I.m.o.s

1 Prólogo


O único homem que não estava sentado em seu devido lugar em volta da grande relíquia que era a mesa de madeira lustrada tentava a todo custo conter sua empolgação, manter a expressão neutra, não exagerar nos movimentos, mas o brilho em seus olhos denunciava tudo o que queria esconder.

- O que quer dizer com "pronto", sr. Young? — Pergunta, girando o relógio dourado no pulso, mania que, quem o conhecia, saberia que aflorava-se em momentos de ansiedade.

- Pronto, pronto, sr. Eckhart — Joseph Young responde, com um sorriso orgulhoso brincando em seus lábios finos. Seu Grande Projeto. Aquilo a que dedicara metade de sua vida, assim como as outras sete pessoas ao seu redor — É oficial, o soro já foi testado e está pronto para o uso.

Ofegos de surpresa e excitação percorreram a sala. Todos ali investiram muito suor (e dinheiro) naquele projeto. O tal soro, que estando pronto, poderia evoluir a raça humana a algo nunca visto até então. Um exército que levaria a causa a um outro patamar ...

- Mas em quem vamos aplicar? — É o que diz Alexandra Edit, representante do nomo IMOS latino.

- Eu me ofereço — Prontificou-se Hugg mais que na hora. Era o mais velho e talvez mais ambicioso de todos os representantes da Instituição Mundial de Organização Social, e desejava a cadeira de presidencial de Sebastian Eckhart com mais fervor que o recomendado.

- Sem ofensas, sr. Kaiser, mas o soro funciona em duas etapas, e a primeira deve ser aplicada em uma criança de até no máximo 8 anos, pelas minhas contas — Explica Joseph, com um arrepio ao pensar no homem a sua frente com um poder maior do que o que já obtinha. Questionaria Sebastian sobre mantê-lo no grupo restrito de representantes, como o responsável pela Ásia, se não soubesse que suas rechonchudas contribuições no setor financeiro eram a principal causa de ter conseguido desenvolver o líquido que estava prestes a mudar o mundo. Bom, por enquanto, uma pequena parte do mundo.

- Algum de vocês por acaso tem um filho? — É a sugestão de Finn Noer, o líder da IMOS da Oceania e recém saído da adolescência. Não era fato público, mas a desconfiança geral era de que Sebastian estava sendo muito bem pago pelo pai do garoto por deixá-lo assumir o cargo.

- Não vou sujeitar minha filha a um experimento! — Recusa-se Alexandra, espalmando a superfície da mesa.

- Devo entender que não confia no material de minhas pesquisas, srta. Edit? — Joseph arqueia uma sobrancelha, responsável pela área da América do Norte e cientista oficial da organização, no exato ponto entre o bom humor e a ofensa.

- Não foi o que pretendia dizer — a mulher retrucou, jogando uma mexa do cabelo cor de cobre que insistia em cair sobre seus olhos para trás — Ela é apenas um bebê. Sou uma mãe preocupada, você não entendeu...

- Então está insinuando que não me preocupo com minha filha? — Seu sorriso tornou-se um pouco mais frio.

- Certamente não — Disse entredentes.

- Senhores, não chegaremos a lugar nenhum discutindo entre nós mesmos — Constata Naomi Orth, com um gesto displicente das mãos. Seu sorriso era sempre caloroso, tanto que poderia mantê-la aquecida no lugar onde costumava passar grande parte dos seus dias, se ele já não tivesse deixado de ser uma zona polar há algum tempo: no nomo da Antártida.

- Ela tem razão — concorda Sebastian, finalmente sentando-se em sua cadeira, na cabeceira da mesa — É hora de agir, meus amigos... estão todos desesperados, não será muito difícil. Estão praticamente implorando por uma intervenção no meio das ruas.

- Estão mesmo é correndo, senhor — Oliver Rippel esconde uma risadinha com o pulso pálido — Mais uma reserva europeia ardeu em chamas... e dessa vez, sem intercessão nenhuma. O mundo está se autodestruindo.

Os oito olham, quase que ao mesmo tempo, para a paisagem exibida pela parede de vidro. Poucos prédios estavam em estado útil, como era o caso daquele, em uma cidade inglesa. Na maioria, estavam vazios, sujos e com grandes pedaços faltando. Como quase todas as casas. Pelo ar rarefeito, quente, e cheio de gases tão tóxicos que, as vezes, inflamavam o pouco das árvores que restaram, as pessoas estavam indo embora, atrás de melhorem condições de vida. Coitadas. Mal sabiam elas que não havia um lugar que estivesse muito diferente daquilo.

