Notas iniciais
a atenção aos detalhes é essencial

Kiera sentia que ainda estava tremendo quando fechou a porta do quarto.

Não é justo, não é justo, não é justo! Ela esticou as mãos, vendo os dedos trêmulos e, quase sem firmeza, apertou o celular.

Sentia-se ligeiramente aborrecida por dentro. Seis anos antes sentiu-se completamente seca ao sair de outra delegacia, depois de dar outro depoimento.

Não sou mais aquela garotinha!, rechaçou-se mentalmente enquanto inspirava para desbloquear o celular e ligar para Taylor. Deveria ter ligado antes, mas tinha preferido depôr ser a presença de qualquer representante jurídico.

Taylor vai me matar quando souber do depoimento, será que Aisha consegue me proteger?

Escritório de Taylor Telfer com quem falo? — a voz no outro lado da chamada lhe tirou dos devaneios.

— Kiera Fakhri, — falou seriamente. — é um assunto urgente.

Quase riu ao ouvir a secretária ofegar assustada. A ligação foi prontamente transferida, Kiera manteve-se em silêncio até ouvir a voz pontuada de sarcasmo e acidez de quem fala verdades amargas.

A pequena leoa rugiu em ajuda! — Taylor saudou com diversão. — Em que posso ajudá-la?

Kiera suspirou timidamente. Havia todo um ritual para falar com Taylor sem ofender sua pessoa ou divindade.

— Pronomes e como chamar você? — questionou respeitosamente.

Ah mas que querida! — Taylor elogiou. — Masculinos, por favor, me chame como preferir.

— Tenho que saber se estou falando com o homem ou com o deus, Taylor. — murmurou contrariada. — Como devo chamar você?

Ah, pode me chamar de Taylor! Você e sempre tããããão formal, o que aconteceu para que me ligasse?

Kiera engoliu em seco e contou que depôs. Contou tudo que tinha dito, as pessoas que tinha mencionado, os locais onde estivera, contou de Chase e a última vez que esteve com Amelie antes da morte dela. Taylor ouviu tudo calado, e quando terminou de contar, ouviu um longo exalar antes de ouvir a voz de Taylor novamente.

Chase não te machucou?

A pergunta a desarmou por um momento. Kiera estava acostumada a lidar com mediações, a encontrar o melhor para os conflitos, mesmo que isso a consumisse no processo.

Taylor saberia se mentisse, e não havia motivos para criar uma mentira, não quando estava falando com a pessoa responsável pelo jurídico do Panteão.

— Não. Sim. Quer dizer, as marcas das mãos dele ficaram nos meus braços, e Evy ainda não sabe o motivo de eu ter vindo pra cá tão depressa.

Ah, então é por isso que ela tem vindo trabalhar tão mal humorada nos últimos dias. — Taylor falou bem humorado. — Yvonne tem batido portas, assustado estudantes que querem tentar uma vaga de estágio no escritório e quase afugentado colegas de turma.

— Isso é mentira. — pontuou.

Não totalmente. — Taylor confirmou. — Ela realmente tem batido portas e sido ríspida com os colegas de curso e clientes do escritório. Não é exatamente fácil lidar com uma Tríplice em estado de constante frustração.

Kiera suspirou triste. Queria um abraço, mesmo que fosse de Taylor.

E afugentando possíveis novos estagiários, Odin que me livre de ter que lidar com Tríplices depois da faculdade. — o avatar reclamou soando cansado. — Ela tá preocupada.

— Imagino que sim.

Taylor inspirou, e Kiera soube que não era mais o advogado. Hora da bronca divina do deus da trapaça.

Se realmente levar essa denúncia pra frente, tome cuidado com Chase. — ouviu. — Digo por experiência própria, Chase não tem muita piedade e Júpiter tem ainda menos… Vou dar uma olhada no andamento da investigação.

— Obrigada por isso. Ainda não sei se quero levar pra frente…

Bom, não posso te forçar a nada, mas seria uma honra falar a verdade por você no tribunal.

Um pequeno sorriso apareceu nos lábios de Kiera.

— Isso vindo de Loki é uma grande honra.

Mortal, qualquer coisa vinda de mim é uma honra. — Loki riu antes de soltar um “ah sim”. E controle seu pequeno réptil cuspidor de fogo ou ele vai acabar dando com a língua nos dentes, e por mais que eu aprecie a obvia relação de carinho de vocês, eu pessoalmente vou cortar a língua e costurar os lábios dele se Chase souber dos outros.

