Império Radioativo
1 I - E então o controle me escapa
Notas iniciais
Eu tinha quatro anos quando comecei a treinar nos pátios do castelo. A herdeira do trono, a Senhora de Armas — era esse o meu destino e tudo que eu conhecia. E, honestamente? Eu gostava disso. Nasci para isso, a batalha corre em meu sangue. Não sou dada a diplomacia e etiqueta; delego essas funções a meus irmãos. A minha é proteger o reino e, um dia, governá-lo... Não. Minha função era essa.
E agora eu mal consigo respirar.
Há quanto tempo estão batendo na porta? Não consigo me lembrar. Olho ao redor, vagamente ciente que ainda estou no meus aposentos. Não sei como cheguei aqui — alguém me trouxe? A batida continua, e chamam meu nome. Reconheço a voz e meu coração aperta, um aperto tão dolorido que me pergunto se um dia irá parar. Ferimentos de espada saram, flechas podem ser arrancadas — mas o que fazer com a dor do luto, que parece lentamente afogar? Depois de minutos de consciência, a batida em minha porta torna-se demais para ser ignorada, e me forço a levantar do chão. Não sinto o chão sob meus pés até chegar e virar o trinco, lentamente encarando uma mulher miúda cujo nome me escapa. Eu sabia o nome de quase todos os homens e mulheres de minha tropa, mas nunca imaginei que saber o da dama de companhia de Jaene seria importante. Não era para ser, ao menos não para mim.
— Oh, minha senhora. - murmurou ao ver meu rosto. Eu não chorara desde que vira o corpo caído nos jardins, mas estava ciente de que meu rosto parecia contorcido de dor. "Guerreiros não choram, honram os mortos com a espada" me disse um Mestre de Esgrima, anos atrás. O que fazer quando não há contra quem lutar? — Oh, senhora... — repetiu, aproximando-se de mim com olhos marejados. Em suas mãos, uma bandeja com uma maçã e uma jarra de água. Isso me alarmou. Há quantos dias eu não comia? — Dói tanto, eu sei. Nossa amada Jaene...
Eu não quero compartilhar o luto de outros. Não receio ser tomada por insensível, mas o sofrimento já era grande sozinha. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando me perder em pensamentos. Ultimamente, isso ajudava a aliviar. — Senhora? - chamou a dama de companhia, a voz preocupada. — Senhora, por favor... Deixe-me ajudá-la a se vestir: sua presença é solicitada pelo Rei. Deixe-me... — O soluço não me pegou de surpresa. Pelo pouco que me recordava dela, a mulher era emotiva. — Ajud... P-perdoe-me...
— Pode ir. — Abri os olhos por fim, encarando o vazio por segundos antes de encará-la. — E por favor, não chore. Jaene... Ficaria triste.
Mesmo assentindo, ouvi-a chorando atrás da porta quando saiu.
( —–– )
Adveto, o Reino dos Pacíficos. Margeado por povos em guerra, eramos o último oásis de neutralidade entre o Império Metral e a Grande Nação Bereevo. Não, obviamente, que isso significasse que eu ostentava um título inútil de Senhora das Armas: nossa pacificidade não se estendia aos bárbaros apátridas, que com frequência se esgueiravam por nossas fronteiras. Campanhas eram costumeiramente lideradas por mim, extinguindo as chamas do caos que esses incivilizados traziam ao invadir a Cúpula de nosso reino. Mas essa situação estava para mudar.
Secretamente, negociamos uma aliança com o Império Metral. Ela começou há vinte anos, com o nascimento de minha irmã mais velha: ao invés de ser intitulada Senhora das Armas, como todos os primogênitos, Jaene foi criada como uma Prometida. A aliança viria a se concretizar com o casamento dela com o Senhor das Armas de Metral, o futuro Imperador. Com isso, Adveto se tornaria uma província independente do império, recebendo mais fundos e maior leque comercial — além de tomar partido na guerra entre metrais e bereevianos.
Mas agora a futura Imperatriz Metral estava morta.
— Meu Soberano. — dobrei um joelho e apresentei minhas armas ao Rei. A Sala do Trono, em geral barulhenta e apinhada, encontrava-se imersa em um silêncio mórbido. Senti o olhar de meu pai por alguns segundos em mim, igualmente silencioso. Costumeiramente, sustentávamos os papéis a nós designados: meu pai, o Rei; eu, a comandante de suas tropas. Mas hoje algo havia quebrado o protocolo... O luto.
— Levante-se. Não chamei Calina, a Senhora de Armas, e sim Calina, minha filha. Por favor. — Me doía ouvir sua voz tão quebrada assim. Endireitando-me, percebi imediatamente o quão inapropriado foi atender ao chamado de meu pai vestindo o uniforme das tropas. Não era uma batalha. — A cerimônia foi ontem. Jaena já está com sua mãe, se os deuses permitirem.
Nada respondi. Assentindo de leve, encarando-o com cuidado. Os olhos inchados revelavam o quanto ele chorara, e por um instante senti raiva de Jaena por fazer nosso pai sofrer assim. Mas apenas por um instante.
— Entendo que não quis dizer adeus à sua irmã, e respeito seu luto. Temos, porém... Um dever com este reino.
Novamente assenti. Afinal, servir e proteger os advetianos era a tudo que eu deveria fazer. Ainda calada, aguardei.
— A Aliança com o Império Metral deve ser mantida. É a única forma que temos para nos defender caso Bereevo tente nos invadir.
— Concordo. — falei finalmente, sabendo por mim mesma a verdade em suas palavras. Como responsável, sabia que nosso poder bélico jamais se compararia ao de nosso vizinho. — Ames ainda é jovem, mas deve ser treinado como Prometido. Ainda que a Princesa Metral não seja a herdeira do trono, ainda há a possibilidade de nos beneficiarmos com isso...
— Não. Não Ames. — interrompeu-me, balançando a cabeça. Levei alguns segundos para entender o que ele queria dizer. — Seu irmão continuará em Adveto, mas receberá uma instrução diferente da atual. Em face ao... Suicídio de sua irmã, não posso permitir que alguém tão jovem como ele assuma tal fardo. — É claro que eu entendia isso. A notícia que se espalhava era que Jaena pulara da torre por não aguentar mais a pressão de seu destino. Mas a opção restante não me agradava. — Você sempre foi minha herdeira mais forte, Calina.
Instintivamente, levei as mãos à empunhadura de minhas lâminas gêmeas. Era quase como se temesse que elas fossem arrancadas de mim.
— Você deve se casar com o herdeiro do Império Metral.
Fale com o autor