Imperium
8 VIII - Isabelle
Antes de chegar na Inglaterra, Clarissa não sabia o que pensar de Londres.
Ela sabia que a cidade era antiga, fundada pelos romanos quando o catolicismo ainda era uma religião nova no mundo, e com uma história vasta. Era a sede do parlamento inglês e da Abadia de Westminster, uma igreja gótica que sempre a fascinou durante seus estudos com Padre Enoch e seus outros tutores. A capital do reino deveria ter lhe trazido felicidade e uma sensação de pertencimento, algo que a faria se sentir, finalmente, em casa.
Exceto que, comparada com Viena, Londres era uma vila suja no lugar de uma metrópole majestosa.
A capital do Império foi sua casa por toda a vida, com as ruas magníficas e lugares que esbanjavam esplendor como as casas de ópera, as catedrais belíssimas e as sedes da Corte. Os Palácios de Hofburg e Schönbrunn eram referências na Europa continental para residências reais, junto com Versalhes. Seu pai estava sempre os reformando, adicionando novas alas e salas para divertimento da Corte. O dinheiro não era problema para alguém tão poderoso como Valentim Morgenstern, gastos supérfluos que a Áustria poderia fazer sem nem piscar os olhos.
Ao contrário da Inglaterra, aparentemente.
Clarissa torceu o nariz, se afastando da janela quando o cheiro de esgoto atingiu seu rosto. Estava claro que quem quer cuidasse da questão… sanitária da cidade não se importava muito com seus deveres políticos. Ela esperava que o Rei se preocupasse com as condições de vida do seu povo e, talvez, uma visão feminina poderia ajudá-lo a ver outras coisas que um homem não veria se estivesse sozinho.
O Palácio de St James, a principal residência usada por Stephen VII, era no centro da cidade, então Clarissa pôde dar uma boa olhada na capital enquanto a carruagem se movia. A população parecia ter se escondido, exceto um ou outro rosto sujo a encarando com um misto de receio e curiosidade. Os londrinos eram diferentes de seus companheiros que encontrou durante o caminho, mais assustados com membros da classe mais alta. Ela se perguntou o porquê disso.
— Está se familiarizando com a cidade, Vossa Alteza? — perguntou Alexander, sentado no outro banco da carruagem.
Clarissa se virou para ele, as bochechas corando imediatamente. Ela se sentia intimidada em sua presença tão imponente. O Duque era mais alto que ela e com os ombros largos de um fazendeiro. Meses antes, quando ainda estava na Áustria, ela teve que aprender a hierarquia completa da Grã-Bretanha. Sabia que o ducado de Norfolk era um dos mais importantes títulos fora da realeza, assim como o Duque de Buckingham. Fazia sentido, então, ele ser um amigo tão próximo de seu marido. Stephen VII deveria ter preferido apenas companheiros com status consideráveis para o filho.
— Estou apenas pensando — respondeu, rezando para que acreditasse em sua mentira branca. Por algum motivo, achava que ele não iria gostar se falasse mal de Londres. — Essa cidade será minha casa pelo resto da vida. — ela lambeu os lábios. — É muito para processar, vossa graça.
Alexander assentiu, enquanto sua mente o levava para outro lugar. Clarissa aproveitou o momento e afastou os pensamentos tóxicos de sua cabeça. Não poderia se encontrar com Jonathan achando tal coisas da capital de seu reino. Queria que ele visse apenas o seu melhor lado, tudo que pudesse fazê-lo amá-la de uma maneira tão intensa quanto ela amava ele.
Não conseguia acreditar que estava prestes a vê-lo. Depois de tanto tempo esperando para o momento que chegaria no Palácio de St James, parecia que aquele dia era só mais um de seus sonhos. Todas as fibras de seu ser estavam vibrando em uníssono e ela ansiava por um movimento mais rápido da carruagem ou que o tempo passasse mais depressa, tudo para poder vê-lo o mais cedo possível. Clarissa passou sua vida inteira rezando por um marido bom, alguém que iria amá-la e respeitá-la. Como a única filha do Imperador, ela era uma noiva cobiçada. Quando completou doze anos, representantes de Portugal fizeram uma visita ao Hofburg para rascunhar um tratado entre os dois estados. Ninguém nunca falou em voz alta o motivo de tal aliança, mas estava claro que esperavam um casamento para selar a amizade.
