Imperfeitos
20 XVIII — Evidências de um coração perverso.
Eram quase duas da manhã e Jane, ainda um pouco constrangida pela forma que fora encontrada no bosque, tentava passar todas as informações que possuía sobre o ser sobrenatural que ela descobrira há alguns anos ser.
O quarto de Alice estava repleto de olhares aflitos. Certamente, Oliver e Jane não sabiam muito que dizer a Antony depois de que ele descobrira que seu tempo de vida seria daqui pra frente mais indeterminado a que o normal.
O silêncio tomou conta do ambiente.
Pensativo, Oliver teve facilidade para ligar alguns fatos.
— Jane, o Julian sabe sobre você, não é mesmo? — disse o garoto franzindo o cenho com medo da resposta.
— Sim, sabe. Um bruxo do seu antigo Coven foi a primeira pessoa que ouviu meu grito.
— Podemos ligar pra ele, não é mesmo? Com certeza ele sabe...
O garoto foi interrompido.
— Não mesmo — Antony interviu.
— Por que não menino? — Oliver riu sem entender.
— Você está incrivelmente iludido por ele. E se ele não for tão bom assim como você acha?
— Ele é bem mais velho que nós Antony. Ele e seu coven vêm praticando há anos.
— As cosias com Unknown só vem piorando depois que ele mudou pra sua casa.
— Mentira! — Oliver estava cego.
— É verdade Oli, não da pra negar. — disse Alice torcendo pra não receber uma má resposta.
Jane se manteve calada.
A cada instante a Banshee ficava mais pálida.
— Você deveria se livrar desse cara. Tudo bem que ele é seu primo e que você tem uma queda, ou melhor, um abismo por ele, mas quem nos garante que ele não está junto com Tommy nessa? Afinal, os dois tem afinidade com o fogo.
— Ah, pelo nosso coven, Antony. Não acredito que está me fazendo escutar essas coisas. — Oliver pausou afirmando em sua mente que tudo que Antony estava dizendo não passava de coincidências. — E, eu não consigo me livrar dele.
— Claro que consegue. Vocês não estão ligados por um cordão umbilical.
— Mas estou ligado a ele por amor. Eu estou terrivelmente apaixonado pelo meu primo se é isso que você queria ouvir.
— Bobagem. Isso só facilitará as coisas pra Unknown.
Ouve um silêncio.
A respiração de Oliver estava cada vez mais agitada.
— Já ouviu falar que o fogo é extinto pela água?
— É. É o que dizem.
— Mas não é a única verdade, ele também pode ser bem mais traiçoeiro.
— E porque você se importa?
— Você é meu... Amigo — Antony teve dificuldade pra dizer as últimas palavras. — Eu me importo com seu bem.
— Não é o que parece — Oliver sussurrou.
— E com o futuro do nosso Coven. Olha o que ele fez com a gente Oli. Ele nos fez acreditar que aquele ritual iria nos ajudar.
— Ele não sabia da verdade. — Oliver se irritou e aos prantos, não conseguiu medir as palavras. — Ele também fez esse maldito ritual e perdeu quase tudo que tinha. Perdeu dois amigos, viu seu melhor amigo perder seus poderes, viu seu círculo magico ser destruído. Hoje ele é apenas um homem com o coração amargurado. Ele só estava... — O garoto resistiu às lágrimas. — Ele só estava tentando nos mostrar que é possível chover no meio do deserto.
— Só você que não consegue ver!
Em questões de segundo Antony se aproximou do amigo e o sopapeou. Alice gritara tentando impedir, mas já era tarde.
Com o rosto ainda quente por causa do impacto, ele pegara suas coisas e para não acordar os pais da amiga, pulara a janela e saíra correndo em direção a sua casa com o orgulho ferido.
Era manhã. Toda vizinhança estava coberta de neblina.
Oliver passara o resto da madrugada sentado em um canto do quarto encarando o nada.
Seu pensamento estava confuso em relação a Julian que não dormira em sua casa na última noite.
O garoto só notou que sua cabeça estava dolorida quando seu celular emitiu uma melodia irritante, avisando que estava na hora de se arrumar pro colégio. Ele não se incomodou. Uma dor física não era nada perto do vazio que sentia. É como se houvesse um enorme buraco cheio de angústias tivesse surgido em seu peito.
Para evitar encontrar com Antony, o garoto se arrumou o mais rápido possível pra pegar o metrô um horário antes. Enquanto ele virava o café extremamente doce em um copo térmico para tomar no caminho ele percebeu que seria inútil aquilo. Fugir de Antony seria o mesmo que concordar que seu primo estava de braços dados a Unknown.
Por conseguinte, no mesmo horário de sempre Oliver saiu de casa e fora esperar os amigos. Quando encontrara, não dera muito assunto e logo colocou seus fones de ouvido.
Matt e Antony perceberam que o garoto estava irritado, mas não foi por isso que deixaram de conversar. Os dois, mesmos exaustos por terem dormido tarde na última noite estavam com um ótimo humor e riam exacerbadamente.
Oliver que estava com os nervos à flor da pele pela presença de Antony ao seu lado, sentia seu rosto queimar toda vez que o vagão balançava e fazia sua perna e do amigo roçarem.
Assim que o metrô chegou à estação que os garotos desciam, os três saíram em silêncio, afinal, lembraram que teriam que enfrentar um longo dia na escola.
Quando o intervalo começou, Oliver fora até a lanchonete se encontrar com Alice.
Sem muito a que fazer, os dois foram atrás de um lugar para passar o tempo.