Kiera engoliu em seco, fazendo um lembrete mental para questionar Jordan sobre o que Loki estava falando.

— O farei senhor. — murmurou.

Sempre tão gentil… adoro isso em você sabia? — Loki questionou.

Era como se estivesse cara a cara com o trapaceiro.

Você está mentindo, Loki.

Loki desligou a ligação ainda rindo. Em quatro anos Kiera tinha aprendido que quando Loki ria o mundo de alguém estava prestes a ruir.



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Havia um corpo em seu sofá. Havia um corpo feminino, que Jordan não se lembrava, de estar em seu sofá. A pergunta que estava se fazendo era o que essa pessoa está fazendo no meu sofá?

— Me explique o motivo de estar indo no Clube do Inferno e eu prometo não gritar com você.

Obviamente o corpo era de Kiera. Claramente irritada e impaciente. Nada muito fora do normal. Ela estava sentada do sofá, lendo profissionalmente algo que Jordan imaginava serem partes de livros acadêmicos. Não queria imaginar quantos desses mesmos livros teria que ler quando voltasse a Seul.

— Oi pra você também. — cumprimentou deixando a jaqueta no encosto do sofá. — Como invadiu o apartamento?

— O porteiro me conhece e não é de hoje, você sabe. — explicou. — Só precisei sorrir e mostrar a última foto sua que tirei. Inclusive, o porteiro acha que somos um casal.

— Queria, mas você não dá chance. — respondeu de pronto. — Agora, o motivo de ter invadido o apartamento, quero saber.

Kiera gesticulou para que ele se sentasse, e com uma careta contrariada sentou-se na poltrona de frente para a Tríplice.

— Liguei para Taylor. — ela falou como se contasse uma história, as palavras soavam latinizadas, como se Kiera não conseguisse domar a língua materna. — Ele me aconselhou sobre o que fazer sobre Chase, e me contou sobre certo Dragão que pode ou não dar com a língua nos dentes e por isso pode ou não acabar perdendo a língua por causa disso.

Jordan ergueu as sobrancelhas com sua melhor expressão chocada. Talvez Kiera soubesse que estava fingindo, ele não estava exatamente preocupado com isso. Algo na maneira como Kiera falava soava definitivamente distinto, como uma estrangeira que não conseguia esconder completamente o idioma natal.

— Estou ofendido com essa sugestão. — declarou teatralmente. — Eu não sou o único Dragão que conhece.

— Mas é o único que conheço que sei que entra em lugares que me recuso a entrar. — ela respondeu sardônica.

Touché. — brincou. — Isso fez você vir até aqui?

Ela suspirou, deixando que a cabeça prendesse para trás. Você parece cansada Kie, quando relaxou pela última vez? Queria abraçá-la, sentir que a jovem estava bem e não só observar de longe.

— Exatamente. — ela respondeu prontamente.

— Não é por causa do depoimento?

— Obviamente não por isso. — ela confirmou, jogando o cabelo pra trás dos ombros.

— Eu ainda consigo ver por entre suas mentiras. — a lembrou. — Pode me contar o que for.

Jordan suspirou quando Kiera não lhe respondeu e sentou-se no sofá ao lado dela para então puxá-la pelo ombro para um abraço.

Ele quase suspirou ao sentir que a tensão abandonar os ombros de Kiera, e no segundo seguinte ela se moveu de modo que Jordan pudesse passar os braços por debaixo dos dela.

O cabelo de Kiera ainda tinha cheiro de shampoo de ervas. Era uma informação banal mas o fez sorrir da mesma maneira.

— Eu tô com medo. — ela murmurou. — Loki acha que se eu seguir com a denúncia Chase possa querer se vingar.

— Você sabe que pode se esconder em Seul não sabe? — respondeu com os lábios rente ao cabelo da jovem. — Você pode ficar comigo ou com minha irmã na casa da família. Conheço outros Dragões pelo mundo todo que podem te ajudar.

O som do riso de Kiera reverberou nos ossos de Jordan, aquecendo-o como fazia anos antes.

— Eu virei uma princesa pra precisar da proteção de um dragão e não tô sabendo? — Kiera ironizou.

Jordan esfregou o nariz no cabelo de Kiera, inspirando mais do cheiro do shampoo enquanto ela ainda ria.

