Império Radioativo
4 IV - É difícil lutar de saias
Notas iniciais
Como eu desconfiava, o embrulho que Sarife me enviou eram minhas espadas gêmeas. Curvadas como sabres, elas haviam sido forjadas especialmente para se adequarem à minha velocidade. Com seu formato, a possibilidade de posições que podia utilizá-las dependia apenas de minha criatividade. Não tive, porém, tempo para admirá-las como gostava de fazer. Quando Aris se distraiu, pude escondê-la em minha bagagem, entre os vestidos de viagem. Tinha que concordar com meu antigo instrutor: eu de fato me sentia mais confortável levando-as.
Tive um tempo reduzido para me despedir de todos, já que a caravana de Lorde Hammil estava já encilhada e pronta para partir. Não consegui, porém, ir até o túmulo de Jaene. A covardia disso me remoe por dentro, mas simplesmente não consegui forçar meus pés a irem até o jardim, onde eu sabia que eles a enterraram. Dispensei todo meu tempo para me despedir de meu pai, Ames e da minha antiga tropa. Incapaz de compartilhar a animação de Aris por estar indo ao Império Metral, fomos conduzidas até uma das três carruagens que formavam a caravana. Elas eram puxadas por porcos de batalha, quatro imensos animais na frente de cada carro. Uma das carruagens era a privativa do Embaixador, e a outra levaria os soldados da escolta. Dois Lumineiros seguiriam na frente, montados em seus próprios porcos, para iluminar o caminho nos túneis.
O único modo de conexão que existe entre os reinos e impérios são os túneis subterrâneos. Não tão protegidos quanto as Cúpulas, eles partem de dentro de um reino e descem por quilômetros. Mesmo que fosse possível sobreviver lá, não era agradável – talvez resíduos do ar tóxico da superfície entrassem na terra e deixassem o ar denso e difícil de respirar, além de ser tão quente que eu suava em meu vestido. Os túneis, com quase um quilômetro de largura, eram o lar dos bárbaros que insistentemente tentavam invadir Adveto. A programação de nossa viagem, portanto, foi cuidadosa ao escolher um caminho que evitasse cruzar com os povos mais agressivos. Se tudo desse certo, atravessaríamos apenas o território dos pacíficos Centro-Leste. Ainda assim, era uma viagem de três dias – quanto menos atenção chamássemos para nós, melhor.
Eu estava acostumada a transitar nos túneis durante minhas campanhas contra os bárbaros, mas Aris não compartilhava isso. Nas primeiras horas, ela aguentou firme o calor e o ar pesado, mas não demorou muito para que seu corpo sentisse os efeitos. Com a pressão baixa, ela passou boa parte do primeiro dia deitada na carruagem aos cuidados de um dos soldados. Eu, por outro lado, quis caminhar ao lado dos Lumineiros, fazendo com que a debilitada dama de companhia ralhasse comigo por alguns minutos. Mas eu não podia evitar. Havia um certo fascínio na profissão dos Lumineiros: mesmo que não fossem guerreiros que trouxessem a paz para seu povo, a função de iluminar os túneis com suas tochas era quase simbólica. Lembro-me de ter lido em um livro quando era pequena: “A chama que os Lumineiros carregam pelos túneis é quase religiosa, trazendo a luz nos caminhos dos reinos, iluminando o caminho da paz”. Se eu jamais tivesse sido uma guerreira, talvez escolhesse ser Lumineira.
— Perdida em pensamentos, princesa?
A voz de Lorde Hammil veio de surpresa. Surpreendentemente, para sua idade, ele acompanhava o passo dos porcos de guerra ao meu lado sem dificuldade. Eu provavelmente fiz um julgamento errôneo sobre sua saúde.
— São mudanças demais para aceitar facilmente sem um pensamento aprofundado. – respondi depois de um tempo, após avaliar se as palavras soariam educadas o suficiente. Arriscar ofender um nobre metral era tornar o relacionamento entre nossos reinos mais complicado. Até estar devidamente casada e com a aliança entre os reinos acimentada e indissolúvel, eu deveria cuidar com a língua. Não é necessário evidenciar como isso era complicado para mim. — Mas estou feliz por servir ambos avdetianos e metrais.
O Embaixador me deu um sorriso pretencioso. Em seus olhos, eu conseguia ver que ele não me via como a noiva perfeita que eu deveria ser. No máximo, eu era uma atração exótica que ele levava para seu futuro imperador se divertir.
O fato de não poder lutar contra isso me incomodou tremendamente.
No final do primeiro dia de viagem, dormimos dentro das carruagens. Os soldados revezavam a guarda, cobrindo turnos entre si e fazendo ronda nos perímetros. Havia um sentimento de alívio coletivo que nenhum bárbaro cruzara nosso caminho, mas seria imprudente baixar a guarda. — Não se preocupe, senhora. – me garantiu um dos soldados ao notar minha preocupação. — Um mensageiro foi enviado na frente montando um gato de guerra. Se houvesse qualquer sinal de bárbaros no caminho, ele voltaria para nos alertar. A essa altura, já deve estar em Metral sinalizando nossa chegada. O caminho é seguro.
