. — Nunca que minha presença iria atrair vossa atenção.
— Todos os súditos da coroa me interessam — respondeu Clarissa, olhando alto para a dama.
Era o que ela queria que Isabelle soubesse, que todas as mulheres que poderiam atrair o olhar de Jonathan soubessem. Ela era a princesa. Ela era a filha de Valentim Morgenstern, o homem mais poderoso já visto na Terra, descendente direta de Carlos, Rei Imperador, e dos monarcas católicos, responsáveis pela expulsão dos infiéis da península ibérica. Ela era a esposa de Jonathan e, depois da noite anterior, nada no mundo além de sua morte ou a do Príncipe poderia mudar isso.
Em suas veias corria o sangue de reis, rainhas, Príncipes e princesas e dentro de seu ventre, se o senhor quisesse, um herdeiro já crescia.
Ela piscou, respirando fundo, e sorriu, amável.
— Iremos para a capela agora — disse.
Charlotte, a condessa de Pembroke, arregalou os olhos.
— Vossa Alteza, é imprescindível que passe sua primeira manhã com a Corte — murmurou, chocada. — Todos os nobres gostariam de vê-la.
— Tenho certeza que sim — Clarissa respondeu. — Mas sou uma mulher religiosa. Meus deveres são primeiro com Deus, depois com a nobreza.
Clarissa começou a andar, tomando vantagem do fato de que as outras eram obrigadas a dar um passo para trás quando ela passava, e saiu de seu quarto. Ela passou pelos guardas nas portas, vendo-os caírem em reverência com sua passagem, sussurrando Vossa Alteza, em sua nuca.
Na Áustria, Clarissa era a única filha do Imperador, uma grande dama em seu próprio direito, mas estava abaixo de sua mãe, a Imperatriz, e sempre precisou mostrar reverência para Jocelyn quando esta estava presente, porém, na Inglaterra, tudo era diferente. A mãe de seu marido havia morrido de febre do parto quando ele era muito jovem, portanto, como esposa do Príncipe de Gales, ela era a mulher com o ranque mais alto em todo o reino britânico.
Nunca se importou muito com títulos. Sua melhor amiga na infância era Maia, uma negra filha de criados, e sempre brincou com crianças plebeias, considerando o fato de que seu pai preferiu ter uma criação mais humanística para sua única filha, algo que a levou a ter muitos casos de caridade durante sua vida em sua terra natal. Certamente, queria colocar um senso de bondade nela, para que tivesse um coração aberto para os súditos de seu marido. Quando criança, Clarissa praticava sua escrita em repetir a mesma frase por horas a fim. Não oprima os pobres. Seja caridosa. Não reclame do que Deus lhe deu, mas melhore seus hábitos. Devemos sempre nos esforçar para sermos bons.
Ela parou de andar subitamente. Ouviu seu Cortejo parar em suas costas e se virou, procurando por cabelos negros e um vestido cinza.
— Isabelle? — chamou e a dama se aproximou, levantando as saias para conseguir andar sem maiores dificuldades. — Ande ao meu lado, gostaria de conversar.
— Mas é claro, minha senhora.
Isabelle não era a atriz de Jonathan, ela se forçou a lembrar. Não fazia sentido virar seu coração para aquela escolhida para ser sua amiga quando ela não havia feito nada que pudesse merecer tal comportamento.
— Imagino que conheça a nobreza como se fosse a palma de sua mão, considerando que viveu aqui por toda a sua vida — murmurou, virando em um corredor.
— Gostaria de pensar que sim, Vossa Alteza — respondeu Isabelle.
— Sehr gut. Precisarei de sua ajuda quando for para a Corte durante a tarde, não gostaria de ofender ninguém por me referir a eles com títulos errôneos — disse Clarissa, apertando o crucifixo em suas mãos. Estavam chegando na capela real, se sua memória do dia anterior não era falha. — Você reza?
— Às vezes, princesa. — a dama sorriu, culpada. — Menos do que deveria, definitivamente.
Clarissa assentiu, pensativa.
— Nem todos são perfeitos — murmurou. — Muitas vezes, penso que rezo até demais — admitiu em tom baixo. — Mas quando estou na igreja, sentindo o cheiro das velas ardendo e ouvindo as canções dos corais, estou em paz. Nada pode me atingir. Posso dizer tudo para nosso Senhor e Ele não irá me julgar. — Clarissa parou em frente às largas portas da capela e se virou para a dama. — Você me entende, Isabelle?
— Acho que sim — respondeu, franzindo o cenho. Ela parecia mais humana dessa maneira, mais suscetível aos erros e confusões dos homens.