O casal de amigos se encontrava sobre a figueira. O ar estava úmido, o vento balançava o cabelo dos dois enquanto raios de sol infiltravam pelos galhos iluminando seus rostos.
Tudo estava perfeito até Michelle e Antony passarem de longe. O rapaz sorria tanto que era impossível não notar. Oliver desviara o olhar, mas não resistiu a olhar novamente. Quando se deu conta, estavam vindo em direção da velha figueira.
— Oi, Alice! — O garoto se abaixou pra abraçar a amiga.
— Oi, Tony. Está bem?
O garoto sorriu na esperança que a amiga entendesse que aquilo era um “Sim”.
Antony, ainda agachado foi cumprimentar Oliver. Assim que acabou de perguntar como o amigo estava, sentiu um vento forte em sua direção.
Alice riu olhando pra Matt que estava há alguns metros de distancia mantendo contato visual em Antony e Oliver.
Outra rajada de vento veio em direção aos garotos derrubando Antony sob Oliver. Uma das pernas do mais velho ficou entre as duas do rapaz que estava em baixo. Seus troncos se encostavam, seus olhares se cruzavam e a respiração entrara em sincronia por conta da vergonha.
Antes de se levantar, Antony ergueu os braços e levou a boca até o ouvido do amigo e sussurrou um pedido de desculpas.
Michelle, que estava parada olhando pra aquela cena com nojo, deu um pequeno “oi” e chamou o namorado para prosseguirem.
Alice estava vermelha por causa daquele clima que Matt havia criado, não obstante, não conseguiu não tocar no assunto.
— Azeitona, você sente falta dele? — A garota torceu pra não ser fuzilada com o olhar do melhor amigo.
Oliver, por conseguinte viu Matt vindo em sua direção com um enorme riso no rosto, franziu o cenho e disparou a falar.
— Preciso dizer que estou com saudade, mas vou continuar no meu canto, como se não houvesse vontade nenhuma de correr para os braços daquele garoto. Talvez não seja orgulho, só não quero me decepcionar mais uma vez com ele.
— Olha Azeitona, eu não acho certo o que ele faz. Pra falar a verdade às vezes eu sinto uma enorme vontade de jogá-lo na parede e falar umas verdades.
— Não adiantaria de nada. Ele gosta dessa vida de estrela.
— Estrela?
— É. É difícil explicar, sabe? As pessoas que ele convive são conhecidas na escola. Isso o faz ficar conhecido também... Não pelo que aconteceu com ele anos atrás, mas sim por quem ele supostamente é. Ser uma estrela resolve os problemas de autoestima que ele enfrenta.
— As estrelas surgem do caos. — Disse a garota com um olhar triste pro nada.
— Sou feito de constelações. — Completou Matt.
Oliver começara a dizer algo sobre o que Matt fizera há alguns minutos, não obstante as freiras começaram a sair da capela com seus sinos avisando que o intervalo terminara.
No final da aula, Alice junto de seu namorado e seu coven esperava seu pai Scott chegar. Na última noite ele oferecera carona aos 3 rapazes já que tinha que buscar a menina para levar ao médico.
Ethan tentou puxar assunto com Oliver sobre a próxima competição de natação, mas o rapaz ainda não estava muito a fim de conversar.
Alice que estava distraída olhando pras formigas no estacionamento da escola, escutara seu celular avisar que havia chegado uma nova mensagem de texto e então os quatro amigos olharam assustados um pros outros. Para a sorte do coven, era Scott avisando que teria de passar em algum posto de gasolina para abastecer, mas que já estava a caminho.
Antony aproveitou que sua carona demoraria mais um pouco e então puxou Oliver para um canto e então antes que pudesse pausar os passos ouviu a voz ríspida do amigo.
— Não sei como fui capaz de...
— De que?
— De te amar. Aliás, sei sim. Eu me apaixonei pelo que eu inventei de você. Ninguém é capaz de se apaixonar pelo que você realmente é.
— Você sabe muito bem porque não daria certo entre nós dois. Até mesmo porque não gosto de Homens.
— Se você está dizendo.
— Bem, eu te chamei aqui pra dizer que você não deveria ficar assim por causa de mim e da Michelle.
— Ah, mas é claro. Até mesmo porque ela é uma santa.
— Ela nunca fez nada contra você.
— Você tem certeza?
— Tenho.
— Ah, esqueci que sou um maníaco com mania de perseguição.
— Não é assim. Só estou dizendo que você está se privando de muitas coisas por causa dos outros. Vai acabar morrendo de tristeza.
— Eu ficaria muito feliz em morrer.
—Você deveria se importar com quem irá deixar. No quanto elas vão sentir.
— Tony, não faz diferença se estou vivo ou morto. Não sei manter amizades e isso me consome. Principalmente aos finais de semana, quando percebo que ninguém me chama, ninguém repara, ninguém se importa. E eu também não me importo com ninguém.
— Não fala assim Azeitona! Você está fora de si.
—Ultimamente ando meio assim, sem mim.
Antes que Antony pudesse criar coragem pra responder o celular dos quatro amigos. Ethan olhou sem entender nada para a cara de espanto dos amigos.
Matt com zelo tirou o celular do bolso e já sabendo quem era o remetente ele leu a mensagem em voz alta.
“Existem duas tragédias na vida. Uma é não conseguir o que o coração deseja. A outra é conseguir. Espero que consigam escutar outros gritos dessa Banshee com cabelo de água de salsicha. — Unknown”.
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