Seu pai, no entanto, recusou uma união sanguínea e Clarissa suspeitava de que isso era devido a idade de seu possível noivo.
O Imperador, de sua própria maneira, a amava. Ele deveria ter considerado apenas cavalheiros pertencentes à famílias renomadas, herdeiros diretos de tronos esplêndidos pela Europa. O grão-duque russo e o Rei da Prússia eram candidatos antes do embaixador inglês aparecer e convencer seu pai a escolher Jonathan. Nunca, em toda a sua vida, Clarissa teve tanta certeza do trabalho de seu Senhor quanto naquele momento. Ele colocou Jonathan em seu caminho, seu Príncipe, um homem cuja alma imortal era espelho da sua própria, e Ele iria iluminar o resto de sua vida.
Conseguia imaginar os rostos de seus filhos. Príncipes e princesas Herondale com cabelos dourados e olhos verdes, criaturas tão belas que o mundo inteiro iria se desdobrar para atender seus desejos. Sabia que era direito de Jonathan, e apenas dele, de escolher o nome de seus herdeiros, mas não conseguia parar de imaginar quais poderiam ser. Leopold, Frederick, Louise, Antonia, Joseph, Franz, Augusta.
— Estou nervosa — admitiu. Se sentia confortável na presença de Alexander para falar seus pensamentos. — E se ele não gostar de mim?
Clarissa não conseguia parar de pensar na atriz de Jonathan. Jessamine. Até mesmo pensar no nome dela a fazia tremer de raiva e uma cortina vermelha cobria seus olhos. Não era capaz de entender. Por que um Príncipe herdeiro, criado com as morais conservadoras do anglicanismo, poderia ter se atraído por uma meretriz como ela? A virtude de um membro da realeza, cuja carne era sagrada, deveria ser mantida até o casamento. Foi isso que lhe ensinaram durante a vida toda e eram valores que guardava no coração.
Ela havia aprendido tantas coisas para ser atraente, uma boa noiva católica. Línguas, música e ciências. Sabia falar alemão, francês, inglês e latim, além de conseguir tocar inúmeras composições no violino. Ao contrário de Sebastian, Clarissa prestava atenção nas lições de seus tutores. Sempre quis ser um orgulho para sua família e para a Áustria.
Eu sempre fiz meu dever, pensou, triste.
Quando suas pernas doíam após tantas horas praticando danças, ela engolia o choro e continuava. Quando os espartilhos lhe apertavam as costelas tanto que era incapaz de respirar, Clarissa não reclamava. Quando seu pai lhe disse que deveria se casar com Jonathan Herondale, um homem desconhecido, ela apenas o agradeceu por ter feito uma combinação tão esplêndida.
Ela era uma boa menina. Sempre seria assim. Obediente, bondosa e inteligente apenas quando necessário. Foi o que a criaram para ser.
— O Príncipe irá gostar da senhora, Vossa Alteza — respondeu Alexander. — Tenho certeza.
Clarissa sorriu. Não conseguia decidir se ele estava falando a verdade ou apenas o que achava certo como seu inferior. Era uma realidade normal para ela, já havia se acostumado com os bajuladores e descobrir as verdades entre as palavras de pessoas. Ela era uma princesa, a única Arquiduquesa da Áustria. Não poderia confiar em ninguém.
Ela se afastou da janela, encostando as costas nas almofadas azuis da carruagem. Estava cansada e, apesar de tudo, sabia que não iria poder descansar. Antes de sair da Áustria, Clarissa se converteu para o anglicanismo — uma das exigências do embaixador inglês —, então poderia estar presente na cerimônia de casamento onde iria jurar, em frente à Deus e aos homens, que honraria, amaria e obedeceria seu marido. Ela ainda era católica em seu coração e sempre seria, mas essa era a parte mais esperada pela princesa. Esse era o momento em que, oficialmente, se tornaria a esposa de Jonathan.
Clarissa se virou para o Duque.
— Você tem filhos, vossa graça? — perguntou.
Alexander sorriu. Estava claro que esse era um assunto que lhe agradava.
— Sim, Princesa — respondeu. — Tenho dois filhos. Eugenia e Maxwell.
— Quantos anos têm?
— Eugenia completou dois anos em março e Maxwell tem quatro.