— Quero que sejamos assim — disse Clarissa, estendendo a mão e pegando os dedos frio de Isabelle. — Você e Helen foram escolhidas para mim por sua majestade. Confio em seu julgamento. Sei que o pai de meu marido tem apenas o meu bem em mente.
— Como tem tanta certeza disso se nem o conhece direito? — os olhos de Isabelle se arregalaram levemente quando percebeu sua ousadia, mas Clarissa apenas sorriu, feliz por ter visto um pouco do lado verdadeiro da aparentemente perfeita da dama. — Se Vossa Alteza não se incomodar com minha pergunta, mas é claro.
— Sou preciosa — respondeu Clarissa. — Não sou apenas a esposa de Jonathan ou a princesa de Gales. Se alguém me machucar, estará machucando a Áustria também.
Isabelle não respondeu. Clarissa sorriu, doce, e entrou na capela, dois guardas abrindo as largas portas duplas de ferro para ela.
O lugar de reza estava vazio, salvo por um pastor ajoelhado em frente ao altar, a cabeça baixa em uma clara posição de veneração. A princesa tentou se mexer em silêncio para não atrapalhá-lo, porém seus passos reverberavam no local silencioso e ele ergueu a cabeça, surpreso por ver outra pessoa ali.
— Princesa! — disse o homem, se erguendo. — Estou honrada em vê-la.
Ele andou em sua direção e beijou seu anel Herondale, seus lábios se prendendo nos rubi. Ele não havia oficializado sua cerimônia de casamento no dia anterior e também não era Enoch, o pastor católico que a acompanhava desde sua saída da Áustria. Clarissa não o conhecia.
— Por favor, — ela disse. — Continue com suas preces. Não quero te atrapalhar.
O pastor balançou uma mão, como se não fosse importante.
— Irei chamar o Arcebispo Jeremiah — murmurou, fazendo uma reverência. — Ele irá presidir uma missa especial para Vossa Alteza.
— Não deveríamos esperar o resto dos fiéis? — perguntou Clarissa, olhando ao redor. Um homem alto havia entrado na capela, sentado em um dos bancos finais, a cabeça baixa enquanto lia uma pequena bíblia de bolso. — Temo que alguém chegue no meio e não consiga aproveitar o serviço por completo.
O pastor fez uma careta, mas logo seu rosto se suavizou.
— Hoje não é dia de domingo, princesa — murmurou, brincando com suas próprias mãos. — Poucas pessoas vão à igreja fora de suas obrigações religiosas, como a senhora.
Clarissa piscou, mas não estava exatamente surpresa. Jonathan e Isabelle não rezavam, um símbolo da realidade inglesa desde o momento em que o país se separou da Igreja Católica com Henry VIII no século XVI. Estava claro para ela que não precisava apenas ajudar seu marido a voltar para a luz, mas todo o seu povo também. Poderia ter se convertido para o protestantismo, mas ainda era católica em seu coração e não iria viver o resto de sua vida vendo sua nova casa se condenar para a queimação eterna em todos os infernos.
Mas como iria fazer isso?
— Entendo — disse. — Podemos começar.
Clarissa andou até um dos bancos, ignorando por completo o camarote real, onde suas damas de companhia não iriam poder acompanhá-la. O Arcebispo Jeremiah de Canterbury andou para dentro da capela, saindo de seu pequeno escritório no canto do altar. Ele olhou para o vazio, decepcionado, porém não surpreso, e seus olhos azuis se prenderam em Clarissa. Ele sorriu.
— Princesa, — disse, abaixando a cabeça. — É uma honra tê-la aqui conosco.
— É uma honra estar aqui.
O Arcebispo se virou, pegando sua bíblia e a colocando em cima de uma portador. O livro sagrado era grande, maior do que as mãos do homem, e suas páginas pareciam infinitas.
Clarissa pegou seu crucifixo, apertando contra o peito. Se fechasse os olhos, poderia fingir que estava de volta à Áustria, com Maia ao seu lado, rezando pela saúde de um Príncipe desconhecido com cabelos dourados e um trono vermelho em seu futuro. Mas manteve os olhos abertos e ouviu o sermão do Arcebispo.
Horas se passaram e o arcebispo falava com vontade, lendo em inglês as belas palavras da bíblia. Ele avisou sobre os perigos da intriga e da cobiça, avisando as presentes sobre disputas internas. Clarissa ouviu todas as suas palavras com um interesse dobrado, rezando quando era pedido e clamando alto pela ajuda de seu Senhor.
— Venham até mim — disse o homem, erguendo um cálice dourado. — Recebam o corpo do senhor Jesus Cristo e bebam seu sangue, pois só assim provaram sua devoção.