Ainda assim, não consegui dormir como devia. O malão com os vestidos que usaria na viagem estava sob o banco da carruagem, e nele sabia que minhas espadas descansavam. Nos poucos minutos que adormeci, minha mão ficou pousada sobre o malão, alerta a qualquer som anormal.
No dia seguinte, Aris começara a se recuperar. Depois de muito argumentar, ela conseguiu fazer com que eu trocasse o vestido que usava por outro limpo, assim como me deu um breve banho com os barris de água que trazíamos. O desjejum foi simples, e eu simplesmente não tinha fome. O silêncio do túnel me incomodava, como se algo estivesse errado. Aris me garantia que eram apenas meus instintos de guerreira que teimavam em achar que o inimigo nos roça a nuca, mas percebi que Lorde Hammil também franzia o cenho de tempos em tempos.
A essa altura, já deveríamos ter encontrado os bárbaros do Centro-Leste. Algo estava errado.
Muito errado.
O segundo dia de viagem se aproximava do fim quando aconteceu. Na escuridão do túnel, foi impossível ver a flecha zunindo no ar antes que ela atingisse o Lumineiro esquerdo. Com um grito abafado, ele caiu no chão. O som foi suficiente para que um jorro de adrenalina caísse no meu sangue, o coração acelerando em meu peito. Aguçando os ouvidos, escutei mais flechas cortando o ar até nós. Um rápido olhar para minha dama de companhia fez com que ela entendesse.
“Se esconda.”
Aris não precisou de uma segunda ordem. Escorregando para baixo do banco ao mesmo tempo em que meus ouvidos captavam o som do começo de uma batalha no lado de fora, ela tentou me puxar para junto dela. Certamente recebera ordens de meu pai para manter-me longe de qualquer batalha. — Fique aqui. E quieta! – ordenei, trazendo o malão a vista e revirando-o até que minhas mãos tocassem as empunhaduras das espadas. — Senhora...!
O chamado de Aris foi abafado quando fechei a porta da carruagem, após me esgueirar dela. No momento em que meus pés tocaram o chão, percebi algo que não levara em conta até então: o maldito vestido e seu espartilho. Girei uma das espadas em minha mão e, com um movimento preciso, cortei a saia do vestido na altura dos joelhos. Não havia o que fazer com o espartilho, a não ser que eu me despisse completamente; não havia tempo para isso, porém, já que no momento em que me vi livre do excesso de tecido da saia uma espada fora brandida na minha frente.
Apenas uma das tochas dos Lumineiros continuava acesa, fornecendo uma iluminação precária para uma luta satisfatória. Nossa vantagem encontrava-se no fato de que boa parte dos atacantes possuía pouca experiência em batalhas contra soldados experientes – boa parte deles não passava de rapazolas brandindo espadas grandes demais. Mas seu número em muito superava o nosso.
E meus instintos de Senhora das Armas sabiam que não sairíamos dessa vivos.
Lorde Hammil era protegido por três soldados, um deles disparando flechas contra os inimigos. Tive que admitir que sua pontaria fosse exemplar, principalmente em uma batalha na penumbra – eu mesma errava o alvo por simplesmente não enxergar. E, no calor da luta, algo me incomodava. Dos sete soldados que nos escoltavam, três já haviam sido abatidos e o restante colou as costas comigo, para que protegêssemos nossas retaguardas. Por longos minutos aguentamos essa formação, quase uma dezena de corpos aos nossos pés.
Mas quando senti algo úmido e quente atingindo minhas costas, soube que estava sozinha.
O soldado havia sido transpassado por uma lança longa no peito. Por centímetros a lança não me atingira também antes que eu rolasse no chão. Uma inspeção rápida da luta mostrou que ainda havia no mínimo trinta bárbaros nos atacando – Lorde Hammil perdera dois de seus protetores, e agora balançava desajeitadamente uma espada larga junto com o soldado sobrevivente. Aris ainda estava escondida na carruagem, mas não demoraria muito para que os bárbaros a encontrassem. — Se morro, morro lutando. – rosnei baixo, girando as lâminas em minhas mãos, encontrando nelas a extensão de meus braços. Tive que reduzir minha ofensiva, usando uma das espadas curvas como uma espécie de escudo ao desviar os ataques. Grunhi quando o primeiro corte foi feito em meu braço, e mal senti o segundo. Distraída com três oponentes diante de mim, deixei minhas costas totalmente desprotegidas; não vi o quarto atacante de aproximando por trás a tempo, a espada levantada contra mim. Virei-me no instante que antecedia o impacto, o corpo antecipando a dor...
E tudo que vi foram fagulhas do choque entre metal.
Não estávamos mais sozinhos – ao que me parecia, a chegada de um pequeno regimento de homens nos salvara. Um homem havia me defendido, demonstrando uma mobilidade surpreendente mesmo vestindo uma armadura completa. Não precisou mais do que dois golpes para abater o oponente, finalmente voltando-se por poucos segundos para mim.
Por baixo do elmo, fios louros escapavam sem corte, emoldurando as feições fortes com cicatrizes. A voz, apesar de baixa, sobressaiu-se no meio da batalha.
— Calina Vains, é um prazer.
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