Elas queria uma solução. Mas, como a maioria dos seres humanos, não queriam ser a solução. Tantos séculos de aviso, campanhas para preservação... e nada. Agora, quando a situação era extrema, queriam alguém que os representasse. Que fizesse o trabalho duro para eles enquanto gastavam um pouco mais da água que já não tinham. E eles, bem... a IMOS propunha tudo o que queriam.

Instruções claras para os habitantes da Terra, com tanta opinião tirada do nada e tão pouca vontade de pensar por si mesmos. Criação de reservas artificialmente controladas pelos cientistas do programa e de novos centros habitacionais. Aquilo estava dando certo. Certo até demais.

A Instituição era como um partido político, só que global, e sem concorrência alguma. Tinham tantas ambições duvidosas, mas ainda eram pintados como heróis. Nãos dominavam o mundo, longe disso. Haviam ainda presidentes, embaixadores, imperadores, monarcas e afins. Mas... por quanto tempo? Quem é que suportaria a pressão de liderar em tempos tão difíceis?

Então, no primeiro balançar, eles estavam ali. Pronto para assumir os cargos. As peles de cordeiro cobrindo tão perfeitamente suas presas que, bem, não espantaria que até eles mesmos se esquecessem de seu objetivo primordial: conquistar, dominar e liderar. Não espantaria, mas estava longe de acontecer.

Com o soro, aguentariam as péssimas condições nos quatro cantos do mundo. Seriam fortes, inteligentes, sedutores... irresistíveis. Grandes predadores para presas fáceis.

Só precisavam de candidatos, o que acabou não sendo um problema tão grande assim.

- Tenho duas crianças — diz Sebastian — Eles serão parte da linha de frente, com certeza — Constata, como se estivesse falando sobre uma viagem prolongada em família, e não sobre modificar os genes dos filhos e transformá-los em uma espécie ainda não existente.

- Minha garota terá o soro aplicado em uma operação completamente segura — Fala Joseph, com um olhar de desafio lançado à Alexandra.

- Espero que comprometam-se com isso. Chegamos longe demais para pararmos agora — A voz de Sebastian Eckhart soa como um rosnado, e como um lembrete a todos os presentes da coisa que o homem podia fazer para alcançar seus objetivos.

- Senhor, se me permite... — a voz sussurrante de Dominic Toeber se faz ouvir pela primeira vez desde o início da tão esperada reunião. O comandante da sede africana só costumava se manifestar em último caso. Geralmente segui observando, com seus grandes olhos castanhos piscando rapidamente, e as mãos de tez azeitonada cruzadas sobre os lábios — Eu tive uma ideia.

- Diga, vamos lá.

- Precisamos de colaboradores — enquanto falava, seus dedos tamborilavam o braço da cadeira, tudo em si exalando tanta calma e serenidade que chegava a incomodar — Faria o povo se sentir importante, contribuindo para a "grande salvação do universo", e teríamos crianças.

- Acha mesmo que entregariam os filhos para qualquer um? — Hugg diz, soando descrente.

- Sr. Young, a suposta segunda dose de seu soro pode ser aplicada em até quanto tempo? — Pergunta Dominic.

- Em até cerca de vinte anos — Garantiu Joseph.

- E quais os efeitos esperados de cada dose em especial?

- Na primeira, a infantil, grande capacidade de aprendizado, memória, condicionamento físico e imunidade elevados, além de um certo charme além do normal — ele riu, orgulhoso de seu trabalho — e a segunda é a mais impactante... além de velocidade e força sobre humanos e expectativa de vida estendida, cada organismo deve reagir de um modo à última modificação.

- Perdão? — Soltou Oliver, enquanto Naomi ria, e murmurava um "essa é nova".

- Como um resumo geral e um tanto chulo... cada criança desenvolverá uma habilidade única e especial.

- Quer dizer que elas terão super poderes? — Pergunta Finn, com os olhos brilhantes.

- Mais ou menos isso — Joseph arqueia uma sobrancelha.

- Então, meu amigo — Dominic abre um sorriso quase imperceptível — Ainda acha que não teremos candidatos?

O gosto de vitória invadiu sua boca quando todos, até mesmo o presidente, se calaram, parecendo ponderar sobre o assunto. Sebastian concorda com um meneio de cabeça, olhando especialmente para Dominic.

Este, com os lábios completamente repuxados, ativa os hologramas à sua frente, com todos os dados necessários e, honestamente, preparados por ele há dias.

- Quando começo a espalhar os anúncios?

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo !
Estarei postando mais em breve :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.