Clarissa se levantou, a primeira da pequena fila de quatro, e abriu a boca levemente, recebendo a hóstia e dando um gole no vinho doce inglês. Isabelle foi depois e então Helen, que sussurrou palavras de agradecimento para o Arcebispo. Após as damas de companhia, vinha o homem misterioso do fundo da sala, vestido de verde escuro, o cabelo curto e castanho formando cachos ao redor de seu rosto másculo.
— Quem é esse? — sussurrou Clarissa para Isabelle quando esta voltou para seu lugar.
Isabelle franziu o cenho, tentando reconhecer o homem.
— Jonathan Wayland — disse depois de alguns segundos, o tom tão baixo que Clarissa se forçou a ler seus lábios para entendê-la. — O Duque de Buckingham.
— Buckingham? — a princesa repetiu, confusa. — Ele é o segundo na linha de sucessão, então.
— Sim — Isabelle murmurou. — Sua avó era uma irmã mais nova do Rei Stephen.
Clarissa piscou e respirou fundo, vendo o Duque voltar para seu lugar no fundo da capela. O Arcebispo franzia para suas costas, como se estivesse confuso de ele estar ali.
— Se é parente de meu marido, deveria cumprimentá-lo então — disse Clarissa. — Mostrar educação.
— Eu não aconselho a senhora a fazer isso, princesa — disse Isabelle, a voz subindo uma oitava. — O Duque de Buckingham e o Príncipe possuem uma desavença há anos. São rivais desde o tempo da escola.
Clarissa franziu o cenho, ajeitando-se em seu lugar.
— O que houve?
Isabelle lambeu os lábios rosados, se aproximando ainda mais da princesa para poder sussurrar em seu ouvido:
— Sei apenas do que meu irmão me disse, o que não foi muito. Wayland e o Príncipe costumavam ser muito amigos, tão próximos quanto irmãos, então vosso marido dividiu um segredo sobre a coroa e a família real e Wayland usou isso contra o Príncipe, criando uma fenda entre ele e seu majestoso pai, o rei. — Isabelle fez uma pausa, permitindo que Clarissa processasse suas palavras. — Não sei se é totalmente verdade, ou qual foi tal segredo, mas desde então, os dois só se falam quando estritamente necessário e, quase sempre, uma briga física ocorre entre os dois.
Clarissa olhou para trás, para o Duque, e o viu retornando seu olhar, os olhos cinzentos brilhando no escuro de seu canto isolado. Ele estava com um livro em mãos, porém não prestava atenção nas escrituras, preferindo manter seu encaro na princesa. Possuía um sorriso cortante, maldoso.
— Ele traiu meu marido — disse Clarissa, voltando-se para frente. — Não irá receber nada de mim, além de desgosto.
O Arcebispo se aproximou, escondendo as mãos dentro das largas mangas em formas de sino. Clarissa se ergueu, sorrindo.
— Vossa serenidade, — disse. — Temos muito para conversar.
— Diga e eu ouvirei — respondeu o Arcebispo.
Clarissa apertou o crucifixo em suas mãos.
— Diga aos pastores ingleses que começarei uma série de caridades — murmurou, sorrindo. — Amanhã mesmo pretendo ir para a cidade com doações. Dinheiro, comida, roupas. Tudo o que o povo precisa.
O Arcebispo Jeremiah sorriu.
— Honráveis são seus desejos, princesa — disse. — Farei os preparativos agora mesmo.
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Jessamine olhou para a rua, ansiosamente arrastando seu polegar pela palma de sua mão. As ruas estavam vazias, sem sinal de uma comitiva real, ou alguém tentando passar despercebido em seu cavalo.
— Acalme-se — disse a mulher sentada atrás de si. — Ele virá.
Ela se virou para a feiticeira, uma mulher de pele escura e vestes excêntricas, abrindo e fechando seu pacote de cartas, misturando-as, analisando-as. Algo parecia brilhar em seus olhos dourados, conhecimento desconhecido, escuro, maldoso.
— Viu isso em um de seus sonhos proféticos?
— Não — respondeu a mulher, sem ao menos ergueu seus olhos. — Conheço a mente dos homens, principalmente aqueles chamados por suas amantes.
Jessamine arregalou os olhos, mas não se desejou ficar surpresa pela ousadia da mulher. Não era inglesa, não conhecia a sofisticação das Cortes europeias, não podia entender como aquela que chamava de amante um dia iria governar sobre todas as terras dos Herondale. Mesmo se visse em uma de suas visões, não conseguiria entender as mensagens sem a elegância necessária.
Ela continuou olhando para a janela e viu um cavaleiro se aproximando da Casa de Buckingham, uma capa cobrindo seu rosto e cabelos, mas, por um segundo de descuido, o sol brilhou e refletiu a cor dourada dos fios preciosos e o homem ergueu sua cabeça, revelando o rosto belo e másculo de Jonathan Christopher.