— Você é uma leoazinha que conseguiu a proeza de cativar um dragão. — admitiu com sinceridade. — E vou te defender se me pedir.

Você não deveria ficar tão confortável com ela. Kiera ajeitou-se melhor no sofá e dentro do abraço de Jordan por consequência. Ele passou a sentir a respiração da Tríplice no ombro, morna e ritmada.

— Você deveria arrumar uma secretaria Kie. — murmurou zombeteiro. — Pra dividir o trabalho, você precisa relaxar.

Primeiro Kiera riu baixinho. Então ela suspirou. E quando Jordan achou que ela ia responder, Kiera ergueu a cabeça. A expressão era de quem estava prestes a relevar algo grandioso.

Quando Kiera pulou para fora do sofá qualquer resquício da jovem melindrosa tinha desaparecido, dando lugar a ferocidade de um nova nova presa à caçadora.

— A secretária! — ela repetiu incrédula. — É isso! Juno tinha uma! Jordie a gente precisa achar essa mulher

— E como vamos achar uma mulher que nunca vimos na vida…? — questionou quase zombando.

O sorriso maléfico de Kiera enquanto calçava os sapatos era no mínimo suspeito e ainda assim radiante. Ele não evitou acompanhar o sorriso dela. Esperou que ela tivesse recolhido todos seus pertences

— O Ronan, — ela anunciou maleficamente parada na porta. — dãã!

Jordan ergueu as sobrancelhas e recuperou a jaqueta, e um segundo depois lembrou-se de que talvez não fosse voltar tão logo, então foi até o quarto e procurou por uma bolsa carteiro. Encontrou-a e voltou para a sala, onde Kiera esperava ansiosamente agitada.

— Vamos logo…!

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— Você deixou ela vir até aqui, com essa cara de maluca pra me pedir isso? — Ronan questionou indignado. — O que você tem na cabeça Jordan?

— Você fala como eu não estivesse aqui. — Kiera reclamou. — Novidade pra você: ignorar não faz sumir.

O silêncio feito depois da fala de Kiera era denso o suficiente para ser cortado com uma faca. Ronan estava claramente desconfortável com a situação e Kiera claramente gostava daquilo.

Jordan parecia questionar-se mentalmente quanto ao motivo de achar tão divertido ver pessoas desconfortáveis quando próximos à pessoas que ele gostava.

— Prefiro estar com ela do que contra ela. — soltou. — Vai nos ajudar?

Ronan suspirou antes de mover a cabeça de forma negativa.

— Não posso simplesmente pedir para que encontrem uma mulher com base num achismo Kiki.

Não é achismo! Juno tinha uma secretária!

— Você não pode simplesmente pedir que eu te ajude a caçar uma mulher Kiki! — Ronan declarou.

Kiera inspirou, não parecia a mesma jovem melindrosa que tinha dado depoimento horas antes. A postura era de alguém que exigia algo e não aceitaria não ter o que queria.

— Na verdade posso sim, — ela respondeu ácida. — inclusive foi o que eu acabei de fazer.

Ronan expirou, tentando achar uma maneira de fazer a Tríplice entender que não podia ajudá-la naquela ideia insana, não sem pôr a perder seu emprego e provavelmente ter seu objetivo de vida estraçalhado.

— Kiki, — ele chamou, soando quase um choramingo. — eu não posso te ajudar. Não nisso. Não sem pôr em risco anos dedicados a chegar aqui.

Ronan viu o exata reação de suas palavras em Jordan. Ele parecia ter levado um soco, a sequência de expressões que ia da surpresa para o choque e então a raiva e por último a resolução de quem já tinha absorvido o impacto.

Kiera parecia que ainda estava na fase entre a raiva e o choque. E sinceramente parecia estar se segurando para não socá-lo.

— Quando você bateu na minha porta estava pedindo desculpas por não estar onde precisava. — a tríplice acidamente murmurou entredentes. — Agora, você está onde precisa e pode ajudar, mas não quer. Isso é tão típico… se qualquer outra pessoa parecida comigo ou Jordan estivesse no seu lugar, essa conversa não estaria acontecendo.

Foi como se algo tivesse ligado na mente de Ronan. Ele sempre odiou ser comparado com qualquer pessoa.

— Pois então peça ajuda a qualquer outra pessoa.

Ronan preferia enfrentar uma tempestade à enfrentar o silêncio e olhares questionadores seguiram-se a partida de Jordan e Kiera.

Notas finais
Sério, atenção nos detalhes