Imperfeitos

25 XXIII — Uma Macumba pra te Matar, Maldito.


A fumaça negra continuava a sair pela boca de Antony. O rapaz não possuía controle algum do seu corpo. Seu robe hospitalar estava completamente molhado de suor.

Quando os amigos tiraram a atenção do celular já era tarde, o bruxo, ainda inconsciente provocara um incêndio no quarto.

Por reflexo, Oliver correra ao banheiro do apartamento onde Antony estivera de observação na tentativa de fazer uma chuva artificial no quarto para apagar todas aquelas chamas, porém, já não era mais necessário. Todo aquele fogo já havia se exaurido.

Toda atenção fora voltada para Jane que desmaiara, sua pele estava pálida e seus lábios roxos. Alice pegou um copo com água e tacara todo aquele líquido gelado no rosto da amiga. No mesmo instante em que Jane se recompôs, Antony dera um grito.

— Deu certo! — O rapaz levantou da cama e correra pra abraçar os amigos. — Deu certo, porra!

Os amigos vibraram juntos.

Oliver colocou Jane na poltrona que outrora estava sendo usada pela mãe de Antony e a interrogara.

— O que foi isso? — Perguntou o rapaz aflito.

— Eu não faço a mínima ideia. — Disse a garota dando de ombros.

— Você está bem?

— Sim, só um pouco cansada. — A garota colocara a mão no ombro direito do rapaz ajoelhado a sua frente.

— Também pudera!

— Acho melhor eu ir pra casa. Vocês se importam?

— Não. — Oliver pegou a amiga pelas mãos e a abraçara.

— Tudo bem. — Matt cruzou os braços e saiu da direção da porta deixando o espaço livre.

— Sinta-se a vontade. — Disse Alice abrindo um sorriso largo.

— Te deixo em casa, Jane. — Julian ofertou a carona a amiga.

A garota caminhou em direção à saída e, assim que passara por Antony ele dera um suspiro e a chamara.

— Jane, posso conversar um segundo a sós com você?

— Ah, claro. — A menina deu de ombros.

Oliver fora até a lanchonete avisar a mãe de Antony que o filho havia acordado. Matt e Alice resolveram ir pra casa e Julian avisara que esperaria no carro que estava estacionado na rua paralela a do hospital.

— Eu adoraria se você não demorasse... É que, tenho coisas melhores pra fazer. Tipo vários nadas. — A garota sorriu.

— Eu só queria dizer que não quero que você se sinta culpada por isso tudo.

— Ah, qual é? É sério isso?

— Você parecia se importar com isso. Com o que você me fez.

— Com o tempo percebi que não é minha culpa. Há uma força muito forte nessa vida chamada Karma.

— Não sabia que você era tão insolente.

— Demorou muito pra perceber. — Jane riu.

— Quer saber? Esquece tudo que eu falei. Eu realmente estava te culpando por ter sido amaldiçoado.

— Que seja. Quem ia morrer mesmo não era eu.

— Não sei como alguém como Oliver e, pior, como Julian, gastam o tempo gostando de você. Imunda.

Ao escutar “imunda”, a menina se irritou. Seu rosto que já havia retomado a cor, agora estava enrubescido e ela lutava internamente contra a vontade de socar a cara do rapaz.

— Não me faça dar outro grito.

— Eu sei que isso é involuntário! Você não pode fazer isso sozinha. — O garoto debochou.

— Ah é? Tenta a sorte.

O rapaz ficou em silêncio enquanto observava Jane seguir o seu caminho.

Como eu posso me importar com outras pessoas sendo que eu não consigo amar a mim mesma? — Sussurrou Jane, aflita.

Alguns dias depois, Oliver finalmente conseguira comunicar com Francisco e marcar um encontro com o rapaz e as outras bruxas de seu conven. Em um bairro um pouco afastado do centro da cidade, alunos da universidade onde Francisco e Julian estudavam organizaram uma festa para atrair novos alunos. Era o local ideal para um encontro.

Já no dia da festa Alice estava prestes a ir para o salão de beleza que sua mãe frequenta quando escutou seu celular tocar. “Droga”, pensou a garota.

“Alô?”

“Alice tudo bem?”

“Sim, quem fala?”

“É a moça do salão. Você se importa se adiarmos os horários que você marcou para daqui uma hora?”

“Ah, não, por mim tudo bem. Vou avisar meus amigos.”

“Obrigadinha gata! Te vejo mais tarde.”

Aborrecida com a falta de compromisso da profissional, a menina avisara a Oliver e Matt sobre a ligação. Os dois deram de ombros e combinaram de ir tomar algo para esperar o tempo passar.

Ao mesmo tempo em que os amigos estavam felizes pela festa que iriam ao anoitecer, estavam com o coração apertado. Era a última festa que iriam antes do vestibular.