— Ele está aqui — disse, virando-se para a feiticeira. — Vamos repassar o combinado mais uma vez, Dorothea.
A mulher assentiu, levemente irritada, e abriu seu baralho mais uma vez. A imagem de um cálice dourado havia sido desenhada na face superior de uma das cartas no topo da pilha.
— Você irá ler seu futuro e irá contar apenas as glórias destinadas ao meu Príncipe e de nosso bebê — murmurou Jessie. Ela passou a mão em seu estômago, pedaços de pano acentuando a pequena barriga em crescimento. Carregava um filho em seu ventre, sim, mas Jonathan pensava estar mais perto do parto do que realmente estava. — Entendeu?
— A presciência não pode ser controlada, Jessamine — disse Dorothea, séria. — As visões me mostraram apenas a verdade e é isso que irei relatar ao Príncipe.
Antes que Jessie pudesse responder, as portas da sala se abriram e o Príncipe entregou, jogando o capuz para trás e revelando seu rosto belo, o cabelo úmido de suor. A atriz correu até ele, pulando em seus braços e Jonathan riu, abraçando-a.
— Senti tanta sua falta — disse. — Não sabe como chorei por imaginá-lo nos braços da austríaca.
Jonathan acariciou sua bochecha, arrastando o polegar por sua pele.
— Também senti sua falta, porém não posso ficar por muito tempo — murmurou, um tom de desculpas em sua voz. — Não recebi permissão do Rei para sair da Corte, portanto devo retornar antes que perceba minha ausência.
Jessamine soltou um muxoxo, colocando suas mãos nos ombros do amado.
— Então venha — disse, puxando-o pela mão. — Tenho uma surpresa para você.
Jonathan sorriu e olhou para Dorothea, parecendo finalmente perceber sua presença ali. Ele andou até sua mesa sem problemas, sentando-se ao lado de Jessamine e segurando sua mão, seu rosto cobrindo-se com uma expressão de expectativa.
— O que é tudo isso? — perguntou.
— Dorothea consegue prever o futuro — respondeu Jessamine, um sorriso animado cortando seu rosto. — Pergunte qualquer coisa e ela conseguirá responder.
Jonathan franziu o cenho, mas no recusou a ideia de imediato, um bom sinal aos olhos de sua amante.
Ele se virou para a feiticeira.
— Quantas perguntas posso fazer, senhora?
— Duas — respondeu Dorothea, os olhos brilhando. — Mas dependendo das perguntas que fizer, muitas outras serão respondidas.
Jonathan pareceu considerar aquilo, mordendo o interior de sua bochecha, enquanto pensava naquelas palavras.
— Serei rei? — perguntou depois de muito tempo ponderando.
Dorothea estendeu sua mão e Jonathan, quase como se soubesse exatamente o que fazer, entregou a sua. A feiticeira pegou os dedos do Príncipe, ignorando por completo suas cartas, e fechou os olhos.
— Sim — ela respondeu, a voz rouca e completamente diferente da sua própria. — Mas você já sabia disso. Seu pai irá morrer em breve, envenenado pelo ódio e ganância.
Jonathan franziu o cenho, surpreso.
— Pergunte sobre suas glórias — disse Jessamine, colocando a mão no ombro do Príncipe. — Pergunte sobre seu legado e como será lembrado pela história.
Jonathan lambeu os lábios ressacados e suspirou fundo.
— Terei filhos? — perguntou, ignorando a sugestão de sua amante.
Dorothea ergueu uma sobrancelha, ainda de olhos fechados, e uma expressão de choque passou por seu rosto, mas logo ele voltou a estar neutro.
— Quatro, mas apenas três chegarão à idade adulta — ela sussurrou. — Dois varões destinados à grandeza. Rex e Caesar. Suas vidas determinarão o futuro da cristandade inteira.
Jessamine franziu o cenho, sua mão voando para seu estômago, e o medo se espalhou por seu peito. Estava nervosa, porém não sabia o porquê.
Olhou para Jonathan e viu uma expressão determinada em seu rosto, como se entendesse exatamente o que a feiticeira estava falando.
— Rex e Caesar? — repetiu Jessamine. — Que tipo de nomes são esses?
— Não são nomes, Jess. São títulos — respondeu Jonathan. Ele não revirou os olhos, mas era como se tivesse, se sua careta de descrença fosse algum indicativo do estado de sua mente. — Rex é latim para Rei.
A boca de Jessamine se secou e seu coração pulou dentro de seu peito. Ela respirou fundo, tentando recuperar sua compostura, e perguntou, apesar de já ter uma ideia da resposta:
— E Caesar? O que esse título significa?
Jonathan não olhou para ela quando respondeu:
— Imperador.
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