Ela não conseguiu impedir o sorriso de tomar seus lábios. Clarissa amava crianças e, desde que se entendia por gente, sonhava em se tornar mãe. Criar herdeiros com boas morais e virtudes, Príncipes e princesas prontos para governar o mundo. O filho dela iria se sentar no trono inglês um dia, isso era fato, então ela precisava ser boa para transformá-lo em um futuro para a Inglaterra.
Não importava se, por algum motivo, Jonathan não conseguisse gostar de seus filhos. Ela iria amá-los o suficiente para compensar.
A carruagem desacelerou pelas ruas. Estavam chegando. Clarissa olhou pela janela e viu, completamente maravilhada, quando um Palácio de tijolos vermelhos cresceu e apareceu em seu campo de visão. Ele não era grande ou estrondoso como outras residências reais pela Europa, mas a história do lugar a preencheu com um senso de prodígio impossível de ignorar. O Palácio de St James era o mais antigo dos Palácios britânicos; reis e rainhas moraram ali, andaram por seus corredores e viveram suas vidas sagradas. Os ancestrais de Jonathan estiveram ali, no mesmo lugar onde ela estava naquele mesmo momento.
Os nobres a estavam esperando, percebeu, colocados ao redor da entrada. Eles conversavam entre si e esticavam os pescoços para tentar vê-la melhor, todos ansiosos para ter uma primeira ideia da nova princesa de Gales. Clarissa se sentiu tímida e desejou, não pela primeira vez, que Maia estivesse ali. Tudo seria mais fácil com sua grande amiga ao seu lado.
— Bem-vinda à Corte inglesa, Vossa Alteza — disse Alexander.
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Jonathan observou, em silêncio, enquanto uma carruagem azul parava em frente ao castelo e uma garota jovem e ruiva saía do veículo com a ajuda de um homem nobre. Ele não precisou fazer especulações em sua mente para saber quem eles eram ou o que estavam fazendo ali. Clarissa e Alexander. Ela havia chegado. A esposa dele era mais baixa que seu grande amigo e tinha uma expressão inocente no rosto, porém, ao contrário de todas as suas imaginações, ela era uma bonita de uma maneira interessante.
— Deus, por todos os rumores, pensei que ela seria uma anã — comentou seu pai, parado ao seu lado. — O que você acha, filho?
Jonathan deu de ombros.
— Ela é aceitável — respondeu, como se não se importasse, mas, apesar de tudo, sentiu o interesse se concentrar em sua barriga. Clarissa não seria como suas outras conquistas, pensou. Não havia um marido ou pretendente ciumento para despistar, apenas um caminho aberto para seus charmes. Ela era sua, a única coisa no mundo inteiro que seria realmente sua. Se flertasse com ela no meio do corredor, ninguém iria se importar ou julgar.
Pela primeira vez, ele poderia ter uma mulher sem medo.
— Pelo menos, ela será obediente — disse o rei, alheio ao seus pensamentos. — Você deve saber, Jonathan, que eu espero uma consumação verdadeira essa noite. Do seu jeito ou do meu.
Os ombros de Jonathan se tencionaram com as palavras de Stephen e ele congelou em seu lugar, chocado. Conseguia apenas imaginar como seria o jeito de seu pai: guardas segurando a pobre princesa enquanto ele era obrigado a tirar sua virtude. A imagem em sua mente foi o suficiente para ele estremecer.
As palavras de Hodge Starkweather ecoaram em seus ouvidos.
— Na noite de núpcias, — começou Starkweather, olhando ao redor para ver se alguém os ouvia. — se ela não estiver complacente, não será difícil para Vossa Alteza forçar a consumação do casamento.
— Você me entende? — perguntou o pai, encostando no ombro dele. Jonathan reprimiu a vontade de tirar sua mão.
Ele respirou fundo.
— Entendo, pai.
Stephen Herondale sorriu, satisfeito, e se afastou. O lugar em que sua mão estava um segundo antes queimava, a carne e a pele ardendo com o seu toque. Ele voltou a olhar para o lado de fora e viu Clarissa andando pelos nobres, se apresentando para os homens e conversando com as mulheres. Alexander estava posto fielmente ao seu lado. Jonathan arqueou uma sobrancelha e se perguntou o quê seu melhor amigo estava fazendo.