Com os últimos acontecimentos, os amigos não tiveram tempo pra conversar sobre o que iria acontecer depois do fim do ensino médio. Matt estava decido a ir cursar Artes Plásticas, segundo a sua mãe, isso não era uma profissão. O rapaz estava chateado por não ter apoio de sua família, mas este é seu futuro e sua felicidade depende exclusivamente dele. Antony não tem certeza se quer fazer Educação Física ou Relações Públicas. De toda forma, ninguém acredita que ele será capaz de passar em uma boa universidade. O mesmo está sempre matando aula com os amigos que Oliver tanto odeia e parece não se importar com os estudos. Já Oliver, como sempre, indeciso. Ao mesmo tempo em que queria fazer linguísticas e ser um camaleão linguístico, ele tinha o desejo de fazer Engenharia de Minas. Apesar de gostar muito da área, ele não sabia se era aquilo que ele queria para sua vida. Escolher a profissão aos dezessete anos com certeza está na lista de coisas mais difíceis de fazer na vida.

O tempo passou e os amigos tomaram o caminho do salão onde se arrumariam.

Quando chegaram, foram orientados a esperar na recepção. Alice não entendera o porque da demora, mas antes que pudesse reclamar, foram chamados para lavarem o cabelo e prosseguir com os processos estéticos.

A companhia toucara interrompendo a profissional.

— Só um momento. — A cabelereira fora atender.

Em alguns minutos ela estava de volta acompanhada por duas mulheres trajando uma saía jeans até embaixo do joelho e o cabelo virgem prendido em um coque extremamente volumosos.

— Podem se sentar. — A moça indicou duas cadeiras vazias ao lado de Alice. — Meus amores, como elas só vão lavar e escovar o cabelo, vou passar elas na sua frente. Será rapidinho.

— Rapidinho ela escova o cabelo da minha filha. — A moça deu um sorriso amarelado.

— Imagino. — Debochou Matt ao ver o comprimento do cabelo da menina.

Enquanto o cabelo de sua filha era escovado, a mais velha senhora naquele ambiente insistia para que tivesse o seu cabelo também escovado. A manicure do salão percebendo o enrolamento de sua patroa, se ofereceu pra escovar o cabelo da senhora.

Demorou mais de uma hora até que Alice e os amigos estivessem prontos para a festa. Quando percebera o quão tarde já a menina não aguentara e com toda parcialidade do mundo notificou a cabelereira de sua insatisfação.

— Olha aqui Elianny, quando eu marcar algo, não me marca encaixada. Prefiro nem vir e deixo pra outro dia. Odeio que me façam esperar. Meus amigos e eu somos comprometidos com nosso horário e com as coisas dos outros e esperamos que no mínimo sejam conosco. — A garota não alterara o tom.

— Nossa, mas foram só uns minutinhos pra eu quebrar o galho da moça.

— Eu entendo você querida, pode quebrar os galhos delas, mas que atendesse meus amigos e eu primeiro. Nós marcamos, você mudou a gente de horário. Minha mãe é cliente da casa e sempre compra produtos em sua mão. Tenha respeito conosco e com o dinheiro de quem investe no seu salão.

Oliver e Matt trocavam mensagens de texto comentando sobre a atitude da amiga.

— Para pedir desculpas vou nem cobrar de vocês hoje. — Elianny ofertou.

— Não! Eu faço questão de pagar. — Oliver tirou a carteira do bolso, tirara algumas notas e jogara sobre o balcão e seguira seu rumo.

Os amigos, ainda rindo da situação que acabara de acontecer foram pra casa de Alice onde se arrumariam, e, juntos de Antony, pegariam uma carona com o pai da moça até a festa.

Já era noite quando os jovens bruxos chegaram à festa.

Os amigos, com exceção de Julian, estavam deslumbrados com aquele ambiente cheio de pessoas e luzes. Estar ao meio de universitários só aumentara a vontade dos amigos de formarem no ensino médio e irem pra universidade.

Era de senso comum de todos os amigos não ingerirem qualquer tipo de bebida alcoólica para que pudessem ter a conversa mais sã e esclarecedora possível com o bruxo guardião.

Não demorou muito para que Benjamim achasse Oliver e seus amigos. Eles se cumprimentaram e seguiram até a área da piscina. Lá encontraram duas moças. Quando elas viram a aproximação de Benjamim, colocaram um sorriso no rosto e levantaram.

— Está é a rainha das transexuais, Cássia. Ela está cursando psicologia e é uma das bruxas escolhidas pelos anjos para trazer harmonia entre os convéns.

Cássia abraçou a todos.

— E essa com cara de marrenta é Clarice. Com o tempo vocês irão perceber que essa menina é um amorzinho e essa cara marrada é apenas estratégia. — Disse Benjamin rindo da cara com que a bruxa o encarava. — Ela começou esse semestre cursar Relações Públicas lá na Universidade da Cidade de Abóboras.

— Sabe o que eu acho engraçado? — Perguntou Alice. — Que bruxas são consideradas hereges e mesmo assim temos contato diretos com os anjos.

— Chupem essa manga, cristãos. — Debochou Matt.

— Ah, é difícil explicar. Quem diria que Deuses e Deusas existem? Que bruxas existem? Esse nosso mundo mágico existe com um único fim: viver em harmonia com a energia da natureza e do universo. A missão de cada bruxo é garantir que isso aconteça, independentemente do auxilo: elementos, anjos, Wonders, elementais...