— Está na hora, filho — começou Stephen, sentado em uma poltrona. Ele estava se cansando mais rápido nos últimos dias. — Vá antes de mim. Preciso responder uma carta antes de descer para a sala do trono.
O Príncipe se virou para o pai quando as tosses começaram. O Rei estava mais pálido que o costume e sua saúde parecia frágil, quase como se uma rajada de vento pudesse lhe dar uma gripe fatal. Apesar de todas as diferenças entre eles, Jonathan não queria a morte do progenitor, mesmo se significasse sua ascensão como rei. Em seu coração, ainda havia um resquício de afeição pelo homem que lhe deu a vida. Ele ainda não estava pronto, afinal. Não estava pronto para ser rei, para ser o chefe de sua Casa.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, sabendo muito bem que o pai não iria gostar se ele questionadas sobre sua saúde.
— Um cientista das colônias gostaria de visitar a Corte — explicou quando as tosses se acalmaram. — Vou permitir, mas não é nada importante. — Stephen ergueu o rosto, tão parecido com o de Jonathan, e o encarou com determinação. — Vá, garoto. Sua esposa o espera.
Era uma dispensa. Ele precisava sair, mesmo se não quisesse.
Jonathan fez uma reverência e saiu do escritório do pai, andando pelos corredores com uma cabeça pesada. Toda a espera nos últimos meses, toda a ansiedade em seu peito havia acabado naquele momento. Clarissa estava ali, no Palácio de St James, e ele não podia fazer nada para mudar isso. Sua vida inteira seria determinada naquele momento. Ele tinha uma esposa agora para proteger, não estava mais sozinho na Corte.
Clarissa era inocente e jovem. Todos sabiam que passou a vida inteira debaixo das asas do pai, sem conhecer a escuridão do mundo. Por algum motivo, Jonathan queria preservar essa inocência.
Ele virou em um corredor, a cabeça cheia de planos e pensamentos para os próximos meses, e não viu a dama em seu caminho até que fosse tarde demais. Eles se esbarraram de maneira estrondosa e a garota, que era menor do que ele, caiu no chão, as saias azuis se acumulando ao seu redor.
— Desculpe-me, milady — começou Jonathan, estendendo seu braço para ajudá-la a se levantar. A dama ergueu o rosto e isso fez ele parar no meio do movimento, chocado demais para continuar.
Ela era linda, com uma pele de porcelana e olhos negros expressivos. O cabelo negro estava preso em um elaborado coque alto, mas ele desejou que estivesse solto apesar de não ser apropriado socialmente, apenas para ver as mechas caindo como tinta por seu tronco. Era possível ver as curvas de seu corpo, levemente acentuadas pelo espartilho do vestido azul que usava, e a boca de Jonathan secou. Tudo nela era perfeitamente construído para atrair como uma sereia ou as bruxas de histórias de terror e ele estava andando direto para sua armadilha. Parecia tímida; no entanto, toda a sua atenção estava voltada para Jonathan, como se ele fosse a coisa mais fascinante que ela já tinha visto. E se o vestido era um pouco decotado, não parecia escandaloso, pois ela se portava como a mais ingênua das mulheres.
— Perdoe-me — ela disse, a voz um pouco mais alta do que um sussurro. — Foi minha culpa, meu senhor. — a dama bateu os olhos, inocente. — Me chamo Isabelle. E o milorde?
Ela não sabia quem ele era? A simples ideia de não se reconhecido pela Corte era tão estranha que Jonathan nem sabia como responder.
— Christopher — disse, depois do que pareceram horas. — Sou Christopher.
Isabelle sorriu e seu rosto inteiro se iluminou. Jonathan mordeu o lábio, maravilhado.
— Já nos conhecemos antes? — perguntou, sem fôlego. — Você me é tão familiar.
Ela franziu o cenho.
— Creio que não, meu senhor — disse. — O milorde terá que me perdoar, mas eu preciso ir. Sou esperada pela condessa de Pembroke.
— Entendo — ele respondeu. Por dentro, Jonathan não queria deixá-la ir. — Você estará no baile de hoje?
— Estarei sim. — ela sorriu por antecipação. — Por quê?
— Guarde uma dança para mim.
A dama assentiu, o sorriso se abrindo ainda mais. Ele permitiu que ela fosse e continuou seu caminho até a sala do trono, sua mente cheia de pensamentos sobre Isabelle.
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