Depois que fizeram as devidas apresentações. Ambos sentaram em uma mesa de madeira e começaram a discutir sobre tudo que Unknown já havia feito, de como haviam descoberto a sua identidade e relatar as informações que sabiam.

— Apesar de tudo, nós ainda não sabemos porque Tommy está fazendo isso. — Disse Matt.

— Ciúmes, eu aposto. — Clarice revirou os olhos. — Só de me falarem sobre a personalidade de Tommy e de como era o convívio de vocês, certeza que ele tava afim do Oliver.

— Que caía por terra essa maldição. Ninguém merece ter esse pandemônio como admirador secreto. — Alice disse espantada.

— Eu discordo. — Disse Cássia.

— Por quê? — Questionou Antony.

— Ele é muito vilipendiado na escola. Pode estar fazendo isso por vingança... Não sei, talvez querer mais visibilidade... O humano faz coisas terríveis em troca de poder pessoal.

— Olha, se for isso eu posso muito bem doar meus poderes de bom grado. Vivi quase minha vida toda sem poderes, posso voltar a viver sem. — Antony deu de ombros.

— Não diga tamanha besteira, Antony. Já te contei sobre pessoas que perderam os poderes e como suas vidas pararam de fazer sentido.

Houve um silêncio.

Oliver lembrou de algo que precisava ser discutido.

— Olha, de algum tempo pra cá vimos que Tommy não está sozinho nessa. Ele tem um bruxo com afinidade com o ar o ajudando.

— Eu sinto que conheço essa pessoa de algum lugar. — Disse Matt. — Algo me diz que ele está mais perto de nós a que podemos perceber.

— Por sua fé nas pessoas é como construir uma casa na areia. — Disse Oliver especulando quem poderia ser tal pessoa.

Antes que alguém pudesse ter qualquer reação, o vento começara a se agitar. Na grama uma enorme Veve era desenhada por alguém inteiramente vestida de preto com uma máscara de porcelana.

— Não é impossível que essa praga está aqui. — Disse Alice.

Os três guardiões começaram a invocar seus anjos.

O Veve fora desenhado por completo.

Ludibrium animare! — Unknwon conjurara o feitiço para animar e evocar aquele Orixá.

“Não é possível, eu conheço essa voz... esse cheiro” pensou Alice com as penas bambas.

Quando iam reagir, o coven de Oliver recebeu uma mensagem de texto no celular.

“O fim está chegando, não há muito a se fazer. Só um de nós sairá vitorioso e os orixás dizem que não será vocês. Me encontre no velho cais da cidade para resolvermos isso de uma vez por todas — Unknown”

Os amigos leram juntos.

— O que estamos esperando para ir atrás desse punheteiro? — Perguntou Julian.

—Isso! — Gritou Oliver.

O rapaz estendera os braços e a água da piscina começou a ondular cada vez mais.

Com um grito de ódio o rapaz cerrara o pulso e a água saíra da piscina em um jato derrubando Unknown.

— Você não vai escapar! — Berrou Oliver.

O inimigo tirou a máscara, olhara para trás, usara sua afinidade com o ar para ficar invisível e saíra correndo.

— NÃO! Eu não acredito. — Gritou Matt espantado.

Alice cambaleara e se apoiara em Antony para não cair no chão.

Quando Oliver pensara em ir atrás, percebera que o Veve desenhado ali no chão era de Ogum. Um negro extremamente sarado, trajando azul, exalando um forte cheiro de tabaco e com um imenso facão prateado na mão, lutava contra três anjos sem o menor esforço.

— Agora temos certeza que Unknown utiliza do Voodoo para aumentar seus poderes! — Gritou Julian.

— E o que devemos fazer pra Ogum sumir? — Perguntou Jane.

— Como ousa falar meu nome filha de Oyá? — Questionou o Orixá com os olhos ardendo de fogo.

— Deixa isso com a gente! — Gritou Benjamin.

No mesmo instante, o guardião junto de Cássia e Clarice pegaram suas chaves celestiais e conjuraram um feitiço.

Que o divino e o carnal se juntem em um só! — Os três disseram juntos.

Em um piscar de olhos os três anjos sumiram. Eles incorporaram nos guardiões. Cássia agora possuía um par de asas roxos e de seus olhos saíam cargas elétricas do mesmo tom. Clarice além das asas amarelas tinha os olhos emergindo um tom de amarelo intenso. Benjamim por sua vez tinha o maior par de asas dos três. De um tom indescritível de azul claro, os olhos fluoresciam no mesmo tom.

O anjo Benjamim com sua enorme espada acertara o ombro do Orixá o desarmando, Cássia, extremamente ágil, acertara sua lança na cabeça de Ogum fazendo seu capacete feito de búzios sumirem. Antes que Clarisse pudesse o acertar com suas duas adagas, o Orixá sumira deixando um clarão vermelho.

— Vão! O que estão esperando para ir pro Cais? — Disse Cássia.

Os bruxos tomaram o caminho do cais com o coração na mão. Ambos sabiam que o final estava próximo. Só não sabiam se seria um final feliz.